jueves, 6 de febrero de 2014

AS FERRAS / COISAS DA GAVETA.

As Ferras

Catorze? Quinze? Dezasseis anos? Foi por essa altura que decorriam “as ferras” de que vos falo.
Pediu-me a Noudar que escrevesse algo. Touros, o tema, ou Toiros, talvez nao saibam que se pode dizer de ambas as maneiras. Touros, mais campestre, mais rural, mais Alentejo, mais sol de praça, Toiros, mais cidade, mais finura, mais português de academia se academia houvesse, mais lugares à sombra.
Lembro-me, de cima deste meio século que tenho, de um barracao, onde se guardavam as alfaias agrícolas, que nesse dia, o dia da “ferra”, se transformava em grande salao de comidas e bebidas. Uma grande mesa ao meio, muitos cavaletes a suste-la. Toalhas grandes, de pano, algumas bordadas, sobrepostas nas pontas, esticadas, muitas, cobriam o tampo da enorme mesa e as patas dos cavaletes. Sobre elas, uma imensidade de pratos e iguarias. Nada de garfo e faca nesse dia, à mao, navalhas abertas e cortantes.Um exagero de comida que definia, às vezes por presunção, o lavrador que nao lavrava, o dono da terra, do barracao, das alfaias, dos cavaletes, das toalhas, dos pratos, das iguarias e dos toiros.Toiros. Que quem os cuidava chamava Touros.
Eram gentes de sol.
Por essa altura, teria o meu pai, que nos deixou há pouco tempo para sempre e cujo luto ainda nao tive tempo de fazer, pouco menos do que a idade que tenho hoje, e era pela sua mao, pois trabalhava nas veterinárias, que eu tinha contacto com esse dia, o dia da “ferra”.


Logo cedo, as vacas e os aprendizes de touro, eram metidas num redondel e contratavam-se “os forcados”, um grupo dos próximos, o de Portalegre, o de Sousel... que os de Alcochete, Vila Franca de Xira, Coruche ou Santarém, estavam destinados às “ferras” Ribatejanas, para agarrarem o gado, um a um, que depois de bem sustido e caído no chao, era alvo dos ferros em brasa que dormitavam com as pontas alaranjadas de calor, no  escaldante braseiro ateado pela manha e que durava enquanto houvesse vaca ou cria que nao fosse ferrado. Aproveitavam os donos essa imobilidade do bicho, e se agarrados uma vez, tudo se faria aproveitando o momento, nao só a “ferra” como a vacinaçao e a recolha de amostras de sangue para análise da brucelose, que nessa altura, amedrontava os bolsos dos ganadeiros, e era aqui, que aparecia o meu pai e entrava eu, catorze, quinze, dezasseis anos? Nao sei bem, mas que importa o tempo se tudo continua igual, ou parecido, só que eu, deixei de ser convidado, e agora, com o meu pai em viagem infinita e sem retorno, darei por encerradas presenças fisicas, e manterei apenas as memórias que partilharei com filhos, netos, amigos e com você.
Depois da “ferra” ( a vacinaçao e a prevençao de doenças) nao é mencionada na especialidade deste dia, apenas o ferro, a posse, o cheiro a carne queimada, o mugir agudo das reses...vinha a festa.
Mas nao é critica esta partilha consigo desta vivência juvenil, e nao o é, porque gostava, direi mais, adorava, e sabendo que ia acompanhar o meu pai, bem antes dele acordar, já eu estava desperto, excitaçao no corpo, e a enorme expectativa do dia diferente que iria nascer para mim.
Levávamos o velho Lange Rover dos Serviços Pecuários de Portalegre, a velha Intendência Pecuária de que o meu pai era funcionário, e o cheiro do campo misturado com o “pecuzanol” e o “tibenzol” dentro do gipe, os saltos do carro pela estrada de terra, os fatos de macaco brancos e aqueles amanheceres, ainda ocupam um espaço previligiado nos meus sentidos.
Depois do trabalho, seguia-se o almoço, manchando as toalhas com  nódoas de azeitona, molhos de cabrito, sopa de cachola,  pimenta que apaladava os queijos frescos (comidos antes das análises), e um sem fim de sobremesas desde o arroz doce até às “mousses” de todas as qualidades, cores e paladares.
Comia-se de pé. Todos sabíamos porquê, ou quase todos, pois os noviços de nada se precaviam. O meu pai, enquanto metia um panado na boca segurando com a outra mao o prato, dizia-me sempre “ nao tires os olhos dos portoes”.
Eram portoes grandes, capazes de engolir as ceifeiras debulhadoras, um em cada ponta do barracao, e entao, quando menos se esperava, entrava por um deles uma vaca brava, tao assustada como nós, correndo a caminho do outro portao, por onde entrava a luz e sabia que estava a liberdade. Quanto aos comensais, largavam pratos e copos, saltavam por cima das toalhas bordadas, entornavam jarros de pura cêpa, e as senhoras também, e as crianças que os pais arrebatavam num impulso salvador. Depois, quando a vaca saia, eram os risos, os comentários, o sangue que se aquecia com os copos que se enchiam, a festa da “ferra”.
Descansava-se depois por ali, debaixo dos sobreiros, as crianças andando de burro, as maes vigiando, os pais curtindo a pançada ressonando pelas sombras, debaixo das azinheiras ou protegidos pelas paredes exteriores do sítio da festa.
E às cinco horas, sempre às cinco, havia um encontro marcado no redondel.
Era o culminar.

