jueves, 3 de agosto de 2017

A MULHER DO SARGENTO ESPANHOL (Um cheirinho)



(...)

3.  A  Chegada  do  Professor  Primário

Chegou à aldeia com uma mala, em 1970. Pousou-a no chão do café da Josefa quando ainda estavam vivos e faziam parte do pulso da aldeia, o marido de um lado e o Esteves do outro da estrada. Nesse ano, era o Costa um rapaz que caçava ninhos, a filha da Josefa ajudava no café quando saía da escola, a Mariana nem sonhava vir a casar-se com o Fagundes Fonseca e a Glorieta ainda fazia os petiscos da taberna.
Tal como o leite que começa a ferver, nada estava mudado, mas tudo estava em mudança.
África continuava a ter províncias portuguesas. A guerra estava assumida como quem tem que vestir um casaco quando faz frio. As previsões eram meteorológicas, e as gentes, acostumadas aos enganos dos boletins da televisão, sabiam que se dissessem que iria fazer sol, poderia chover, ou se dissessem que as trovoadas ameaçariam, poderia sair um dia de céu azul e limpo. Pelo sim pelo não, saía-se sempre com o guarda-chuva, pois os barcos iam e vinham e os homens iam sem saber se voltavam.  
O Eusébio aterrorizava o Sporting, mas não o suficiente para que o Benfica não perdesse o campeonato nesse ano. Lembram-se do Dinis? Foi ele quem marcou o golo que derrotou o Benfica. Ana Maria Lucas ganhou o concurso de Misse Portugal, Joaquim Agostinho a Volta e tudo era mexido, e dado a dedo, a quem via a RTP 1 com menos de 12 horas por dia de emissão e pela RTP 2 que não chegava às 3 horas diárias, com a grande antena de ferro no início e a bandeira mais hino no final.
Começava, no entanto a sentir-se a fervura, pois a licença de isqueiro acabou em maio, Simone de Oliveira apesar de insultada, continuava a cantar “a desfolhada”, fazendo filhos por gosto na exaltação do vermelho milho rei, e Salazar, depois de dois dias no Mosteiro dos Jerónimos em câmara-ardente, partiu para Santa Comba Dão em retiro perpétuo, depois de grande passeio numa carrinha, dessas dos hippies, Volkswagen, cortada a partir da cabina para a urna ser visível e despedir-se do país em caixa aberta.
A mala do viajante chegado ao café da Josefa tinha os cantos cobertos com metal, cantoneiras que reforçavam a proteção do cartão. Era castanha escura, e os dois fechos dourados com buraquinho para a chave fazia adivinhar o grande diário que em si mesma continha.
Colocou o chapéu de feltro no balcão como quem coloca uma pedra de damas em tabuleiro de mármore. Agarrado por cima, com cuidado e precisão. O homem procurava uma pensão. Depressa correu pela aldeia que o novo professor tinha chegado.
Fernando António Figueiredo Mata, seu nome completo, Fernando Mata, o que utilizava, só Fernando para amigos íntimos e família, e o Batalha, como era conhecido na tropa, não por ter participado em alguma de referência, mas porque tinha nascido no local, perto de Leiria, onde D. João I mandou construir o Mosteiro que embora tenha o nome de Santa Maria da Vitória é conhecido apenas por Mosteiro da Batalha, esse sim em homenagem à sessão de pancadaria entre Portugal e Castela e que como um foguete de lágrimas deixou pinceladas de cor nas lendas de um povo que queria ser país: a Padeira de Aljubarrota, a Ala dos Namorados, a grande ideia da colocação das tropas em quadrado, com os cavalinhos espetados nas lanças das valas e a castelhanada, com as pesadas e lustrosas armaduras, no chão, sem se levantarem do peso e com as gargantas, os sovacos e as partes baixas ao alcance das lendárias espadas Alfagemanas de Santarém, e por aí fora, porque país sem história é apenas povo, e esse é sempre anónimo, herói sem nome, acabando sempre num só símbolo de soldado desconhecido, em campa rasa.
A gaiatagem depressa se dedicou a espiar o novo professor que dentro de dias iria partilhar o mesmo espaço na escola, mais os rapazes do que as raparigas, pois as meninas eram todas alunas da Dona Antónia Tavares, que fazia já parte da aldeia como o coreto, o mesmo que seria responsável, anos mais tarde, pelos falsos gases da filha da Josefa.
Da primeira à quarta classe. Duas salas. Rapazes e raparigas, um professor a quem chamavam Senhor Professor e uma professora a quem chamavam Minha Senhora.
-Já avisámos a Alzira, Senhor Professor, o melhor quarto da Pensão Luz está a ser preparado para si.
Fernando Mata sorveu o café.
- A escola não tem casa?
- Ter tem Senhor Professor, a Dona Antónia ainda aí morou, mas já lá vão muitos anos, está a ver, o filho mais velho dela está agora na tropa e era pequenino quando vieram para a aldeia...
Novo sorvo.
- Está suja?
- Suja? A cair de podre Senhor Professor e cheia de pombos, autorizados pela Junta à Sociedade Columbófila da terra.
Último sorvo. Chávena solta no pires, chapéu na cabeça e mala na mão.
- Bem, vamos lá então conhecer a Alzira, casa de pombos, casa de tombos – e riu-se, pelo que todos se sentiram na obrigação de rir também.
Uma lambreta cinzenta parou na rua. Duas referências brancas, os dentes e o colarinho, estenderam a mão num cumprimento de cumplicidade. A igreja e a escola encontraram-se na rua principal.
-Sou o padre Cabral, dou-lhe as boas-vindas.
O professor tirou o chapéu e soltou o nome Fernando. Trazia o convite para o chá em casa da Dona Antónia, às dezassete horas, estaria também o farmacêutico. Chá ou vinho enrolou com palmadinha nas costas o padre Cabral.
A Pensão Luz era uma casa de família, com quintal e cão na frente. Uma escada com grade de ferro pintada de branco levava à porta principal. Duas laranjeiras de laranjas no Natal e um limoeiro de limões todo o ano eram vistas de cima na porta de casa. Alzira alugava quartos, e tinha hóspedes certos como o Chefe dos Correios, o Gerente do Banco Nacional Ultramarino e agora o professor. O quarto era limpo, sem luxos, pequena mesa com candeeiro de bicha metalizado e com uma janela como um olho gigante sobre a planície.
Alzira era filha de Dona Francisca, a fundadora da pensão, e de Luís Pinheiro, hoje já na casa dos que Deus tem. Foram os pais que depois de anos emigrados em França, trouxeram as poupanças e construíram a casa. Deixaram de fazer camas lá, para as fazerem cá, de jardinarem lá, para jardinarem cá, de cozinharem lá, para cozinharem cá, no que era deles. Os sacrifícios que passaram muitas vezes com as estrelas a servirem-lhes de teto, levaram-nos a chamar Luz à pensão.
A sua estrela arrancada aos céus franceses, a sua luz colocada na sua aldeia.
Hoje era Alzira que fazia as camas, lavava as toalhas, fazia as comidas e regava o jardim, onde duas santinhas de pedra estavam colocadas lado a lado, a Virgem de Lourdes e a Virgem de Fátima. Quando o pai era vivo, chegaram a ter sempre duas bandeiras desfraldando com o vento ou adormecendo-se nele, a tricolor francesa e a bicolor portuguesa com a sua esfera armilar, cujos caminhos também tinham ensaiado. Alzira tinha um irmão, mas esse, como todos os irmãos da mesma idade, estava para África, forçando a que a bandeira das quinas se mantivesse noutro mar, mesmo com mortes no capim.
