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lunes, 1 de julio de 2013

Teria Obelix andado por ali? / New post on largodoscorreios / JORGE DE OLIVEIRA


Junto-me ao Prof Martinó e mando-te um abraço

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Teria Obelix andado por ali?

by largodoscorreios

Ao Jorge de Oliveira
Quanto a Obelix, nada está provado, mas existe a certeza -absoluta- da presença de Oliveirix, e por diversas vezes. Não se lhe conhecem os eventuais laços de relação familiar, mas este é igualmente forte, embora menos rotundo que o outro, julgando-se que também apreciará javali no espeto e tendo ambos -seguramente- uma incontornável atracção por menires.
Jorge de Oliveira é professor na Universidade de Évora e a sua especialidade é aquele período em que os homens viviam em torno ou dentro das pedras, quando estas eram deuses e templos, refúgio e lar, armas e ferramentas.
historia jorgedeoliveiraO Jorge não caiu em pequeno num caldeirão de poção mágica, como Obelix, mas é igualmente dotado de uma força imensa que se chama amizade, sendo permanente a sua disponibilidade ao serviço dos outros. Quando há uns tempos precisei de dispor de uma colectânea das cartas trocadas entre o Juiz Miguel Carlos, meu avô "brasileiro", e o seu amigo Frei Manuel do Cenáculo, arcebispo de Évora, foi ao Jorge que pedi esse favor. Tive o conjunto das digitalizações da correspondência original disponível na volta do correio...

Mas não foi este o único serviço que ele me prestou. Quando as nossas vidas sehistoria menir1cruzaram, quer nos domínios do Parque Natural da Serra de São Mamede, quer no âmbito da Região de Turismo do Norte Alentejano, foi ele que me desvendou, por todos aqueles vastos territórios, de Nisa a Arronches, de Alter à raia de Espanha, os ignotos segredos das pedras que ele conhecia como ninguém, nas antas, nos menires, nas grutas, nas pinturas rupestres, nas peças e artefactos duma pré-História que ele domina a palmo. Os textos, imagens e publicações que a tal propósito produziu constituem um inestimável acervo cultural e científico, para nosso proveito.
Quero hoje citar -apenas- o Menir da Meada (Castelo de Vide) e por diversas historia menir2razões. Em primeiro lugar, porque este acaba de receber uma justa consagração, ao ser classificado como Monumento Nacional (Decreto 16/2013, de 24 de Junho), num conjunto que abrangeu a Ponte da Arrábida (Porto), o Castelo de Penamacor, o Cromeleque de Vale de Maria do Meio (Évora), o Santuária de São João de Arga (Caminha) e o Abrigo do Lagar Velho (Leiria).
Depois, e sobretudo, porque a distinção concedida ao Menir da Meada é, ao mesmo tempo, a consagração do arqueólogo Jorge de Oliveira. Ninguém, como ele, merece tal associação. Descoberto em 1965, na Tapada do Cilindro, constitui uma peça erguida no intervalo de tempo correspondente aos períodos Neolítico e Calcolítico, dispondo de uma forma fálica relacionada com rituais de fertilidade da época. É o maior de toda a Península Ibérica, com os seus 7 metros de altura e 1,5 de diâmetro, pesando cerca de 15 toneladas aquele trabalhado bloco de granito da região.
Quando o Jorge pela primeira vez mo mostrou, após um necessário corta-mato, o menir estava fragmentado, revelando-se a base, que aflorava do solo mais ou menos um metro, ligeiramente inclinada. A outra parte, de grandes dimensões, estava tombada por terra, apontando o Poente. Notava-se que ambas as zonas de fractura estavam alteradas, algo desgastadas pelo tempo e por certo vandalismo à mistura. Algumas décadas assim permaneceu, até Jorge de Oliveira conseguir idealizar e obter apoio suficiente para realizar uma obra tecnicamente complexa, a de recuperar o menir devolvendo-lhe a sua original grandeza, em postura e dimensão.
historia menhirmeadaConseguiu-o há precisamente vinte anos, em 1993, pelo que o estatuto agora reconhecido ao monumento neolítico lhe deve uma substancial parcela de mérito e de cumplicidade. O saber e a persistência de Jorge de Oliveira transformaram um destroço numa verdadeira obra de arte. O texto que ele colocou numa bela separata da revista Ibn Maruán n.º 5 (Câmara Municipal de Marvão/Edições Colibri, 1995), sobre o trabalho de recuperação do Menir da Meada e o seu enquadramento histórico e geográfico na bacia do Rio Sever, leio-o como um documento apaixonado, simultaneamente científico e confessional, objectivo e intimista, sobre a gesta que foi a primitiva implantação e, milénios após, a reimplantação (apetecia-me escrever: ressurreição!) de um das mais importantes marcos da presença humana naqueles sítios.
historia menir 1
historia menir 2
historia menir 3
Aqui fica um pouco da memória desses tempos e desses acontecimentos, com um justo e fraterno abraço de admiração e de parabéns para o amigo Jorge de Oliveira.

