Mostrando entradas con la etiqueta A TABERNA DE AVELINO CAMEJO. Mostrar todas las entradas
Mostrando entradas con la etiqueta A TABERNA DE AVELINO CAMEJO. Mostrar todas las entradas

miércoles, 18 de agosto de 2021

UM CHEIRINHO / Capítulo 48 de "A TABERNA DE AVELINO CAMEJO", muito em breve nas casas de leitores e amigos.


48. Água

Foi para o rio talvez procurando a sua corrente, que tudo leva e tudo lava. As mulheres, que como correntes de água se cruzaram na vida de Alfredo Frazão, estavam catalogadas por ele, armazenadas nos cinco oceanos.

Conheceu mulheres frias, belas como os glaciares, escondidas na enormidade da surpresa, revelando apenas as pontas, icebergues que apenas se revelavam superficialmente, com todo um mistério submerso, medo e armadilha nas profundezas, mais escondido na escuridão do que o que mostravam frente à luz. Não prolongava as relações, eram curtas, duravam o suficiente para saber que tinha que sair daí. Nada era produtivo, as sementes não se fixavam, não originavam novas vidas, novas esperanças. Eram apenas momentos, belos e aventureiros, adrenalina de sobrevivência, lindos e raros em fotografias, não conhecidas pelo mundo, artesanato onde nenhuma peça é igual entre si, mas cansativas pela continuidade do colorido. Inseto preso momentaneamente em teia de aranha invisível. Cruéis, punhais gélidos erguidos ao céu, mas que bastava uma ponta de calor, para lhes inverter a direção. Passava Alfredo rapidamente a alvo das suas lâminas de gelo afiado. Pouco confiáveis, sem conseguirem ser porto de abrigo, temia-as e com o tempo, foi-se afastando delas, fechando portas e janelas, regressando ao calor do berço.

Abandonou-as na prateleira do Ártico e do Antártico.

Conheceu também mulheres azuis-escuras e profundas. Enormes, vastas até ao infinito. Céu coberto de milhões de estrelas. Mulheres que se deixavam tocar nos seus limites por outras águas, outros caminhos. Calmas e embaladoras em linhas sem horizontes nem fronteiras. Gigantescas e tranquilas na pose, no seu território com caráter. Albergadoras de ilhas, milhares, como filhos amados. Braços e dedos abertos na vastidão, mas…há sempre um mas…com limites, que uma vez ultrapassados as tornavam ciclónicas, iradas, devastadoras, ondas de cinquenta metros, rodopiando em todos os sentidos e ventos despertos e cansados de tanta calmia, transformados em remoinhos sem controlo, devoradores de barcos e passaporte para as terras que as comprimiam, levando gentes engolidas na raiva da espuma. Sabia-se que depois dessa fúria, regressava sempre a bonança, como em qualquer temporal e também sabia Alfredo, que essas fúrias eram passageiras. Conheceu bastantes, temperamentais, mas meigas, bofetada e carícia. Às vezes procurava na prateleira, Pacífico, a memória de uma ou outra que gostava de recordar.

Também conheceu mulheres de canela, mais odores que cheiros, mais sabores do que gostos. Mulheres curiosas, ou espelhos da sua curiosidade? Diferentes, mistérios a descobrir debaixo das sedas coloridas, das danças teatrais com cheiros a incenso ou dos pés descalços debaixo do tecido grotesco, mas simples, bordado pelas suas mãos nos seus teares artesanais, que faziam nascer as cores. Nunca soube distinguir uma chamuça de um cabelo comprido, um pescoço altivo de um cheiro a sândalo. Mesmo quando os rostos lhe estavam vedados por telas que lhe impediam de sentir o respirar, descobria nos olhos, batiam como um coração e levavam-no, a adivinhar o que escondiam e a aumentar o prazer, depois da queda do pano, neste caso da abertura, como num teatro, recheado de mistério e aguçado pela descoberta. Nunca se atreveu a trazer nenhuma, a não ser uma vez uma macaense, uma mistura diasporiana, que rapidamente se deu conta que estava matando dia a dia, como papoila arrancada da terra no Alentejo. Deixou-a ir, soltou-a. Tudo menos vê-la a definhar-se-lhe nos braços. As mulheres que conheceu nessas paragens, só podiam ser saboreadas lá, nunca trazidas para mundos desconhecidos. Guardava-as todas numa prateleira a que chamava, Indico.

Restavam as Atlânticas, as que mais e melhor conheceu. Deram-lhe filhos continuadores de vidas. Caravelas. Caminhos. Saltos de Oceano em Oceano. Mestiçagem.

