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domingo, 18 de marzo de 2018

REGRESARÉ, GITANA, NO TE VAYAS



Quiero llenarte de flores y de besos, De palabras de amor nunca escuchadas. Y regalarte, otra vez, mil madrugadas, Blancas, redondas, como lunas llenas Y colmarte la boca de placeres, Y los ojos de luces y sorpresa Y las manos de suaves terciopelos Y la frente de aromas de jazmín Tengo saudades de tu tierno abrazo, De tus amantes manos, de tu lecho, Saudades de tu risa y de tu pelo De tu voz, tu presencia, tu regazo Una tristeza alegre me acompaña Como acompaña al cante una guitarra Te esperaré otra vez al mediodía En los almendros junto al agua clara De la fuente donde me dijiste Regresaré, gitana, no te vayas.

Amelia Bravo Vadillo
Março de 2018

domingo, 28 de enero de 2018

CRUZ DE PAU


CRUZ DE PAU

A primeira mulher que vi nua na minha vida estava deitada numa mesa de mármore na casa mortuária do cemitério da cidade onde nasci.

Era mais branca do que a mesa, tinha os pés juntos, as unhas pintadas de cor-de-rosa e os braços colocados ao lado do corpo como se estivesse em sentido.

Os olhos fechados deixavam adivinhar pelo tom das pálpebras uma cor clara, talvez verde mais do que azul, por ser escuro o triângulo perfeitamente desenhado por baixo do ventre.

Mas era o buraquinho vermelho, por onde saíra a bala, lavado e como a marca de um beijo, que sobressaia apesar da pequenez.

 Por ele fora empurrada a vida, fria e rápida, montada na velocidade do disparo que lhe queimou as costas e arrebatou a alma quente e lenta.

Dela apenas se sabia ser mulher, entre os vinte e os trinta anos, que usava na hora da morte umas botas altas e uma saia curta, guardadas na entidade forense que decretou que se expusesse ali, e as portas fossem abertas, de duas em duas horas, para que o povo a pudesse identificar.

Eu ia pela mão do padre, director do internato onde estava, desde que o meu pai ali me deixara, depois de a minha mãe, dizem, que ainda hoje não sei bem, nos ter abandonado para ir viver com outra família, a de um homem com quatro filhos, viúvo e com carência de afectos que descobriu nos de minha mãe, assim me contaram, a solução dos problemas da sua família.

O padre levava-me pela mão, bem apertada, não fosse perder-me naquele carrossel de pessoas que andavam à volta, passo a passo, nova corrida nova viagem, observando cada traço da mulher assassinada.

Lembro-me da ponta dos seus sapatos de verniz, ora tapa que esconde, debaixo da sotaina comprida e eu, olhava para cima guiado pela fileira de botões que passando pelo colarinho branco, como uma fronteira, destapava do outro lado um rosto esguio e sorridente com uma boca que se abria e fechava e soltava sons “é bonita não é?”

Eu baixava a cabeça envergonhado e o padre apertava-me a mão com mais força.

Naquele orfanato, passei anos com agasalho e comida, com oitenta irmãos de infortúnio que compartilhavam o mesmo quarto, onde oitenta camas ordenadas, lado a lado, de ferro azul claro e colcha de pano branco, denunciavam a camarata pelo cheiro de couro e humidade que escorria, escondida, pelas paredes pintadas de cinzento.

O meu pai todos os meses me visitava e quando calhava também.

 Quando os domingos tinham sol, levava-me a lanchar, uma laranjada e um bolo de arroz, antes de me entregar aos padres e às paredes, até que me visitasse de novo, se pudesse, se juntasse, se tivesse trabalho, para a viagem de Lisboa ali.

As suas visitas, começavam muito antes de me visitar.

Soube da morte do meu pai no dia que me chamaram ao director sem ser pelo altifalante do pátio.

Tinha dezoito anos e estava a semanas de abandonar, por idade, a instituição.

O bom padre, que o tempo tinha marcado com o ritmo do nosso crescimento moveu os lábios grossos “já não sofre mais”.

Houve um período de tempo em que deixou de me visitar. 