Pelas dezassete horas, o professor Fernando Mata, estava a ser recebido em casa da colega Antónia, onde já estava o padre Cabral e o farmacêutico Luís de Sousa. Uma serviçal com avental branco trazia a bandeja de prata com o bule a fumegar. Falou-se do tempo no início e em política no final, sem discussões, todos os presentes eram defensores do hino, da bandeira e do patriotismo. Como veio para professor? Por vocação. E você Padre? Por vocação. E você Doutor? O farmacêutico sem mexer um músculo, mas também sem modificar uma letra ou entoação, disse também, por vocação.
Mentiam todos.
A única acariciada pela vocação era a Dona Antónia, que desde pequena, brincava às escolas e aos puxões de orelhas.
O Padre Cabral, nascera em Alcaria, uma aldeia da margem do Zêzere já crescidinho pelos degelos da Serra da Estrela, mas onde a pobreza era escura como a broa e onde o chão, rochoso, era inimigo da fartura. Na escola, o menino Cabral filho do coveiro da aldeia era esperto para as letras e quando chegou a altura de decidir sobre emigrar ou seminário, optou pelo seminário e acomodado por lá ficou.
O farmacêutico, bem que gostaria mais de se ter dedicado às letras, especialmente à poesia, mas a farmácia acompanhava a família desde os avós e era um destino. Foi para Lisboa a mando do pai onde foi um aluno medíocre na Faculdade de Farmácia e acabou o curso a pago de perus no Natal, borregos na Páscoa e fruta fresca todo o ano, acompanhado de imensos pedidos e recomendações de um primo da mãe que era ministro.
Fernando Mata acabou professor por amor. Com quinze anos, viveu o seu primeiro romance de borboletas e água das pedras com a filha de um funcionário público. Com dois anos de mãos dadas escondidos nos jardins públicos, ou descendo e subindo as ruas lado a lado, confessaram um ao outro futuro eterno. Quando a escola do Magistério Primário se estendeu da capital de província para a capital do distrito, o sonho de ser professor mostrou-se fácil à carteira do pai que assim pôde mandar estudar os filhos sem necessidade de deslocá-los. Maria Catarina passou assim a usar bata branca e a juntar-se às cinquenta meninas que iriam dois anos depois ser espalhadas pelas escolas públicas do regime. Bastava-lhes naquele tempo ter um sentido rigoroso da moral, acreditar na trilogia Deus, Pátria e Família, usar meias de vidro e saias dois dedos abaixo dos joelhos. Calças nunca. O diretor tinha até o chefe dos contínuos autorizado, a que ao subir as escadas que levavam às salas de aula, pudesse beliscar as pernas das futuras senhoras professoras, com o objetivo de ver se tinham ou não meias e de imediato, caso tocasse as pernas nuas e firmes, comunicar à Direção, que neste caso era ele, o Diretor, nomeado por Diário do Governo em cargo perpétuo.
As meninas com namorado tinham-nos todos em fila, de casaco, gravata e lenço no bolso, esperando a saída da escola a trezentos metros daí, numa linha de meta imaginária, frente à tasca do Capote na rua que baixava para o Café Alentejano, a sala de espera. As namoradas chegavam, e eles ali, sem dar um passo, que encurtasse a distância fixada. Uma ou duas com mais idade, já com casamento autorizado para os poucos meses que faltavam para a queima das fitas e a missa da praxe, podiam ser levantadas na porta como encomendas desde que os destinatários nunca entrassem no edifício, e sempre depois de uma autorização escrita do pai da menina entregue ao diretor, em papel azul, de vinte e cinco linhas, selado e começado sempre da mesma maneira: Eu… abaixo assinado – e acabado também formatado, assinatura e data depois do: Pede deferimento.
Aqui começaram os problemas de Fernando Mata.
O governo de Salazar, pai exemplar, acima de cada pai, foi quem criou a lei sobre as autorizações de casamento das senhoras professoras. Se lhes pagara a formação, e lhe pagava um ordenado sentia-se na obrigação e o pior era que no direito também, de protegê-las, como pastor de ovelhas com dono. Havia que evitar a todo o custo a figura parasitária do marido da professora, que corrompia a moral e sem trabalho vivia de um ordenado que não era seu. Então, naquela ânsia de tudo ter bem atado, num novelo cuja ponta estava sempre nos seus dedos, o governo da nação proibiu o casamento das senhoras professoras com quem não tivesse um emprego digno, como, para eles, empregado de banco, funcionário público ou empresário com provas dadas e salários superiores e onde o casamento entre professores, senhor professor e minha senhora, era o mais autorizado, como também o era o de minha senhora e funcionário das finanças.
Viu-se assim, Fernando Mata, por amor a Maria Catarina a apresentar-se ao exame de admissão da Escola de Magistério, onde os homens tinham privilégios especiais de entrada, vá-se lá saber porquê, pelo menos com professores não se colocava a questão de autorizar casamentos.
O melhor tempo do seu amor com Maria Catarina foi o do seu primeiro ano como aluno da escola, aluno único, com namoro autorizado com a menina da bata branca que estava no segundo e quase a sair como professora, quase pronta para escrever nessas almas infantis, como dizia Junqueiro, gravado no parque infantil da Cidade, essas almas virginais onde tudo quanto nelas se grava não se apaga mais, quase preparada para escrever e gravar, nessas almas brancas como a neve, nessas pérolas de leite, o cunho como ferrete de um país cinzento que usava as senhoras de bata branca, para unificar o pensamento eternamente.
Maria Catarina começou a sua carreira de professora primária na escola de Monte Sete, uma herdade com um casarão com oitenta quartos vazios, lareiras apagadas, biblioteca sem ser lida e cabeças de javalis e veados, dentes de javalis, cornos de veado, javalis e veados e mais javalis e veados a forrarem os corredores e os salões. Fechados todo o ano. A família proprietária vivia em Lisboa e apenas abriam a casa uma ou duas vezes no outono onde faziam festas após as caçarias com dezenas de carros de marca parados no pátio. A mulher do pastor tinha a chave, a senhora Conceição, e abria as janelas uma vez por semana para que a humidade não embolorasse a pele dos cadáveres e os tapetes de Arraiolos. Dona Conceição tinha sete filhos e vivia com o marido numa choça de pedra e telhado lusalite todo o ano. A bondade dos senhores era tanta, que construíram uma escola, com mesas, cadeiras e quadro preto, onde o vento entrava pelas frinchas e os pardais cagavam no chão. Sete alunos tinha a escola. Os filhos do pastor e da senhora Conceição. Colaborava o Ministério com a bondade desta ilustre família, motor de desenvolvimento, empregando logo nas tarefas do campo os alunos a partir dos dez anos, mas ensinando o ofício, tarefa dos pais, bem mais cedo. Dar de comer ao gado, ajudar no pastoreio, ordenhar as ovelhas, alimentar as galinhas, cuidar dos cães, soltar as perdizes e bater os javalis nos dias de caçaria. Por isso mesmo o Ministério de Educação agradecia o esforço colocando anualmente um professor presente de outubro a julho, todos os dias, desde que a ribeira não enchesse e impossibilitasse o acesso. Quando as professoras eram insuficientes, colocavam o que designavam como Regentes Escolares, que sabiam ler, escrever e contar, eram normalmente solteironas e algumas vezes, antes ou depois, acabavam como amantes escondidas, dos donos das herdades, não todas, obviamente, algumas havia que colocavam um gosto nas tabuadas, nos mapas, nas réguas de medir e de esfolar, e beatas quase todas, levantavam o dedo aos patrões e ameaçavam-nos com o Bispo.
