miércoles, 28 de septiembre de 2016

O QUE FOSTE LA FAZER? - Cap. 8



Capítulo 8
(…)
As cadeiras de bambu têm sobre elas almofadas compradas perto. 

Vendem-se na plantação de casitas de artesanato ao lado das gigantes bananeiras de fruto pequeno e doce que aproveitam os passantes, ou passeantes que param, frente à fortaleza portuguesa, canhões enferrujados virados para o vasto e ritmado azul.

O mar, esse mar imenso, arrastava-se até às ilhas indonésias que se avistavam e mudava de cor, azul petróleo, álcool ou céu, às vezes verde, tons escuros, raiados pelo branco das ondas baixas mas fortes, como os homens, embrulhando-se cadenciadamente nas pedras soltas da praia de areia negra mas suave, como os cabelos das crianças, mexendo-se na insegurança dos corais cortantes, cores vivas e abrigo de peixes pintados de arco-íris, como os “tais” coloridos das mulheres da ilha.

Do lado de cá do baile do mar com a praia, antes das casitas, atravessa-se a estrada, passa-se a fortaleza, a montanha sobe sem alcatrão e visita o café, a canela e o ananás, que o Avô Serra mete na mesa, servido de histórias e de palavras de tempo, que confundem o homem velho e sábio, com a história de Timor, o homem com raiz portuguesa que chegou há muito e ficou, como o crocodilo da lenda.

Carlos Novais tinha ido de Liquiçá a Maubara, numa microlete que mandou parar e que não gritava “Dili, Dili, Dili” mas “Bara, Bara, Bara”, pequenina, peluches cobrindo o tablier tapando o vidro da frente, já só meio, pelo autocolante do Barcelona que cobria a metade superior e rivalizava com um Cristiano Ronaldo pintado nos laterais exteriores.

Porta aberta com dois rapagões de bronze, cabelos atados e chinelos, meio dentro meio fora, pendurados, porque dentro iam senhoras tímidas, peles sofridas pelo sol e trabalho, dentes vermelhos da última masca, “tais” sujos de pó, mas pés com asseio, unhas cortadas e bicos de galinhas que espreitavam por baixo dos assentos.

“Bara, Bara, Bara” e parou como um regaço fresco na estrada quente.

Carlos entrou e com ele o colega com quem tinha combinado sair, romper a clausura da ilha em que sentia a sua escola e respirar, outro ar, longe das obras poeirentas que atravessavam a localidade onde estava, desde que o avião o deixou naquela aventura, e só regressaria para o levar, com os reis magos, pelo natal, para poder estar a horas no presépio da sua casa.

Tinha Maumeta, o suco onde morava, praia também, baleias à vista algumas vezes, golfinhos quase sempre, crocodilos não se pensava nisso, mas estava muito próximo da escola onde estava há pouco mais de um mês, a gosto quando o trabalho era a gosto, forçado quando lhe começaram a forçar o gosto.

Mesmo o amor passa a desamor quando obrigado sem obrigado, e não precisava que lhe agradecessem, bastava que o deixassem fazer o que sabia, aliás, julgo que a única coisa que julgava saber fazer, ser professor, dar e receber todos os dias.

Despistar nortes, emprestar rumos e receber outros saberes, emprestar uma bússola, falar da estrela polar e receber, nem que fosse um sinal de fumo ou de bandeiras, compensada com a visão do cruzeiro do sul.

Afecto só sentia o de alunos, pais e funcionários, porque os nortes que eram dados por quem levava o leme, afastava a nau da terra, no convencimento de que os instrumentos de orientação de bordo, porque importados, eram seguros, infalíveis mesmo, e o pior, inquestionáveis, e se falhavam as velas pelo óbvio, tudo a remar, transformando a nau em galé.

Ambos estavam a precisar de sentir a parte de fora, aquela outra vida que não parava, diferente, desconhecida para eles, misteriosa, feiticeira, como alguém lhe chamara.

Saíram assim para a parte de fora da galé, sem tambores, e soube-lhes bem o ar, o mar e as gentes que falavam de outras coisas que nunca tinham ouvido, de outra forma, línguas que nunca tinham escutado, de outras maneiras de sentir, formulários que tinham necessidade de preencher sem ser os outros, aqueles que faziam cumprindo, e a que nem sequer, se atreviam a perguntar para que serviam?

Talvez agora, não repetissem aqueles coelhinhos de uma Páscoa, celebrada ali de outra forma, feitos de embalagens vazias de iogurte e de saberes de rua, importados para uma escola de um país, onde os coelhos são tão conhecidos como os pinguins em África. 

Claro que se tinham que misturar, de conhecer cheiros e risos e descobrirem que a lua ali não é mentirosa, porque naquela tarde a viram em forma de barco e na anterior de fatia de melão, quais quartos crescentes e minguantes? Qual quê?

E as fichas? A praga das fichas? Com feiras e carrosséis, meninos loiros e algodão doce nas mãos? E os exames? Fechados e dignos, desenhados em segredo por adultos especialistas para terem um resultado de espionagem secreta para saber o que os meninos não sabem em vez de os estimularem pelo que aprenderam? Demasiado fechados, policiados, ritualistas.

- Estamos a falar de crianças Carlos?

- Pois, o problema é esse, é que estamos a falar de crianças.

Estava decidido, tinham que começar a sair!

A estrada de Liquiçá para Maubara é uma língua recente, salpicada de animais que dão cor ao alcatrão novo como o novo país, animais que estavam antes das máquinas lhes tirarem o espaço e agora, que as máquinas partiram, o reocuparam, e usam-no, com tempo, com todo o tempo do dia e da noite.

- Olha Carlos, a Lagoa.

Ά esquerda, uma manta líquida, espelho de uma família de pelicanos que se duplicavam no reflexo da água, limpa hoje, outrora manchada de vermelho, que a metralha castigava com a vida, um povo que queria ser país.

_ É por isso que se chama Lagoa Vermelha?