A mulher que guardava na prateleira Atlântico era um caldo de destinos, história e culturas. E não me venham falar desenquadradamente da escravatura. Sim, fora de contexto, de ignorância temporal. Escravos aqueles que trabalham hoje por pouco ou nenhum benefício. As que continuam a ser vítimas de violência de género e todos os que apesar do conhecimento dos dias de hoje, fecham os olhos às desigualdades, neste mundo hoje globalizado onde tudo se sabe, mas nada se faz. Mas as nossas origens, a nossa história é a das descobertas, a dos passos em frente, a da curiosidade, mesmo que forçada, no atrevimento de conhecer, de experimentar, de destapar, de perceber o que estava no outro lado da cortina do conhecimento, num mapa plano que acabava no Cabo Finisterra, na Galiza. Era nacionalista Alfredo Frazão e orgulhoso da sua terra. O Atlântico, como as mulheres que guardava aí, nessa prateleira de catálogo, era caminho e mudavam de cor e ritmos, entre a Europa, a África ou o Brasil. Caminho e mistura de abraços de outros oceanos, outras gentes.

Mas caramba, Fernanda não podia ser catalogada. Tinha o pior de cada oceano. Amanhã, quando falasse com Avelino, era forçoso tomar decisões. Iria contar-lhe tudo e pedir-lhe ajuda, que mais não fosse, um ombro.

Vinham-lhe à cabeça as piores imagens da sua vida e amaldiçoava a hora em que dissera a Sebastião que a filha podia ficar na sua casa. Deveria ter empregado um “poderia”, condicional a que tivesse acrescentado um “se”. Agora era tarde, não passava de um pobre velho nas mãos de uma vivente de experiências para ele desconhecidas.

(...) 

In "A Taberna de Avelino Camejo"

No prelo.

jueves, 4 de marzo de 2021

A CAPA DO MEU PRÓXIMO LIVRO, "A TABERNA DE AVELINO CAMEJO", É DECISIVA.

 


O contador de visualizações da Página Aragonez Marques, 7647 visualizações, até este momento, levou-me a tomar esta decisão. 

As visualizações a que só têm acesso os gestores da página, são um sólido processo de sondagem.

Reúne numa só informação todos os contactos de todas as partilhas que são e foram feitas, não só de Portugal mas de todas as partes (Países) onde apareceu publicado.

Um obrigado aos meus leitores e amigos, esperando que o conteúdo seja também do seu agrado.

Nestes tempos difíceis, tudo vai mais lento, a Filigrana Editora, onde edito os meus livros, anda mais devagar, tendo assim, três livros à frente do meu "A TABERNA DE AVELINO CAMEJO".

Boas Leituras

Aragonez Marques

sábado, 12 de diciembre de 2020

A TABERNA DE AVELINO CAMEJO - PRÓXIMO LIVRO - FEVEREIRO - CAP. 30 - OFERTA DE LEITURA


30. Barba e cabelo

- Já vi que com o Senhor Professor, o prometido é devido. Então não trouxe o menino?

- Esse, é a mãe que gosta de lhe cortar o cabelo.

- Ora muito bem, vamos lá então a isso. Pode pendurar o casaquinho, sentar-se nesta cadeira que me acompanha há cinquenta anos. Vou só vestir a bata, pois o Sr. Professor é hoje o meu primeiro cliente, apesar das horas.

Não se sentava numa cadeira daquelas há muitos anos, quando ia cortar o cabelo com o pai ao primo João Lagem, barbeiro, no Arco de Santo António, de um lado uma padaria que fazia boleimas, em frente uma adega, um pouco mais ao lado da adega, a Polícia e o Governo Civil. O primo metia uma tábua nos braços da cadeira onde o pai o sentava e depois aquele castigo de estar quieto, enquanto os cabelos lhe caiam para um gigantesco “babete” que lhe cobria o corpo até às pernas nuas que lhe saiam dos calções.

O pai aproveitava para engraxar os sapatos, num engraxador mudo, que falava com grunhidos e gestos e que João Lagem entendia e traduzia aos clientes.

Estar naquela cadeira era estar sentado na infância.

O barbeiro Durão apareceu, bata curta azul clara, abriu como capote de toureiro uma capa branca e fina que abriu com movimento e lhe envolveu o corpo até ao pescoço. Depois com alfinetes de dama, apertou-lha ao pescoço.

- Ora bem, curto, muito curto ou normal?

- Para já normal, mas depois de me ver, logo lhe direi se corta ou não mais.

- Como o Senhor Professor quiser.

Atanásio era por enquanto o único professor em Aldeia da Pena, embora trabalhasse em Vila Alva. Tentou relaxar, descansar e desfrutar frente ao espelho nicado nas pontas e onde se via, com Durão por trás, pelos lados, passando-lhe os dedos pelo cabelo, segurando-os aos molhinhos enquanto os cortava. A medida dos seus dedos grossos, eram a régua de corte do seu corte normal.

Mas se Atanásio esperava relaxar, enganou-se, aquele não era o lugar próprio, pois Durão falava sem parar, de política, de futebol, do Presidente da Câmara, da Presidente da Junta e perguntava como um verdadeiro inquisidor ao cliente:

- Então já chegaram os elevadores?

- Quantos filhos tem?

- O que faz a sua senhora?

- A casa foi cara?

- Teve empréstimo bancário?

- Como é que Matilde o convenceu a vir?