Nesta escola começou Maria Catarina a trabalhar, alojada num quarto da aldeia mais próxima, indo a casa nas sextas-feiras à tarde onde lavava as roupas da cama e enchia as marmitas que levava com comida feita aos domingos, para aquecer em banho-maria durante o resto da semana, enquanto falava de barcos a quem nunca tinha visto o mar, de estações de caminhos-de-ferro a quem nunca tinha visto um comboio, de aviões que sabiam ser pequeninos lá no ar, viam-nos às vezes quando passavam nos dias sem nuvens, embora as abetardas fossem muito maiores e nunca voassem isoladas, e de rios, grandes, dizia a Senhora, e compridos, de norte a sul do mapa de Portugal, maiores, muito maiores do que a ribeira da aldeia no inverno, embora fossem pequenas linhas azuis que a Senhora dizia serem grandes e se a Senhora dizia era porque sabia... e de um outro mapa com pretinhos nus que cantavam o hino nacional com as bandeirinhas de Portugal nas mãos.
Foi difícil o primeiro ano de trabalho de Maria Catarina e o último de Fernando Mateus na Escola de Magistério. Viam-se pouco. Ele, assediado por quarenta e nove batas brancas, ela rejeitando os presentes que o filho do patrão, o Senhorito, como lhe chamava a senhora Conceição, insistia em trazer-lhe de Lisboa, nas visitas que aumentaram da sua parte à herdade nesse ano.
Estiveram no verão, já professores os dois, com os pais dela, numa residencial em Setúbal, na Avenida Luísa Tody. Da janela do quarto dele viam o Sado e o movimento dos barcos de pesca fronteirando com Tróia. Aí passaram horas com planos e beijos, pois à noite, Catarina voltava ao outro quarto onde dormia com os pais, não fosse o diabo tecê-las, que nessa altura o biltre, ao contrário dos dias de hoje, era adverso do prazer.
Foi a última vez que estiveram juntos.
Fernando Mateus recebeu a guia de marcha para se apresentar no Centro de Recrutamento Militar de Leiria, daí para Santa Margarida e de Santa Margarida para Santarém, último quartel antes de desembarcar em Moçambique.
- Tens que mudar de escola, Maria, não te quero aí sozinha.
Partiu como furriel e juras de se casar por procuração. Fotografia de um e do outro, nos dois lados do mar, frente a frente, só um coração de cada lado, ela com o pai como padrinho, ele com alguém de confiança que poderia vir a conhecer e em último caso, um oficial do seu batalhão que convidaria se necessário, com dois notários a perguntarem se sim, se para toda a vida.
Os aerogramas começaram a voar entre oceanos, primeiro muitos, depois menos, até se estabilizarem num por mês, às vezes dois, até passarem a um de dois em dois, o que significava por ano, seis para lá, seis para cá, se o tempo se prolongasse para além da estação das chuvas e do regresso definitivo.
O furriel Batalha tinha para além de participar nas colunas mato dentro, que ensinar a ler os companheiros, muitos, que o não sabiam fazer, pois trocaram cedo o giz pela enxada, pelo cajado, e estes pelas G3 que os acompanhavam a diário e com quem dormiam como esposas. Maria Catarina mudou para nova escola, desta vez para o Gavião, onde conheceu a Alierta, uma açoriana desinibida que a convenceu a concorrer para os Açores no ano seguinte. E foi, TAP primeiro e SATA depois até às ilhas, onde se sentia útil cuidando meninos ranhosos e com a cabeça compartindo os piolhos com o sonho, o sonho de embarcar, acenando com lenço branco na proa de qualquer barco que os levasse dali.
Enquanto o furriel Batalha pensava diariamente sobreviver, Maria Catarina pensava em viver. Foi assim, que pisou os telhados do vulcão dos Capelinhos, que se molhou nas águas quentes das praias de São Miguel, com os pés enterrados na areia preta que fazia com que os corpos em calções parecessem andar todos de peúgas, comeu o cozido à portuguesa feito nos buracos das furnas com o calor da terra, comeu figos no Pico das figueiras rastejantes que saltavam os muros, bebeu vinho de cheiro, comeu ananás e polvo cozido, cavacos e lapas, fotografaram as lagoas, provou a aguardente amarela de São Jorge, respirou as hortênsias que dividiam as propriedades nas Flores, assistiu à captura solidária das últimas baleias, provou o gin tónico do Peter na Horta e até um dia, no Cais, embarcou num navio de carga, o Ponta Delgada, e visitou o Corvo, onde o barco ficava fora por falta de porto e os passageiros desembarcavam na praia a remos como no cinema. Cem habitantes tinha a ilha e moravam na mesma rua em casas sem chaves nem fechaduras e onde existia apenas um veículo motorizado, concretamente um trator que puxava uma zorra e onde os aventureiros turistas pagavam trezentos escudos, para de pé e agarrados uns aos outros, subirem até à cratera do vulcão.
O furriel Batalha, exatamente onze meses depois de ter sido engolido por África e quando lhe faltavam sete para terminar a comissão de serviço, pediu ao alferes Faial, com ordem de marcha para férias merecidas, que mandasse saudades para a sua terra e deu-lhe a morada de Maria Catarina para que lhe entregasse em mão uma carta, com fotografias suas barbudas e de camuflado, ora encostado a um tanque, ora na asa de um avião parado com focinho de tigre pintado, ora com um pretinho ao colo com a mãe ao lado, de boas carnes e mamas de fora, ora afagando uma macaquinha com correia ao pescoço, que acabou por trazer do Continente Africano e já na aldeia, anos mais tarde e já crescidita, foi levada para a quinta do Papafina, onde muitas vezes os meninos da escola iam ver África, o nome que tinha a macaca e que era conhecido por todos.
Tudo lhe foi devolvido quando o alferes Faial regressou dos Açores para se incorporar à guerra.
- Temos que falar.
Sentaram-se debaixo de um embondeiro, duas grades vazias de cerveja, de madeira húmida, como bancos, uma garrafa de VAT 69 a beber sem copo.
- Não a vi. Já lá não está. Não cheguei a dar-lhe nada. Toma.
Tirou o envelope dobrado do bolso chapado das calças.
- E não sabes nada?
- Sim pá, é melhor que bebas e esqueças - e estendeu a garrafa depois de lhe limpar o gargalo.
Maria Catarina tinha partido para os Estados Unidos, grávida de três meses, deixando os alunos sonhando com barcos, e acompanhada pelo açoriano que conhecera na Horta e com quem combinou passar o resto da vida.
Fernando Mata nunca mais soube nada dela.
Começou a esquecê-la naquela primeira garrafa e apenas ficou com a profissão, da qual passou a viver quando foi desmobilizado e que o levara até a casa da Dona Antónia, para tomar chá com o farmacêutico e com o Padre Cabral.


