viernes, 21 de febrero de 2014

NESTA FASE DA VIDA RECEBER UM POEMA ASSIM É UM PRIVILÉGIO


Sin estrella en el cielo, de luna lleno,
Naufrago entre las ruinas de este universo.
En la playa del mundo pintas tus versos
Con la tinta encarnada de tus recuerdos.

Tatuadas en tu pecho seis amapolas
Que proteges del viento si las asola.
Margarita del campo, yo sólo quiero
Ser deshojada siempre entre tus dedos,
Con calma sabia,
 con la savia que vence todos mis miedos.

Es tu boca un geranio del Alentejo
Que en el balcón del sueño susurra besos.
Verdes, tus ojos verdes, blanco el sombrero,
Yo sólo soy quien soy porque te quiero.

                                     14 febrero 2014


                                                           Amelia.

jueves, 20 de febrero de 2014

FIQUEI COM O CHAPÉU DO MEU AVÔ


O meu avô José Marques, pintor Portalegrense e eu. 
O chapéu é o mesmo.
 Só o chapéu.
 Como as crianças pequenas que calçam os sapatos da mae, assim me sinto eu, feliz, com o chapéu do Senhor Marques, artista e bom homem, que o digam entre muitas outras obras as colunas e uma janela a imitar mármore do Paço Episcopal, da Diocese de Portalegre e Castelo branco, que pintou já com mais de oitenta anos, depois do Bispo ter rejeitado o trabalho feito por artista estrangeiro que veio e fracassou.
 Foram buscá-lo a casa, já reformado. 
E ele lá foi apesar da idade. 
Quando foi para cobrar, fez contas à hora, como de uma parede se tratasse. 
Conta a lenda familiar, que o Bispo, admirado lhe ofereceu o dobro e ele respondeu, horas são horas, Senhor Bispo, dê o que sobra aos pobrezinhos.
 Caramba, esta família nunca teve jeito para os negócios.



miércoles, 19 de febrero de 2014

NOVO CHEIRINHO " A MULHER DO SARGENTO ESPANHOL" / EXCERTO DO 5º CAPÍTULO



5.
 A morte de Glorieta Esteves



Glorieta
 Esteves começou a sentir um frio paralisante nos dedos dos pés. Depois esse gelo mole e etéreo começou a subir-lhe pelos tornozelos até aos joelhos. 
Às seis horas e quarenta e cinco, já lhe tinha chegado ao ventre e lentamente, continuava a subir arrefecendo-lhe os dedos das mãos, numa paralisia fria que a impediu de carregar no botão da pêra com a campainha, para chamar alguém. Antes das oito horas, estava gelada e tesa até ao pescoço e apenas podia mover a boca e os olhos. Exatamente às oito horas e doze minutos, estava completamente paralisada, sem qualquer sensação de dor e nem as pálpebras conseguia fechar, pelo que começou a dar-se conta de que deveria estar morta.
Sentiu a freira entrar na camarata e chamá-la, Senhora Glorieta, Dona Glorieta, Glorieta. Não foi capaz de responder. Sentiu que lhe tocavam no pulso e que lhe encostaram a cabeça ao peito e que lhe puseram dois dedos na garganta, mas não conseguiu dizer nada, mesmo quando as companheiras da camarata a olhavam entristecidas, o Padre lhe fez uma cruz na testa e a Madre Superiora suspirou, paz à sua alma, enquanto com o polegar e o indicador lhe fechou as pálpebras.
A partir daí deixou de ver e apenas ouvia.
Antes do meio-dia chegaram as filhas.
Mariana, Clara e Branca.
Beijaram-na, afagaram-na e pentearam-na. O genro também estava, sentiu-lhe os lábios quentes na testa fria e o afago na cara. Vou para fora fumar, disse Carlos Fagundes Fonseca enquanto a mulher e as irmãs a despiram, a lavaram e a vestiram de novo com roupas que tinham trazido. Sentiu, ou pelo menos assim lhe pareceu, que poderia mover o dedo gordo do pé e que tal seria um sinal para que as filhas soubessem que não estava assim tão morta, mas perdeu todas as esperanças quando lhe calçaram uns sapatos novos, a que tiraram o preço, acabados de comprar na sapataria do Cunha. Cortaram-lhe as unhas e sentiu o cheiro do verniz quando as pintaram, juntaram-lhe as mãos e ataram-nas para que se mantivessem naquela posição de prece, até à eternidade, com um terço enrolado nos dedos e Clara e Branca, puseram-lhe pó de arroz no rosto, uma ligeira sombra nos olhos e um pouco de pintura carmim nos lábios.
Deixaram-na preparada para a sua última viagem, tão bonita como quando esteve presente no casamento de Mariana.
Antes do almoço chegou o Nogueira da funerária e passaram-na para uma urna almofadada. Glorieta sentiu-se bem e aliviada, pois não fora preciso abrir com picareta nenhuma porta e muito menos ser baixa, como a irmã, com cordas da varanda e apenas sabia estar morta porque não necessitava de respirar.
Ouviu perfeitamente o ruído dos gonzos a fechar a tampa e o enrolar de uma chave na fechadura. Sentiu que a levavam pelo ar e a depositaram num sítio plano, ouviu um motor a diesel e soube estar a caminho. Ergueram-na de novo, pousaram-na, e sentiu novamente a chave, os gonzos e a tampa que se abria.
Estava na igreja da sua terra.
O cheiro a cera de velas assim o indicava.
Colocaram-lhe um pano sobre o rosto e sabia haverem flores porque o perfume a envolvia.
Começou a chegar gente.
Sentia os passos no ranger do soalho e no eco da abóbada. Tiraram-lhe o lenço do rosto e uns afagavam-lho, outros colavam os lábios húmidos na sua cara fria, outros limitavam-se a tirar o lenço, olhar como para confirmar se era ela e colocavam-lho outra vez sobre a face.
Depois de jantar, foi quando veio mais gente. Sentia-o pelo murmurar cada vez mais alto dos presentes e às vezes detetava alguns risos de adolescentes.
Com o passar das horas apenas foram ficando os mais próximos e o silêncio passou a ser maior, tirando o ressonar de Carlos Fagundes Fonseca, que cabeceava por falta de hábito a noitadas desde que casara.
Amanheceu igual, como sempre, como se a natureza valorizasse pouco o desaparecimento de uma vida.
Às dez horas, ouviu-se o velho Padre Cabral falar da amiga que os deixava, do conforto que encontraria junto do Senhor e dos seus Anjos e depois de dar a comunhão, pediu um Pai Nosso pela alma da irmã Glorieta.
Daí saíram, depois do eterno adeus e da chave que rodou ter sido entregue a Mariana como filha mais velha.
Baixou à terra com duas cordas e oito braços que a fizeram balançar e sentiu o ruído da terra sobre a tampa da urna.
Assim morreu Glorieta Esteves sem saber ao certo se estava morta.