Meu Deus – pensava Rui Atanásio – o homem não se cala, mas começou a sentir algo de verdade, o fazer parte de um grupo onde as ruas não eram as partes de fora das casas, mas os seus quintais, o prolongamento do seu espaço familiar. Começava a fazer parte de uma comunidade.

A barbearia do Sr. Durão estava toda forrada com retratos em molduras iguais, lado a lado. Começou a contá-las, pelo menos as da parede da frente, pois se movia um pouco a cabeça para o lado, logo a mão pesada do Sr. Durão lhe era colocada sobre ela, rodando-a para a frente, pois estava trabalhando e falar não o distraia das suas responsabilidades profissionais, agora o movimento dos clientes, já o prejudicavam. 

Retomava a contagem dos retratos, sem mais nada para fazer, da parede da frente, seis ao alto vezes dez na vertical seriam sessenta, mais cinco sobre o espelho, bem só nessa parede havia sessenta e cinco rostos a preto e branco. Ainda via pelo espelho outros na parede traseira, mas a mão do Sr. Durão não lhe permitia mexer-se muito.

- Quem é esta gente, Sr. Durão? Amigos?

- Clientes mortos, que ando nisto há muitos anos, e quando se vão peço sempre um retrato à família.

O Sr. Durão pegou num espelho pequeno e colocou-o por detrás da sua cabeça:

- Que lhe parece? Está bem atrás?

- Atrás e à frente, Sr. Durão. Não necessita cortar mais.

Borrifou-lhe o cabelo com água e então, com o pente a duas mãos, definiu um risco e separou-o milimetricamente.

- Se quiser, pode lavá-lo. Vi aí uma bacia e um chuveiro.

- Só tenho água fria, o professor depois lava-o em casa.

Baixou sem avisar a alavanca da cadeira e Atanásio ficou praticamente deitado.

- Vamos à barba, mas primeiro deixe-me tirar-lhe os óculos.

Retirou-lhos e colocou-os na prateleira dos utensílios.

Pegou numa baciazinha onde colocou um pó mágico, e com o pincel da barba, agitou-o e disse:

- Bem, vamos começar – e ensaboou-o, de orelha a orelha, quase até aos olhos, a boca também, que com um lencinho, limpou depois.

O Professor gostava de ver a sua cara, mas deitado, nem se atrevia a mexer-se, quando o viu a passar a navalha, pr'a lá, pr'a cá, com força, várias vezes, afiando-a no couro.

- Afia e limpa, aqui não há micróbio que resista, como dizia o outro – e com uma ponta a segurar o aparelho e a outra ponta encostada ao lado do peito, continuou o pr'a lá, pr'a cá, cada vez com mais força e rapidez, daquela navalha que o professor olhava pelo canto do olho a ser afiada, ao mesmo tempo que pensava – valha-me Deus!

- Bem, vamos começar a deixar essa cara como o rabo de um bebé.

Com uma mão, empurrou-lhe a testa e fixou-a sem a deixar mexer, depois com o pescoço esticado e amovível o cliente sentiu-se como uma galinha pronta a ser degolada, ao mesmo tempo que o Mestre Durão lhe começou a raspar o pescoço de baixo para cima, e diga-se de verdade, que com suavidade, talvez do seu esforço de nem se atrever a respirar, fazendo-o só, quando o barbeiro depois de uma passagem lhe aliviava a testa passando a mão pelo sítio raspado, para sentir se havia algo que não fosse a pele, continuando depois, mão novamente na testa e nova passagem de uma forma mecanizada e lenta.

- A goela já está. Agora a sua pele é dura e é melhor deixá-la ensaboada, pouco tempo, olhe, o suficiente para eu tratar da minha diabetes.

O Sr. Durão saiu até à porta do lado da rua, a taberna de Avelino.

Não sei o tempo certo, talvez entre os cinco e os dez minutos, era demasiado, para estar ali preso, deitado numa cadeira cujas molas estavam de acordo com a idade que tinha.

Foi aí que entrou um cliente:

- Não está o mestre Durão?

- Saiu, falou-me de diabetes...

- Ah! Ele tem que comer várias vezes por dia, vou ter com ele ao Avelino – saiu.

Com o tempo a correr, o professor Atanásio começou a ficar preocupado, teria o Sr. Durão algum problema? E ele ali deitado?

Levantou-se, sem tirar a toalha fina, que o enrolava e apressadamente entrou na porta ao lado, ainda com a cara ensaboada.

- Está tudo bem?

- Ó professor, desculpe, tenho que comer a esta hora.

Estava realmente a comer uma maçã com um copo de vinho na frente.

- Já conhece o Ferreira?

- Sim, entrou na loja e perguntou por si, falou-me da diabetes e pensei, pela demora, que poderia haver algum problema.

- Pois a culpa do atraso é dele, pagou mais um copo e tive que descascar outra maçã.

Avelino estava incrédulo.

- Durão, deixaste o primeiro cliente do teu primeiro dia de recomeço a secar? - depois virando-se para o professor com a cara branca de sabão e toalha pendurada - Ó Sr. Professor, desculpe, eu julguei que estivesse sem clientes, não me disse que o senhor estava lá, e nesse estado.