In A MULHER DO SARGENTO ESPANHOL
...em publicação...

viernes, 7 de julio de 2017

Excerto / A MULHER DO SARGENTO ESPANHOL


 (...)

António Fagundes Fonseca deitou-se de papo para o ar, colocou os braços por detrás da cabeça e viu como Mariana, robe vestido, andava de um lado para outro. Fazia-o sempre que se sentia insegura. Agora faltava a mala. António sabia que a mulher, acabaria por trazer a mala para o toucador, colocaria um saco plástico no chão, e começaria a rasgar papéis e a desfazer-se da tralha. Era sempre assim, fora sempre assim. Quando estava intranquila, Mariana arrumava desarrumando o saco fundo das surpresas que a acompanhava sempre. Aquele poço sem fim, das coisinhas, dos restos e das necessidades na hora, enchia todos os meses, e na hora que menos se esperava, mas coincidindo sempre com as insónias de Mariana, era esvaziado e separado das inutilidades e exageros. Era como se ao arrumar a mala, se arrumasse a si própria e num ritual, que ele conhecia de muitos anos de cumplicidade, despejava-a e despojava-se, terminando sempre pela carteira que guardava para último, atafulhada de papéis e papelinhos que eram vistos e rasgados, emagrecendo-a e reduzindo-a até ficar apenas com as fotografias dos netos, do marido e dos trocos. A carteira era o coração da mala, e se libertava o corpo, acabava sempre por libertar a alma.
- Já está!
Pensou António Fagundes Fonseca quando a viu colocar o saco de plástico no chão e a mala volumosa, castanha e com alça a tiracolo, sobre o tampo de mármore do toucador.
Apenas se ouviu de início o ruído metálico do correr do fecho, depois multiplicaram-se sons de fundo, arrastados, abafados, embrulhados. – Onde está o leque?- pensou António depois de ter visto sair a escova do cabelo, um espelho redondo, umas chaves, outras chaves, um lenço branco amarrotado, outro lenço maior e colorido, uns óculos de sol, batom, lápis dos olhos, rímel, tudo por separado e espalhado, uma bandolete, uma tesoura, uma fita métrica desenrolada, um pacote encetado com três bolachas Maria esquecidas, uma chupeta da neta, o missal e o véu, a última imagem impressa de Santa Glorieta (que colocou dentro do missal), a caixinha redonda com o terço dentro comprado em Fátima, um corta-unhas, um frasquinho de perfume, falta o leque, falta o leque, António continuava a olhar e o leque passou a ser uma obsessão, umas cuequinhas dobradas preventivas de eventual incontinência, uma lima, duas castanhas piladas, a caixinha das aspirinas, e o leque? Suspirava mentalmente António, dois pensos rápidos e um urgente, um embrulhinho em papel de prata que desembrulhado mostrou o resto de uma banana (acabaram ambos no saco de plástico), um carrinho de linhas com uma agulha enlaçadamente espetada, umas luvas de pele fina, António olhava-a como se olha um mágico tirando mundos da cartola, e o leque?... tirou a carteira do dinheiro e das fotografias, o coração, esvaziou-a, colocou-a sobre a cama, rasga ali, rasga aqui, bolinha, papelinho e mais papelinho, saco plástico…
Agarrou a boca da mala, espreitou lá para dentro como quem espreita um precipício profundo e escuro, virou-a, abanou-a e nada mais, estava limpa, esventrada, vazia, desinflada:
- António, perdi o leque!
- Eu sei.
Mariana sentiu-se também melhor, despejada, mais leve e tranquila.
- Anda para a cama, anda.

Mariana soltou o cabelo, despiu o roupão, puxou um pouco a camisa de dormir para poder dobrar os joelhos, beijou o marido e meteu-se na cama, sobre ele. O coração da mala caiu para o chão, aberta no retrato dos netos, e ai ficou até que amanheceu.
(...)

in a Mulher do Sargento Espanhol
(em breve nas livrarias)

lunes, 20 de marzo de 2017

O Que Foste Lá Fazer? - Cap.17 (excerto)


(…)

A língua cinzenta e poeirenta enrola-se no “Subão” acima e abaixo.

Nela misturam-se cores, ócio e trabalho.

“Biscotas” carregadas de tudo e de gente apertam-se, e passam encolhidas nas curvas, centímetros às vezes, sobre falésias que dominam o mar.

Carlos Novais saltava no assento enquanto o motorista, cigarro na mão do volante, repousava a outra que recebia o vento pendurada e solta do braço, fora da janela.

Lá encima, no tejadilho, adolescentes, agarrados uns aos outros, com patos, porcos, panelas, colchões e um frigorífico novo, cerram os olhos e os dentes nos momentos de aperto, que da sua posição privilegiada, como vigias nos mastros das caravelas, podem gritar por antecipação.

Dentro, a música muito alta, mascara o ritmo da viagem em engano de festa e normalidade.

Um grande e invisível manto protetor, há quem o tenha por divino, cobre os viajantes.