Não sentia a falta do bolo e da laranjada nos domingos com sol, mas do cheiro do seu casaco e da rudeza das suas mãos grossas e grandes, ou as minhas eram pequenas e finas.

Diziam-me os padres que estava de viagem, que voltaria se Deus quisesse e que as minhas orações eram importantes. 

Por isso levei dias e dias soltando rezas, orações e sacrifícios.

Levei anos a rezar, à noite, ao levantar, várias vezes durante o dia, quando o cheiro do seu casaco me despertava a saudade.

Quando finalmente voltou a visitar-me estava diferente. 

Mais triste e mais calado. 

Os cabelos tinham mudado de cor e as suas mãos eram mais leves e trémulas.

Só no dia que me informaram da sua morte me disseram que a sua viagem foi feita parado, numa ilha longe de todos, numa camarata de adultos por ordem de um juiz.

Quando larguei a instituição, o velho director deu-me a chave de um quinto andar numa travessa dos arredores de Lisboa, Cruz de Pau, o nome da terra onde viveu os últimos dias. 

A casa estava em meu nome, uma conquista sua, um orgulho, duas divisões, uma cozinha e uma casa de banho, de camas enferrujadas onde iria por testamento começar a minha vida sozinho.

Deu-me dinheiro, a morada de uma fábrica onde deveria pedir trabalho e um bilhete de comboio.

Cheguei numa quarta-feira, meti a chave na porta e rodei. 

Empurrei devagar e abri o começo da minha vida adulta.

Duas camas, duas banquinhas de cabeceira, uma televisão com antena interna, um frigorífico vazio com seis garrafas vazias ao lado.

A minha casa.

Fui adulto durante vinte minutos, até que tocou a campainha e apareceu Deolinda “ Raúl? Meu menino, o teu pai falou-me muito de ti” e começou a falar-me dele, homem triste, sempre infeliz, onde eu aparecia na sua vida como vida “ se não fosse pelo menino Raul, há muito que nos tinha deixado e não só agora”.

As garrafas vazias ao lado do frigorífico eram a prova da sua infelicidade, fígado em explosão de combate à tristeza.

“Gostava muito de si, era eu que lhe cuidava da roupa, lhe limpava a casa, lhe respondia quando lhe apetecia falar.”

Deolinda era uma mulher madura, calma, os cabelos desarranjados por ter deixado de acreditar em si, mas uma ternura capaz de me olhar e de me chamar “menino”.

O seu paizinho pediu-me que lhe desse esta chave, da caixa que está em cima do guarda-fato e talvez incomodada com a barba que despontava na minha cara, reparei que passara a tratar o “menino” por você.

Nessa noite, abri a caixa.

Tinha dentro vários montinhos de cartas com laço.

O meu pai e a minha mãe tinham-se amado, num tempo, num momento.

Pela noite, tomei banho colocando em ruído os canos oxidados da casa de banho, pequena mas minha.

Sentei-me na cama, abri a gaveta da banquinha de cabeceira. 

Uma fotografia de uma mulher com um bebé ao colo, um pano de flanela verde envolvendo alguma coisa pesada e um frasco de verniz cor-de-rosa já ressequido.

Abri o pano verde como quem desembrulha um caramelo gigante e depois das voltas apareceu uma pistola negra.

Lembrei-me das pontas dos sapatos envernizados do director do meu orfanato, da sua mão apertando a minha no dia em que descobri numa mesa de mármore a primeira mulher nua que vi na minha vida.

Só então entendi que o bom sacerdote me tinha levado pela mão a despedir-me da mulher que me tinha trazido ao mundo.

Aragonez Marques 
2015 
(...  publicado numa colectânea
de contos de escritores ibéricos
em Espanha...) 