O silêncio respondeu que sim, o espelho de água reflectiu a paz, e o voo dos pelicanos mostrou um país.

Maubara apareceu de repente, com as suas casotas de artesanato, a fortaleza de canhões enferrujados apontando para o mar, hoje sem medo do que as ondas lhes trazem.

A microlete parou, Carlos perguntou a que horas havia uma de regresso, em português, nada, em inglês, igual, gestos, dedo indicador apontando o relógio, mão aberta para dizer cinco horas, arranhou tétum, também não.

O timorense pequenino mostrou os dentes brancos num sorriso de entendimento, sim, disse, Carlos Novais mão aberta e dedos esticados, cinco horas, ele respondeu sim de novo, e tornou a responder sim a tudo, sempre com um sorriso de que finalmente entendera.

Gustavo, olhar de observador soltou, parece que percebeu, vem às cinco.

Carlos Novais fez-lhe adeus, o timorense também e a microlete envolta em fumo de escape voltou para trás.

Missionariamente (o adjectivo existe porque o criei na liberdade que a escrita me dá para inventar) Carlos comentou: Acabamos sempre por nos entender - e ficou a olhar o mar.

A tarde passou, cinco, cinco e meia, seis horas e Gustavo na estrada suspirou com ironia: Acabamos sempre por nos entender – Carlos não respondeu, apenas pensava que a noite estava a chegar e tinham que regressar.

- Vem aí uma Toyota de caixa aberta, nova, aposto que tem ar condicionado.

Nasceu a esperança e fizeram sinal para que parasse, ao longe, bem antes de estar junto deles.

- Eh pá, espera, não a mandes parar, porra, vem carregada de freiras!

Era tarde por um lado, mas por outro parecia que estava a abrandar.

E abrandou. 

E parou, não por eles, mas porque três homens carregados com um enorme cacho de bananas também lhes fez sinal.

- Para as meninas do orfanato.

Começaram a atar o cacho pendurado na traseira.

Carlos Novais contou sete freiras na parte cabinada e cinco, bem mais novas, juvenis até, na parte aberta da carrinha.

- Vamos lá? 

- Não temos nada a perder.

Aproximaram-se da madre e perguntaram se podiam ir com elas para Liquiçá.

Desconfiadas, dois homens, um corpulento, o outro barbudo, a sorte parecia perdida quando uma delas com sotaque espanhol disse:

_ Está cheio!

Carlos Novais puxou dos galões de homem sério, casado, pai de filhos, professor, honesto, incapaz de uma má palavra, muito menos de um mau gesto.

_ A irmã é espanhola? A minha esposa também, vem a Timor em Agosto…

Milagre.

A sua ordem também era, iam receber a visita de uma sua superiora, que bom a mulher do Carlos ser espanhola…

Aproveitando a embalagem Gustavo disse “espanhola e professora, até podia ensinar castelhano enquanto aqui estiver, de forma voluntária, às meninas do orfanato, ou às irmãs que quiserem”. 

Carlos olhou para ele, que nem tão pouco a conhecia, mas com a noite a cair, confirmou, que sim, poderia fazê-lo e também chinês e grego e latim, por favor, que os tirassem dali.

_ Têm que ir atrás, com os mantimentos.

_ Não faz mal, muito obrigado (lembrou-se que eram freiras) Deus vos pague.

Gustavo, ágil, saltou para a caixa, já Carlos Novais teve que ser puxado, julga mesmo que também empurrado, pelos três homens que tinham acabado de atar as bananas.

Deu-se conta que estava dentro quando caiu redondo e com estrondo no meio dos sacos de batatas, hortaliças, duas galinhas, um cabrito de patas atadas com arame e ele ali, agora sentado, cabelos ao vento, com as noviças rindo do espectáculo que se lhes oferecia.

A Toyota avançou, as freiras mais velhas na cabina, atrás na caixa, Carlos, Gustavo, e as freiras novinhas que riam, com as mãos na boca, e falavam tétum entre elas entremeado com gargalhadas, que tudo indicava, seriam de gozo perante aqueles malaes, que se tinham junto aos mantimentos.

Carlos Novais tentou colocar ordem na viagem e perguntou:

_ Vamos cantar?

_ Sim, Sim…

Puxou então das suas memórias religiosas, de quando se vestia de acólito, aos Domingos, na sua paróquia de S. Lourenço em Portalegre, as namoradas que não sabiam que eram, apenas desconfiavam, lindas e vestidas de novo, as gentes perfumadas esperando a saída para o encontro na porta da igreja, naquela missa do meio-dia que marcava a Cidade como um ritual.

O padre como rei, ele como pajem branco, levando-lhe as armas para aquele enorme campo de prisioneiros arrependidos, de joelhos, mãos postas, mas perdoados quarenta minutos depois para brilharem no alto da escadaria da igreja, naquele ritual de cores, de sorrisos de festa culminante de uma semana, passada no cinzentismo de sete dias iguais, onde nada acontecia.

Em segundos percebeu que nenhuma canção desse tempo, com cheiro a incenso, medo e bafio, era apropriado perante religiosas tão novas e lembrando-se de anos mais tarde, pensou em canções mais modernas, de quando um concílio lhe mudou os Domingos, arrumando os véus negros, o órgão queixoso que nem parecia instrumento de música e trazendo as guitarras (nada tenho contra os órgãos, o Toy Eustáquio que me perdoe, embora tenha optado pelas cordas nos últimos tempos), as palmas, os abraços e a festa, para dentro da mesma casa, com as velhas beatas a resmungar, mas cantando, tentando acompanhar as ordens do tempo, embora continuassem a cheirar a velas e a azeite e a imprimir lentidão nas melodias.

Foi então que Carlos Novais ganhou coragem e começou cheio de esperança, voz bem colocada, festivo, com palmas a acompanhar:

_ Tenho um Amigo que me ama, que me ama, que me ama…

Correu bem, todos cantaram, mas sem muita alegria.