Passada a ponte de ferro, que salta a larga ribeira, pégada de outras gentes que tocaram a ilha, a língua segue, agora com casinhas de madeira, tectos de palmeira, crianças nuas em folia, mulheres labutando e homens deitados, pais e irmãos de uma geração parada, porque o que resta da anterior, corre já pelas veredas da localidade, sobre os anos o peso do pau, onde em cada ponta, peixe, verduras ou frutas baloiçam esmolando centavos, e a posterior, fardas multicolores, rapazes e raparigas na tradição do toque protector, dão as mãos, dois a dois, duas a duas, às centenas, caminhando entre a casa e a escola para o futuro que se lhes exige.

Segue a língua lambendo os arrozais, afastando cabras, galinhas, agora sedenta de paragem como a dos búfalos estáticos que a olham, interrompendo a festa da lama.

Vai até ao mar, que deixa de ser o companheiro presente, sempre à esquerda, e aparece, na frente, enorme e manso, quadro vivo salpicado de barcos finos, muitos, pescadores em equilíbrio, pequeninos, acompanhando o traço amarelado, contorno da mancha creme que se vai alastrando no azul porque choveu em Aileu, dizem, e a montanha deposita a sua dádiva pincelando a calmaria, lentamente, muito lentamente.

Em breve, questão de uma, duas horas, o mar muda de cor, fica opaco e o peixe sobe, precisa de luz, e os pescadores aguardam-no, precisam de peixe.

O mar de Manatuto é um gigantesco camaleão.

Que se esqueçam os depressivos de o utilizar de cura, como no Guincho.

Não há Boca do Inferno por estas bandas, a boca é tranquila, de céu, e perante este enorme lago a que os locais chamam “tasi feto” (mar de mulher), mais pela influência dos marinheiros portugueses que chamam ao mar chão, mar de senhoras, do que ao carácter da mulher timorense agitado pela força dos anos da resistência, os depressivos podem morrer da cura e ser atirados para o suicídio pacífico, tal a calma sonolenta das águas que conseguem adormecer a rotina.

É um mar que junta ao seu silêncio e quietude, a observação.

Tanto que viu durante séculos, ali, sempre ali, tentando até avançar sobre a ilha, a razão dada para a colocação de pés de galo em cimento, inestéticos, em tudo o que é margem.

Um muro à volta do mar.

O povo não sabe o porquê, apenas que os barcos deixaram de poder dormir na areia negra da praia.

_ É para evitar ataque “lafaek” (crocodilo).

- Não! É para proteger tsunami!

_ Não! É para parar o mar que comeu terra desde o tempo dos portugueses.

Povo heróico, de guerras de David e Golias, atraído pelo gigantismo do inimigo, ora frente à Indonésia, ora exigindo o seu mar de Timor frente à Austrália, ou contra o mar, pois então, esse mar que come Timor desde o tempo dos portugueses que aliás, tiveram um, chamado Dinis, que temendo o mesmo diminuir do território português, plantou pinheiros, nas areias, frente às ondas.

E tentam barrá-lo, sustê-lo, pés de galo, centenas, num muro gigante com quilómetros de extensão.

Este mar já viu tudo, o timorense também e se pacifico como o mar, não quer esquecer.

Assim o provam as ruínas frente ao largo, queimadas, um “POLISI” azul, ainda na parede já desbotado, mas indicando que não há muito tempo esta paz que se respira, custou muito, como custa hoje recordar os que não estão porque teimaram em ser um País.

Sempre gostou Carlos Novais de países originais para o seu tempo, por isso, também começava a estar enfeitiçado (chamam feiticeira à ilha) por aquela terra, julgo única no mundo, com governos de coligação entre Bispos e Che Guevaras que faziam sentido.

Tudo isto lhe passava pela cabeça, salto atrás de salto, ladeio atrás de ladeio.

Em breve estaria na escola e matutava no que já fizera nos últimos anos.

Estava preocupado, pensando na teoria de Peter, em que os homens vão sendo promovidos até atingirem a incompetência, onde param, parando os sistemas.

Tinha vindo como professor do primeiro ciclo e sem mais, começou a leccionar no segundo.

Pediam-lhe agora que desse uma disciplina de 7° ano, Educação Cívica e Direitos Humanos.

Coragem a deste povo de ter metido assim, toma e já está, esta disciplina nos currículos de Timor, mostrando que não teme a liberdade frente ao futuro.

Há muito que defendia em Portugal, esta disciplina na escola portuguesa e tinha feito um CESE (Curso de Estudos Superiores Especializados) essa trampa de complementos de formação com que enganaram os professores do primeiro ciclo, por forma a escancararem as portas das escolas primárias a todos os formados de outras áreas em troca de poderem meter um Dr. nos livros de cheques e nas publicações que recebem da Deco.

Vinte anos depois, Carlos Novais teve uma oportunidade de dar oportunidade ao bolor desses três anos e aceitou.

Bateu com a moeda no vidro da janela da Biscota, o sol tinha ido para outras paragens e a noite cobria já Manatuto.

Estava a crescer de dia para dia, ele e o Município.

Reparou com gosto que nestes dias, tinha aberto o supermercado dos chineses, o restaurante tinha sido pintado, os pés de galo avançavam margem fora e já iam a caminho da igreja.

Encontrou o segurança da escola nova, em construção há três anos, mas com uma das partes já pintada de cor-de-rosa, a outra, andando.

- Então colega (amigo)? Quando temos escola nova?

- Quase professor, quase, já vai ter vidro na janela. Chegaram, tão aí, e também veio mais tinta para pintar.

A nova escola era esperada por todos, até lá, usavam umas instalações emprestadas que com muita imaginação e trabalho, faziam realçar cores e vida, bons sintomas de alegria.

Pneus pintados, materiais feitos artesanalmente, programas desdobrados em invenções diárias que substituíssem os manuais escolares que existem mas não chegaram e por isso se usavam os telemóveis, os computadores particulares e cada professor dava o máximo de si próprio.

Carlos Novais, tinha comprado um projector e com ele pensava nessa nova disciplina que iria começar a leccionar.

Comprara-o em Bali, atraiçoando a filha pequenina que queria um computador no natal e viu passar a promessa para o aniversário.

Levantou-se às seis e meia como habitualmente, com o sol, comprou o pão, fez café, "matou o bicho", só depois tomou banho e se vestiu.

A carrinha chegou às sete horas e trinta, cinzenta.

Se fosse ele a mandar, há muito que seriam vermelhas, verdes, azuis, cinzento? Cor mais feia para quem inicia uma semana de trabalho que se quer de festa, porque ensinar e aprender, se não for uma festa, é uma chatice.

Os primeiros noventa minutos, correram bem, os nomes, os sonhos, aquelas coisas das apresentações.

Não eram meninos, eram rapazes e raparigas, confusos como todos os adolescentes, descobrindo respostas para depois procurar caminhos.