                                                       


CRUZ DE PALO
 (Original em Castelhano)


La primera mujer que vi desnuda en mi vida estaba tendida en una mesa de mármol en el tanatorio del cementerio de la ciudad donde nací. Era más blanca que la mesa, tenía los pies unidos, las uñas pintadas de rosa y los brazos colocados junto al cuerpo. Los ojos cerrados dejaban adivinar, por el tono de los párpados, un color claro, más verde que azul, por ser oscuro el triángulo perfectamente dibujado bajo el vientre. Pero era el agujerito rojo, por donde había salido la bala, lavado y como la marca de un beso, el que sobresalía a pesar de su pequeñez. A través de él le había sido empujada la vida, fría y rápida, montada en la velocidad del disparo que le quemó la espalda y le arrebató el alma caliente y lenta. De ella sólo se sabía que era mujer, entre los veinte y los treinta años y que llevaba, en la hora de la muerte, unas botas altas y un vestido morado, guardados en la entidad forense que decretó que el cadáver estuviese allí expuesto y que las puertas se abrieran, cada dos horas, para que la gente lo pudiese identificar.
Yo iba de la mano del sacerdote, director del reformatorio donde estaba desde que mi padre allí me dejase, después de que mi madre, dicen, que todavía hoy no lo sé bien, nos abandonara para ir a vivir con otra familia, la de un hombre con cuatro hijos, viudo y con carencia de afectos que descubrió, en los de mi madre, la solución a los problemas de su familia.
El sacerdote me llevaba de la mano, bien apretada, para que no me perdiese en aquel carrusel de personas que andaban alrededor, paso a paso, nueva carrera, nuevo viaje, observando los trazos de la mujer asesinada.
Recuerdo la punta de sus zapatos de charol, ora asoma, ora esconde, debajo de la larga sotana que yo miraba desde abajo guiado por la hilera de botones que, pasando por el blanco alzacuello como una frontera, destapaba del otro lado un rostro enjuto y sonriente con una boca que se abría y se cerraba y soltaba sonidos “es guapa, ¿verdad?”. Yo bajaba la cabeza, avergonzado. El sacerdote me apretaba la mano con más fuerza.
En aquel reformatorio pasé años con abrigo y comida junto a otros hermanos con los que compartía la misma habitación en la que ochenta camas ordenadas, de lado a lado, de hierro de color azul claro y colcha blanca, denunciaban la caserna con un olor a botas de cuero y a la humedad que escurría, escondida, por las paredes pintadas de gris.
Mi padre venía a verme todos los meses y cuando caía, normalmente cuando los domingos tenían sol, me llevaba a merendar, una naranjada y un pastel, antes de entregarme otra vez a los curas y a las paredes hasta su próxima visita, al mes siguiente, si pudiese, si juntase, si hubiese tenido trabajo para costearse el viaje desde la capital hasta allí. Sus visitas comenzaban mucho antes de su llegada.
Supe de la muerte de mi padre el día que me llamaron al director sin ser por el altavoz del patio. Tenía dieciocho años y me quedaban semanas para abandonar, por edad, la institución. El buen sacerdote, al que el tiempo había marcado con el ritmo de nuestro crecimiento, movió los gruesos labios “ya no sufrirá más. Reza por sus pecados”.
Hubo un periodo de tiempo en el que dejó de visitarme. No sentía la falta del pastel y de la naranjada pero sí del olor de su chaqueta y de la rudeza de sus manos robustas y grandes. Los curas me decían que estaba de viaje, que volvería si era voluntad de Dios y que mis oraciones eran importantes. Por eso pasé días y días soltando rezos, oraciones y sacrificios. Me pasé años rezando por la noche, al levantarme, varias veces durante el día; siempre que el olor de su chaqueta me despertaba la añoranza.
Cuando finalmente volvió a visitarme estaba diferente, más triste y más callado. El cabello le había cambiado de color y sus  manos eran más ligeras y trémulas. Sólo el día que me informaron de su muerte me dijeron que su viaje lo había hecho parado, en una isla lejos de todos, en una celda aislada por orden de un juez.
Cuando dejé la institución, el viejo director me dio la llave de un quinto piso situado en una travesía de los alrededores de la capital. Cruz de Palo era el nombre de aquel pueblo donde mi padre vivió sus últimos días. La casa la había puesto a mi nombre, una conquista suya, un orgullo. Dos habitaciones, una cocina y un cuarto de baño de tuberías oxidadas donde empezaría, por testamento, mi vida en solitario. Junto con la llave, también me dio un poco de dinero, la dirección de una fábrica donde podía pedir trabajo y un billete de tren.
Llegué un miércoles, metí la llave en la puerta y la giré. Empujé despacio y abrí el comienzo de mi vida adulta. Una cama, dos mesillas de cabecera, un armario, una televisión con antena interna, un frigorífico vacío con seis botellas vacías junto a él… mi casa. Adulto durante veinte minutos,  hasta que sonó el timbre y apareció Angélica “¿Raúl?, mi niño, tu padre me habló mucho de ti”. Comenzó a hablarme de él, me dijo que fue un hombre triste, siempre infeliz y que yo fui lo único que apareció en su vida como vida. “De no haber sido por su niño Raúl haría ya mucho tiempo que nos habría dejado”. Las botellas vacías del frigorífico eran la prueba de su infelicidad, hígado en explosión de combate a la tristeza. “Te quería mucho. Yo le lavaba la ropa, le limpiaba la casa, le escuchaba cuando tenía ganas de hablar”.
Angélica era una mujer madura, tranquila y con el pelo descuidado, por haber dejado de creer en sí misma, pero con una ternura capaz de verme y de tratarme como a un “niño”.
“Tu papá me pidió que te diera esta llave, es de la caja que está encima del armario”.
Esa tarde, abrí la caja. Tenía dentro varios atadijos de cartas sujetos con un lazo. Mi padre y mi madre, la mujer que para mí siempre había sido un misterio, se habían amado, en un tiempo, en un momento.
Por la noche me metí en la bañera, activando el barullo de las tuberías oxidadas del cuarto de baño, pequeño pero mío.
Me senté en la cama, abrí el cajón de la mesilla. Una fotografía de una mujer con un bebé en su regazo, un paño de franela verde envolviendo algo pesado y un frasco de esmalte de uñas rosa.
Abrí el paño verde, como el que abre un caramelo gigante, y apareció una pistola negra.
Me acordé de las puntas de los zapatos brillantes del director de mi reformatorio, de su mano apretando la mía, el día en que descubrí en una mesa de mármol la primera mujer desnuda que vi en mi vida.
Sólo entonces entendí que el buen sacerdote me llevó de la mano a despedirme de la mujer que me había traído al mundo.                                     