As senhoras e as crianças recolhidas sobre as zorras dos tractores, ou das carroças de madeira fechadas em círculo. Os homens, os rapazes, como um ritual, adrenalina à tona, esperando a saída do novilho, as correrias à sua frente, os volteios, as fintas, os medos, os risos da assistência. Começava entao a aparecer no público, canas ao alto, rachadas nas pontas, com notas de escudo entaladas. Os moços, do grupo convidado, que utilizavam “as ferras” para treinos das corridas de verdade, com touros de verdade, sem nada receberem em troca do que o enaltecer da sua vaidade, faziam-se caros. Deixavam que mais canas com notas subissem ao alto, e quando contavam uma maquia interessante, saltavam para o redondel demonstrando bravura. Alinhavam-se em fila indiana,  o primeiro chamava o novilho, pé ante pé, pavoneava-se frente a frente com o animal. Batia-lhe as palmas, mais um passo curto, um salto chamativo, maos nas ancas, “ei, touro lindo”, “ei, touro, touro, touro lindo”, e o novilho arrancava, nobre, olhos fechados, como fechados ficavam os braços do forcado galopando na sua cabeça.. Depois saltavam-lhe em cima os restantes moços, desmanchando a fila, e um, o último a largar o touro, o rabojador, agarrado à cauda do touro e flectindo um joelho, contrário à perna esticada,  riscava um círculo no chao, como um compasso marcando a terra.
Recolhiam depois as notas das canas que se lhes apontavam, era a paga do seu esforço.
A sua bravura, a coragem que aparentavam, estava arroupada pela técnica, por muitas “pegas” repetidas, por muitas instruçoes passadas pelos mais velhos e concentradas no “cabo” do grupo.
Podem na praça, reencontrar-se com o animal da “ferra”, quatro, cinco anos depois, e aí sim, todo o trabalho aparece na montra da praça.
Também esses dias fazem parte da minha memória.