Da janela da escola via-se o mar.

A pedra bateu na jante de carro suspensa (o sino) e saíram para o recreio.

Carlos ficou sentado no gosto do silêncio.

Nada é gostoso durante muito tempo.

De repente, ouviu-se um estrondo rompendo a calma, a seguir, mil ruídos de mil estilhaços e por fim, outra calmaria, mas de destroços.

Uma bola, como uma bala, tinha rompido a janela da sala e os vidros estavam espalhados por tudo o que era sítio.

Carlos Novais saiu e fez a pergunta rotineira:

- Quem foi?

Obviamente que não tinha sido ninguém.

Lembrou-se da sua nova disciplina.

É o medo que impede muitas vezes o assumir das responsabilidades.

_ Não importa, eu também parti muitos vidros a jogar à bola, temos é que assumir as responsabilidades, parti, pronto, está partido, fui eu, já está.

_ Um rapagão repetiu:

_Fui eu, já está.

Carlos Novais, preparou-se para o brilho.

_ Tu tinhas uma equipa, não jogavas sozinho, quem era a tua equipa?

Nada, o rapaz estava isolado, nem acusava, nem ninguém vinha em seu auxílio.

Carlos explicou o que era ser uma equipa, a necessidade uns dos outros, a camaradagem, um daqueles discursos pedagógicos que marcam ou tentam marcar.

- Não há nenhum problema, a não ser que temos que colocar outro vidro e limpar isto. Julgo que se uma equipa é tudo o que vos expliquei, será melhor assumirem a responsabilidade. Tiro os nomes, aponto a equipa, reponho o vidro e cada um paga uns centavos, quantos mais, melhor, não vai este pobre que se enganou na baliza, pagar o vidro sozinho e limpar a sala, além disso, esta escola não é nossa, foi-nos emprestada.

Vendo que o terreno estava macio, os rapazes da equipa de futebol, acusaram-se, deram os nomes e para surpresa de Carlos Novais, um perguntou:

_ E os da outra equipa também podem entrar no pagamento?

_ Se querem podem, mais barato fica a cada um.

Todos os rapazes do sétimo ano se prontificaram a pagar o vidro que o professor iria comprar.

Carlos Novais estava satisfeito e mais satisfeito ficou, quando depois do almoço, os rapazes lhe trouxeram um vidro para a janela, resolvendo eles mesmo o problema.

Rejubilou.

Fez-lhes um elogio sentido, o valor do espírito de grupo.

Registou nas suas memórias para contar aos seus netos.

A sua auto-estima profissional disparou, subiu aos céus, acima das nuvens.

Ah grande Piaget das montanhas, Freinet do suco, Kohlberg de Manatuto e arredores, inchado, como só poderiam inchar os perus com êxito antes do natal.

Tudo terminou quando o segurança das obras da escola nova apareceu:

_ Professor Carlos, os meninos desta escola, ao almoço, roubaram um vidro e fugiram para aqui.

(…)

in O Que Foste Lá Fazer?
( em elaboração )


martes, 7 de febrero de 2017

" A MULHER DO SARGENTO ESPANHOL" / EXCERTO DO 5º CAPÍTULO



5.
 A morte de Glorieta Esteves



Glorieta
 Esteves começou a sentir um frio paralisante nos dedos dos pés. Depois esse gelo mole e etéreo começou a subir-lhe pelos tornozelos até aos joelhos. 
Às seis horas e quarenta e cinco, já lhe tinha chegado ao ventre e lentamente, continuava a subir arrefecendo-lhe os dedos das mãos, numa paralisia fria que a impediu de carregar no botão da pêra com a campainha, para chamar alguém. Antes das oito horas, estava gelada e tesa até ao pescoço e apenas podia mover a boca e os olhos. Exatamente às oito horas e doze minutos, estava completamente paralisada, sem qualquer sensação de dor e nem as pálpebras conseguia fechar, pelo que começou a dar-se conta de que deveria estar morta.
Sentiu a freira entrar na camarata e chamá-la, Senhora Glorieta, Dona Glorieta, Glorieta. Não foi capaz de responder. Sentiu que lhe tocavam no pulso e que lhe encostaram a cabeça ao peito e que lhe puseram dois dedos na garganta, mas não conseguiu dizer nada, mesmo quando as companheiras da camarata a olhavam entristecidas, o Padre lhe fez uma cruz na testa e a Madre Superiora suspirou, paz à sua alma, enquanto com o polegar e o indicador lhe fechou as pálpebras.
A partir daí deixou de ver e apenas ouvia.
Antes do meio-dia chegaram as filhas.
Mariana, Clara e Branca.
Beijaram-na, afagaram-na e pentearam-na. O genro também estava, sentiu-lhe os lábios quentes na testa fria e o afago na cara. Vou para fora fumar, disse Carlos Fagundes Fonseca enquanto a mulher e as irmãs a despiram, a lavaram e a vestiram de novo com roupas que tinham trazido. Sentiu, ou pelo menos assim lhe pareceu, que poderia mover o dedo gordo do pé e que tal seria um sinal para que as filhas soubessem que não estava assim tão morta, mas perdeu todas as esperanças quando lhe calçaram uns sapatos novos, a que tiraram o preço, acabados de comprar na sapataria do Cunha. Cortaram-lhe as unhas e sentiu o cheiro do verniz quando as pintaram, juntaram-lhe as mãos e ataram-nas para que se mantivessem naquela posição de prece, até à eternidade, com um terço enrolado nos dedos e Clara e Branca, puseram-lhe pó de arroz no rosto, uma ligeira sombra nos olhos e um pouco de pintura carmim nos lábios.
Deixaram-na preparada para a sua última viagem, tão bonita como quando esteve presente no casamento de Mariana.
Antes do almoço chegou o Nogueira da funerária e passaram-na para uma urna almofadada. Glorieta sentiu-se bem e aliviada, pois não fora preciso abrir com picareta nenhuma porta e muito menos ser baixa, como a irmã, com cordas da varanda e apenas sabia estar morta porque não necessitava de respirar.
Ouviu perfeitamente o ruído dos gonzos a fechar a tampa e o enrolar de uma chave na fechadura. Sentiu que a levavam pelo ar e a depositaram num sítio plano, ouviu um motor a diesel e soube estar a caminho. Ergueram-na de novo, pousaram-na, e sentiu novamente a chave, os gonzos e a tampa que se abria.
Estava na igreja da sua terra.
O cheiro a cera de velas assim o indicava.
Colocaram-lhe um pano sobre o rosto e sabia haverem flores porque o perfume a envolvia.
Começou a chegar gente.
Sentia os passos no ranger do soalho e no eco da abóbada. Tiraram-lhe o lenço do rosto e uns afagavam-lho, outros colavam os lábios húmidos na sua cara fria, outros limitavam-se a tirar o lenço, olhar como para confirmar se era ela e colocavam-lho outra vez sobre a face.
Depois de jantar, foi quando veio mais gente. Sentia-o pelo murmurar cada vez mais alto dos presentes e às vezes detetava alguns risos de adolescentes.
Com o passar das horas apenas foram ficando os mais próximos e o silêncio passou a ser maior, tirando o ressonar de Carlos Fagundes Fonseca, que cabeceava por falta de hábito a noitadas desde que casara.
Amanheceu igual, como sempre, como se a natureza valorizasse pouco o desaparecimento de uma vida.
Às dez horas, ouviu-se o velho Padre Cabral falar da amiga que os deixava, do conforto que encontraria junto do Senhor e dos seus Anjos e depois de dar a comunhão, pediu um Pai Nosso pela alma da irmã Glorieta.
Daí saíram, depois do eterno adeus e da chave que rodou ter sido entregue a Mariana como filha mais velha.
Baixou à terra com duas cordas e oito braços que a fizeram balançar e sentiu o ruído da terra sobre a tampa da urna.
Assim morreu Glorieta Esteves sem saber ao certo se estava morta.

