viernes, 10 de abril de 2015

UNHAS, CORTA-UNHAS. POLÍCIAS E LADRỔES




Sei exactamente a data em que as unhas dos pés começaram a crescer descontroladamente, porque passava na rua a manifestação dos desempregados da fábrica de aspiradores, fechada sem aviso prévio a 14 de Fevereiro, precisamente o dia em que deixei cair o corta-unhas do quinto para o parapeito do segundo andar, onde Dona Rogélia, entre vozes e cabeça virada para cima tentava descobrir de onde caíra aquela testemunha das unhas que mensalmente, lhe caiam sobre a roupa estendida.

Eu, encolhido rapidamente para dentro evitando a denúncia, pensava tristemente como iria estar nesse jantar, com as mãos aparadas, mas com os pés interrompidos pela trágica queda do corta-unhas, depois do investimento feito nas rosas vermelhas, graças à ajuda de um santo chamado Valentim, que me colocaria sentado frente a frente com a mulher mais fascinante que conhecera até esse dia.

Convidara-a para uma ceia romântica, onde com as poupanças de uma catrefada de meses lhe iria pedir, anel de brilhantes em caixinha aberta, que passasse o resto da sua vida comigo.

Comprara nos novos armazéns da cidade, teia colorida de mil luzes e cores propositadamente atractivas, um não menos atractivo fato às riscas, teia propositada também, com colete, uma gravata e uma camisa branca que desse saída ao único que tinha, uns botões de punho de ouro branco, tirados depois do velório e antes de baixar à terra, dos pulsos do meu avô paterno que para onde ia não lhe fariam falta, visto que cá, apenas os tinha usado três vezes durante os noventa e dois anos que andou de pé, mais os nove meses de gateio e os quatro de colo e mama, que se lembrasse, e uma que jamais se lembraria. No dia do casamento, no baptizo do primeiro filho, quando o neto fez o exame da quarta-classe e agora ali, naquela cama com paredes de madeira próximas e tecto baixo que o levariam a não recordar esse último pormenor.

Quando ela entrou, sentiu que a sua vida mudaria a partir desse dia e quando o empregado de casaquinho branco e lacinho preto no pescoço acendeu a vela da mesa, sentiu que os seus dedos, olhos e restantes instrumentos dos sentidos, iam embrulhados naquela luz que lhe emoldurava o rosto, a afagava com brilho e fazia realçar o vermelho vivo dos lábios que seriam dele para sempre.

Saíram do restaurante, ignoraram as outras festas de corações da cidade e meteram-se na cama do seu quinto-andar.

Foi aí, que duas dores fortes nos dois dedos gordos dos pés, o fizeram estremecer.

Tentou escondê-los quando notou que as unhas começaram a crescer desordenadamente.

Furavam os lençóis e atordoado viu como uma delas, lhe aparecia desafiante depois de cruzar os cobertores, na parte superior da colcha. Tentou mover-se, mas era já impossível. O braço que repousava sobre o corpo da sua amada, era uma armadilha, uma prisão, fechada pelas unhas da mão que tinham crescido e se cravavam no colchão, se enrolavam nas molas e tiveram a ousadia de ter perfurado a tábua que sustentava o peso da horizontalidade das comodidades do descanso. A do dedo mínimo, tocava mesmo o chão, começando como raiz fascicular a desenvolver-se espalmada no solo e tentando mesmo introduzir-se no sobrado de madeira. Tinham entretanto já aflorado as unhas dos pés na parte superior dos cobertores e enrolavam-se como vides nos florões forjados e nas colunas finas da cama de ferro.

Suava e a ânsia fazia-me dificultar a respiração. Pedia a Deus, aos anjos e santos que ela não despertasse e as minhas extremidades, alongavam-se por todo o quarto tendo a única pessoa que o sabia, aprisionada, apavorada, silenciosa pela vergonha e imobilizada pela incapacidade de qualquer movimento. Eu próprio. Numa angústia e numa incapacidade de resolução que me retirava qualquer veleidade de vislumbrar, mesmo que em pensamento, uma solução para tamanho problema, muito mais quando reparei que uma unha já grossa como caule resistente, se tinha espetado furiosamente no candeeiro do tecto, e abafado com o seu rápido enrolamento, o artefacto, rompendo lâmpadas e mergulhando o quarto numa escuridão total.