Tinha a sorte da corrida das festas da minha terra, durar para mim todo o dia. Enquanto começava para a maior parte do público às seis da tarde, todos os anos, religiosamente no dia 23 de Maio, Dia da Cidade de Portalegre, comemorando o foral que lhe foi outorgado pelo rei D.Joao III, para mim, começava às oito horas da manha, visitando os curros com o meu pai, verificando se os touros estavam em condiçoes, assistindo ao sorteio dos animais pelos representantes dos cavaleiros, à embolaçao dos touros, vendo as apostas feitas neste ou naquele animal.
Toda a manha   se falava da corrida da tarde, e curiosamente esse nao era para mim o melhor momento. Começava o crepúsculo  da festa,  e por cada hora que passava o final aproximava-se doentio. Depois da corrida, onde por decisao da lei portuguesa nao se matam os touros na praça, assistia com mágoa ao desenrolar dos bastidores. Já nao ia ao jantar dos toureiros, onde se cantava o fado. O meu pai levava-me para casa, mas um dia  vi.
Vi como sofriam os touros depois da corrida portuguesa.
 Sao colocados dois barrotes atravessados num curto corredor, um por cima e o outro por baixo do pescoço do touro, tornando-o num animal sem qualquer defesa. Sao-lhe depois arrancadas as farpas, com uma navalha que lhes retalha a carne e deixa a nú buracos disformes de carne viva. Depois, para que nao infecte (disseram-me), regam-se os buracos com creolina enquanto o touro berra e movimenta as partes traseiras sem sucesso de liberdade. Várias horas depois, o animal tem febres altas, e ou morre no matadouro doente e febril ou dizem, sao levados de novo para os prados onde se curarao ou nao. Nao sei. Fui testemunha do matadouro, nunca acompanhei a devoluçao do animal aos campos. Dizem que sim, que se curam, dizem até que sao novamente vendidos para serem corridos em praças pequenas em negócios fraudulentos e perigosos para os toureiros.
Talvez por isso, recorde “as ferras”, a alegria que sentia tao cerca do touro, ou toiro.
Sol e Sombra.






                                          Aragonez Marques- in Revista Noudar

domingo, 2 de febrero de 2014

UMA SURPRESA GOSTOSA


O meu amigo 
António Freire, 
homem de letras guardadas,
 presenteou-me dedicando-me

 a sua crónica desta semana
na sua coluna 
R(O)STOS DE ESPERANÇA
do
 " Semanário Alto Alentejo,
com o título
A "ESCOLA" DA VILA NOVA

Porque aqui deixo
 "As letras que Gosto",
 cá vai para quem não comprou.



Lia-se mal e solicitei ajuda 
à Lurdes Ribeiro e ao marido, Zé Mamede
 pois o meu scanner negou-se a colaborar.

Recebi o original que aqui publico, assim como a parte intima que 
o Zeca me enviou com ela.




Acabei por ter uma excelente tarde com estes amigos e com o Zeca de fundo.



UMA TARDE COM RECORDAÇÕES E PORTALEGRE NA MEMÓRIA.

Obrigado Zeca!



sábado, 1 de febrero de 2014

O BANCO E A PEDRA ( Um conto de amor três anos depois de Abril / Descoberto na velha gaveta)









BOAS LEITURAS!!

UM CONTO CHAMADO 115










BOAS LEITURAS!

A DÚVIDA DA PRINCESA









BOAS LEITURAS !

A PRAIA ONDE MORRIAM AS BALEIAS OU UMA BRAÇADA PARA FORA DA DEPRESSÃO











BOAS LEITURAS!

UM CONTO DE NATAL ENVIADO PELO ESCRITOR JUAN ANTONIO MENDEZ DEL SOTTO




Era la Noche Buena, pero para Elisa, la niña huérfana, era una noche más de hambre como cualquier otra. Sin embargo, tenía la esperanza que pudiera ser diferente, gracias a tantas y tantas historias que había escuchado, sobre los milagros que solían acontecer en una noche como aquella, en el que todo el mundo era feliz, celebrando el Nacimiento del Niño Dios.
            En aquella habitación, en la que la niña esperaba el milagro, no se escuchaba el sonido de la pandereta ni el de la zambomba, tampoco el de las risas ni las alegres voces de la gente, intercambiando felicitaciones y buenos deseos. El sonido a aquella triste estancia, lo ponían los intestinos de Elisa aguardando digerir algún alimento.

            La niña se tendió sobre el sucio jergón, único mobiliario entre aquellas cuatro paredes desconchadas y húmedas, y rezó para que el milagro no tardara.

            Entornó sus ojos y… De pronto, una cegadora luz iluminó la estancia. ¡Era el milagro! Su milagro. ¡Al fin!
Entre el blanco deslumbrante, vio como se aproximaba, con la mano extendida, un ángel azul. El ángel que daría fin a sus penas.
Feliz, cerró los ojos. La cegadora luz desapareció, pero el ángel continuaba a su lado.
Se acercó un poco más y acarició la cara de la niña.
Aquél ángel no era azul, era negro como la noche.
Elisa no volvería a dejar ver nunca más su triste mirada.

-------JAMS------