martes, 6 de octubre de 2015

PEÇA DE TEATRO DE FANTOCHES PRODUZIDA EM TIMOR-LESTE PARA TODAS AS CRIANÇAS QUE QUISEREM BRINCAR COM ELA


NASCEMOS IGUAIS

Personagens: RUCA / BE / CAJÓ / MÃE RORRO / TIA TETE

RUCA- Olá, ando à procura da minha irmã gémea (finge que procura, nos cantos, atrás da cortina) BÉ!!! Alguém viu a Bé? (fala com o público) BÉ!!!!

(entra a Bé)

- Estou aqui, que barulheira é esta? Estou aqui.

RUCA- Onde estavas?

- Estava a lavar os pratos.

RUCA- Claro, muito bem, assim é que é, cumprindo o teu dever. Nasceste mulher tens que trabalhar, eu vou jogar à bola.

(Sai de cena a assobiar)

- E pronto, aí vai ele. Não concordo nada. É mesmo uma injustiça. Nascemos iguais. Eu levanto-me cedo para ir com a mãe buscar água, limpar a casa, olhar pelo meu irmão pequenino… e às vezes ainda lavo a roupa. O Ruca, só porque nasceu rapaz, levanta-se da cama e vai brincar com os amigos. Injusto, muito injusto. (fala com o público) É injusto, não é? Mais alto, não oiço nada. É injusto não é? Vou chamar o Ruca e dizer-lhe (chama o irmão) Ruca!!!Ruca!!! Onde é que ele anda? (procura)já ninguém sabe dele. Ruca!!!Ruca!!!

(aparece o Ruca)

RUCA- Estou aqui, já nem se pode brincar descansado. O que é que tu queres?

- O que eu quero é que logo ao jantar sejas tu a ajudar a mãe a lavar a loiça, enquanto eu vou regar as flores.

RUCA- És parva? Isso é trabalho de mulher, eu sou um rapaz!

- O quê? Os rapazes também podem lavar a loiça. Não são só as raparigas. Era o que faltava!

RUCA- O que é que estás para aí a dizer? Não nasceste rapariga? Não te queixes. Pois eu vou jogar à bola!

(Ruca sai a assobiar e Bé fica no palco)

- Como é que eu vou mudar estas cabeças velhas? (suspira)

(Fecha o pano)

II

MÃE RORRO- Olá, eu sou a Mãe da Bé e do Ruca. São gémeos, nasceram iguais, mas a Bé é uma refilona. Nunca sei onde ela está. BÉ! Bé!!

- Estou aqui minha mãe.

MÃE RORRO- Onde é que estavas? Há muita roupa para lavar, não penses que vais vadiar. Tu não és nenhum rapaz!

- Ser rapaz é que é bom. O Ruca não faz nada. É um preguiçoso.

MÃE RORRO- Caluda! O Ruca é um rapaz. Tem como dever ajudar o pai, limpar ervas, levar os animais a pastar, apanhar lenha…

- Mas eu também faço isso. Porque é que ele não pode fazer os meus trabalhos se eu faço os dele? Os trabalhos podem ser feitos por rapazes e raparigas. Trabalho é trabalho. Só isso.

MÃE RORRO- Não minha filha. A mulher cozinha, cose, está em casa e as filhas ajundam-na. Só assim é que um dia, poderás encontrar um bom rapaz que queira casar contigo.

- Bom rapaz? Que queira casar comigo? Pois eu não caso com preguiçosos! Quero estudar e ser uma boa aluna. Era o que faltava, levar uma vida a servir um homem…

(Bé, sai de cena, refilando)


MÃE RORRO - Esta minha filha tem razão. Estudando, a vida dela não será como a minha.

(Entra a Tia Tété)

TIA TETE- Ó mana, a menina tem razão e tu sabes. Porque não lhe dizes?

MÃE RORRO - Querida irmã, tenho medo, a tradição tem muita força e não quero que lhe aconteça nada de mal.

TIA TETE- De mal? Pior do que a vida que levamos? Os tempos são outros, os nossos filhos vão à escola e a escola é muito mais do que aprender a ler e a escrever. Sabes o que te digo? Deixa a garota em paz que ela já sabe mais do que nós as duas juntas. Vamos, vamos andar um pouco a pé e pelo caminho, falamos mais um bocadinho.

(Saem as duas e fecha o pano)

III

RUCA- Estou farto de tanto brincar, até estou aborrecido.

(Entra o amigo Cajó)

RUCA- Olha o Cajó, o menino moderno, onde vais?

CAJÓ- Fujo das minhas pretendentes.

RUCA- O quê? Eu não tenho nenhuma e tu foges das que tens? São muitas?

CAJÓ- Gostar só gosto de uma, mas as outras querem rapazes como eu para maridos. São meninas que estudaram. E gostam de como a minha mãe me educou. Eu sei fazer tudo.

RUCA- Tudo?! Tudo mesmo? Sabes lavar pratos e essas coisas de mulher?

CAJÓ- De mulher? Tu estás parvo pá. Qual de mulher? Trabalho é trabalho e na    família todos temos que nos ajudar e saber fazer um pouco de tudo.

RUCA- Tu ajudas a tua mãe? Só deves ajudar o teu pai. Tu és um rapaz!