Carlos começou logo outra:

_ Sou Pescador, do mar da Galileia, deixa o teu barco …

_ Não, Não, Não…

Ó diabo, se calhar a letra não era aquela, as freirinhas não gostavam e só entendeu porquê quando uma disse alto:

_ Júlio Iglésias, Júlio Iglésias… _ e as outras em coro e alvoroço:

_ Sim, Sim, Sim…

(…)

in O Que Foste lá Fazer? 
( em elaboração )

sábado, 11 de junio de 2016

O QUE FOSTE LÁ FAZER? - Excerto da chegada...


(…)
Se os dragões existissem, diria que um, enorme, gigante mesmo, boca e narinas dilatadas, vivia sobre o monte Ramelau, e que àquela hora, sempre a mesma em que chegava um avião, tentava mandar para trás quem se atrevia a invadir a sua ilha, com enormes baforadas de hálito quente.
Esta foi a primeira sensação que Carlos Novais teve quando baixou as escadas íngremes encostadas ao avião acabado de chegar.
Juntou-se ao grupo de colegas que embarcaram nesta aventura e se iam reunindo na pista.
Olharam uns para os outros e tardou que alguém mais afoito, rompesse o silêncio húmido e abafado e dissesse: - Uma foto companheiros, ânimo, chegámos a Timor.
Saíram sorrisos como abraços em grupo para a câmara.
Tinham deixado Portugal dia 19 e chegado a Timor-Leste às 13.45 (hora local) do dia 23 de Maio.
Engoliram horas.
Noites e dias estavam às avessas como estavam os corpos e os pensamentos.
Saíram juntos do aeroporto.
Lá fora aguardavam-nos outros colegas que já viviam essa experiência há mais tempo.
Para além dos amigos que alguns lá tinham, Novais tinha o abraço da Maria e do Alberto, esperavam-nos também as coordenadoras gerais do projecto, a Coordenadora Portuguesa e a Timorense e com elas, os treze coordenadores das treze escolas, uma por distrito, nesta teia organizada para reiniciar o acesso à Língua Portuguesa e que, funcionava como os tentáculos de um polvo, cuja cabeça bicéfala estava em Dili.
Cada escola tinha uma carrinha com motorista e os professores foram distribuídos por elas e levados para alojamentos provisórios na capital.
Carlos Novais, um dos quatro homens que chegaram, foi levado para um hotel, de onde se via o mar, esse seu mar que tanto lhe seria companheiro durante a sua estadia na Ilha.
As colegas, ficaram em casas, uma zona fechada chamada Vila Verde e que Carlos Novais não recorda bem.
Recorda-se, isso sim do seu hotel.
Novo Horizonte, porque os horizontes podem ser novos, entre o centro de Dili e a praia da Areia Branca.
Até chegar ali, tinha feito uma curva nas condições que subiam e baixavam consoante as escalas.
Partira do seu distrito às seis horas da manhã de dia dezanove, e a partir daí, tinha tocado movimentos em Lisboa, Madrid, Doha e Bali.
Em Doha sentiu o primeiro rugir da diferença, com mulheres apenas com olhos e homens todos de branco.
Em Bali, respirou a Ásia.
Ficou num hotel majestoso e sentiu o poder do dólar.
Pagou com eles as refeições, onde as rupias, apesar de muitas para valerem mais, continuam a ser pobres envergonhadas de pouco valor.
Uma refeição no hotel andava pelos quatro dólares.
Carlos Novais comparou mentalmente com o euro... mas isto seriam, ora bem, o quê? Só? Três euros e vinte, menos de um maço de cigarros? Um hotel de luxo destes?... Não conseguiu deixar de pensar que a Europa não ia por bom caminho.
Timor, tem a Austrália como guia e a Austrália, tem como rainha, a mais antiga monarquia europeia, consciente disso, tenta manter laços com os países vizinhos, mesmo com a sua velha inimiga Indonésia e agarra-se à CPLP para manter a sua identidade histórica.
Mas regressemos à primeira noite com oito horas de diferença de Lisboa, agora, ou nove, quando Lisboa anda ao sabor da mudança dos ponteiros, um passo para o lado, outro para o outro, numa valsa dançada pela luz.
Carlos Novais, chega ao hotel Novo Horizonte, dão-lhe um quarto, uma chave e um código de internet.
Coloca as duas malas e o saco de mão no chão, tira o portátil, liga-o e começa a chamar a família.
Tinham-se passado tantas coisas novas em tão pouco tempo que lhe parecia ter saído de casa há uma eternidade.
Como sempre, o melhor tinha deixado lá e não se referia só à família e aos amigos, trouxe o seu telefone velhinho, o computador sem autonomia de bateria, roupa q.b. como o sal, nem a viola, nada, o que cozinhasse na sua vida a partir desse momento, seria com os seus recursos e com os ingredientes de lá.
Não se preocupou por isso com os vinte e sete quilos de limite de bagagem, a dor de cabeça das companheiras.
Ele e só ele estavam ali, nessa primeira noite, e o computador sem câmara, só podia escrever, não podia ver ninguém:
- Sou eu !!
-Papá, Papá!
- Então como estão?
- Vimos a tua viagem pela Net, seguimos a rota do avião.