Quatro, cinco estrondos, que de início julguei vindos da manifestação de desempregados da fábrica dos aspiradores que gritavam na rua em protesto contra as minhas unhas, que só aí entendi serem as responsáveis por aquela falência que atirou para o desemprego, todos aqueles empregados com mulher e filhos.

Julguei serem bombas, agora que o terrorismo estava tão em voga, mas não, batiam à minha porta, com força.

Lembrei-me de quando brincava na rua aos polícias e ladrões, às pistolas e às ordens claras.

Olhei as mãos, os pés, o candeeiro, o colchão e beijei suavemente a mulher que tinha ao lado, não percebendo que a manifestação, as bombas e as unhas eram fruto de um pesadelo, perpétuo, que me golpeou, como qualquer bom pesadelo, realçando o medo que desde criança tinha em cortar as unhas.

Nunca ninguém acreditou que me doíam quando eram cortadas, nunca ninguém acreditou nesse momento de pânico.

Batiam à porta, com força, como as bombas que me despertaram.

Vesti o roupão calmamente, agora que tudo tinha passado.

Abri a porta, e ali estava ela, a vizinha do andar de baixo, o corta-unhas na mão como arma:

- Aqui está! Sabia que era você que me salpicava a roupa de unhas grandes, grossas e amarelas.

Apenas lhe adivinhava os lábios, dizendo, como quando a minha mãe trazia a tesoura:

- Mãos ao ar.

Perante o corta-unhas apontado ao meu peito, pela vizinha do segundo andar, levantei os braços em sinal de rendição, como o menino polícia da minha rua quando descobria o meu esconderijo de menino ladrão.

Tinha sido descoberto.
                                                                                               

                                                                          Aragonez Marques                                                                    
In SINÓNIMA E OUTROS CONTOS
... em fase de revisão...
                                                                                                             

martes, 10 de marzo de 2015

A MULHER DO SARGENTO ESPANHOL - SINOPSE


 A Mulher do Sargento Espanhol

Sinopse 
A descoberta de ossos humanos nas valas onde se enterravam os porcos durante a calamitosa Peste Suína Africana, leva-nos a descobrir uma aldeia que cresce graças a uma santa que foi enterrada viva.

Uma carta recebida da Argentina empurra-nos para uma ferida aberta pela guerra civil espanhola que influencia Portugal clandestinamente. 

Uma emigrante que limpa o pó ao "abuelo" embalsamado. 

O primeiro romance de Perón. 

Behamonde o herói aviador republicano, irmão do general Franco.

 O acidente do avião da Madeira.

Pinceladas de Buenos Aires, Açores, Mulhacén, o Vale dos Caídos, La Roca de la Sierra, mas também Arronches, Elvas, Portalegre, Ribeira de Nisa...

Cheiros de um tempo em que as criadas de servir serviam para tudo, criadas por quem serviam. 

Uma escola reprodutora do sistema com personagens que o mantinham.

Uma igreja que se cansava de manter um regime.

Personagens de loucura, Cinha Cinhona, o Engoletudo, Paulo Macedónia, o primo Júlio, o padre Cabral, a Dona Antónia, o Zé da Coelha, Papafina de Jesus, o Ventoinha, o Zarolho, o Espanhol, Salazar o Cigano, Patrocínio Marques casada com Salustiano Perez Román, o sargento e muitas outras, que se cruzaram, se tocaram mas não se encontraram. 

Um romance vertiginoso onde se cruzam tempos e memórias e onde a mulher, nua e crua, é central no desenrolar das histórias que se contam e em que nunca aparece.

A Mulher do Sargento Espanhol 
é ficção pura, marioneta nos dedos da realidade.

A Mulher do Sargento Espanhol 
é um livro para quem gosta de se perder no passar ritmado das páginas, uma aventura de leitura, um tambor tocado pelo destino.


A Mulher do Sargento Espanhol
Terminado e pronto para edição.                                                       
A.M.

sábado, 7 de marzo de 2015

8 DE MARÇO - DIA INTERNACIONAL DA MULHER - CALÇADA DE CARRICHE


Luísa sobe, 

sobe a calçada, 
sobe e não pode 
que vai cansada. 
Sobe, Luísa, 
Luísa, sobe, 
sobe que sobe 
sobe a calçada.