CAJÓ- Ajudo quem necessita. Sei fazer tudo.

RUCA- Pratos também?

CAJÓ- E roupa e cuidar dos meus irmãos pequeninos e também cortar erva e dar de comer ao gado. Hoje já não há trabalhos de rapaz e rapariga. Todos somos iguais, e olha que elas, agora com a escola…

RUCA- Com a escola?

CAJÓ- Sim, com a escola aprendem novas coisas e lá não as ensinam a ser menos do que nós. Somos iguais. Tão iguais como tu e a tua irmã Bé.

RUCA- Pois…

CAJÓ- Como fui educado por uns pais modernos, sou também um jovem moderno por isso…

RUCA- Já sei Por isso tens muitas raparigas a querer casar contigo. A minha mãe outro dia disse-me: Filho, se todas as raparigas pensarem como a tua irmã, penso que daqui a uns anos, ninguém quer casar contigo.

CAJÓ- E tu que pensas?

(Ruca mostra uma panela)

RUCA- Casar comigo? Não querem? Ai querem querem, vou mesmo agora lavar esta panela.


(Fecha o pano)


  A.M (2015)

Sugerido por excerto da
Revista Ba Lafaek, , edisau 13,
Tinan IV- 2004                                 

domingo, 20 de septiembre de 2015

CRUZ DE PAU OU A MINHA PRIMEIRA MULHER NUA / ( Versão do conto em Português )



CRUZ DE PAU

A primeira mulher que vi nua na minha vida estava deitada numa mesa de mármore na casa mortuária do cemitério da cidade onde nasci.

Era mais branca do que a mesa, tinha os pés juntos, as unhas pintadas de cor-de-rosa e os braços colocados ao lado do corpo como se estivesse em sentido.

Os olhos fechados deixavam adivinhar pelo tom das pálpebras uma cor clara, talvez verde mais do que azul, por ser escuro o triângulo perfeitamente desenhado por baixo do ventre.

Mas era o buraquinho vermelho, por onde saíra a bala, lavado e como a marca de um beijo, que sobressaia apesar da pequenez.

 Por ele fora empurrada a vida, fria e rápida, montada na velocidade do disparo que lhe queimou as costas e arrebatou a alma quente e lenta.

Dela apenas se sabia ser mulher, entre os vinte e os trinta anos, que usava na hora da morte umas botas altas e uma saia curta, guardadas na entidade forense que decretou que se expusesse ali, e as portas fossem abertas, de duas em duas horas, para que o povo a pudesse identificar.

Eu ia pela mão do padre, director do internato onde estava, desde que o meu pai ali me deixara, depois de a minha mãe, dizem, que ainda hoje não sei bem, nos ter abandonado para ir viver com outra família, a de um homem com quatro filhos, viúvo e com carência de afectos que descobriu nos de minha mãe, assim me contaram, a solução dos problemas da sua família.

O padre levava-me pela mão, bem apertada, não fosse perder-me naquele carrossel de pessoas que andavam à volta, passo a passo, nova corrida nova viagem, observando cada traço da mulher assassinada.

Lembro-me da ponta dos seus sapatos de verniz, ora tapa que esconde, debaixo da sotaina comprida e eu, olhava para cima guiado pela fileira de botões que passando pelo colarinho branco, como uma fronteira, destapava do outro lado um rosto esguio e sorridente com uma boca que se abria e fechava e soltava sons “é bonita não é?”

Eu baixava a cabeça envergonhado e o padre apertava-me a mão com mais força.

Naquele orfanato, passei anos com agasalho e comida, com oitenta irmãos de infortúnio que compartilhavam o mesmo quarto, onde oitenta camas ordenadas, lado a lado, de ferro azul claro e colcha de pano branco, denunciavam a camarata pelo cheiro de couro e humidade que escorria, escondida, pelas paredes pintadas de cinzento.

O meu pai todos os meses me visitava e quando calhava também.

 Quando os domingos tinham sol, levava-me a lanchar, uma laranjada e um bolo de arroz, antes de me entregar aos padres e às paredes, até que me visitasse de novo, se pudesse, se juntasse, se tivesse trabalho, para a viagem de Lisboa ali.

As suas visitas, começavam muito antes de me visitar.

Soube da morte do meu pai no dia que me chamaram ao director sem ser pelo altifalante do pátio.

Tinha dezoito anos e estava a semanas de abandonar, por idade, a instituição.

O bom padre, que o tempo tinha marcado com o ritmo do nosso crescimento moveu os lábios grossos “já não sofre mais”.

Houve um período de tempo em que deixou de me visitar. 

Não sentia a falta do bolo e da laranjada nos domingos com sol, mas do cheiro do seu casaco e da rudeza das suas mãos grossas e grandes, ou as minhas eram pequenas e finas.

Diziam-me os padres que estava de viagem, que voltaria se Deus quisesse e que as minhas orações eram importantes. 

Por isso levei dias e dias soltando rezas, orações e sacrifícios.

Levei anos a rezar, à noite, ao levantar, várias vezes durante o dia, quando o cheiro do seu casaco me despertava a saudade.

Quando finalmente voltou a visitar-me estava diferente. 

Mais triste e mais calado. 

Os cabelos tinham mudado de cor e as suas mãos eram mais leves e trémulas.