Modernices destes tempos, uma das que Carlos Novais sabia ter como deficiência.
- Quem está aí?
- Todas!!
E estavam, mulher e filhas, as pequenas e as maiores que foram apoiar este momento que também para elas não deveria estar a ser fácil.
- Não morri, caramba. Só saí de casa por uns tempos.
Carlos Novais tentava inventar coisas para lhes dizer, a cabeça estava branca como as vestes dos homens de Doha.
- Tu estás bem?
- Na maior!!
Nessa altura e enquanto escrevia, chorava, e ainda bem que o não viam para evitar o gozo das filhas, “andas muito chorão” e andava.
Antes de ir, chorava por tudo e por nada, não era berraria, não pensem, era assim, comovia-se e pronto.
Comovia-se com tudo, com as palavras que ouvia, com os livros que lia, sobretudo se falassem de crianças ou de velhos, mas reconhecia que ultimamente a coisa se tinha complicado e já torcia o beiço, com um filme, com a televisão e até com as telenovelas que dizia não ver, mas que espreitava.
- Andas aí?
- Sim, estou.
- Então já viste algum crocodilo?
A mulher de Carlos, culpada com a amiga Lurdes com quem aprendia receitas novas, do seu elevado peso que o fez não ter cinto suficiente no último voo entre Bali e Timor escreveu:
- Que comeste?
- Coisas do avião.
Carlos, ao olhar para os seus cento e trinta e oito quilos e lembrando-se do pormenor de no voo que o deixou em Dili não ter tido cinto suficiente para o apertar e proteger, acrescentou:
- Olha amor, estou entregue a mim mesmo. Estou em Timor-Leste, a dezassete mil quilómetros de casa onde aterrei sem cinto de segurança.
Mal sabia Carlos Novais que muitas outras vezes iria sentir a falta desse cinto.
-Então? Então? Carlos estás aí?
Não tinha ficado sem Net, conforme lhes foi dito durante as conversas preliminares com o ministério, foi sem luz e só três horas depois conseguiu ligar de novo o computador onde uma fileira de preocupações estava escrita em monólogo:
- Carlos estás bem?
- Carlos porque não escreves?
- Passa-se alguma coisa?
Carlos respondeu de imediato:
- Está tudo bem, fiquei sem luz.
Em desabafo em tom depreciativo, a mulher escreveu:
- Pronto, já estás em Timor…
Carlos esperou um pouco e respondeu:
- O problema não é de Timor, é ainda de Portugal, onde com os roubos nos ordenados, os congelamentos de salários e tudo aquilo que sabes na pele, não dá hipóteses a que um professor possa ter um computador em condições, que não tenha que estar ligado à luz, por velho e muito uso ao seu serviço, tenha ainda que sair do país que é seu… e, caramba!!!
Judite, esposa:
- Não te metas em política Carlos, dá-me tanto medo que sejas assim.
Para Carlos Novais, a conversa estava terminada, não sabia era como o fazer.
Irritava-o a passividade dos portugueses, os medos, as permissões, a última greve de professores em que em todo o agrupamento de escolas a que pertencia, só ele como um tonto perdeu o dia de trabalho, surpreendido por todos os colegas que se manifestavam contra a política desgraçada do governo se terem perfilado religiosamente na escola, como cordeiros silenciosos.
A directora pela manhã telefonou-lhe:
- Olha, as auxiliares fazem greve, não vai haver aulas, anda que não perdes o dia.
Não queria acreditar no que ouvia, montarem-se sobre as pobres auxiliares educativas que ganhavam quinhentos euros por mês.
Tinha mesmo que sair, para longe, nada fazia sentido, o país estava falso, vivendo de expedientes.
Lembra-se de ter chegado à escola no outro dia e dizer às colegas:
- A partir de hoje falem comigo de novelas, do festival da canção, da Bárbara Guimarães e das nódoas negras, mas não se atrevam a dizer mal da escola, do ministro ou do governo, que eu não discuto mais esse tema convosco.
Decidiu nesse dia colocar mar e terra sobre ele e o país.
- Olha estão a chamar-nos para jantar.
Não estavam.
- Está bem, quando voltas a falar?
- Não sei, quando puder.
- E como sei quando podes?
- Dou-te um toque de telemóvel. Não atendas que deve ser caro e vai para o computador.
- Adeus amor.
- Adeus Papá.
- Papá beijinho para ti.
- Papá compra-me coisinhas.
- PAI, PAI.
- Papá, foi a pequenina que escreveu PAI, eu ajudo a cuidar das minhas irmãs.
Carlos Novais contou as despedidas:
- Eh! Falta uma.
- Sim, a Nevita, ela também te manda um beijo. Só vem amanhã.
Carlos Novais desligou o computador, abriu as malas, tirou uns calções, uma camisola e roupa interior.
Completamente suado, sentiu a água fria do chuveiro como bênção. 
Limpou-se.
Sentiu-se húmido, incómodo, e deu-se conta que estava suado outra vez.
Entrou novamente no chuveiro.
Saiu e meteu-se debaixo do ar condicionado.
Foi assim que Carlos Novais apanhou a primeira constipação na Ásia.
(...)