Meio zangado, retirou o copo do balcão.

- Este bebes depois, eu guardo, que vergonha Durão.

Ferreira interferiu:

- Olha, guarda também o meu.

Saíram os três da taberna e voltaram ao trabalho. Novamente a bata bem apertada que um dos alfinetes estava aberto, com o professor de pé. 

Depois subiu a cadeira.

- Faça o favor de se sentar e desculpe.

Atanásio sentou-se e tudo voltou ao princípio, novo sabão, um pouco menos na garganta, e a conversa, que o homem tinha dificuldade em trabalhar calado e agora com a ajuda do Ferreira:

- O professor está aí para as curvas. Olhe, eu não seria capaz de me levantar da cadeira deitado, isto da idade...

- Nem tu nem eu – disse Durão enquanto lhe colocou novamente a mão na testa e começou a raspar da orelha para baixo.

O Ferreira largou a revista com meses, e espreitou a rua:

- Ena pá, grande carapau!

Não resistiu Durão em vir espreitar à porta também, mas veio logo para dentro, virando com a mão na testa a cabeça do professor para o outro lado:

- Não tens vergonha, Ferreira? É a mulher do Júlio do pomar!

O Professor, achou por bem, desmanchar o seu silêncio:

- Sabem que um dos grandes pintores portugueses tem o nome de Júlio Pomar?

- Ó professor – comentou Durão – nós de pinturas sabemos pouco ou nada. Olhe, a Matilde, Presidente da Junta...mandou entregar tintas para reabrir a barbearia e ainda aí estão - apontou com a navalha.

- Pois olha que tu, deverias saber, que todos os dias mexias no pincel, e pelo que vejo recomeçaste novamente a usá-lo.

Entraram na brejeirice quando Durão respondeu:

- Pois tu há muito que não usas o teu.

- Ah, pois não, mas olha que dos três que aqui estamos, só o professor pela idade dá uso ao seu.

- Cala-te Ferreira, o meu pincel é tão usado como este da barba. Nada tem com a idade.

- Cão ladrador pouco mordedor – respondeu o Ferreira.

Durão não quis adiantar conversas:

- Já está, professor, vou levantar a cadeira para se poder ver ao espelho. Toque na cara.

Rui Atanásio tocou a face e estava lisa, tão lisa como nunca a tinha sentido. Olhou-se ao espelho, enquanto Durão lhe dava nova penteadela.

- Quer laca?

- Não, obrigado.

- Mas a cara ainda não terminou. Tem aqui um pontinho que precisa da minha pedra mágica - e passou-lhe com uma pequena pedra no local do pequenito corte - Agora, sim, está pronto. Álcool ou sublimado?

O professor sabia o que era álcool, que sinceramente não queria usar, o sublimado não, pelo que respondeu:

- Sublimado.

Durão meteu nas mãos um líquido e massajou-lhe a cara. Atanásio pensou “porra que arde!”.

- Já está.

Tirou-lhe a bata e já de pé, escovou-lhe o pescoço puxando-lhe pela gola. Depois com outra escova, esta de fato, passou-lhe pelos ombros, para que não levasse dali nenhum cabelo.

- Os óculos Sr. Durão?

- Aqui estão.

- Quando lhe devo?

- O copo que não bebemos e o Avelino guardou. Venha daí.

Colocou na porta um cartão branco dizendo “Fechado” e que do outro lado tinha escrito “Aberto (estou no Avelino)”. Foi este lado o que escolheu para meter virado para a rua.

Na taberna de Avelino, já havia mais gente, e ele, que gostava da forma como estava a ser aceite, deixou seguir em palavras o tempo que foi passando, pelo que novas palavras mais grossas, as da mulher o esperavam certamente em casa.

- Tenho que ir amigos, tenho a patroa à espera.

Pediu a conta fácil de fazer.

- O professor já pagou duas rodadas. Não tem de pagar mais nada.

Ali encomendava-se por “rodadas” e dos que estavam todos iam pagando uma.

Não se lembrava já noutro dia quanto tinha pago, nem quanto tinha bebido, mas sentia-se bem, como se se sentisse parte de uma comunidade familiar.

Lembrou-se no entanto de ter dito ao Sr. Durão:

- Mestre, para a próxima trago o meu “aftershave”.

- Traga as chaves que quiser que até lhas posso guardar aqui, a casa é sua.

Agora, tinha a mulher que o surpreendeu depois da explicação, a verdade.

- Fizeste bem, Rui, pelo menos hoje não falaste de escola.

                                                              (...)

In A TABERNA DE AVELINO CAMEJO

...em fase de trabalho de oficina...

Nota:

 A Publicar em (Fevereiro/Março) por Filigrana Editora.



 




 

viernes, 29 de mayo de 2020

A TABERNA DE AVELINO CAMEJO / CAPÍTULO 16 / OFERTA DE LEITURA





16. Os primos

Avelino Camejo não era muito de cemitérios e por isso, os funerais eram algo que o faziam, sempre que possível, não estar presente.

