jueves, 13 de marzo de 2014

A GARRAFEIRA DE ANTÓNIO LOBO ANTUNES


"Perguntam-me muitas vezes por que motivo nunca falo do governo nestas crónicas e a pergunta surpreende-me sempre. Qual Governo? É que não existe governo nenhum. Existe um bando de meninos, a quem os pais vestiram casaco como para um baptizado ou um casamento.


Existe um Aguiar Branco e um Poiares Maduro. Porque não juntar-lhes um Colares Tinto ou um Mateus Rosé?

É que tenho a impressão de estar num jogo de índios e menos vinho não lhes fazia mal".

António Lobo Antunes

miércoles, 5 de marzo de 2014

HOJE É UM BOM DIA PARA MORRER


Hoje está um belo dia para morrer. Custa-me um pouco, mas o Sargento nao pode continuar a tirar o protagonismo à mulher. Há mais de um mês que sinto que está a mais. Vou aproveitar hoje para lhe dar uma morte digna. A Mulher do Sargento Espanhol, continuará a ter o seu espaço privilegiado. A partir daqui, o palco é todo teu Patry. 

lunes, 3 de marzo de 2014

A MULHER DO SARGENTO ESPANHOL (... terceiro cheirinho...)


(...)

21.
 A Fronteira




Na
cabana do pastor preparavam-se para partir.
- Não deixem nascer o dia, terão que sair daqui. Os carabineiros aparecem quando menos se esperam.
Os cinco homens partiram juntos.
- Sempre para Oeste.
-Subiremos primeiro para Norte e viraremos para Oeste mais acima que aqui a fronteira está muito batida.
Acender o fósforo para alumiar a bússola era um perigo necessário. Faziam-no com os corpos encostados num pequeno círculo e tentavam inventar os azimutes.
Salustiano  Pérez Román deu-se conta de ter deixado o casaco na choupana do pastor. Meteu as mãos nas mangas da camisa para evitar o frio da manhã. Tinha deixado de chover, mas os campos estavam molhados, charqueados e escuros, embora a pouco e pouco fosse clareando mesmo antes de nascer o sol. Tocou o bolso das calças e sentiu as cinco pesetas, as segundas que lhe deram com a sua liberdade.
Apenas se deram conta de entrar em Portugal quando uma patrulha da Guarda Republicana os deteve. Ficaram encolhidos como crianças, mas os guardas tranquilizaram-nos:_ Estão  em território português. Não tenham medo. Venham connosco. Que bela merda que vocês arranjaram daquele lado...
Andaram a pé, cinco, dez, quinze quilómetros e entraram numa cidade fortificada que viam pela primeira vez. Tinha um castelo, dois fortes e um aqueduto enorme, tudo de pé, sem a marca de uma bomba, nem sequer de uma rajada, nem mesmo um tiro, embora se ouvisse com espaços cada vez mais reduzidos o troar dos canhðes do outro lado. Elvas era um remoinho de gente onde a língua castelhana soava nas ruas pelo grande número de refugiados. Rotos  e mal vestidos, empobrecidos de urgência, gente que tinha perdido tudo, bens e família tragados pela guerra. Pediam pelas ruas e as pessoas davam o que tinham. Junto ao Forte da Graça, muitas mulheres se prostituíam por pão e leite. Havia crianças abandonadas desde a Rua de Alcamim até às Portas de Olivença, pedindo comida.
Salazar tentava evitar os conflitos com Franco, facilitando-lhe a vida, não só por temor, aquele velho medo de que Castela viesse pela nossa independência, mas também por ideologia, onde a Mocidade Portuguesa se saudava com o braço esticado. Por isso era um aliado não declarado. O povo não, esse dava cobertura a quem chegava, ajudava como podia e sofria pela noite quando os clarões dos canhðes se avistavam do outro lado da fronteira como uma grande tempestade no horizonte.
Havia também negociantes, de metais, estanho e urânio que através de Espanha encaminhavam para a Alemanha ou para Inglaterra, outros que faziam disparar o preço da batata, da manteiga, do açúcar e outros, que negociavam sem escrúpulos, tendo já sido embebidos pela total falta de respeito pelos valores da vida humana.
Duzentos escudos custava uma noite numa cave com transporte incluído, de madrugada, para Lisboa. Os companheiros de Salustiano Pérez Román aderiram e dormiram toda a noite, abrigados e sem medos, sonhando com Lisboa e com os barcos que saiam para países onde irmãos se não matavam entre si. Apenas com cinco pesetas no bolso, o sargento desiludido, dormiu ao relento, no portal da Câmara Municipal. O seu destino era Portalegre, concretamente a Ribeira de Nisa, onde o esperava a mulher, Patrocínio, com dupla nacionalidade como ele, grávida de três meses, refugiada graças a uma ordem do cônsul argentino, em casa de familiares, esperando que um dia, lhe aparecesse o marido, mesmo que numa manhã de nevoeiro.
Sentava-se ao fim do dia num tronco de madeira, a barriga cheia apoiada nos joelhos, olhando para o Oriente e o mesmo fazia pela manhã, antes de ajudar a família a tratar do gado e a domesticar o campo.