Só no dia que me informaram da sua morte me disseram que a sua viagem foi feita parado, numa ilha longe de todos, numa camarata de adultos por ordem de um juiz.

Quando larguei a instituição, o velho director deu-me a chave de um quinto andar numa travessa dos arredores de Lisboa, Cruz de Pau, o nome da terra onde viveu os últimos dias. 

A casa estava em meu nome, uma conquista sua, um orgulho, duas divisões, uma cozinha e uma casa de banho, de camas enferrujadas onde iria por testamento começar a minha vida sozinho.

Deu-me dinheiro, a morada de uma fábrica onde deveria pedir trabalho e um bilhete de comboio.

Cheguei numa quarta-feira, meti a chave na porta e rodei. 

Empurrei devagar e abri o começo da minha vida adulta.

Duas camas, duas banquinhas de cabeceira, uma televisão com antena interna, um frigorífico vazio com seis garrafas vazias ao lado.

A minha casa.

Fui adulto durante vinte minutos, até que tocou a campainha e apareceu Deolinda “ Raúl? Meu menino, o teu pai falou-me muito de ti” e começou a falar-me dele, homem triste, sempre infeliz, onde eu aparecia na sua vida como vida “ se não fosse pelo menino Raul, há muito que nos tinha deixado e não só agora”.

As garrafas vazias ao lado do frigorífico eram a prova da sua infelicidade, fígado em explosão de combate à tristeza.

“Gostava muito de si, era eu que lhe cuidava da roupa, lhe limpava a casa, lhe respondia quando lhe apetecia falar.”

Deolinda era uma mulher madura, calma, os cabelos desarranjados por ter deixado de acreditar em si, mas uma ternura capaz de me olhar e de me chamar “menino”.

O seu paizinho pediu-me que lhe desse esta chave, da caixa que está em cima do guarda-fato e talvez incomodada com a barba que despontava na minha cara, reparei que passara a tratar o “menino” por você.

Nessa noite, abri a caixa.

Tinha dentro vários montinhos de cartas com laço.

O meu pai e a minha mãe tinham-se amado, num tempo, num momento.

Pela noite, tomei banho colocando em ruído os canos oxidados da casa de banho, pequena mas minha.

Sentei-me na cama, abri a gaveta da banquinha de cabeceira. 

Uma fotografia de uma mulher com um bebé ao colo, um pano de flanela verde envolvendo alguma coisa pesada e um frasco de verniz cor-de-rosa já ressequido.

Abri o pano verde como quem desembrulha um caramelo gigante e depois das voltas apareceu uma pistola negra.

Lembrei-me das pontas dos sapatos envernizados do director do meu orfanato, da sua mão apertando a minha no dia em que descobri numa mesa de mármore a primeira mulher nua que vi na minha vida.

Só então entendi que o bom sacerdote me tinha levado pela mão a despedir-me da mulher que me tinha trazido ao mundo.

Aragonez Marques

CRUZ DE PALO / CRUZ DE PAU / ( Versão em Castelhano)