Foi ao do senhor José, não por ele, mas por Dona Beatriz, tão velhinha que se adivinhava não ir viver muito mais depois daquele desgosto, o que se veio a confirmar dez dias depois, por Preciosa que se encontraria orfã e sozinha no mundo e por Sebastião, com mãe já num lar, pois começava a não conhecer ninguém, a esquecer-se da vida e muitos dias até do filho e foi, porque Matilde, indignada lhe disse claramente:

- Não penses nem vir!

Foi, mas ficou para último à saída da igreja, vendo de longe o sofrimento de quem acompanhava o defunto, acompanhando à distância as lágrimas de Preciosa, mas deixou-se ficar no final do cortejo, feito a pé, desde a igreja até aos ciprestes, naquele último passeio de quem não passearia mais. 

Depois, já lá dentro, num repente que não gostaria de ter tido, acendeu-se aquele neurónio intermitente que às vezes o fazia ter a sensação de conhecer a mulher de Sebastião. 

Estava mais velha, era verdade, as feições mudaram com o tempo, mas naquela fragilidade de menina sofredora, reconheceu-a.

Voltou atrás no tempo. Àquele verão caloroso. O tio morrendo na cama do hospital, a tia Pituca sempre ao seu lado, ares condicionados todos sem trabalhar, suor empapando a morte no terceiro piso do hospital:

- Quero falar com o Picado antes de morrer, vê se o encontras Avelino.

O Senhor Picado, mais conhecido por “Pica-Peixe”, era um grande amigo de José Boavida, anos de paródias, pescarias e conversas. 

Foram fundadores do Clube de Pesca da Cidade cujas estantes estavam recheadas de taças e troféus, poeirentos.

Avelino foi a sua casa:

- O meu tio quer falar consigo.

- Como é que ele está desde esta manhã?

- Piorou, a minha tia chamou o padre para lhe dar a extrema-unção. Tem que vir Senhor Picado, pois a última coisa que quer é falar consigo.

- Vamos no meu carro - e montaram-se no Fiat 850 cinzento do Senhor Picado.

- O pior é parar com tantos espanhóis a comprar atoalhados, cães de loiça, terrinas floridas e relógios de banho de cobre e estilo barroco.

- Fico no carro, se vier a polícia tiro-o.

O Senhor Picado subiu as escadarias de granito do hospital, margeadas de arcadas de mármore, que unidas, faziam um corrimão frio de largura razoável.

Cruzou-se com Pituca na escadaria larga e segura, majestosamente segura:

- Vi-os chegar da janela do quarto, sobe Picado, eu vou ter com o meu sobrinho, vou a casa buscar uma ventoinha. O calor é demais.

Podem ter demorado cerca de uma hora, pois Pituca, já que estava em casa, não resistiu a fazer um chá de camomila com gelo e bebê-lo calmamente desfrutando do sofá da sala.

Falou com Avelino:

- O tio Zé já não sai do hospital, nunca mais ficará sentado nesta sala. Quando eu morrer estás a ver este quadro?

Era uma moldura pequena que envolvia um alfabeto desenhado e bordado a ponto cruz. 

Pituca tirou-o da parede, por trás, forrada a fita-cola estava uma chave.

Avelino ficou surpreso.

- Só tu é que sabes, esta chave é da gaveta de baixo da cómoda do quarto do meu querido João Fernando, onde tu ficaste como filho que o meu coração adoptou. Dentro está um testamento que fiz com o teu tio há alguns anos, pouco depois de mudarmos de cidade.

Avelino ouvia pasmado e com atenção.

- Está dentro de um envelope lacrado e leva-o ao Dr. Sampaio, que sempre foi o advogado da família, ele saberá o que fazer com ele.

- Tia Pituca, mas a tia está viva.

- Graças a Deus e bastantes anos Deus ainda me traga por cá. Digo-te isto pois morrerei na tua casa, para onde quero ir. Um dia que eu me fine (benzeu-se), nesse mesmo dia, quero que venhas aqui e tranques a porta da minha casa. Não deixes entrar ninguém, nem mesmo da família. Ninguém mesmo. Tiras a chave do quadro e levas o testamento. Depois só abres a casa após a sua leitura pois o original ficou com o advogado e cópia no tribunal. Prometes?

- Sim tia, prometo.

- Bem vamos lá buscar a ventoinha que o Picado, sedento como é e sem uma cerveja à mão, deve estar contando os minutos.

Ao chegarem ao hospital o Senhor Picado já estava na rua, esperando, branco como a cal da parede e chapéu na mão, dando passos para a frente e para trás como um soldado de guarda à porta de um quartel.

Pituca:

- Está tudo bem?

- Sim, deixou-se dormir e o calor era muito...

Virou-se depois para Avelino que levava já a ventoinha na mão.

- Depois de montar isso no quarto, baixe, eu fico aqui, preciso de lhe falar.