(...)

 Tinha nome de carne de fumeiro, mas toda a gente lhe chamava Morcela, alguns por Senhor Morcela, desconhecendo que era alcunha.
Morcela tinha comprado a camioneta ao rei do ferro velho de Portalegre, o Senhor Joaquim Antunes, homem que fez fortuna com as velharias, entre elas estanho e chumbo, de todas as origens, mesmo de urnas levantadas em cemitérios, às vezes com algum dente ou cabelo, tudo derretido por igual na fundição clandestina do Seixal a quem o Sr. Joaquim vendia a sucata.
A camioneta tinha sido dada de baixa pelo exército português, praticamente sem andar, mas foi reparada pelas mãos de Morcela, que a levou para Elvas e fez dela modo de vida.
Eram cinco horas da manhã e estava já parada à porta da cave onde dormiam a sono solto, trinta homens em paz.
Os duzentos escudos, tinham já sido pagos a Morcela, que lhe dera as tarimbas, as mantas e o descanso de uma noite tranquila.
Começou a acordá-los às cinco e trinta.
- Vamos, temos muitos quilómetros para andar.
Alegres se levantaram os trinta refugiados, para o seu último destino, Lisboa, a porta da vastidão dos oceanos e caminhos para outros mundos.
Com dois bancos corridos na caixa traseira, os homens sentaram-se frente a frente. Morcela passou-lhe por cima o toldo de lona e fechou-o com cordel.
Quando o ruidoso motor começou a funcionar, os homens sentiram o prazer da liberdade, todos aplaudiram quando o camião se pôs em marcha.
Maus amortecedores, faziam os homens saltar dos assentos entre risos de carrossel.
Sentiam as curvas apertadas que os faziam tombar de lado a lado e transformavam o desconforto em festa.
Não tinham passado quarenta minutos, o camião parou.
Ouviram vozes e abriu-se a lona.
Estavam dentro da praça de touros de Badajoz onde foram fuzilados trinta minutos depois.
Morcela puxou do bloco e como um merceeiro em final de dia, apurou o ganho. Meteu-se no camião, para regressar a Elvas, e rebatendo a consciência com seis contos no bolso, pensou enquanto metia a primeira e fazia o ponto de embraiagem:

- Bem, trinta vermelhos a menos.



In A Mulher do Sargento Espanhol
Aragonez Marques
(A publicar em breve)


miércoles, 26 de febrero de 2014

CRÓNICA DE FEVEREIRO / JORNAL FONTE NOVA / ESTA MALTA PISGA-SE...