António Martinó de Azevedo Coutinho

lunes, 11 de marzo de 2013

SETENTA E SEIS ANOS DA REVISTA PRESENÇA


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Presença

by largodoscorreios
pre 02Cumprem-se hoje setenta e seis anos sobre o lançamento, em Coimbra, do primeiro número da revista Presença, folha de arte e crítica.
Nesse distante dia 10 de Março de 1927, três intelectuais concretizaram assim um desígnio comum, o de disponibilizarem um suporte para albergar aquilo que consideravam uma literatura viva, livre, oposta ao academismo rotineiro que então imperava, substituindo-o pelo exercício da crítica e pela supremacia do individual sobre o colectivo, do criativo sobre o clássico, do intituitivo sobre o racional.
A revista tornou-se uma entusiástica defensora daquilo a que se viria a chamar o Segundo Modernismo, tendo ficado o Primeiro a cargo da extinta revista Orpheu. Aliás, alguns destes pioneiros juntar-se-iam aos homens da Presença.
Estes foram, no início, João Gaspar Simões, Branquinho da Fonseca e José Régio. Ainda estudante universitário -tinha então 25 anos- Régio depressa se tornaria o mais influente membro da equipa responsável pela Presença. Com algumas alterações na sua direcção e nos quadros de colaboradores regulares, a revista duraria até 1940, tendo publicado 54 números.
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Para além dos intelectuais já citados, muitas outras personalidades deixariam valiosa participação literária ou artística nas páginas daPresença. Entre estas, devem ser citadas Adolfo Casais Monteiro, Miguel Torga, Aquilino Ribeiro, Edmundo de Bettencourt, Carlos Queiroz, Guilherme de Castilho, José Bacelar, José Marinho, Delfim Santos, Saul Dias (irmão de Régio), Fausto José, Francisco Bugalho, Alberto de Serpa, Luís de Montalvor, Mário Saa, Raúl Leal, António Botto...
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A publicação, ao contrário de outros títulos da época, conseguiu manter sempre uma notável independência ideológica, acolhendo as mais diversas tendências desde que respeitassem os valores da arte e da literatura. Por isso, despertou algumas polémicas, sobretudo motivadas pelos defensores do neo-realismo.
 David Mourão-Ferreira, notável figura de pedagogo e intelectual, ao tempo secretário de Estado da Cultura, organizou em 1977 um interessante conjunto de iniciativas centradas em Portalegre e no Norte Alentejano, a propósito do cinquentenário da Presença. A motivação era óbvia, pois a região detinha -e detém- a memória dapresença, ali, de alguns dos mais significativos presencistas: José Régio (Portalegre),  Francisco Bugalho (Castelo de Vide), Branquinho da Fonseca (Marvão) e Mário Saa (Ervedal, Avis). A este propósito, relembra-se a recente publicação da obra Casas de Escritores no Alentejo, de Secundino Cunha, uma obra de invulgar qualidade que abarca os cenários de vida de quase todos estes intelectuais e criadores.
pre 01
Presença continua a fazer jus aos seus propósitos de defesa da literatura viva. Ela própria é, e sempre será, uma presença bem desperta. E apta a despertar-nos.
 António Martinó de Azevedo Coutinho