Quando Avelino, Pituca e a ventoinha chegaram ao quarto, o tio estava deitado de lado, olhos abertos, mas sem conseguir falar, a mulher fez-lhe uma festa, ele agarrou-lhe a mão e colocou-a nas costas.

Pituca começou a coçá-lo o que lhe parece ter trazido mais alívio, fechou os olhos e apenas se sabia que estava vivo porque respirava alto, grunhidos, como os porcos das matanças, já depois da faca espetada, esperando a morte.

Avelino tentou fugir dali, mas dava-lhe pena a tia...

- Vai Avelino, vai ter com o Picado que algo te quer, a tia fica bem e também preciso ficar sozinha com ele, porque o tio não passa de hoje. Fez-lhe uma festa na testa enquanto com a outra mão, lhe coçava as costas menos suadas.

Notava-se a ventilação da ventoinha.

Avelino saiu daí e desceu as escadarias duas a duas, precisava chegar à rua, de se sentar, de fumar um cigarro, de ver gente e carros a passar, de ver vida.

Picado quando o viu, foi direito a ele, estava aflito, com o lenço limpava a testa mas também a espuma dos cantos da boca.

- Entre para o carro Avelino, conduza, nem sei como lhe dizer isto. Arranque a caminho da Aldeia do Cano e quando sair da cidade, pare à beira da estrada pois tenho algo muito importante para lhe contar e tem que me prestar atenção.

Avelino arrancou, mas intrigado perguntou:

- Alguma coisa de grave?

O Senhor Picado respondeu apenas:

- Porque me escolheu a mim para uma coisa destas? Vamos ver se chegamos a tempo.

- Onde?

- Pára o carro quando puderes.

Já na estrada, aproveitou uma entrada para um monte que tinha um portão fechado e uma pequena entrada já fora da estrada e meteu o carro aí. Travou-o. Desligou o motor.

- Conte Senhor Picado, não aguento a curiosidade e o seu aspecto é de que algo de grave se passou. Foi a conversa que teve com o meu tio Zé Boavida?

- Dá-me um cigarro aceso.

- Mas o Senhor Picado não fuma.

- Pois vou fumar. Conheço o teu tio há mais de cinquenta anos e nunca me falou deste assunto, que desconhecia completamente, mas que me meteu numa hora destas dentro dele. Pediu-me que não contasse a ninguém, nem a ti, mas caramba és um homem e eu não me sinto preparado para fazer sozinho o que ele me pediu. Vem comigo por favor e nunca contes à tua família, pois é um segredo que só ele e Pituca sabem e que Pituca nunca o deixou tão pouco pensar nisso, nunca mais, quanto mais falar. Um segredo que preciso que me ajudes e esqueças também. Disse-lhe que sim, para não o deixar morrer com esse remorso de consciência. Bem, Avelino, tens uma prima.

- Tenho várias.

- Sim, mas tens uma do teu tio, filha de uma criada que lá trabalhou em casa.

- O meu tio com uma filha? Da criada? Porque precisa de me contar?

- Porque tens que vir comigo à Aldeia do Cano, procurá-la e dizer-lhe que o pai está a morrer e quer vê-la.

- Não lhe pediu a si? Não lhe contou a si? Que vou eu lá fazer?

- Ajudar-me, não me deixes sozinho, não tens que dizer nada. A mãe chama-se Beatriz, casou e a menina, deve ter agora mais de vinte anos, Quem a perfilhou casando com a mãe, chama-se João. Só temos que perguntar pelo sítio onde vivem, pois compraram uma quinta próximo da Aldeia.

- Tenho mesmo que ir?

- Agradecia-te muito.

Avelino meteu de novo o carro na estrada e chegando à aldeia foi fácil saber onde moravam. Era uma Quinta grande. Pararam longe do portão da entrada, viram gente a trabalhar e uma moçoila, franzina e loira sobre um trator.

 Fizeram sinais. 

Chamaram:

- Ó da casa! Ó da casa! – enquanto levantavam os braços para serem vistos.

A rapariga olhou, apesar da distância e do ruído do motor da máquina e aproximou-se. 

Tinha um chapéu de palha e uns olhos azuis que não deixavam dúvidas quanto ao pai. 

O trator ficou ao lado do muro.

- Precisam de alguma coisa?

Foi o Senhor Picado que falou:

- A menina deve ser filha da Senhora Dona Beatriz...

- Sim, sou eu.

Picado continuou:

_ Trago-lhe uma notícia triste, o seu paizinho, José Boavida, está a morrer no hospital da Cidade e queria vê-la antes de fechar os olhos para sempre.

Empertigou-se, levantou-se do banco, ficou de pé sobre o trator, zangada mesmo, revoltada e a perder as estribeiras. Apontou para o fundo da quinta onde um homenzito cavava:

- Vê aquele homem ali a trabalhar? Esse sim é, e será sempre o meu pai, criou-me e deu-me amor. Diga isso a esse senhor e que morra rápido, que o inferno o espera há muito tempo.

Meteu a primeira no trator e começou a afastar-se, terra abaixo, recomeçando o trabalho como se nada se tivesse passado.