ESTA MALTA PISGA-SE…

Preocupam-nos hoje os jovens, como certamente preocupámos os nossos pais, embora tivéssemos um caminho mais fácil, cujo fim nos recompensava mais cedo ou mais tarde dos passos que se iam dando. Hoje vemo-los ir e parece-me, que foi pensado este roubo de futuro pela mão da Europa, e quem sabe, já não digo nada, se os Erasmus não fazem parte deste plano conivente, deste paguem-lhes a formação, que nós agradecemos a sua rentabilidade. Nesta sociedade não gerida por pessoas de bem, acabamos por ser obrigados a andar com a pulga atrás da orelha, e a desconfiança em quem deveríamos confiar, é generalizada transversalmente a todas as classes (porque as há), profissões (cada vez menos), amigos ( poucos cada vez mais) e idades (cada vez mais rápidas a passar). Depois, numa confusão brutal olhamos e exageramos o medo de praxes, como se todos os jovens fossem “Duxes” e todos, sem excepção, tivessem dinheiro para pagar propinas e ainda lhes sobrasse para trajes académicos. Agora o que sinto e me entristece e assusta é dar-me conta, dia a dia, que estes meninos do governo, parafraseando Lobo Antunes, são os filhos da geração que fugiu para o Brasil ou perdeu as mordomias de África. Estudaram lá fora ou em colégios privados classistas, vendo Abril como o mal dos seus progenitores e hoje, sem a mais punheteira ideia, em plano de ajuste de contas, mesmo vingativas e sujas contra todas as conquistas que outros pais da geração dos seus conseguiram, com muita coragem, para os seus filhos (julgavam), aproveitam o poder que lhes colocaram nas mãos infantis, mas cruéis. Vinga-se a Alemanha da Europa através desta juventude, filha da direita órfã da ditadura. Cobram através dos netos de Salazar, dos netos de Franco, e se o conseguirem, baterão também na França das ideias e da resistência, na Itália da boémia e do romantismo, na Irlanda que disse não e da Grécia, que morderam e não largam, raiz de uma civilização organizada, onde o latim e o grego, não são línguas mortas, mas apenas adormecidas.
Talvez por tudo isto, esta crónica do mês, se vire para realçar um grupo de jovens, daqueles que ainda se entregam à vontade de mudar o mundo, nem que seja, o pequeno mundo onde vivem.
Entregaram-nos uma peça em branco de um puzzle, uma por sala, várias por escola e pediram-nos que as crianças as pintassem com imaginação.
 O tema;  Amor.
Depois de pintadas, por meninos e meninas de todas as escolas de Campo Maior as peças foram entregues na Biblioteca Municipal.
Um autocarro da Câmara foi buscar-nos à escola no dia 14, e ao chegarmos à Biblioteca, a surpresa esperava-nos.
As peças, num profundo e lógico sentido formavam um grande coração que era em si mesmo o cenário do teatro com que a Ana Diabinho, a Paula Rodrigues, a Fátima Gaminha, a Diana Rabaça, a Andreia Carvalho, o José Marchã, o Rui Candeias e a Sónia Ribeiro nos presentearam oferecendo-nos ainda como cereja no cimo do bolo, um bailado, onde a elegância e a graça estética da Rita Antunes, deslizando em pontas nas suas sapatilhas de muitas horas de trabalho, nos enterneceram.
Quis saber o nome destes jovens, que a Câmara aproveita como recurso local e o fotógrafo, o Pedro Nicolau, mostrando a sua cumplicidade, ainda durante a tarde me enviou os nomes e uma série de fotografias.
Senhora Vereadora da Cultura Isabel Raminhas, você tem muita sorte de contar com esta rapaziada e muito mérito por nos deixar sentir que a juventude está viva e muito distante das águas do Meco.
Sinto-me na obrigação de agradecer, do alto da minha escola embrenhada nas metas e objectivos das cargas de matemática e linguística formal, formatizada por acordos de ortografia obrigatórios, ameaçada por exames e avaliações destruidoras do trabalho em grupo, no privilégio (dizem) da individualização, da competitividade, espaço cinzento e sem brilho, sem gosto e sem festa, por nos terem oferecido aquilo que falta à escola actual: Arte, Criatividade e Amor.
Acarinhemos estes jovens, últimos filhos de uma escola hoje amordaçada e apenas com meia dúzia de resistentes. Se o não fizermos, partirão, num misto de duas canções de Zeca Afonso, eles comem tudo e ei-los que partem, e mesmo que o ultimo a sair não apague a luz, não importa, já estará tudo às escuras como a cegueira de Saramago.
Eles pisgam-se, e que autoridade moral temos nós, permissores desta invasão de assaltantes do país, observadores impávidos e serenos, imóveis, silenciosos, acomodados, sentados como a nêspera da cadeira do poeta, esperando ser comida, cagados de medo, para vergonha dos nossos egrégios avós, contra os canhões marchar, marchar, para lhes dizermos que o não façam?
Esta malta pisga-se… e só ficaremos os cotas, sem reformas e sem filhos.
Se não acariciarmos estes putos grandes, para que pelo menos regressem, restam-nos os bancos do jardim.



sábado, 22 de febrero de 2014

ADIADO PARA MAIO / CULTURA À SOLTA EM CAMPO MAIOR

Depois de reunião de dia 24 com a Câmara Municipal de Campo Maior, foi decidido o Mês de Maio para a realização do encontro, ficando o dia dependente dos escritores e do músico participante. 
Podemos adiantar a exposição a realizar em paralelo de aguarelas do pintor César Caldeira.
Logo que esteja concertada a data, serão dadas notícias e divulgado o programa..
Vai ser, assim se espera, uma noite cultural mágica e em família.


 Noite de letras e música em Campo Maior, com a presença do escritor Rui Cardoso Martins
que apresentará uma conferência sobre: O Amor na Literatura




Aragonez Marques que fará a última apresentação pública do livro
 "Retratos de Gente em Procissão" orientando a tertúlia para a memória da região nas décadas de 70/80.






O músico Dio e outra figura do meio artístico,(ainda nao confirmado), tocarão músicas da década de 70/80




 Mais notícias muito em breve...