Com a devida vénia ao
 Blogue Largo dos Correios e
ao querido Professor Martinó
 por este tesourinho que comparto.

martes, 30 de octubre de 2012

PROFESSOR MARTINÓ ESCREVE SOBRE RETRATOS DE GENTE EM PROCISSÃO

(Roubado com a devida vénia do Blogue abaixo)


Retratos de Gente em Procissão

RETRATOS DE GENTE EM PROCISSÃO

(E FORA DELA)

                                                         30

Tinha estado na noite anterior, no bar do Chapeli, junto da fonte das três bicas. Aí matei saudades da malta que ia entrando e que não via há anos, a começar pelo Chapeli, excelente guarda redes que chegou à cidade apenas com um defeito, o vir defender a baliza do Desportivo (estou a brincar), embora e de verdade verdadinha, a mim, toda a belíssima actividade extra-escolar promovida pelo Professor Martinó, chefe local da banda desenhada, com os alunos da preparatória, como se chamava nesse tempo, rompendo os muros da escola e invadindo as ruas, praças e avenidas, com cartazes a favor da ética e verdade desportiva, do convívio e da paz no desporto, antecedendo e prevenindo a guerra entre os grandes clubes rivais, em especial o desafio do próximo domingo, onde o Estrela subiria à primeira divisão se ganhasse, e o adversário, o Desportivo, tudo faria para que tal não acontecesse, como não aconteceu, o Desportivo ganhou e o Estrela ficou, não me convenceu, e se contribuiu para o civilizar das minhas atitudes futebolísticas, ou perante o futebol de bairro, nunca mexeu, nem um milímetro, a minha paixão clubística herdada da família e fortemente mantida pelo meu primo João Lagem, barbeiro do Arco de Santo António, que me levava pela mão ao futebol, todos os domingos, lenço atado com quatro nós na cabeça como chapéu, e rádio pequeno ao ombro, ouvindo os relatos dos jogos da capital, que isso do futebol, em todo o País, era no mesmo dia e à mesma hora.(…)
Este denso, vivo e fascinante parágrafo inicial do capítulo 30 (já pelos finais do livro) quase me fez desistir de escrever e divulgar o presente texto. Não estou habituado a ser assim tratado, com uma avaliação tão generosamente crítica, pelo que um certo íntimo pudor quase travou o meu impulso. Mas o Rui Aragonez Marques citou duas facetas importantes da minha vida, a permanente paixão pessoal pela BD e a intervenção profissional que sempre procurei colocar ao serviço dos alunos e da comunidade. Aquela Operação Futebol, desencadeada a 8 de Maio de 1977 -tinha ele 20 anos e também foi tocado- significou um dos momentos pedagógicos mais conseguidos no seio daquela fabulosa equipa que era então constituída pelos colegas e alunos da Escola Preparatória Cristóvão Falcão. E esta solidariedade não podia passar em claro. Mas não produziu, de todo, uma troca de piropos.Lembro-me do Rui. Os anos de quase uma geração que nos separam não anularam a proximidade geográfica que nos ligou, pois a Rua do Pirão e a da Mouraria desaguam no mesmo centro nevrálgico, o Largo dos Combatentes. Só que ele era um gaiato ou um rapaz, quando eu era já homem.Mas a cidade mais a gente em procissão ou fora dela são as mesmas. A única diferença é que eu teimei em permanecer e ele preferiu o exílio. Creio que foi dele a mais correcta e lúcida decisão. Depois, e isso reflecte-se claramente no seu livro, ganhou a bênção dos desertores, que magistralmente o (também exilado) João Miguel Tavares explanou no prefácio que escreveu para as minhas Crónicas