Picado e Avelino ficaram a olhar um para o outro.

- Que fazemos agora?

- Nada. Eu digo-lhe que a não encontrei, não lhe dou um desgosto destes.

Não foi preciso, pois quando chegaram ao hospital, já Pituca se agarrou a eles, ainda o viram, mas já morto.

- Foi melhor assim – pensou Picado.

Aquela cara ficou-lhe escondida na memória, era ela, Preciosa, a mulher de Sebastião era filha do tio José Boavida e só ali, naquele funeral triste, olhando para ela, chorosa mas altiva, recebendo do coveiro a chave da urna, triste pelo suicídio, se deu conta de onde a conhecera.

Quando se despediram no fim do enterro, abraçou-a e beijou-a, mas por dentro sentiu-se envergonhado, quase culpado, pelo que quando abraçou Sebastião teve que dizer-lhe:

- Amigo, logo que te sintas melhor, que tenham feito o vosso luto, temos que falar.

Abraçou-o com força:

- Lamento imenso!

                                                               (...)


in A TABERNA DE AVELINO CAMEJO
A publicar por Filigrana Editora

viernes, 22 de mayo de 2020

A TABERNA DE AVELINO CAMEJO / CAPÍTULO 19.




19. Os sapatos

Não sem um sorriso, sempre que tirava a caixa onde estavam guardados os seus melhores sapatos, azuis escuros, de camurça aveludada, Avelino olhou para eles, tirou-lhes os papelões que lhe mantinham o formato e calçou-os.

Era um dia importante, o baptizado da filha de Sebastião e Preciosa, e onde os padrinhos seriam Ludo e Mabilde, a esposa de Avelino, deixando-o de fora assim como Teo.

Todos concordaram, não podia a criança ter tantos padrinhos e madrinhas e assim estava reposta a amizade entre todos, embora, Preciosa fosse quem mais insistisse nesta solução, no fundo, dos dois amigos do marido, Avelino era o que menos gostava e ia-se transformando pouco a pouco em silêncio entre ambos e num respeito surdo impeditivo de gracejos. 

Afinal Pituca, vivia com o sobrinho e mesmo que se esforçasse, um resistente odiozinho tinha-se instalado nela.

Um dia Avelino disse-lhe:

- Prima...

- Somos de família há tempo insuficiente para me tratares assim. Chamo-me Preciosa, como sempre.

Desde esse dia, Avelino escolhia as palavras e embora risse e partilhasse das brincadeiras, com ela, tentava sempre não se precipitar.

Olhou para os sapatos nos seus pés, no fato claro que a Primavera já chegaria e trancaria o escuro para os festejos do Inverno. Viu-se ao espelho. Faltava a gravata pendurada e o nó do pescoço, mas isso seria Mabilde a fazê-lo, por isso, enquanto ela estava na casa de banho maquilhando-se, bateu à porta e sem abrir disse-lhe:

- Tens que me dar o nó da gravata.

- Já vou amor, estou quase.

Avelino sentou-se na cama, olhou os sapatos e recordou a morte do tio José Boavida.

Foi a tia que o vestiu com a ajuda de uma amiga e ele apenas o ia virando, depois de o terem lavado com uma esponja, lhe terem feito a barba e até, imaginem, lhe terem cortado as unhas dos pés.

- Ajuda aqui.

Avelino colocou-o de lado para lhe vestirem uma camisa, calças perna a perna, meias e gravata azul. Colocaram-lhe os óculos, juntaram-lhe as mãos e conseguiram meter-lhe na boca os dentes postiços. 

Parecia um noivo adormecido. Penteado e limpo, mas quando a tia apareceu com os sapatos achou que estavam velhos e usados.

- Avelino, vai lá acima à Rua do Comércio, à sapataria do Lino e compra um par de sapatos novos para calçarmos ao tio. Diz-lhe que a tia depois faz contas com ele.

Avelino, necessitado de sair daí, aproveitou e foi comprar uns sapatos ao tio morto. 

Tinha estado, durante os dias em que chegou o internamento do Tio Zé, pelas manhãs perdendo-se num gastar de tempo, até chegar a hora das visitas.

Dentro do quarto apenas podia estar a tia e se houve coisa que o atraísse como as séries da MEO, eram as lojas, onde se perdia nas suas montras, enquanto o relógio passava e uma delas era a da sapataria do Lino, onde a família era cliente há muito tempo.

Na montra tinha uns sapatos bonitos, azuis, pareciam camurça e tinham um azul escuro aveludado. 

Olhou para eles vários dias em que subia e descia a Rua do Comércio, abalroada de gente e carros.

Dizia-se nessa altura que a Câmara a queria transformar em via peatonal.

Os sapatos eram tão bonitos que várias vezes esteve para comprá-los, mas tinham que ser muito bons, porque o preço era impeditivo.

Talvez no Natal, com o subsídio de férias...

Foi por isso que quando a tia lhe pediu para comprar os sapatos, custassem o que custassem, o primeiro que fez foi ir à loja do Lino  comprá-los.