Aragonez Marques 
2015 
(...  publicado numa colectânea
de contos de escritores ibéricos
em Espanha...) 

jueves, 28 de diciembre de 2017

RETRATO DE UM VELHO DA MINHA TERRA NO MEU TEMPO






Escorria-lhe do canto da boca, baba viscosa que lhe molhava a beata curta, apagada, enganadora do vício que teimava em enganá-lo.
Nunca vi mãos que tremessem tanto, mas as palavras eram seguras, diretas, eram palavras com força, contendo uma história em cada letra.
- Sabe , Senhor? Nasci aqui, no Alentejo, ainda fui à escola, sim senhor. Pouco tempo, mas fui.Conhece a Rosa do montado? Namorei-a nove anos!... antes de conhecer a minha patroa. Andámos juntos na escola. O pai dela era merceeiro, uma profissão muito boa naquela altura. Tirou a quarta classe e foi estudar para a cidade. Hoje é professora. Mas, namorei-a nove anos, sim senhora! É que sabe? Ela nas férias vinha à aldeia, e eu... gostava dela, naquela altura... coisas de gaiatos... (sorriu) era bonita, muito bonita mesmo. Depois, a cidade subiu-lhe à cabeça, começou a dar aulas aos cachopos e conheceu um qualquer desses das Finanças, que lhe deu um carro, uma casa... encheu-lhe a barriga.
Eu não podia, tirei só a terceira classe. Andava pelo campo a guardar catorze ovelhinhas. Ganhava um tostão por dia.
Hoje, ela é uma senhora fina, dona do montado.
Se calhar já se nem lembra de mim. Nem me olha na rua.
Coisas de crianças, sabe? Coisas de crianças...
                                                                           AM
1999
in- Retratos Esquecidos de uma Velha Gaveta ( na gaveta)

martes, 6 de octubre de 2015

PEÇA DE TEATRO DE FANTOCHES PRODUZIDA EM TIMOR-LESTE PARA TODAS AS CRIANÇAS QUE QUISEREM BRINCAR COM ELA


NASCEMOS IGUAIS

Personagens: RUCA / BE / CAJÓ / MÃE RORRO / TIA TETE

RUCA- Olá, ando à procura da minha irmã gémea (finge que procura, nos cantos, atrás da cortina) BÉ!!! Alguém viu a Bé? (fala com o público) BÉ!!!!