                                                     (…)

In a Mulher do Sargento Espanhol
... em publicação...

miércoles, 28 de septiembre de 2016

O QUE FOSTE LA FAZER? - Cap. 8



Capítulo 8
(…)
As cadeiras de bambu têm sobre elas almofadas compradas perto. 

Vendem-se na plantação de casitas de artesanato ao lado das gigantes bananeiras de fruto pequeno e doce que aproveitam os passantes, ou passeantes que param, frente à fortaleza portuguesa, canhões enferrujados virados para o vasto e ritmado azul.

O mar, esse mar imenso, arrastava-se até às ilhas indonésias que se avistavam e mudava de cor, azul petróleo, álcool ou céu, às vezes verde, tons escuros, raiados pelo branco das ondas baixas mas fortes, como os homens, embrulhando-se cadenciadamente nas pedras soltas da praia de areia negra mas suave, como os cabelos das crianças, mexendo-se na insegurança dos corais cortantes, cores vivas e abrigo de peixes pintados de arco-íris, como os “tais” coloridos das mulheres da ilha.

Do lado de cá do baile do mar com a praia, antes das casitas, atravessa-se a estrada, passa-se a fortaleza, a montanha sobe sem alcatrão e visita o café, a canela e o ananás, que o Avô Serra mete na mesa, servido de histórias e de palavras de tempo, que confundem o homem velho e sábio, com a história de Timor, o homem com raiz portuguesa que chegou há muito e ficou, como o crocodilo da lenda.

Carlos Novais tinha ido de Liquiçá a Maubara, numa microlete que mandou parar e que não gritava “Dili, Dili, Dili” mas “Bara, Bara, Bara”, pequenina, peluches cobrindo o tablier tapando o vidro da frente, já só meio, pelo autocolante do Barcelona que cobria a metade superior e rivalizava com um Cristiano Ronaldo pintado nos laterais exteriores.

Porta aberta com dois rapagões de bronze, cabelos atados e chinelos, meio dentro meio fora, pendurados, porque dentro iam senhoras tímidas, peles sofridas pelo sol e trabalho, dentes vermelhos da última masca, “tais” sujos de pó, mas pés com asseio, unhas cortadas e bicos de galinhas que espreitavam por baixo dos assentos.

“Bara, Bara, Bara” e parou como um regaço fresco na estrada quente.

Carlos entrou e com ele o colega com quem tinha combinado sair, romper a clausura da ilha em que sentia a sua escola e respirar, outro ar, longe das obras poeirentas que atravessavam a localidade onde estava, desde que o avião o deixou naquela aventura, e só regressaria para o levar, com os reis magos, pelo natal, para poder estar a horas no presépio da sua casa.

Tinha Maumeta, o suco onde morava, praia também, baleias à vista algumas vezes, golfinhos quase sempre, crocodilos não se pensava nisso, mas estava muito próximo da escola onde estava há pouco mais de um mês, a gosto quando o trabalho era a gosto, forçado quando lhe começaram a forçar o gosto.

Mesmo o amor passa a desamor quando obrigado sem obrigado, e não precisava que lhe agradecessem, bastava que o deixassem fazer o que sabia, aliás, julgo que a única coisa que julgava saber fazer, ser professor, dar e receber todos os dias.

Despistar nortes, emprestar rumos e receber outros saberes, emprestar uma bússola, falar da estrela polar e receber, nem que fosse um sinal de fumo ou de bandeiras, compensada com a visão do cruzeiro do sul.

Afecto só sentia o de alunos, pais e funcionários, porque os nortes que eram dados por quem levava o leme, afastava a nau da terra, no convencimento de que os instrumentos de orientação de bordo, porque importados, eram seguros, infalíveis mesmo, e o pior, inquestionáveis, e se falhavam as velas pelo óbvio, tudo a remar, transformando a nau em galé.

Ambos estavam a precisar de sentir a parte de fora, aquela outra vida que não parava, diferente, desconhecida para eles, misteriosa, feiticeira, como alguém lhe chamara.

Saíram assim para a parte de fora da galé, sem tambores, e soube-lhes bem o ar, o mar e as gentes que falavam de outras coisas que nunca tinham ouvido, de outra forma, línguas que nunca tinham escutado, de outras maneiras de sentir, formulários que tinham necessidade de preencher sem ser os outros, aqueles que faziam cumprindo, e a que nem sequer, se atreviam a perguntar para que serviam?

Talvez agora, não repetissem aqueles coelhinhos de uma Páscoa, celebrada ali de outra forma, feitos de embalagens vazias de iogurte e de saberes de rua, importados para uma escola de um país, onde os coelhos são tão conhecidos como os pinguins em África. 

Claro que se tinham que misturar, de conhecer cheiros e risos e descobrirem que a lua ali não é mentirosa, porque naquela tarde a viram em forma de barco e na anterior de fatia de melão, quais quartos crescentes e minguantes? Qual quê?

E as fichas? A praga das fichas? Com feiras e carrosséis, meninos loiros e algodão doce nas mãos? E os exames? Fechados e dignos, desenhados em segredo por adultos especialistas para terem um resultado de espionagem secreta para saber o que os meninos não sabem em vez de os estimularem pelo que aprenderam? Demasiado fechados, policiados, ritualistas.

- Estamos a falar de crianças Carlos?

- Pois, o problema é esse, é que estamos a falar de crianças.

Estava decidido, tinham que começar a sair!

A estrada de Liquiçá para Maubara é uma língua recente, salpicada de animais que dão cor ao alcatrão novo como o novo país, animais que estavam antes das máquinas lhes tirarem o espaço e agora, que as máquinas partiram, o reocuparam, e usam-no, com tempo, com todo o tempo do dia e da noite.