Antes do empregado os meter na caixa, tocou-lhes, dobrou-os e sentiu a elasticidade, afagou-os e sentiu a suavidade da pele, eram cosidos, uns sapatos perfeitos.

- A minha tia depois faz contas consigo.

- Dê os nossos sentimentos à sua tia e ela que não se preocupe agora com isso.

Continuou a olhar o espelho e Mabilde saiu da casa de banho, maquilhada, perfeita.

Ainda conseguia estar mais bonita do que nas fotografias espalhadas pela aldeia, de chapéu e óculos escuros, o nome por cima de IVAP, que as eleições estavam à porta.

Sempre acabaram por ter de pagar uma multa pelos acentos agudos, uma ninharia, porque a justiça é barata para a política, limparam as placas identificativas das entradas da Aldeia, da Vila e da estrada de circunvalação.

- Estás tão bonito, Avelino.

- Tu sim, estás bonita, porque não te pintas assim sempre, para mim?

Mabilde riu e começou a vestir-se.

Avelino baixou à cozinha onde já estava a filha pronta para o baptizo.

- Pai, há quanto tempo não te vejo tão bonito, de fato, gravata, sapatos elegantes, a cheirar tão bem...

Avelino fez um café de saco e sentou-se para o beber, mas logo que se sentou, os olhos caíram de novo para os sapatos e começou novamente a recordar.

Lembrou-se de quando chegou com eles à casa da tia.

- São bonitos, foram caros?

- Um pouco – e disse-lhe o preço.

- Bem, o melhor para o tio, e ficam bem com a gravata.

Pituca começou a desapertar os sapatos que já tinha para lhe calçar os novos e foi aí que Avelino soltou:

- Mas esses sapatos estão bons, pensava que estavam piores, é uma pena levar estes, afinal num par de meses já estão piores dos que tem calçados.

A tia Pituca pensou:

- Isso é verdade, mas já estão comprados, parece mal devolvê-los ao Lino.

- A tia não disse que tem roupa do tio que quer deitar fora e se eu a queria?

- E bastante contente fiquei de não te importares de ficar com a sua roupa, ele também era muito teu amigo.

- Tia, também não me importava de ficar com os sapatos, e escusa de passar pela vergonha de devolvê-los.

- Tens razão, é uma pena serem enterrados.

Foi assim que Avelino ganhou um par de sapatos, novos, a estrear.

Mabilde desceu, vinha linda, saltos altos, vestido claro que lhe assentava como uma luva, Avelino impecável no seu fato e a filha, sempre bonita, desta vez com um toque de sombra nos olhos que a mãe autorizou.

Mabilde fez-lhe o nó da gravata e assim saíram os três rumo à igreja da cidade onde estava marcado o baptizo e depois dali para o local do repasto, telefones carregados para as fotografias.

- Está tudo? Não falta nada? Levas as velas e os presentes? A concha de prata para o Padre utilizar e o frasco com água do mar Morto que pediste à Odete quando foi com o pai de excursão? a Israel? que trouxe para baptizares a tua afilhada? E a vela com o lacinho? E os cartões da tipografia para os convidados?

- Levo tudo!

- Ai, por falar em vela eu esqueci a da minha prenda – disse a filha, que levava de presente um livro para as fotografias e uma vela gorda com números até cem, para que em cada ano acendesse, pois segundo lhe disse o vendedor, demorava 24 horas a arder de número para número – vou por ela ao quarto. Espera.

Saíram finalmente de casa, no novo carro que Avelino tinha comprado para não utilizar a carrinha com cheiro a vinho, em família, um Datsun 1600 de cor vermelha.

Mabilde ia ser madrinha de uma bebé baptizada com água de Jerusalém e que anos mais tarde viria a ser enfermeira, pois ainda muito pequena, as suas brincadeiras eram dar injecções às bonecas.

Foram os pais que lhe escolheram o nome, Fernanda, como a avó paterna, que a menina não chegara a conhecer, mas que influenciada pela mãe, amava sem nunca a ter visto. 

Já sobre a tia de Avelino que continuava a viver em casa da madrinha, durante todos esses anos em que se formara como enfermeira, nunca a viu, nem nunca lá foi a casa, custava-lhe, pois apenas conhecia a história que a mãe lhe contara, sempre com cheiro a veneno e mal estar.

A única coisa que Avelino não esperava é que o linguarudo do Sebastião, logo que o viu, atirou-lhe:

- Olha o sovina com os sapatos que sacou ao velho no dia do enterro.

Maldita a hora em que lhes contou essa história uma vez.

Ficou o grupo todo sem entender e a olhar os sapatos bonitos de Avelino.

Não se dando por satisfeito, ainda disse à mulher que estava como todos menos Ludovino, sem perceber nada:

- São os sapatos do teu pai.

Muito séria, quase estragando a festa, Preciosa respondeu:

- O meu pai chamava-se João!

                                                                 (...)

in A TABERNA DE AVELINO CAMEJO
...a ser publicado quando a Covid passar...