(entra a Bé)

BÉ- Estou aqui, que barulheira é esta? Estou aqui.

RUCA- Onde estavas?

BÉ- Estava a lavar os pratos.

RUCA- Claro, muito bem, assim é que é, cumprindo o teu dever. Nasceste mulher tens que trabalhar, eu vou jogar à bola.

(Sai de cena a assobiar)

BÉ- E pronto, aí vai ele. Não concordo nada. É mesmo uma injustiça. Nascemos iguais. Eu levanto-me cedo para ir com a mãe buscar água, limpar a casa, olhar pelo meu irmão pequenino… e às vezes ainda lavo a roupa. O Ruca, só porque nasceu rapaz, levanta-se da cama e vai brincar com os amigos. Injusto, muito injusto. (fala com o público) É injusto, não é? Mais alto, não oiço nada. É injusto não é? Vou chamar o Ruca e dizer-lhe (chama o irmão) Ruca!!!Ruca!!! Onde é que ele anda? (procura)já ninguém sabe dele. Ruca!!!Ruca!!!

(aparece o Ruca)

RUCA- Estou aqui, já nem se pode brincar descansado. O que é que tu queres?

BÉ- O que eu quero é que logo ao jantar sejas tu a ajudar a mãe a lavar a loiça, enquanto eu vou regar as flores.

RUCA- És parva? Isso é trabalho de mulher, eu sou um rapaz!

BÉ- O quê? Os rapazes também podem lavar a loiça. Não são só as raparigas. Era o que faltava!

RUCA- O que é que estás para aí a dizer? Não nasceste rapariga? Não te queixes. Pois eu vou jogar à bola!

(Ruca sai a assobiar e Bé fica no palco)

BÉ- Como é que eu vou mudar estas cabeças velhas? (suspira)

(Fecha o pano)

II

MÃE RORRO- Olá, eu sou a Mãe da Bé e do Ruca. São gémeos, nasceram iguais, mas a Bé é uma refilona. Nunca sei onde ela está. BÉ! Bé!!

BÉ- Estou aqui minha mãe.

MÃE RORRO- Onde é que estavas? Há muita roupa para lavar, não penses que vais vadiar. Tu não és nenhum rapaz!

BÉ- Ser rapaz é que é bom. O Ruca não faz nada. É um preguiçoso.

MÃE RORRO- Caluda! O Ruca é um rapaz. Tem como dever ajudar o pai, limpar ervas, levar os animais a pastar, apanhar lenha…

BÉ- Mas eu também faço isso. Porque é que ele não pode fazer os meus trabalhos se eu faço os dele? Os trabalhos podem ser feitos por rapazes e raparigas. Trabalho é trabalho. Só isso.

MÃE RORRO- Não minha filha. A mulher cozinha, cose, está em casa e as filhas ajundam-na. Só assim é que um dia, poderás encontrar um bom rapaz que queira casar contigo.

BÉ- Bom rapaz? Que queira casar comigo? Pois eu não caso com preguiçosos! Quero estudar e ser uma boa aluna. Era o que faltava, levar uma vida a servir um homem…

(Bé, sai de cena, refilando)


MÃE RORRO - Esta minha filha tem razão. Estudando, a vida dela não será como a minha.

(Entra a Tia Tété)

TIA TETE- Ó mana, a menina tem razão e tu sabes. Porque não lhe dizes?

MÃE RORRO - Querida irmã, tenho medo, a tradição tem muita força e não quero que lhe aconteça nada de mal.

TIA TETE- De mal? Pior do que a vida que levamos? Os tempos são outros, os nossos filhos vão à escola e a escola é muito mais do que aprender a ler e a escrever. Sabes o que te digo? Deixa a garota em paz que ela já sabe mais do que nós as duas juntas. Vamos, vamos andar um pouco a pé e pelo caminho, falamos mais um bocadinho.