Saiu de casa 
de madrugada; 
regressa a casa 
é já noite fechada. 
Na mão grosseira, 
de pele queimada, 
leva a lancheira 
desengonçada. 
Anda, Luísa, 
Luísa, sobe, 
sobe que sobe, 
sobe a calçada.

Luísa é nova, 
desenxovalhada, 
tem perna gorda, 
bem torneada. 
Ferve-lhe o sangue 
de afogueada; 
saltam-lhe os peitos 
na caminhada. 
Anda, Luísa. 
Luísa, sobe, 
sobe que sobe, 
sobe a calçada.

Passam magalas, 
rapaziada, 
palpam-lhe as coxas, 
não dá por nada. 
Anda, Luísa, 
Luísa, sobe, 
sobe que sobe, 
sobe a calçada.

Chegou a casa 
não disse nada. 
Pegou na filha, 
deu-lhe a mamada; 
bebeu da sopa 
numa golada; 
lavou a loiça, 
varreu a escada; 
deu jeito à casa 
desarranjada; 
coseu a roupa 
já remendada; 
despiu-se à pressa, 
desinteressada; 
caiu na cama 
de uma assentada; 
chegou o homem, 
viu-a deitada; 
serviu-se dela, 
não deu por nada. 
Anda, Luísa. 
Luísa, sobe, 
sobe que sobe, 
sobe a calçada.

Na manhã débil, 
sem alvorada, 
salta da cama, 
desembestada; 
puxa da filha, 
dá-lhe a mamada; 
veste-se à pressa, 
desengonçada; 
anda, ciranda, 
desaustinada; 
range o soalho 
a cada passada; 
salta para a rua, 
corre açodada, 
galga o passeio, 
desce a calçada, 
desce a calçada, 
chega à oficina 
à hora marcada, 
puxa que puxa, 
larga que larga, 
puxa que puxa, 
larga que larga, 
puxa que puxa, 
larga que larga, 
puxa que puxa, 
larga que larga; 
toca a sineta 
na hora aprazada, 
corre à cantina, 
volta à toada, 
puxa que puxa, 
larga que larga, 
puxa que puxa, 
larga que larga, 
puxa que puxa, 
larga que larga. 
Regressa a casa 
é já noite fechada. 
Luísa arqueja 
pela calçada. 
Anda, Luísa, 
Luísa, sobe, 
sobe que sobe, 
sobe a calçada, 
sobe que sobe, 
sobe a calçada, 
sobe que sobe, 
sobe a calçada. 
Anda, Luísa, 
Luísa, sobe, 
sobe que sobe, 
sobe a calçada.

ANTÓNIO GEDEÃO, em "Teatro do Mundo"
Obrigada! Sempre!
Cedido generosamente por 
Cristina Carvalho
(Escritora e filha do poeta)


  1. António Gedeão
    Poeta
  2. António Gedeão fue un poeta, ensayista y dramaturgo portugués, que también publicó diversas obras científicas. Sus poesías más conocidas son Pedra Filosofal y Lágrima de Preta. Wikipedia
  3. Fecha de nacimiento24 de noviembre de 1906
  4. Fecha de la muerte19 de febrero de 1997

lunes, 9 de febrero de 2015

A MULHER DO SARGENTO ESPANHOL


Tinha mesmo que ser. 
Precisava de o acabar antes de partir. 
Dois anos de trabalho finalmente concluído. 
Quando termino um livro, sinto um vazio. 
É como deixar alguém que anda comigo há muito tempo. 
Agora está livre de mim e procura editora. 
Eu vou descansar.

sábado, 20 de diciembre de 2014

UM ADEUS PELA RÁDIO ÀS GENTES DA GENTE DA MINHA TERRA


Dia 27 de Dezembro, 2 horas com vocês na Rádio da minha terra. 

Uma forma que aceitei também, para me despedir de todos/as. 


Um grande abraço para leitores/as e amigos/as.
Para a Rádio Portalegre um obrigado pelo convite e votos de um excelente trabalho informativo nos próximos anos que se adivinham difíceis, mas possíveis, no grande desafio de devolver a Cidade ao lugar que sempre ocupou, no panorama agregador e imagem de um Distrito, que Lisboa tem condenado violentamente ao isolamento.