La primera mujer que vi desnuda en mi vida estaba tendida en una mesa de mármol en el tanatorio del cementerio de la ciudad donde nací. Era más blanca que la mesa, tenía los pies unidos, las uñas pintadas de rosa y los brazos colocados junto al cuerpo. Los ojos cerrados dejaban adivinar, por el tono de los párpados, un color claro, más verde que azul, por ser oscuro el triángulo perfectamente dibujado bajo el vientre. Pero era el agujerito rojo, por donde había salido la bala, lavado y como la marca de un beso, el que sobresalía a pesar de su pequeñez. A través de él le había sido empujada la vida, fría y rápida, montada en la velocidad del disparo que le quemó la espalda y le arrebató el alma caliente y lenta. De ella sólo se sabía que era mujer, entre los veinte y los treinta años y que llevaba, en la hora de la muerte, unas botas altas y un vestido morado, guardados en la entidad forense que decretó que el cadáver estuviese allí expuesto y que las puertas se abrieran, cada dos horas, para que la gente lo pudiese identificar.
Yo iba de la mano del sacerdote, director del reformatorio donde estaba desde que mi padre allí me dejase, después de que mi madre, dicen, que todavía hoy no lo sé bien, nos abandonara para ir a vivir con otra familia, la de un hombre con cuatro hijos, viudo y con carencia de afectos que descubrió, en los de mi madre, la solución a los problemas de su familia.
El sacerdote me llevaba de la mano, bien apretada, para que no me perdiese en aquel carrusel de personas que andaban alrededor, paso a paso, nueva carrera, nuevo viaje, observando los trazos de la mujer asesinada.
Recuerdo la punta de sus zapatos de charol, ora asoma, ora esconde, debajo de la larga sotana que yo miraba desde abajo guiado por la hilera de botones que, pasando por el blanco alzacuello como una frontera, destapaba del otro lado un rostro enjuto y sonriente con una boca que se abría y se cerraba y soltaba sonidos “es guapa, ¿verdad?”. Yo bajaba la cabeza, avergonzado. El sacerdote me apretaba la mano con más fuerza.
En aquel reformatorio pasé años con abrigo y comida junto a otros hermanos con los que compartía la misma habitación en la que ochenta camas ordenadas, de lado a lado, de hierro de color azul claro y colcha blanca, denunciaban la caserna con un olor a botas de cuero y a la humedad que escurría, escondida, por las paredes pintadas de gris.
Mi padre venía a verme todos los meses y cuando caía, normalmente cuando los domingos tenían sol, me llevaba a merendar, una naranjada y un pastel, antes de entregarme otra vez a los curas y a las paredes hasta su próxima visita, al mes siguiente, si pudiese, si juntase, si hubiese tenido trabajo para costearse el viaje desde la capital hasta allí. Sus visitas comenzaban mucho antes de su llegada.
Supe de la muerte de mi padre el día que me llamaron al director sin ser por el altavoz del patio. Tenía dieciocho años y me quedaban semanas para abandonar, por edad, la institución. El buen sacerdote, al que el tiempo había marcado con el ritmo de nuestro crecimiento, movió los gruesos labios “ya no sufrirá más. Reza por sus pecados”.
Hubo un periodo de tiempo en el que dejó de visitarme. No sentía la falta del pastel y de la naranjada pero sí del olor de su chaqueta y de la rudeza de sus manos robustas y grandes. Los curas me decían que estaba de viaje, que volvería si era voluntad de Dios y que mis oraciones eran importantes. Por eso pasé días y días soltando rezos, oraciones y sacrificios. Me pasé años rezando por la noche, al levantarme, varias veces durante el día; siempre que el olor de su chaqueta me despertaba la añoranza.
Cuando finalmente volvió a visitarme estaba diferente, más triste y más callado. El cabello le había cambiado de color y sus  manos eran más ligeras y trémulas. Sólo el día que me informaron de su muerte me dijeron que su viaje lo había hecho parado, en una isla lejos de todos, en una celda aislada por orden de un juez.
Cuando dejé la institución, el viejo director me dio la llave de un quinto piso situado en una travesía de los alrededores de la capital. Cruz de Palo era el nombre de aquel pueblo donde mi padre vivió sus últimos días. La casa la había puesto a mi nombre, una conquista suya, un orgullo. Dos habitaciones, una cocina y un cuarto de baño de tuberías oxidadas donde empezaría, por testamento, mi vida en solitario. Junto con la llave, también me dio un poco de dinero, la dirección de una fábrica donde podía pedir trabajo y un billete de tren.
Llegué un miércoles, metí la llave en la puerta y la giré. Empujé despacio y abrí el comienzo de mi vida adulta. Una cama, dos mesillas de cabecera, un armario, una televisión con antena interna, un frigorífico vacío con seis botellas vacías junto a él… mi casa. Adulto durante veinte minutos,  hasta que sonó el timbre y apareció Angélica “¿Raúl?, mi niño, tu padre me habló mucho de ti”. Comenzó a hablarme de él, me dijo que fue un hombre triste, siempre infeliz y que yo fui lo único que apareció en su vida como vida. “De no haber sido por su niño Raúl haría ya mucho tiempo que nos habría dejado”. Las botellas vacías del frigorífico eran la prueba de su infelicidad, hígado en explosión de combate a la tristeza. “Te quería mucho. Yo le lavaba la ropa, le limpiaba la casa, le escuchaba cuando tenía ganas de hablar”.
Angélica era una mujer madura, tranquila y con el pelo descuidado, por haber dejado de creer en sí misma, pero con una ternura capaz de verme y de tratarme como a un “niño”.
“Tu papá me pidió que te diera esta llave, es de la caja que está encima del armario”.
Esa tarde, abrí la caja. Tenía dentro varios atadijos de cartas sujetos con un lazo. Mi padre y mi madre, la mujer que para mí siempre había sido un misterio, se habían amado, en un tiempo, en un momento.
Por la noche me metí en la bañera, activando el barullo de las tuberías oxidadas del cuarto de baño, pequeño pero mío.
Me senté en la cama, abrí el cajón de la mesilla. Una fotografía de una mujer con un bebé en su regazo, un paño de franela verde envolviendo algo pesado y un frasco de esmalte de uñas rosa.
Abrí el paño verde, como el que abre un caramelo gigante, y apareció una pistola negra.
Me acordé de las puntas de los zapatos brillantes del director de mi reformatorio, de su mano apretando la mía, el día en que descubrí en una mesa de mármol la primera mujer desnuda que vi en mi vida.
Sólo entonces entendí que el buen sacerdote me llevó de la mano a despedirme de la mujer que me había traído al mundo.                                     


Aragonez Marques 
2015 
(... publicado numa colectânea
de contos de escritores ibéricos
em Espanha...) 






lunes, 3 de agosto de 2015

O QUE FOSTE LÁ FAZER? - (excerto)


(…)

Como as mangas, as papaias, os cocos e as jacas, Lino Alves era fruto da ilha.

Falava português, como quem fala uma língua perdida, aos solavancos, verbos sem conjugação, vocábulos soltos, sem plural ou singular mas com o sentido da representação e o significado da imagem: _ Eu exército de Portugal. – Fazia-o com orgulho, pequenino, embrulhado numa lipa, pés escuros como o corpo, visíveis numas sandálias finas, sola invisível e leve, entaladas em dois dedos magros e limpos. 

Apontou a fotografia na parede, camuflado, outra idade, retida numa moldura que lhe avantajava o tronco, boina ao lado, bigode negro e com desenho em arco abaixo da boca – Eu exército português - Sorriu, num convite – Bebe cerveja comigo professor.