                                                     (…)

In a Mulher do Sargento Espanhol
... a publicar em breve...



martes, 11 de febrero de 2014

A MULHER DO SARGENTO ESPANHOL / ( Um cheirinho...)


Está quase terminado e corrigido o novo livro
A MULHER DO SARGENTO ESPANHOL

( Um cheirinho...)


(...)
Fernando Mata acabou professor por amor. Com 15 anos, viveu o seu primeiro romance de borboletas e água das pedras com a filha de um funcionário público. Com dois anos de mãos dadas escondidos nos jardins públicos, ou descendo e subindo as ruas lado a lado, confessaram um ao outro futuros eternos. Quando a escola do Magistério Primário se estendeu da capital de província para a capital do distrito, o sonho de ser professor mostrou-se fácil à carteira do pai que assim pôde mandar estudar os filhos sem necessidade de os deslocar. Maria Catarina, passou assim a usar bata branca e a juntar-se às cinquenta meninas que iriam dois anos depois ser espalhadas pelas escolas públicas do regime. Bastava-lhes naquele tempo ter um sentido rigoroso da moral, acreditar na trilogia Deus, Pátria e Família, usar meias de vidro e saias dois dedos abaixo dos joelhos. Calças nunca. O diretor tinha até o chefe dos contínuos autorizado, a que ao subir as escadas que levavam às salas de aula, pudesse beliscar as pernas das futuras senhoras professoras, com o objetivo de ver se tinham ou não meias e de imediato, caso tocasse as pernas nuas e firmes, comunicar à Direção, que neste caso era ele, o Diretor, nomeado por Diário da República em cargo perpétuo.
As meninas com namorado, tinham-nos todos em fila, de casaco, gravata e lenço no bolso, esperando a saída da escola a trezentos metros daí, numa linha de meta imaginária, frente à tasca do Capote na rua que baixava para o Café Alentejano, a sala de espera. As namoradas chegavam, e eles ali, sem dar um passo, que encurtasse a distância fixada. Uma ou duas com mais idade, já com casamento autorizado para os poucos meses que faltavam para a queima das fitas e a missa da praxe, podiam ser levantadas na porta como encomendas desde que os destinatários nunca entrassem no edifício, e sempre depois de uma autorização escrita do pai da menina entregue ao diretor, em papel azul, de 35 linhas, selado e começado sempre da mesma maneira: eu…abaixo assinado – e acabado também formatado, assinatura e data depois do:  Pede deferimento.
Aqui começaram os problemas de Fernando Mata.
O governo de Salazar, pai exemplar, acima de cada pai, foi quem criou a lei sobre as autorizações de casamento das senhoras professoras. Se lhes pagara a formação, e lhe pagava um ordenado sentia-se na obrigação e o pior era que no direito também, de as proteger. Havia que evitar a todo o custo a figura parasitária do marido da professora, que corrompia a moral e sem trabalho vivia de um ordenado que não era seu. Então, naquela ânsia de tudo ter bem atado, num novelo cuja ponta estava sempre nos seus dedos, o governo da nação proibiu o casamento das senhoras professoras com quem não tivesse um emprego digno, como, para eles, empregado de banco, funcionário público ou empresário com provas dadas e salários superiores e onde o casamento entre professores, senhor professor e minha senhora, era o mais autorizado, como também o era o de minha senhora e funcionário das finanças.
(...)