In O Que Foste lá Fazer?
... em construção...


jueves, 24 de diciembre de 2015

A Mulher do Sargento Espanhol - 1. A Mota de António Fagundes Fonseca


 Para todos os amigos/as, leitores e leitoras 
o primeiro capítulo da 
Mulher do Sargento Espanhol
para todos vós. 
Em breve, muito em breve, 
o livro estará nas bancas.
 Esperemos que seja do vosso agrado. 
Um abraço e
 BOAS FESTAS.

1. A Mota de António Fagundes Fonseca

António Carlos Fagundes Fonseca tinha uma oficina de bicicletas numa aldeia com mil e duzentos habitantes. Mudava correntes, afinava travões e remendava câmaras de ar, e às vezes o ar faltava-lhe no passar dos dias iguais entre encher pneus e limpar raios.
Na cidade estava a mota.
Tinha-a visto no feriado do 1º de Dezembro em que saíra, aproveitando o descanso da oficina fechada, para visitar a prima Rita Fonseca da Silva que tinha sido internada no hospital regional, com um fartão de azeitonas pisadas, compradas na feira de Borba, que comera numa só refeição.
 A hora da visita, das quinze às dezasseis, dera-lhe tempo suficiente para meter o nariz e o olho no que a cidade grande, borbulhenta de diferença, tinha para mostrar.
E mostrou.
Na montra, entre capacetes integrais e por integrar, estava ela, farol polido, motor prateado, assentos de napa negra e sonhos de viagem,  caminhos sem limite.
Um só dono, vende-se, bom preço, foi o que o prendeu definitivamente ao sonho que o levou a tomar a decisão.
Vou comprá-la.
Exatamente oito semanas depois, após dias sobre dias de remendos sobre remendos, de afinação sobre afinação e de uma bicicleta com rodinhas, nova, para a neta do farmacêutico e uma de cesta atrás para o filho do Zé da Costa, que casou com a Irene do café depois de meses de sofrimento com a barriga inchada, que a mãe, a Josefa, julgava serem gases, prontamente desmentidos pelo médico Pereira, que acertou tanto no diagnóstico como no sexo do bébé.
Uma menina.
Fabricada detrás do coreto da banda, num dos bailes de verão em que o Trio Odemira cantava e tocava no palco de madeira emprestado pelo Presidente da Junta da Freguesia vizinha, cujas festas eram só em setembro.
Colocou-lhe as notas uma a uma nas mãos, contando em voz alta e passando o dedo pela língua, evitando as colagens. Mil e duzentos escudos, um por cada habitante da aldeia, mais sessenta e quatro do capacete e já agora, porque não, mais cinquenta e oito pelas luvas e um casacão de couro com fecho e uma caveira estampada nas costas.
Na Previdente S.A., onde tinha o seguro das ferramentas e do lixo da oficina, não fosse o diabo tecê-las, pagou por seis meses adiantado o seguro obrigatório contra terceiros.
Agora sim, primeira, segunda, terceira... a estrada era sua, o vento na sua cara e a aldeia esperando que chegasse.
A não ser na oficina, sentado ou com o joelho no chão, nunca mais ninguém o viu sem ser em cima da mota, embora, verdade seja dita, todos passaram a vê-lo a diário, para baixo e para cima, e também porque o seu espaço crescera, de aldeia em aldeia, de segunda a domingo.
Mariana Esteves, era a filha mais velha do Esteves da Taberna, onde se batiam as pedras do dominó com força na mesa e se escrevia a lápis os pontos do rebenta, que originava o pagamento de mais uma rodada de imperiais.
A taberna ficava na margem direita da estrada que ligava as duas principais cidades do distrito e atravessava como um rio de alcatrão a aldeia, em frente ao Café Costa, a quem o Costa, após a morte do sogro, mudou o nome e transformou também em restaurante, na outra margem.
De um lado, o café estava preparado para os forasteiros, que paravam e seguiam, do outro, a taberna era para os da terra, que paravam e ficavam sempre.

Ao contrário do Café Costa, de pintura nova e cara lavada, desde que morrera o marido da Josefa e o genro assumira o mando, a tasca do Esteves estava exatamente igual ao tempo do avô de Mariana.
Salitre na parede, balcão de pedra mármore, rádio de caixa de madeira com a águia de barro do Benfica em cima, e até a gaiola do canário era a mesma e o amarelo das penas do pássaro também, substituído por outro de belo canto quando a velhice deixava o anterior esticado, entre os bebedouros e por baixo do poleiro, deixando-se de ouvir cantar.
A taberna do Esteves tinha um quintal atrás onde estava a retrete e por cima, um primeiro andar onde vivia a Glorieta Malpica com as três filhas. Dois quartos, uma sala, cozinha e uma janela, onde Mariana Esteves olhava a estrada numa cadeira de palhinha que tinha ao lado as lãs e as agulhas.
Nenhuma das três filhas do Esteves e da Glorieta se parecia com os pais, e ainda bem. Glorieta engordava no primeiro andar há mais de quarenta anos e há muito que deixara de fazer as omeletas de espargos, as tortilhas de batata e os tortulhos, com molho ou com ovos, os peixinhos da horta, a dobrada com feijão, rissóis, croquetes e empadas, que antigamente trazia para baixo para petisco dos clientes. Levava o tempo sentada numa cadeira de balouço reforçada com almofadas soltas, que a custo, ajeitava às costas e à cabeça. Pensava muito no primo Júlio, que um dia, num sorteio das festas da Senhora da Penha, teve a imensa ventura de ganhar o prémio principal. Uma vitela oferecida pelo lavrador Papafina de Jesus, dono do montado e empregador de meia aldeia a prazos, conforme as culturas do ano. O primo Júlio, feliz com a sua sorte levou a vitelinha para casa ao colo e depois de comprar na farmácia umas luvas de borracha, cortou-lhes um dos dedos que atarraxou numa garrafa vazia de anis escarchado, que enchia de leite em pó e metia na boca da bezerra.
Foi rápido assim passar do leite à farinha Falcão, fabricada em Ponte de Sôr e comprada em sacos de vinte e cinco quilos, no armazém do Procópio, que vendia também o granulado dos coelhos, o farelo das galinhas e na altura das matanças, exercia de magarefe.
Quando a porta do armazém estava fechada, o Procópio pendurava num prego o letreiro que lhe escrevera a pedido, o professor primário Fernando Mata e que dizia, FUI CAPAR, pois o magarefe era também capador, levando depois os troféus à taberna do Esteves, onde eram fatiados e metidos em vinha d’ alhos para em quarenta e oito horas mudarem o nome de testículos para túberos, uma especialidade do Esteves.
Quando o primo Júlio tinha já gasto sete sacas de farinha, achou por bem trazer a vaca para o quintal, mas era tarde, e teve que chamar o Matias Pedreiro, e ordenar o escavacar da porta para o bicho poder sair. Era por isso que Glorieta Malpica Esteves, dia sim, dia não, se lembrava do primo e olhava a porta da sala, adivinhando o dia em que não poderia mais sonhar com a rua, a não ser que tivesse que chamar o Matias e a picareta. Já a irmã Rosa, que Deus tem, quando se finou, teve que ser baixa da sua casa, com cordas atadas a um lençol de flanela, pela varanda.
As mulheres da sua família sofriam do mal da angústia, que as fazia a pouco e pouco limitar os movimentos e terminar, como ela agora, sentada todo o dia, esperando que lhe levassem a comida à boca e o pior, a obrigar a filha a meter-lhe a arrastadeira fria, de metal, debaixo do corpo, e despejá-la depois na retrete do quintal.
A arrastadeira tinha sido roubada pela prima Julieta, quando esteve de acompanhante do pai no hospital distrital, antes que este fugisse daí para a aldeia dizendo que estar tanto tempo deitado não era para um homem como ele, ainda por cima deitado sem companhia.
A arrastadeira tinha já sido rodada várias vezes pelos membros familiares necessitados, como as Sagradas Famílias de casa em casa, estando agora ao serviço de Glorieta Malpica Esteves.
As filhas, Mariana e as irmãs, eram bonitas e por enquanto tão desengonçadas como cobiçadas, mais parecidas à tia Rita Gil que contrariada pelo pai em amores desejados, fugira com o namorado, hoje marido, a salto para terras de França, onde se dizia que tinham nascido o amor e as oportunidades, com trovadores nas cortes que reinventaram a poesia destroçando muitos casamentos impostos pelas famílias nobres.
 A tia Rita Gil, vinha todos os anos no verão com o marido e os filhos, fumava Porto, e durante o mês de agosto, havia uma mulher que fumava na aldeia.
Foi num desses verões em que Rita Gil estava sentada na esplanada do Café Costa, cheio de folgazões de fora, que Mariana se deu conta, depois dum berro do pai do fundo das escadas - é p’ra hoje? - que estava a desperdiçar a sua vida.
Travessa de batatas com carne na mão desceu as escadas, e o Esteves, sem um agradecimento ou um sorriso, tirou-lha e meteu-a sobre o balcão.
- Para cima. Vamos. Isto não é lugar para mulheres!
 Subiu as escadas, olhou a mãe Glorieta atafulhada nas almofadas, e da janela, olhou a tia, perna cruzada e sorriso na boca.
As irmãs mais novas andavam na rua. A ela lhe cabia em sorte, de primeira a nascer, substituir a mãe.
Naquele olhar comparador entre a cadeira de balouço da mãe e as suas pernas elefantadas e a mesa da tia, com as suas pernas torneadas e sem meias de vidro, sentiu perfeitamente que preferia a esplanada.