(Saem as duas e fecha o pano)

III

RUCA- Estou farto de tanto brincar, até estou aborrecido.

(Entra o amigo Cajó)

RUCA- Olha o Cajó, o menino moderno, onde vais?

CAJÓ- Fujo das minhas pretendentes.

RUCA- O quê? Eu não tenho nenhuma e tu foges das que tens? São muitas?

CAJÓ- Gostar só gosto de uma, mas as outras querem rapazes como eu para maridos. São meninas que estudaram. E gostam de como a minha mãe me educou. Eu sei fazer tudo.

RUCA- Tudo?! Tudo mesmo? Sabes lavar pratos e essas coisas de mulher?

CAJÓ- De mulher? Tu estás parvo pá. Qual de mulher? Trabalho é trabalho e na    família todos temos que nos ajudar e saber fazer um pouco de tudo.

RUCA- Tu ajudas a tua mãe? Só deves ajudar o teu pai. Tu és um rapaz!

CAJÓ- Ajudo quem necessita. Sei fazer tudo.

RUCA- Pratos também?

CAJÓ- E roupa e cuidar dos meus irmãos pequeninos e também cortar erva e dar de comer ao gado. Hoje já não há trabalhos de rapaz e rapariga. Todos somos iguais, e olha que elas, agora com a escola…

RUCA- Com a escola?

CAJÓ- Sim, com a escola aprendem novas coisas e lá não as ensinam a ser menos do que nós. Somos iguais. Tão iguais como tu e a tua irmã Bé.

RUCA- Pois…

CAJÓ- Como fui educado por uns pais modernos, sou também um jovem moderno por isso…

RUCA- Já sei Por isso tens muitas raparigas a querer casar contigo. A minha mãe outro dia disse-me: Filho, se todas as raparigas pensarem como a tua irmã, penso que daqui a uns anos, ninguém quer casar contigo.

CAJÓ- E tu que pensas?

(Ruca mostra uma panela)

RUCA- Casar comigo? Não querem? Ai querem querem, vou mesmo agora lavar esta panela.


(Fecha o pano)


  A.M (2015)

Sugerido por excerto da
Revista Ba Lafaek, , edisau 13,
Tinan IV- 2004                                 

sábado, 7 de marzo de 2015

8 DE MARÇO - DIA INTERNACIONAL DA MULHER - CALÇADA DE CARRICHE


Luísa sobe, 

sobe a calçada, 
sobe e não pode 
que vai cansada. 
Sobe, Luísa, 
Luísa, sobe, 
sobe que sobe 
sobe a calçada.


Saiu de casa 
de madrugada; 
regressa a casa 
é já noite fechada. 
Na mão grosseira, 
de pele queimada, 
leva a lancheira 
desengonçada. 
Anda, Luísa, 
Luísa, sobe, 
sobe que sobe, 
sobe a calçada.

Luísa é nova, 
desenxovalhada, 
tem perna gorda, 
bem torneada. 
Ferve-lhe o sangue 
de afogueada; 
saltam-lhe os peitos 
na caminhada. 
Anda, Luísa. 
Luísa, sobe, 
sobe que sobe, 
sobe a calçada.

Passam magalas, 
rapaziada, 
palpam-lhe as coxas, 
não dá por nada. 
Anda, Luísa, 
Luísa, sobe, 
sobe que sobe, 
sobe a calçada.

Chegou a casa 
não disse nada. 
Pegou na filha, 
deu-lhe a mamada; 
bebeu da sopa 
numa golada; 
lavou a loiça, 
varreu a escada; 
deu jeito à casa 
desarranjada; 
coseu a roupa 
já remendada; 
despiu-se à pressa, 
desinteressada; 
caiu na cama 
de uma assentada; 
chegou o homem, 
viu-a deitada; 
serviu-se dela, 
não deu por nada. 
Anda, Luísa. 
Luísa, sobe, 
sobe que sobe, 
sobe a calçada.