António Salvador acenou com a cabeça, segurou a lata Bintang, limpou-a bem, fez estalar a argola e Lino Alves meteu o dedo na sua. - Granada, professor - e arrancou o selo como quem despoleta uma arma, levou-a aos lábios, bebeu metade de um sôfrego, limpou os bigodes que mantinham a linha mas modificaram a cor e rematou – esta não mata - soltando depois uma gargalhada de quem estava feliz.

(…)



in O Que Foste Lá Fazer?
... em construção...

domingo, 19 de julio de 2015

O QUE FOSTE LÁ FAZER? / Um cheirinho do 4º capítulo


(...)
A Salenda é para um europeu o mais parecido a um cachecol, para um timorense, um gesto de honra, um privilégio, algo que se usa ou dá em momentos especiais. Usá-lo é um grande abraço de todo um povo e de quem é merecedor e aceite pela sua cultura.
Os professores portugueses, ainda num misto de despertar e sonho, estavam formados em fila e um a um, iam recebendo a sua salenda das mãos das crianças de uma escola de Díli, que alinhadas, tinham organizado aquela primeira recepção de boas vindas.
O dragão, continuava a lançar as suas baforadas e a fila era demorada, porque cada professor, era tocado pela emoção quando se baixava, para que o menino ou a menina lhe colocasse no pescoço aquele sinal de boas vindas com o coração aberto.
Carlos Novais, lenço na mão pronto a ser espremido, avançava passo a passo debaixo de um sol intenso, passava-o pela testa, pelos braços nus e metia as mãos entre o corpo e a camisa para a desagarrar da pele que a aspirava com suor.
Incómodo.
Quem o mandara ir para aí com aquele peso? Sentia-se em sacrifício e pensava que o primeiro a fazer era vencer aquele clima que lhe diminuía o oxigénio que respirava.
Avançava, lento, a colega da frente abanava-se com o folheto do programa e ele ali em passinhos de vinte centímetros.
Faltam ainda dezasseis, pausa, passinho, quinze, pausa, passinho, catorze…
Faltavam exactamente três professores e quatro passinhos quando ouviu o que os meninos diziam quando colocavam a salenda nos ombros dos professores, baixinho, como que envergonhados:
- Bem-vindo a Timor-Leste.
Estava quase.
Dois, a seguir era ele e depois, fugir dali, procurar uma sombra, uma cerveja, fugir, desaparecer, esconder-se num sítio escuro, numa gruta onde fosse proibida a entrada do sol e talvez por isso se surpreendeu, que o sol, com um sorriso tímido, lhe tocasse o corpo e estivesse ali, à sua frente, na cara daquela menina que lhe colocava nos ombros a responsabilidade da sua salenda enquanto soltava a frase mágica:
- Bem-vindo a Timor-Leste.
Carlos Novais arrependeu-se de ter tentado fugir, puxou a menina, deu-lhe um beijinho, agradeceu e perguntou-lhe:
- Como te chamas?
A menina olhando para ele respondeu:
- Bem-vindo a Timor-Leste.
Novais pensou, coitadinha, não entendeu:
- Não é isso filha, quero saber o teu nome, o meu é Carlos e o teu?
- Bem-vindo a Timor-Leste.
- O teu nome, como te chamas?
- Bem-vindo a Timor-Leste.
A menina ficou apavorada perante aquela alteração do guião, isso não estava no papel, era meter a salenda e pronto, logo a ela lhe havia de ter calhado aquele professor gordo e chato que inventava coisas que não estavam escritas em lado nenhum.
 Desviou o olhar de surpresa, passou-o para os companheiros que com outras salendas nas mãos aguardavam os professores que transpiravam atrás daquele e repetiu, desta vez pausadamente para ver se aquele idiota percebia de vez:
- Bem-vindo (pausa) a Timor-Leste.
Carlos Novais sorriu:
- Eu entendi queridinha, só quero saber o teu nome - insistiu Carlos – o teu nome amiguinha…
Fixou-o.
Carlos sentiu que com os olhos lhe dizia “ Vai-te embora daqui pá! Desampara-me a loja! Olha o que me saiu na rifa! Então não querem ver este?” apesar de tudo dignamente dizia-lhe, agora de uma forma clara, sílaba acentuada e lisa:
- Bem-vindo a Timor-Leste!
Nesse mesmo instante, Carlos Novais afagou-lhe a cabeça, ajeitou a sua salenda e deu o lugar ao colega de trás.
A menina respirou aliviada.
Só aí se deu conta do peso enorme da responsabilidade que essa salenda lhe transmitia, a responsabilidade de fazer renascer a língua portuguesa, proibida durante uma geração, perseguida à ponta de catana e metralha, sofrimento e luto, tirada à força da história, e esse ano, o ano em que recebera a sua salenda, era aquele em que se celebravam os quinhentos anos da chegada dos primeiros portugueses a Timor.
Sentindo o enorme trabalho que tinha pela frente, Carlos Novais juntou-se aos companheiros, anichados debaixo do alpendre, assistindo à dança da cultura timorense que outras crianças tinham preparado para eles.
Carlos Novais sentiu-se pela primeira vez na sua vida a fazer parte da história, que parecia que o tinha posto na fila de propósito, pedindo-lhe ajuda e colocando também nas suas mãos uma pequena parte, para que pudesse continuar a ser contada com orgulho, o orgulho de ser língua, afago de pátrias, espalhadas pelos mares, pelos ventos e pelas estrelas.
Carlos Novais fechou os olhos e no meio daquele momento tão nobre, ficou surpreendido consigo, lenço ensopado nas mãos, pois quando os abriu, em vez de pensar em hinos e bandeiras, estátuas, monumentos e glórias tão apropriadas aos egrégios avós dos seus pensamentos, apenas lhe veio à mente “tenho que emagrecer”.
Por Deus, que falta de oportunidade histórica para uma frase a ser registada nos anais.
Sorriu, só esperava que o destino histórico se não tivesse enganado ao colocá-lo naquela fila.
“Tenho que emagrecer”, que pobreza de pensamento e pior se sentiu quando o segundo, a outra oportunidade que podia ainda ter aproveitado foi:
- Tenho fome.
Deu-se conta de o ter dito em voz alta, porque uma senhora ao seu lado, pertencente à organização lhe respondeu:
- Isto está quase a acabar.
(...)