Lagóias. Ou seja, o Rui puxou a pele a memórias engelhadas, retocou velhas tristezas, deu vida a experiências medíocres, amou à distância uma cidade quando o difícil é amá-la nela permanecendo. Resumindo o João Miguel Tavares, direi que o Rui deixou de aturar os defeitos de Portalegre, mas mesmo assim foi capaz de se manter simultaneamente nostálgico e lúcido. Por isso aquelas pessoas de carne e osso estão vivas, na procissão ou fora dela, assim como as suas ruas permanecem habitadas e frenéticas após a passagem do ritual cortejo, mesmo quando pelo autor, deliberadamente ou por mero engano, lhes são trocados os nomes. Mas não as identidades.Enquanto o historiador rebusca as cinzas já frias, habita as mesas anatómicas dos necrotérios e se preocupa com dados estatísticos, perseguindo o mais absoluto rigor, o cronista, quando se atreve ao bisturi, rasga carne quente e faz sangue, mas logo compensa a ferida com uma carícia ou um beijo, mexe em gente que protesta ou agradece, coloca ficção onde falha a memória, muito mais interessado nos registos ainda palpitantes que nos relatórios científicos. Foi isto que o Rui Aragonez Marques agora exemplarmente cumpriu.No prefácio dos Retratos, lembra e bem Rui Cardoso Martins Memórias, as do Oco, de Castelo Júnior, por acaso (?) também um professor que viveu exilado de Portalegre e por longos anos. Compondo um terceto de frescos citadinos, bem lagóias, junto-lhes E se eu gostasse muito de morrer, ainda que esta obra aborde mais a morte do que a vida. Mas é também uma legítima crónica desta Portalegre bem pouco bafejada pela sorte de registos personalizados das suas realidades comunitárias.Li o livro de Rui Aragonez Marques dum fôlego. É certo que alguns dos seus capítulos se me afiguraram algo monótonos, sobretudo quando ele tratava gente e factos de todo arredados da minha própria experiência. Mas logo adiante retomava o apaixonante fio narrativo das vivências comuns, ainda que praticadas em diferido. O conjunto é magnífico, servido por um estilo pessoalíssimo que constitui um dos seus mais originais atractivos.Depois, há aqui uma enriquecedora coincidência (?) nas obras destes dois Ruis portalegrenses, protagonizada pela cumplicidade doutro incontornávellagóia, Fernando Mão de Ferro e a sua (nossa!) Colibri.Recordo alguns conceitos que Lobo Antunes usou quando um dia apresentou o primeiro livro de Rui Cardoso Martins, saudando o exemplo de paciência, orgulho e solidão que aquela obra significava. Junto-lhe os outros conceitos que Rui Aragonez Marques agora explicita na contracapa do seu livro, o esforço de memória, a surpresa, a saudade e o humor. Creio que, juntando todos estes ingredientes nas proporções certas e mexendo-os sem os agitar (como recomenda James Bond), se obtém uma deliciosa receita, um atraente produto. A prova está aqui, à nossa disposição. Experimentem-no que vale a pena…Mas não se deve abusar da dose (é forte!) e serve-se fria.
Com um abraço grato, amigo e de parabéns ao Rui Aragonez Marques, do
António Martinó 
Caro Professor, que posso dizer de uma critica tão audaz, certeira, mas também prazenteira?
O Sr. Professor Martinó, entrou e saiu  da minha vida várias vezes, na escola, no FAOJ, nas acções de formação da DSPRI... no fundo, valeu a pena ter partilhado consigo estes bochechos da minha vida... é por isso que sinto esta sua crónica, como um abraço.
Obrigado Professor.
ARAGONEZ MARQUES