miércoles, 3 de enero de 2018

A DÚVIDA DA PRINCESA



Era uma vez uma princesa que vivia, como todas as princesas, num palácio.

Preparada desde pequena, com bonecas e fogões, de sala, para poder um dia servir um qualquer príncipe a última metade da sua vida, cresceu.

Como o peixe que se julga livre na sua rotina secular de subir o rio apenas naquela época do ano, buscando a desova como tradição geneticamente interiorizada, fez-se princesa quando a idade lhe ditou que era hora, só que no seu interior e com o passar do tempo, descobriu que o seu palácio era um castelo e o príncipe, o proprietário provisório aguardando a herança das terras do pai.

Proprietário do castelo, mas também o seu.

A princesa vivia segura dentro dele. Aquela segurança de quem tem um príncipe e será herdeira de um reino que passará aos seus filhos.

Lá dentro nada lhe faltava, parecia, mas o mundo, esse, só o via das ameias de pedra escura e sobreposta, projectado em horizontes de impossíveis castradores de liberdades e balizadores contratuais de comportamentos.

Enquanto ia passando veloz a segunda metade da sua vida, descobriu a rotina, descobriu sentimentos que era obrigada a compartilhar apenas consigo mesma.

Começou a entender que a vida corria rápida e igual e que não era só o seu corpo que estava preso no castelo, mas também os sentimentos, e com o passar dos dias, notou que muitas vezes as lágrimas iluminavam os seus olhos e não sabia o porquê.

Gostava de fazer coisas novas, coisas que sabia ser capaz de realizar com êxito... mas era conservador o seu palácio.

Viria daí aquela ansiedade que certos dias, cada vez em maior número, lhe apertava o peito e lhe humedecia os olhos grandes impedidos de ver o mundo?

Às vezes apetecia-lhe sair das muralhas, enfeitadas com grandes jardins interiores, mas rodeadas de um fosso impeditivo.

Nunca entendeu se esse fosso, apenas transponível por uma ponte levadiça de que não dispunha de força para levantar, julgava, servia para a proteger no seu castelo ou para a prender dentro dele.

Cansada de se deitar e levantar igual, cansada do espaço que percorria limitado, um dia arriscou e saltou o fosso.

Não percorreu o espaço livre cá fora até muito longe, pois temia o não poder regressar já ao castelo, à segurança, para que fora criada.

Quando voltou, fechou-se durante horas no quarto sobre a cama de dossel.

A forma como fora educada, trouxera-lhe um desconhecido sentimento de culpa e do quarto, passou à capela, tão medieval como o castelo, como se Deus condenasse alguma vez a busca da felicidade de alguém.

Mas aquela rotina, aquela sensação de escrever poemas que ninguém lia, aquela certeza de ser capaz de fazer mais, levou-a a saltar de novo o fosso, desta vez um pouco mais longe, mas sempre com o regresso como certeza, ao castelo da segurança.

Depois, outra vez aquela sensação de culpa que a levava a não tentar nova aventura além muralhas, durante meses.

Mas eram grandes as tentações do mundo, grandes as portas de tanta coisa para fazer, e tantas, tantas as portas e as coisas.

Ainda adolescente, enquanto preparava a segunda metade da vida, poderia ter ficado com outro príncipe, quem sabe se castelo ou palácio? Só que aí não era a norma tradicional de viver em função de quem, era amor.

A palavra amor é ridícula quando se não ama.

Não calhou a entrada por essa porta, mas a adolescência é marcante e o amor, uma vez sentido, nunca se esquece, mesmo que se esqueça o amante.

Pode camuflar-se, enrolar-se nas lianas do tempo que cobrem as florestas, onde Diana reina sobre a fauna, com milhares de gotas de água que caem e fazem crescer o emaranhado da vegetação, tal como a vida das pessoas com a queda das milhares de horas que enleiam e enlameiam os destinos.

A princesa, tinha conhecido o amor e hoje, tantos anos passados necessitava senti-lo de novo, e essa necessidade, parecia mais viva, mais madura, mas também mais ameaçadora da segurança do castelo que nunca conseguiria ser palácio.