Estrada abaixo, estrada acima, António Fagundes Fonseca cavalgava a mota, sem o casaco da caveira, que o calor apertava, sem capacete que o fazia suar empapando-lhe os cabelos fortes, e apenas com a camisola interior branca de alças, de onde um tufo de pêlos negros atracavam a medalhinha da Virgem das Dores e a cruz do Senhor Jesus da Piedade, que usava sempre preso ao fio de ouro que colocara no pescoço há muitos anos e nunca mais tirara, fosse inverno ou verão. Na mão esquerda o relógio de pulso que o pai lhe dera e sobrevivera, quando fez a quarta classe e se despediu para sempre da escola. Na direita, uma pulseira grossa de prata, com uma placa grande que dizia de um lado António Carlos e do outro, em números romanos, MCMLVII. Não os sabia ler. A numeração já a trazia quando a comprou em segunda mão e apenas mandou raspar a parte visível onde escreveu o seu nome, na ourivesaria do Cabecinha, a quem nunca tinha comprado nada embora vendesse tudo o que tinha. Mas de todos os adornos que usava como amuletos, o que mais sentia como proteção era o alfinete de dama, com muitas medalhinhas de prata, que usava na camisola interior no lado esquerdo, o lado do coração. Metera-lho a avó ainda criança, a mesma que nas noites das doenças infantis, da papeira às bexigas, que as teve todas, lhe metia nas costas papas de linhaça e ventosas como braços de polvo quente e lhe fazia cruzes no peito com azeite morno enquanto recitava ladainhas que já a sua avó lhe ensinara.
António Fagundes Fonseca olhava sempre a janela por cima da porta da taberna do Esteves.
Mariana passou a estar sempre visível por detrás da vidraça, pois conhecia o ronronar da mota muito mais agora que António a tinha afinado e posto a rodar em escape livre, depois de ter olhado ao mesmo tempo a cadeira de balouço da mãe e a esplanada, onde a tia Rita Gil estava sentada com um maço de Porto sobre a mesa.
Desde que tomara a decisão, passou a estar sempre por detrás dos vidros logo que ouvia o motor e atraindo, com arte sedutora de flor estática, foi conseguindo que António Fagundes Fonseca fosse cada vez mais reduzindo o circuito, até praticamente o ter encostado às boxes, que tinha definido entre o Café do Costa e a taberna do Esteves.
Parava no Costa, perna sobre a napa do assento e o Zé Ventoinha, empregado do Café, levava-lhe a Cuca espumosa que bebia ali, boca no copo, olho na janela, enquanto os rapazes mais novos o rodeavam vendo a mota, tocando-lhe e fazendo-lhe perguntas sobre velocidades e cilindradas.
Passar do Café Costa ao outro lado da estrada foi rápido e António Fagundes Fonseca, à falta do Ventoinha que lhe levava as cervejas, passou a contar com a simpatia do Esteves, largos momentos, cada vez maiores em que  conversavam a sério ou com risos, às vezes gargalhadas à porta da taberna onde colocava um banco de quatro patas e buraco no meio para meter o dedo, e alimentava a conversação com Fagundes Fonseca que não necessitava de banquinho de quatro patas e buraco no meio para levantar com o dedo, pois tinha a mota como assento, perna esquerda esticada no chão e a outra em descanso cobrindo-a e registando a possessão.
Passara assim Mariana a olhar para baixo, vendo-o de cima. Os tufos de pêlo que lhe rebentavam a camisola interior branca de alças, e aquele alçar de perna cobrindo os cinquenta centímetros cúbicos, dava-lhe calor, só arrefecendo com o respeito dos santinhos do fio de ouro de António Carlos, assim passou a chamar-lhe para si mesma, e as medalhinhas do alfinete de dama no lugar do coração.
Os olhos dele levantavam-lhe a cabeça de centauro motorizado e atravessavam a janela cravando-se nos dela.
Não estranhou assim, que o pai, no final do verão lhe dissesse que António Carlos Fagundes Fonseca lhe pedira autorização para passar a falar com a filha.
Encolheu os ombros, escondendo o interesse e foi assim que a janela passou a estar aberta pelas noites, ela com o corpo no peitoril deixando cair sorrisos, ele sentado e fumando, deixando quando partia, mota acelerada ao máximo em baile nupcial, o chão repleto de beatas, que o Esteves varria pelas manhãs sem um protesto.
Afinal, gostava do namorado da filha, e desejava que se arrumassem de vez. Trabalhador como era, seria mais um par de braços para ajudar na taberna.
Enganava-se redondamente o Esteves, porque Mariana queria o motorista e a mota não para ficar, mas para partir.
Oito meses depois, a tia Rita Gil e o marido estavam designados como padrinhos e revolteavam com Mariana os Preciados em Badajoz para comprar o vestido, os sapatos, o ramo e as ligas, que com sorte, no dia da boda seriam cortadas em tirinhas, sorteadas pelos convidados, o que sempre daria, pelo menos, para amortizar os sapatos.
Foi marcado o casamento para setembro.