In A MULHER DO SARGENTO ESPANHOL
A editar em breve




jueves, 6 de febrero de 2014

O MISSIONÁRIO / Da GAVETA











BOAS LEITURAS !!!!

SINÓNIMA (CONTO INÉDITO)













BOAS LEITURAS!!

ANJOS NO TELHADO / DA GAVETA





Havia no telhado, mesmo no parapeito do mesmo, algeirós por baixo, um anjo sentado.

Quem o via, abria muito os olhos, certificava-se que não sonhava e ficava ali, a ver, e muitas eram já as pessoas que estavam ali, a ver, e o primeiro silêncio da noite que o sentou no beiral, era agora um ondular de vozes e dedos espetados para ele.

Tem asas, diziam, e pernas também, é branco. Não, é cinzento. Não, é creme, anjo? Perguntavam, coisa, pensavam, raro, compartiam, e raro mesmo, era não terem medo e permanecerem ali.

Uma voz atrevida, de um gordo fiado na estatura e robustez ouviu-se sobre o burburinho:

- He! Você!

Tratou-o como pessoa.

-Baixe daí, quer cair?

O ser manteve-se com a mesma postura e não respondeu, pernas para baixo na ponta das telhas.

Cair não cai, ouviu-se, tem asas é porque voa, e o bico? Não tem bico, não é pássaro, imaginemos que é alguém disfarçado, asas postiças, vindo de uma qualquer procissão, que perdera a fé e lutava contra o suicídio? Sim, que daquela altura, se anjo não fosse em breve se tornaria, para quem tem fé, para quem não tem, um corpo estatelado no chão, talvez ensanguentado, ossos partidos, certamente, com uma argola de gente em seu redor e ninguém que lhe tocasse, telemóveis muitos, entupindo o 112, pedindo que alguém viesse para lhe tocar.

- He! Você!

O ser abriu as asas, como eram grandes e brancas, enormes, tornando diminuto o corpo, e as gentes, deram um passo atrás com HÓS!, muitos HÓS!!..., cada vez mais altos, ecoando pelas paredes das casas do largo, olhando aquele ser aberto como um pavão, ameaçando voar mas cortejando primeiro.

Foi então que se ouviu um vento sibilino e uma aragem levantou os pêlos, por frio, admiração ou arrepio, das gentes que eram já multidão, e a lua ficou tapada e o som de um bater de asas  enorme ecoou e outro ser alado circundou o sentado, num volteio, numa circunferência aérea que ia diminuindo o diâmetro à medida que baixava, baixava, baixava até se sentar também no beiral ladeando o outro da sua espécie e perante a admiração dos curiosos que não tiravam os olhos do alto, encostaram as cabeças, numa terna carícia.

- He! Vocês!

Ambos abriram as asas, vum, vum, vum e voaram, voaram, voaram até serem pontos minúsculos perdidos nas estrelas pequenas e brancas que polvilhavam a noite.

Um Há! De admiração soou uníssono na rua do bairro.

Todos tinham assistido a um acto de amor, a um enamoramento ternurento de dois anjos brancos, ou cinzentos, ou cremes, ou... que importa?

Anjos e amor.

- Os anjos não têm sexo? Sim têm, só que por serem anjos, não demonstram as diferenças do seu género.

- Os anjos são gays papá?

Puxou a roupa da cama da filha.

Que história mais rara acabara de inventar e lhe acabara por contar.

Teria que reciclar o seu reportório,  teria que se reciclar a si próprio como pai,  jurou que no outro dia, bem cedo, iria à biblioteca municipal requisitar um par de livros do Walt Disney.

Boa noite. Que descanses.

E apagou a luz.

                                                                            Aragonez Marques
                                                                                      ... madrugada de 13/3/2010...