Na manhã débil, 
sem alvorada, 
salta da cama, 
desembestada; 
puxa da filha, 
dá-lhe a mamada; 
veste-se à pressa, 
desengonçada; 
anda, ciranda, 
desaustinada; 
range o soalho 
a cada passada; 
salta para a rua, 
corre açodada, 
galga o passeio, 
desce a calçada, 
desce a calçada, 
chega à oficina 
à hora marcada, 
puxa que puxa, 
larga que larga, 
puxa que puxa, 
larga que larga, 
puxa que puxa, 
larga que larga, 
puxa que puxa, 
larga que larga; 
toca a sineta 
na hora aprazada, 
corre à cantina, 
volta à toada, 
puxa que puxa, 
larga que larga, 
puxa que puxa, 
larga que larga, 
puxa que puxa, 
larga que larga. 
Regressa a casa 
é já noite fechada. 
Luísa arqueja 
pela calçada. 
Anda, Luísa, 
Luísa, sobe, 
sobe que sobe, 
sobe a calçada, 
sobe que sobe, 
sobe a calçada, 
sobe que sobe, 
sobe a calçada. 
Anda, Luísa, 
Luísa, sobe, 
sobe que sobe, 
sobe a calçada.

ANTÓNIO GEDEÃO, em "Teatro do Mundo"
Obrigada! Sempre!
Cedido generosamente por 
Cristina Carvalho
(Escritora e filha do poeta)


  1. António Gedeão
    Poeta
  2. António Gedeão fue un poeta, ensayista y dramaturgo portugués, que también publicó diversas obras científicas. Sus poesías más conocidas son Pedra Filosofal y Lágrima de Preta. Wikipedia
  3. Fecha de nacimiento: 24 de noviembre de 1906
  4. Fecha de la muerte: 19 de febrero de 1997

viernes, 31 de octubre de 2014

A TV NA MINHA ESCOLA - Clarinha



31 de Outubro de 2014

Uns senhores da televisão foram à minha escola. Fizeram muitas perguntas aos meninos mas as respostas eram sempre iguais "sim" e "não", porque os meninos e as meninas da minha escola são muito envergonhados. Os meninos e as meninas que aparecem na televisão espanhola, que nós aqui vemos mais do que a portuguesa, falam pelos cotovelos. Se estamos aqui tão perto, porque é que eles são menos envergonhados? Pus-me a pensar e acho que sei porquê, porque a minha prima Pilar é espanhola e eu conto-lhe coisas da minha escola e ela a mim da escola dela, e na escola dela eles falam mais e nós aqui somos mais barulhentos. Ela diz-me que na escola dela, pintam, cantam, trabalham em grupo e fazem teatro. Eu na minha escola não pinto, não canto, estou todo o dia numa mesa com dois lugares, todos em fila, como na missa, e teatro, só sabemos o que é quando algum menino chora porque não sabe a tabuada e a professora lhe diz:
-Não estejas a fazer teatro!
A escola da minha prima é mais alegre e os meninos não inventam dores de barriga para não ir.
Na minha escola não há teatro, nem danças, nem cantigas, nem muitas vezes papel higiénico, mas sabemos muito bem fazer contas e ler, e os livros têm cores feitas por outras pessoas.
- Não há teatro na tua escola Clarinha? Então ainda no Natal entraste no grupo da poesia...
Respondi à minha professora que sim, mas foi só para ela ficar contente, mas cá para mim, sei que não há, aquilo que eu fiz no Natal, faço todos os anos, é decorar uma poesia com pastores, ovelhas, reis magos e anjinhos e depois dizê-la no microfone, mas sei que isso não é teatro.
Na escola da minha prima aprende-se sempre com alegria porque a escola é uma festa.
Se os senhores da televisão falam tão bem, é porque na escola deles havia teatro e canções e variedades e tinta e pincéis e fantoches e por isso não têm vergonha de falar. Os senhores do governo, também não têm vergonha, pelo menos na cara como diz o meu pai, e por isso também falam muito bem mas querem-nos calados para aprendermos quando formos grandes a ouvir com atenção o que eles dizem, que é a maneira mais fácil de fazer como eles querem e não de fazermos como nós pensamos, porque já não sabemos pensar.
O meu pai disse-me que a escola em Portugal há uns anos, não muitos, era como a escola da minha prima e que os meninos e os professores eram todos felizes e até faziam assembleias de escola com delegados de turmas eleitos enquanto agora levam faltas por irem a manifestações por não terem professores.
Acho que nasci atrasada e por isso querem que pertença ao grupo dos "sins" e dos "nãos".
Nasci atrasada, disso não tenho culpa, mas não quero ficar atrasada a comparar com a minha prima Pilar, por isso, quer lhes goste quer não, falo e canto, e faço danças no recreio com as minhas amigas com as musicas da Violleta, que tirando isso só temos o avô cantigas que é já avô de verdade e um professor gordo com uma viola que canta bem mas toca muito mal e desenhos, em casa, com as minhas irmãs. Lá na escola não podemos, porque temos muitas fichas para fazer, todos os dias, de português e matemática para os exames que vêm de Lisboa no final do ano, guardados pela Guarda Nacional Republicana, porque são muito importantes.
Gosto de imaginar e de inventar, e de aprender brincando que é a maneira mais fácil de aprender.
O que mais me preocupa é que eles não vejam que só tenho oito anos e se não me dão tempo de inventar agora, nunca pertencerei a um país de inventores e eu, quando for grande quero ser escritora e cientista e nunca vi um cientista sem imaginação nem um escritor que na escola só tenha feito cópias.
Não me compreendem?
Felizmente que os meus pais e irmãs mais velhas, sim, senão, já tinha perdido a esperança como a minha avó que toma comprimidos para dormir.