Mariana sempre pensou em casar na Capela da Senhora da Penha em Portalegre, coisas de criança, com aquelas centenas de degraus de pedra, serra acima, entrando na capela revestida de azulejos, todos diferentes uns dos outros, naquele azul e branco típico da azulejaria portuguesa, mas dois problemas tornaram-no difícil, incompatível mesmo, com a Glorieta que saíria de casa numa cadeira de rodas emprestada pela Santa Casa da Misericórdia, mas não preparada para enfrentar os duzentos e pico degraus da capela e por outro lado, há muito tempo que aí se não celebrava nenhum casamento, devido à quantidade de viúvas que o povo atribuía a uma qualquer má sorte, não da Virgem mas da própria capela. A última viúva foi a Amália, que poucos meses depois de aí ter casado viu o marido morrer estupidamente com os dedos enfiados num casquilho de lâmpada do teto. Já antes a Balbina enviuvou quando o marido que usava um berbequim para furar a parede do quarto do filhote que dormia no barrigão da mulher, enganchou a broca no fio de ouro do pescoço fazendo-a girar na garganta em borbotões de sangue que o berbequim, por preguiça, estava no automático e com o martelar unido ao girar, que a parede era de pedra, como de pedra ficou a Balbina, viúva e com um rapagão na barriga para ser criado pelos avós. Isto diziam...
- Porra, nem penses!
Reagiu o Fagundes Fonseca, sentado na sua mota, onde as proximidades da boda tinham já trazido autorização para que Mariana baixasse da janela à porta. Agora, para além dos olhares, passaram também a intimidar com as mãos, até que a mota partia acelerada deixando para trás a porta que se fechava depois das beatas serem apanhadas do chão pela Mariana, que passou a substituir o pai nesse serviço.
- Casamos aqui que também há igreja!
 Foi assim que, no Domingo combinado, a aldeia encheu de flores o altar.
Rosa Benitez, casada com o Espanhol, tocava o órgão todos os domingos acompanhando o coro e naquele dia tinha como missão pisar as teclas até sair a marcha nupcial, que tocaria na entrada da noiva no templo, competindo com os sinos que tocariam também nessa hora, com os vinte escudos dados ao sacristão para puxar a corda.
Rosa, tinha ganho aquela paixão da música com o pai, cego, a quem ouvia desde muito pequena o som do acordeão, e a quem o marido tinha dado o desgosto de a emprenhar, ao ponto de não ter querido levar a filha pelo braço até ao altar.
Benitez, o Espanhol como era conhecido, era um especialista em despir sobreiros, agasalhados de cortiça farta de nove em nove anos ou não fosse Portugal o maior produtor nesse tempo. Ele era um espanhol que sempre falou um castelhano cerrado, nascido em La Nava de Santiago, na Extremadura, com xis, no outro lado do Guadiana. Tinha ido à aldeia, catorze anos atrás, não para emprenhar a Rosa sem a despir, mas para despir os sobreiros do Papafina de Jesus, o tal que dava trabalho a prazo a muitas bocas com fome.
Aos calores da Rosa, nem os santinhos impunham respeito, pelo que naquele dia, o Espanhol encostou o machado da cortiça e a Rosa à parede interior do palheiro do irmão do cego, onde dormia, por favor, junto das alfaias agrícolas. Só lhe levantou as saias uma vez, aquela, e Rosa permitiu que lhe baixasse os calores entre a novidade, o prazer e o medo. Uma só vez que lhes uniu o destino para sempre. Casaram em Portugal, Rosa de branco como as outras, apenas um ramo de jarros substituíam o ramo de flor de laranjeira, e apenas a falta do braço do pai naquele dia, ao contrário do seu braço que lhe era emprestado a diário para que ele se movesse tanto dentro como fora de casa, lhe tinha escurecido um pouco a felicidade. Mas se casaram em Portugal não foi por acaso, porque escuro, escuro mesmo, teria sido se tivessem casado em Espanha, onde as noivas que o faziam com vida dentro eram consideradas em pecado, ao ponto de apenas serem autorizadas as cerimónias, entrando de noite nas igrejas e vestidas de negro. As fotografias daqueles fatos de noiva pretos permaneciam escondidas pela vergonha que representavam e só hoje, cinquenta anos depois, são mostradas de forma normal a filhos e netos.
– Casarmos em Espanha, nunca - disse-lhe Benítez - enquanto houver tantos padres sentenciando ao céu ou ao inferno. Não quero que te sentenciem a ti. Não quero que te envergonhem. Casarás de branco. Casaremos aqui.
Benítez passara a gostar de Rosa muito para além das suas carnes e rubores. Pena, que passasse tanto tempo fora, estando onde havia trabalho.
Agora por exemplo, com a aldeia em festa pelo casamento de Mariana, não estava. Andava pela Roca de la Sierra, entre Badajoz e Cáceres, fazendo carvão. O tempo livre ocupava-o entre a choça redonda com telhado de vime onde dormia, junto dos fornos, e a taberna de Santiago Vadillo Carrasco, onde adormecia as saudades de Rosa com vinho rosado.
Quando o trabalho acabasse, regressaria ao que era e já sentia como a sua casa e o seu lugar, a oitenta e dois quilómetros, sempre de bicicleta, que António Carlos Fagundes Fonseca, lubrificaria na sua oficina até que outro trabalho lhe saísse de novo, perto ou longe.