in O que foste lá fazer?
... em construção...                                                                     




lunes, 29 de junio de 2015

CRUZ DE PALO / CRUZ DE PAU


La primera mujer que vi desnuda en mi vida estaba tendida en una mesa de mármol en el tanatorio del cementerio de la ciudad donde nací. Era más blanca que la mesa, tenía los pies unidos, las uñas pintadas de rosa y los brazos colocados junto al cuerpo. Los ojos cerrados dejaban adivinar, por el tono de los párpados, un color claro, más verde que azul, por ser oscuro el triángulo perfectamente dibujado bajo el vientre. Pero era el agujerito rojo, por donde había salido la bala, lavado y como la marca de un beso, el que sobresalía a pesar de su pequeñez. A través de él le había sido empujada la vida, fría y rápida, montada en la velocidad del disparo que le quemó la espalda y le arrebató el alma caliente y lenta. De ella sólo se sabía que era mujer, entre los veinte y los treinta años y que llevaba, en la hora de la muerte, unas botas altas y un vestido morado, guardados en la entidad forense que decretó que el cadáver estuviese allí expuesto y que las puertas se abrieran, cada dos horas, para que la gente lo pudiese identificar.
Yo iba de la mano del sacerdote, director del reformatorio donde estaba desde que mi padre allí me dejase, después de que mi madre, dicen, que todavía hoy no lo sé bien, nos abandonara para ir a vivir con otra familia, la de un hombre con cuatro hijos, viudo y con carencia de afectos que descubrió, en los de mi madre, la solución a los problemas de su familia.
El sacerdote me llevaba de la mano, bien apretada, para que no me perdiese en aquel carrusel de personas que andaban alrededor, paso a paso, nueva carrera, nuevo viaje, observando los trazos de la mujer asesinada.
Recuerdo la punta de sus zapatos de charol, ora asoma, ora esconde, debajo de la larga sotana que yo miraba desde abajo guiado por la hilera de botones que, pasando por el blanco alzacuello como una frontera, destapaba del otro lado un rostro enjuto y sonriente con una boca que se abría y se cerraba y soltaba sonidos “es guapa, ¿verdad?”. Yo bajaba la cabeza, avergonzado. El sacerdote me apretaba la mano con más fuerza.
En aquel reformatorio pasé años con abrigo y comida junto a otros hermanos con los que compartía la misma habitación en la que ochenta camas ordenadas, de lado a lado, de hierro de color azul claro y colcha blanca, denunciaban la caserna con un olor a botas de cuero y a la humedad que escurría, escondida, por las paredes pintadas de gris.
Mi padre venía a verme todos los meses y cuando caía, normalmente cuando los domingos tenían sol, me llevaba a merendar, una naranjada y un pastel, antes de entregarme otra vez a los curas y a las paredes hasta su próxima visita, al mes siguiente, si pudiese, si juntase, si hubiese tenido trabajo para costearse el viaje desde la capital hasta allí. Sus visitas comenzaban mucho antes de su llegada.
Supe de la muerte de mi padre el día que me llamaron al director sin ser por el altavoz del patio. Tenía dieciocho años y me quedaban semanas para abandonar, por edad, la institución. El buen sacerdote, al que el tiempo había marcado con el ritmo de nuestro crecimiento, movió los gruesos labios “ya no sufrirá más. Reza por sus pecados”.
Hubo un periodo de tiempo en el que dejó de visitarme. No sentía la falta del pastel y de la naranjada pero sí del olor de su chaqueta y de la rudeza de sus manos robustas y grandes. Los curas me decían que estaba de viaje, que volvería si era voluntad de Dios y que mis oraciones eran importantes. Por eso pasé días y días soltando rezos, oraciones y sacrificios. Me pasé años rezando por la noche, al levantarme, varias veces durante el día; siempre que el olor de su chaqueta me despertaba la añoranza.
Cuando finalmente volvió a visitarme estaba diferente, más triste y más callado. El cabello le había cambiado de color y sus  manos eran más ligeras y trémulas. Sólo el día que me informaron de su muerte me dijeron que su viaje lo había hecho parado, en una isla lejos de todos, en una celda aislada por orden de un juez.
Cuando dejé la institución, el viejo director me dio la llave de un quinto piso situado en una travesía de los alrededores de la capital. Cruz de Palo era el nombre de aquel pueblo donde mi padre vivió sus últimos días. La casa la había puesto a mi nombre, una conquista suya, un orgullo. Dos habitaciones, una cocina y un cuarto de baño de tuberías oxidadas donde empezaría, por testamento, mi vida en solitario. Junto con la llave, también me dio un poco de dinero, la dirección de una fábrica donde podía pedir trabajo y un billete de tren.
Llegué un miércoles, metí la llave en la puerta y la giré. Empujé despacio y abrí el comienzo de mi vida adulta. Una cama, dos mesillas de cabecera, un armario, una televisión con antena interna, un frigorífico vacío con seis botellas vacías junto a él… mi casa. Adulto durante veinte minutos,  hasta que sonó el timbre y apareció Angélica “¿Raúl?, mi niño, tu padre me habló mucho de ti”. Comenzó a hablarme de él, me dijo que fue un hombre triste, siempre infeliz y que yo fui lo único que apareció en su vida como vida. “De no haber sido por su niño Raúl haría ya mucho tiempo que nos habría dejado”. Las botellas vacías del frigorífico eran la prueba de su infelicidad, hígado en explosión de combate a la tristeza. “Te quería mucho. Yo le lavaba la ropa, le limpiaba la casa, le escuchaba cuando tenía ganas de hablar”.
Angélica era una mujer madura, tranquila y con el pelo descuidado, por haber dejado de creer en sí misma, pero con una ternura capaz de verme y de tratarme como a un “niño”.
“Tu papá me pidió que te diera esta llave, es de la caja que está encima del armario”.
Esa tarde, abrí la caja. Tenía dentro varios atadijos de cartas sujetos con un lazo. Mi padre y mi madre, la mujer que para mí siempre había sido un misterio, se habían amado, en un tiempo, en un momento.
Por la noche me metí en la bañera, activando el barullo de las tuberías oxidadas del cuarto de baño, pequeño pero mío.
Me senté en la cama, abrí el cajón de la mesilla. Una fotografía de una mujer con un bebé en su regazo, un paño de franela verde envolviendo algo pesado y un frasco de esmalte de uñas rosa.
Abrí el paño verde, como el que abre un caramelo gigante, y apareció una pistola negra.
Me acordé de las puntas de los zapatos brillantes del director de mi reformatorio, de su mano apretando la mía, el día en que descubrí en una mesa de mármol la primera mujer desnuda que vi en mi vida.
Sólo entonces entendí que el buen sacerdote me llevó de la mano a despedirme de la mujer que me había traído al mundo.                                     