(...)

domingo, 16 de noviembre de 2014

Imersão Linguística / "A música como recurso pedagógico na aprendizagem idiomática" / Elvas 15-16 Novembro


Mais um grupo de professores em Espanha, de Língua e Cultura Portuguesa, em actividade organizada pelo Cpr (Centro de professores e recursos) de Badajoz, no âmbito do projecto europeu Realce, estiveram em Elvas numa Imersão Linguística. Mais uma vez, os professores Nuno Borba e Dario Guerreiro trouxeram a Elvas esta iniciativa. Estive presente, dia 16 no Hotel São João de Deus, para mais uma colaboração, desta vez desenvolvendo o tema "A música como recurso pedagógico na aprendizagem idiomática" . Vale a pena colaborar com quem tanto faz pela nossa língua fora deste país.














jueves, 13 de noviembre de 2014

A TORTILHA DE BATATA - Clarinha


Estou irritadíssima, imaginem vocês, que os fotógrafos, que eram dois, um que meteu um palco com flores de papel e outro que carregava no botão da máquina, foram hoje à minha escola, e embora a minha mae pagasse onze euros pelas fotografias, mais um do que no ano passado, algumas com calendário, eles é que decidiram como eu me sentava, não me deixando escolher o meu melhor perfil, que é o esquerdo, porque no direito tenho um biquinho numa orelha igual à do meu pai. A minha avó diz que essa orelha do meu pai é em bico porque ele era um diabrete quando era pequeno, mas ele diz que essa orelha tem um bico porque a direita é o diabo. Agora se eu não gosto do biquinho da minha orelha, tenho todo o direito de a mostrar só a quem quero, seja a direita ou a esquerda, era o que faltava, e não metê-la assim na montra do calendário que os meus avós vão ter todo o ano de 2015 colado no frigorífico como o de 2014, pois é a prenda de natal que os meus pais lhes dão desde que há fotografias na escola, já no tempo das minhas irmãs grandes era igual.
Todos os meninos e meninas tiraram fotografias, e os professores também, sozinhos e em grupo, de pé e sentados, de todas as maneiras como no casamento da minha prima Clotilde, que já está divorciada, que tirou fotografias em todo o lado, até agarrada ao telefone da sala e à cortina do quarto.
Só é pena que nem todos os meninos e meninas da minha escola possam como eu levar as fotografias para casa, porque os pais de alguns não têm dinheiro para as pagar. Eu acho mal, afinal aquilo não é um colégio como o da minha prima Leonor, com nome de princesa, que os meus tios pagam para ela lá estar porque o meu tio é médico e a minha tia é enfermeira mulher de médico e não tem mais filho nenhum. A minha é uma escola do governo e deveria ser igual para todos os que lá andamos.
A minha mae, já anda um pouco farta de eu ser assim e está sempre a dizer-me, cada vez te pareces mais com o teu pai e como ele não sairás nunca da cepa torta, e hoje quando estava a comer na mesa da cozinha e lhe ia contar o que pensava das fotografias, disse-me:
- Come e cala-te.
O meu tio gordo, irmão do meu pai, diz muitas vezes que nos temos de calar para podermos comer e dar de comer aos nossos. Também outro dia o meu pai disse que se não nos tivesse que dar de comer, a mim e à minha irmã que as outras já comem sozinhas, lhes cantaria as quarenta. Tentei que o meu pai me dissesse mais sobre os quarenta, mas ele disse-me que um dia quando eu fosse grande iria perceber, porque as crianças não têm entendimento para números tão grandes, eu apesar de tudo, descobri que há uma relação entre as palavras e os alimentos e quando na mesa da cozinha insisti com a minha mae que o euro que o senhor fotógrafo este ano leva a mais a cada menino, que não é nada, assim como o euro do senhor Costa amigo do meu pai leva aos turistas, multiplicado por mais de mil meninos e meninas que tem o agrupamento, dava para pagar as fotografias dos meninos sem dinheiro, pois os senhores professores vão ter as fotografias de borla. Aí sim, a minha mae zangou-se mesmo e já com a voz muito alta ainda conseguiu gritar:
- Cala-te, já te disse e come Clara (chamou-me Clara e não Clarinha).
Eu então calei-me e comi tudo, não fosse por causa das palavras conseguir fazer desaparecer da mesa a tortilha de batata.

CLARINHA

PS 
Esta redacção foi vitima de tentativa de censura por parte do meu pai, que me disse que as fotografias dos professores não tinham calendário. Embora saiba que não têm calendário pois ganham o mesmo que há uma data de anos atrás, esta tentativa foi inadmissível.
Clarinha.