Com Rosa tocando a marcha, o sacristão puxando a corda e António Carlos Fagundes Fonseca de pé, no altar junto ao padre, dentro do seu fato cinzento com riscas brancas e flor creme na lapela, Mariana entrou na igreja pelo braço do Esteves. Ao ver o noivo ao fundo, o homem para toda a sua vida, cavaleiro e príncipe, que a arrancara de casa, Mariana pensou ser mais baixo do que aparentava. Sempre em cima da mota, só agora lhe tirava as medidas e descontando o estrado, onde se encontrava com o padre, fazia contas, cujo produto lhe dava que era mais baixo do que ela, pelo menos vinte centímetros. Mas que importava se fora a ele que escolhera para o resto da sua vida? E continuava a andar  pelo braço do pai, debaixo do ruído do sino e do desafinar do órgão da Rosa, até ao altar.
António Carlos via-a aproximar-se e apenas jurava a si próprio que nada beberia naquele dia, desejando e quase lhe parecendo ser mentira que nessa noite a tivesse na sua cama, sua a cama e sua ela, para lhe fazer tudo quanto a sua cabeça tinha imaginado nos últimos meses.
Mariana, aceitas como esposo António... e tu António aceitas por esposa...sim, sim...na saúde e na doença até que a morte nos separe...sim, sim...para sempre...se há alguém que...silêncio, não havia ninguém......para sempre, na saúde, na doença, para sempre, para sempre, até que a morte nos separe...sim, sim...declara-vos marido e mulher.
Glorieta secava as lágrimas na cadeira de rodas, Esteves imaginava a segunda-feira, a filha a cozinhar, o genro com ele no balcão, a tia Rita Gil sorrindo, imaginando já o melhor que eles desconheciam, a Rosa recordando o seu já passado dia de branco, lindo, com Benítez que não estava, Júlio o primo da vitela, eterno solteirão, julgando que tal nunca seria possível com ele, Papafina de Jesus pensando no belo presente que iria oferecer aos noivos, o sacristão novamente puxando a corda do sino e até o Ventoinha, apenas sentia faltar-lhe uma namorada para um dia poder casar-se assim, tal como lhe faltara sempre pai e mãe, o que o transformava num membro mais dos órfãos que se fizeram a si mesmos.
António Carlos Fagundes Fonseca beijou finalmente a noiva, ambos fecharam os olhos.
Ela, sentindo o pecado de estar dentro da igreja, lábios colados imaginando como dentro de poucas horas o seu nariz, a língua e mesmo os dentes poderiam misturar-se naquele tufo de pêlos negros, seus agora, competindo com o Cristo da Piedade e a medalhinha da Senhora das Dores, vermelha, corada, de imaginar tudo isso dentro da igreja.
António Carlos Fagundes Fonseca, sentindo um aperto das calças abaixo do cinto, apenas pensava como resistir a não beber nada, nada mesmo, que lhe pudesse diminuir o desejo e a força que sentia enquanto a beijava e apertava pela primeira vez.
Despertaram com as palmas, muitas, que os convidados ruidosamente faziam ecoar, na altura do teto da igreja.
Cá fora, as crianças e a vizinhança preparavam o arroz, símbolo da fertilidade, para atirarem aos noivos na saída, desconhecendo que ambos não necessitariam de arroz nessa noite que se adivinhava e que ambos sabiam ir existir.
Já pelo braço do marido, começaram a andar pela coxia central até à porta da rua e foi então que Mariana se sentiu balouçar da esquerda para a direita e da direita para a esquerda a cada passo que dava com o seu António Carlos.
- Magoaste-te? Que tens na perna? Estás coxo.
O marido acenava aos convidados, feliz como o mais feliz dos mortais, com vinte centímetros a menos da mulherona que tinha jurado no altar ser sua para toda a vida.
- Que tens António? Porque coxeias? Caíste da mota? Que tens na perna? -  andava braço no dele passos bamboleantes de lado a lado - Estás coxo?
Foi então que António Carlos Fagundes Fonseca, sem deixar de saudar os presentes, braço no ar e sorriso de felicidade na boca, nos olhos, fazendo mesmo peito de peru vaidoso, pequenino e subido junto da mulher de carnes vivas que começaria a desfrutar nessa mesma noite, e até sempre, auto estima elevada ao quadrado, com o setenta vezes sete retratado pela Bíblia na paciência do perdão, lhe contestou:
- Não estou, sou. A perna direita tem menos doze centímetros que a esquerda. Já nasci assim.
Mariana, enquanto sorria aos convidados, ainda se atreveu baixinho:
- Nunca me disseste - ao que o marido lhe respondeu, cara no seu lado inverso, olhando e sorrindo para os convidados:
- Pensava que sabias, também... nunca me perguntaste!

Nunca mais falaram do tema, embora Mariana entendesse agora aquele centauro motorizado por quem apostara.

Quarenta e dois anos depois, Mariana gostava de contar esta história aos netos e enquanto os acariciava dizia-lhes sempre:
- Sem a mota do vosso avô, vocês não existiriam e a avó não era tão feliz por vos ter aqui, ao meu lado, tão bonitos. Sois a minha alegria.

A mota de António Carlos Fagundes Fonseca continuava na garagem, hoje já de coleção, com um plástico de pintura, desses muito grandes a protegê-la. Já não era necessária, embora ele sentisse que por respeito, deveria conservá-la.
Em alturas difíceis, em que o dinheiro lhes fazia falta e alguém lhes propunha a sua compra, olhavam um para o outro e num sorriso cúmplice, não eram necessárias palavras para que dissessem um a outro num só olhar:
- Que se venda tudo, se necessário, mas a mota, nunca!



 in A Mulher do Sargento Espanhol