Aragonez Marques 
2015 
(... a ser publicado numa colectânea
de contos de escritores ibéricos
em Espanha...) 

viernes, 12 de junio de 2015

O QUE FOSTE LÁ FAZER?



Ficaram em baixo, mãos no alto acenando e reprimindo o choro. É a última imagem que Carlos Novais recorda da família.


Levantou-se e entrou numa casa de banho minúscula, inventada para caber ali. Sentou-se apertado na sanita e ficou, olhar na portinha, mesmo na frente, sozinho, meio perdido nos balanços. Puxou o autoclismo e caiu-lhe na frente uma mesa de mudar fraldas. Não deveria ser aquele o botão. Fechou-a. Olhou para o lado e viu-se gigante num espelho de lavatório que o surpreendeu pela proximidade. Que fazes tu aqui? E começou a rir à gargalhada. De repente parou. Encostou as duas mãos ao espelho ficando a imagem no meio, como um abraço limitado por incompleto. Uma tristeza apertou-lhe o peito, com dentes que mordiam, por dentro. Não conteve o choro alto que se misturava com o forte ruído de fundo. Só nesse instante se deu conta, que tinha sobrevoado o Egipto e rumava a Timor Leste a oito mil pés de altitude. Bateram à porta, disseram-lhe em inglês que havia turbulência e tinha que sair. Abriu a portinha estreita e a hospedeira, habituada tanto a lágrimas como a risos, mandou-o sentar e apertar o cinto. Acompanhou-o ao lugar, confirmou se o cinto estava bem colocado, e tocou-lhe o ombro. Aquele toque, sentiu-o como uma carícia de toda a gente que amava e tinha deixado, a caminho do desconhecido.

(...)

In O Que Foste lá Fazer?
... em construção...

viernes, 10 de abril de 2015

UNHAS, CORTA-UNHAS. POLÍCIAS E LADRỔES




Sei exactamente a data em que as unhas dos pés começaram a crescer descontroladamente, porque passava na rua a manifestação dos desempregados da fábrica de aspiradores, fechada sem aviso prévio a 14 de Fevereiro, precisamente o dia em que deixei cair o corta-unhas do quinto para o parapeito do segundo andar, onde Dona Rogélia, entre vozes e cabeça virada para cima tentava descobrir de onde caíra aquela testemunha das unhas que mensalmente, lhe caiam sobre a roupa estendida.

Eu, encolhido rapidamente para dentro evitando a denúncia, pensava tristemente como iria estar nesse jantar, com as mãos aparadas, mas com os pés interrompidos pela trágica queda do corta-unhas, depois do investimento feito nas rosas vermelhas, graças à ajuda de um santo chamado Valentim, que me colocaria sentado frente a frente com a mulher mais fascinante que conhecera até esse dia.