CLARINHA


martes, 21 de octubre de 2014

O PLÁGIO - Clarinha


21 de Outubro de 2014

Hoje apanhei uma vergonhaça.
Fiquei vermelha como os tomates que a minha avó diz estarem cada vez mais caros e como os pimentos que o meu avô tinha como desporto de reformado e hoje como trabalho pois tem que os vender na mercearia do Senhor Paulino, para com esse dinheiro comprar outras coisas, como gasolina para me ir levar à escola e à ginástica que é paga pelo meu outro avô senão já lá não andava. Os meus pais cada vez nos pagam menos coisas, porque descobri que o nosso carro e a nossa casa afinal só são nossos no papel ou quando os meus pais falam deles com os amigos, porque na realidade não sei de quem são porque às vezes ouço o meu pai dizer já paguei a casa este mês e a minha mãe, já paguei o carro este mês, então porque as coisas não podem ser pagas tantas vezes eu penso que andamos num carro de aluguer e vivemos numa casa de renda e os meus pais não querem que se saiba.
Hoje apanhei uma vergonhaça e fiquei encarnada como um tomate como disse lá encima, porque olhei para o trabalho da Guidinha para ver se as minhas respostas eram iguais às dela e uma das minhas professoras substitutas, que nunca é a mesma e está lá à espera que o ministério nos dê uma para todo o ano, mandou um grande berro:
- CLARA (quando se zangam comigo nunca me chamam Clarinha) estás a copiar, coisa feia!!
Ufa. Se tivesse um buraquinho metia-me nele, porque ela continuou:
- Quando o teu pai te vier buscar à escola, digo-lhe, parece mentira, não tens vergonha?
Não abri o bico até ao almoço, com medo do meu pai e só fiquei mais aliviada quando ele disse à minha professora, substituta da que ainda não veio, que era o esperado em quem tem como responsáveis pelas escolas, pessoas que fazem plágio e ninguém as demite, saem pelo seu pé e dizendo que são problemas pessoais.
Não percebi e fiquei muito curiosa sobre o que é isso do plágio.
À tarde fui ao computador e descobri que plágio é copiar e que esse senhor que era chefe das escolas copiou e mostrou como se tivesse sido feito por ele. Eu não fiz isso, só espreitei para saber se a Guidinha tinha feito o mesmo que eu. Quem devia estar vermelho como os tomates caros da minha avó e os pimentos que são agora carga de trabalhos para o meu avô era esse senhor e não eu. Afinal, se viesse viver aqui para o pé de nós, era até perigoso, pois poderia roubar os pimentos ao meu avô, dizer que eram dele e ir vendê-los à mercearia do senhor Paulino.

CLARINHA