- Olha Carlos, a Lagoa.

Ά esquerda, uma manta líquida, espelho de uma família de pelicanos que se duplicavam no reflexo da água, limpa hoje, outrora manchada de vermelho, que a metralha castigava com a vida, um povo que queria ser país.

_ É por isso que se chama Lagoa Vermelha?

O silêncio respondeu que sim, o espelho de água reflectiu a paz, e o voo dos pelicanos mostrou um país.

Maubara apareceu de repente, com as suas casotas de artesanato, a fortaleza de canhões enferrujados apontando para o mar, hoje sem medo do que as ondas lhes trazem.

A microlete parou, Carlos perguntou a que horas havia uma de regresso, em português, nada, em inglês, igual, gestos, dedo indicador apontando o relógio, mão aberta para dizer cinco horas, arranhou tétum, também não.

O timorense pequenino mostrou os dentes brancos num sorriso de entendimento, sim, disse, Carlos Novais mão aberta e dedos esticados, cinco horas, ele respondeu sim de novo, e tornou a responder sim a tudo, sempre com um sorriso de que finalmente entendera.

Gustavo, olhar de observador soltou, parece que percebeu, vem às cinco.

Carlos Novais fez-lhe adeus, o timorense também e a microlete envolta em fumo de escape voltou para trás.

Missionariamente (o adjectivo existe porque o criei na liberdade que a escrita me dá para inventar) Carlos comentou: Acabamos sempre por nos entender - e ficou a olhar o mar.

A tarde passou, cinco, cinco e meia, seis horas e Gustavo na estrada suspirou com ironia: Acabamos sempre por nos entender – Carlos não respondeu, apenas pensava que a noite estava a chegar e tinham que regressar.

- Vem aí uma Toyota de caixa aberta, nova, aposto que tem ar condicionado.

Nasceu a esperança e fizeram sinal para que parasse, ao longe, bem antes de estar junto deles.

- Eh pá, espera, não a mandes parar, porra, vem carregada de freiras!

Era tarde por um lado, mas por outro parecia que estava a abrandar.

E abrandou. 

E parou, não por eles, mas porque três homens carregados com um enorme cacho de bananas também lhes fez sinal.

- Para as meninas do orfanato.

Começaram a atar o cacho pendurado na traseira.

Carlos Novais contou sete freiras na parte cabinada e cinco, bem mais novas, juvenis até, na parte aberta da carrinha.

- Vamos lá? 

- Não temos nada a perder.

Aproximaram-se da madre e perguntaram se podiam ir com elas para Liquiçá.

Desconfiadas, dois homens, um corpulento, o outro barbudo, a sorte parecia perdida quando uma delas com sotaque espanhol disse:

_ Está cheio!

Carlos Novais puxou dos galões de homem sério, casado, pai de filhos, professor, honesto, incapaz de uma má palavra, muito menos de um mau gesto.

_ A irmã é espanhola? A minha esposa também, vem a Timor em Agosto…

Milagre.

A sua ordem também era, iam receber a visita de uma sua superiora, que bom a mulher do Carlos ser espanhola…

Aproveitando a embalagem Gustavo disse “espanhola e professora, até podia ensinar castelhano enquanto aqui estiver, de forma voluntária, às meninas do orfanato, ou às irmãs que quiserem”. 

Carlos olhou para ele, que nem tão pouco a conhecia, mas com a noite a cair, confirmou, que sim, poderia fazê-lo e também chinês e grego e latim, por favor, que os tirassem dali.

_ Têm que ir atrás, com os mantimentos.

_ Não faz mal, muito obrigado (lembrou-se que eram freiras) Deus vos pague.

Gustavo, ágil, saltou para a caixa, já Carlos Novais teve que ser puxado, julga mesmo que também empurrado, pelos três homens que tinham acabado de atar as bananas.

Deu-se conta que estava dentro quando caiu redondo e com estrondo no meio dos sacos de batatas, hortaliças, duas galinhas, um cabrito de patas atadas com arame e ele ali, agora sentado, cabelos ao vento, com as noviças rindo do espectáculo que se lhes oferecia.

A Toyota avançou, as freiras mais velhas na cabina, atrás na caixa, Carlos, Gustavo, e as freiras novinhas que riam, com as mãos na boca, e falavam tétum entre elas entremeado com gargalhadas, que tudo indicava, seriam de gozo perante aqueles malaes, que se tinham junto aos mantimentos.

Carlos Novais tentou colocar ordem na viagem e perguntou:

_ Vamos cantar?

_ Sim, Sim…

Puxou então das suas memórias religiosas, de quando se vestia de acólito, aos Domingos, na sua paróquia de S. Lourenço em Portalegre, as namoradas que não sabiam que eram, apenas desconfiavam, lindas e vestidas de novo, as gentes perfumadas esperando a saída para o encontro na porta da igreja, naquela missa do meio-dia que marcava a Cidade como um ritual.

O padre como rei, ele como pajem branco, levando-lhe as armas para aquele enorme campo de prisioneiros arrependidos, de joelhos, mãos postas, mas perdoados quarenta minutos depois para brilharem no alto da escadaria da igreja, naquele ritual de cores, de sorrisos de festa culminante de uma semana, passada no cinzentismo de sete dias iguais, onde nada acontecia.

Em segundos percebeu que nenhuma canção desse tempo, com cheiro a incenso, medo e bafio, era apropriado perante religiosas tão novas e lembrando-se de anos mais tarde, pensou em canções mais modernas, de quando um concílio lhe mudou os Domingos, arrumando os véus negros, o órgão queixoso que nem parecia instrumento de música e trazendo as guitarras (nada tenho contra os órgãos, o Toy Eustáquio que me perdoe, embora tenha optado pelas cordas nos últimos tempos), as palmas, os abraços e a festa, para dentro da mesma casa, com as velhas beatas a resmungar, mas cantando, tentando acompanhar as ordens do tempo, embora continuassem a cheirar a velas e a azeite e a imprimir lentidão nas melodias.

Foi então que Carlos Novais ganhou coragem e começou cheio de esperança, voz bem colocada, festivo, com palmas a acompanhar:

_ Tenho um Amigo que me ama, que me ama, que me ama…

Correu bem, todos cantaram, mas sem muita alegria.

Carlos começou logo outra:

_ Sou Pescador, do mar da Galileia, deixa o teu barco …

_ Não, Não, Não…

Ó diabo, se calhar a letra não era aquela, as freirinhas não gostavam e só entendeu porquê quando uma disse alto:

_ Júlio Iglésias, Júlio Iglésias… _ e as outras em coro e alvoroço:

_ Sim, Sim, Sim…

(…)

in O Que Foste lá Fazer? 
( em elaboração )