Convidara-a para uma ceia romântica, onde com as poupanças de uma catrefada de meses lhe iria pedir, anel de brilhantes em caixinha aberta, que passasse o resto da sua vida comigo.

Comprara nos novos armazéns da cidade, teia colorida de mil luzes e cores propositadamente atractivas, um não menos atractivo fato às riscas, teia propositada também, com colete, uma gravata e uma camisa branca que desse saída ao único que tinha, uns botões de punho de ouro branco, tirados depois do velório e antes de baixar à terra, dos pulsos do meu avô paterno que para onde ia não lhe fariam falta, visto que cá, apenas os tinha usado três vezes durante os noventa e dois anos que andou de pé, mais os nove meses de gateio e os quatro de colo e mama, que se lembrasse, e uma que jamais se lembraria. No dia do casamento, no baptizo do primeiro filho, quando o neto fez o exame da quarta-classe e agora ali, naquela cama com paredes de madeira próximas e tecto baixo que o levariam a não recordar esse último pormenor.

Quando ela entrou, sentiu que a sua vida mudaria a partir desse dia e quando o empregado de casaquinho branco e lacinho preto no pescoço acendeu a vela da mesa, sentiu que os seus dedos, olhos e restantes instrumentos dos sentidos, iam embrulhados naquela luz que lhe emoldurava o rosto, a afagava com brilho e fazia realçar o vermelho vivo dos lábios que seriam dele para sempre.

Saíram do restaurante, ignoraram as outras festas de corações da cidade e meteram-se na cama do seu quinto-andar.

Foi aí, que duas dores fortes nos dois dedos gordos dos pés, o fizeram estremecer.

Tentou escondê-los quando notou que as unhas começaram a crescer desordenadamente.

Furavam os lençóis e atordoado viu como uma delas, lhe aparecia desafiante depois de cruzar os cobertores, na parte superior da colcha. Tentou mover-se, mas era já impossível. O braço que repousava sobre o corpo da sua amada, era uma armadilha, uma prisão, fechada pelas unhas da mão que tinham crescido e se cravavam no colchão, se enrolavam nas molas e tiveram a ousadia de ter perfurado a tábua que sustentava o peso da horizontalidade das comodidades do descanso. A do dedo mínimo, tocava mesmo o chão, começando como raiz fascicular a desenvolver-se espalmada no solo e tentando mesmo introduzir-se no sobrado de madeira. Tinham entretanto já aflorado as unhas dos pés na parte superior dos cobertores e enrolavam-se como vides nos florões forjados e nas colunas finas da cama de ferro.

Suava e a ânsia fazia-me dificultar a respiração. Pedia a Deus, aos anjos e santos que ela não despertasse e as minhas extremidades, alongavam-se por todo o quarto tendo a única pessoa que o sabia, aprisionada, apavorada, silenciosa pela vergonha e imobilizada pela incapacidade de qualquer movimento. Eu próprio. Numa angústia e numa incapacidade de resolução que me retirava qualquer veleidade de vislumbrar, mesmo que em pensamento, uma solução para tamanho problema, muito mais quando reparei que uma unha já grossa como caule resistente, se tinha espetado furiosamente no candeeiro do tecto, e abafado com o seu rápido enrolamento, o artefacto, rompendo lâmpadas e mergulhando o quarto numa escuridão total.

Quatro, cinco estrondos, que de início julguei vindos da manifestação de desempregados da fábrica dos aspiradores que gritavam na rua em protesto contra as minhas unhas, que só aí entendi serem as responsáveis por aquela falência que atirou para o desemprego, todos aqueles empregados com mulher e filhos.

Julguei serem bombas, agora que o terrorismo estava tão em voga, mas não, batiam à minha porta, com força.

Lembrei-me de quando brincava na rua aos polícias e ladrões, às pistolas e às ordens claras.

Olhei as mãos, os pés, o candeeiro, o colchão e beijei suavemente a mulher que tinha ao lado, não percebendo que a manifestação, as bombas e as unhas eram fruto de um pesadelo, perpétuo, que me golpeou, como qualquer bom pesadelo, realçando o medo que desde criança tinha em cortar as unhas.

Nunca ninguém acreditou que me doíam quando eram cortadas, nunca ninguém acreditou nesse momento de pânico.

Batiam à porta, com força, como as bombas que me despertaram.

Vesti o roupão calmamente, agora que tudo tinha passado.

Abri a porta, e ali estava ela, a vizinha do andar de baixo, o corta-unhas na mão como arma:

- Aqui está! Sabia que era você que me salpicava a roupa de unhas grandes, grossas e amarelas.

Apenas lhe adivinhava os lábios, dizendo, como quando a minha mãe trazia a tesoura:

- Mãos ao ar.

Perante o corta-unhas apontado ao meu peito, pela vizinha do segundo andar, levantei os braços em sinal de rendição, como o menino polícia da minha rua quando descobria o meu esconderijo de menino ladrão.

Tinha sido descoberto.
                                                                                               

                                                                          Aragonez Marques                                                                    
In SINÓNIMA E OUTROS CONTOS
... em fase de revisão...