Tocou o telefone.

Nunca era a princesa que atendia, mas naquele dia fê-lo, como se o destino lhe coordenasse os movimentos.

- Sou eu. Quero ver-te.

Um arrepio percorreu-lhe o corpo numa decisão de dizer basta.

- Passo a buscar-te dentro de meia-hora.

A princesa pousou calmamente o telefone, enquanto por dentro se dava a mestria da explosão de adrenalina  subindo pelo corpo como espumante desenrolhado lentamente.

Subiu ao quarto. Olhou o espelho. Com o polegar e o indicador abriu o olho esquerdo. Depois com a mesma mão fez o mesmo ao direito.

Os trinta e seis anos ameaçavam-lhe o rosto, e aquelas ténues rugas começavam o aviso.

Renasceu então, como magia.

Desceu as escadas, ignorando os guardas, as vizinhas nas janelas viram-na saltar o fosso sem medo e entrar no carro.

Partiram dali, pela primeira vez sem pensarem como voltar a meter a princesa no castelo sem que ninguém o soubesse.

Pararam no cruzamento de uma estrada perdida, lugares que a natureza oferece aos plebeus errantes sem dinheiro para comprar espaços de tempo no tempo confortável das hospedarias, entre a noite e a folhagem.

Só a luz vermelha do rádio alumiava a noite, aquecendo timidamente com uma música ligeira e baixa o momento.

Apenas plebeus errantes.

Abraçaram-se, beijaram-se, fizeram amor com o espírito sem se tocarem os corpos, naquele platonismo infantil que teme destruir o sonho.

Em imaginação, as roupas ficaram espalhadas nos bancos, vidros embaciados de respirações alternadamente comuns, loucura contrastando com a chuva miudinha que caía.

Depois, suados, abriram o tecto eléctrico do carro e deixaram a chuva embalar-lhes a visão imaginária dos corpos nús, no meio do riso e do prazer.

Apenas plebeus livres.

Tiveram que passar tantos anos para a princesinha se sentir verdadeiramente feliz.

Agora sabia que o poderia ser sempre que entendesse, apenas tinha que decidir se voltaria ou não ao castelo que já não considerava seu.

Afinal, tinha descoberto com toda a certeza que não se tratava de um palácio.

Tinha também a seu favor, o saber que as muralhas, o fosso e a ponte levadiça, não existiam para a proteger, mas para a manter.

Só lhe faltava decidir.

Voltar ou não voltar?

Estava facilitada a decisão, mas só ela sabia como era difícil optar, entre a segurança rotineira, ou a aventura sem certezas de futuros, presentes felizes, é certo, mas muito para trocar.

Coragem? 

Apenas o amor sabia ser verdadeiro, embora uma voz pequenina lhe repetisse ao ouvido:

- E se daqui a algum tempo apenas trocaste um castelo por outro?

Nunca o poderemos saber. 

Hoje é dia 31 de Agosto de 1977.

Deveríamos ser nós a controlar o nosso destino.


A.M.
1997

in- Retratos Esquecidos de uma Velha Gaveta ( na gaveta ).

sábado, 30 de diciembre de 2017

A PRAIA ONDE MORREM AS BALEIAS OU UMA BRAÇADA PARA FORA DA DEPRESSÃO



Eu sou a praia onde morrem as baleias. Não sei porque me escolhem as baleias para morrer. Nem sei sequer se é isso que desejam, sei apenas que é a mim que chegam e que ao longo dos anos, é em vão que luto, dia a dia, para guiá-las de novo ao oceano, o que é difícil.

Uma baleia pesa muito, e se permitem porque inofensivas o meu contato com elas na água, torna-se muito dificultosa a tarefa de as desencalhar dos meus baixios.

São poucas as que conseguem recuperar os seus rumos e muitas, depois de o conseguir, regressam de novo para agonizarem definitivamente.

As minhas areias, embora doiradas ao sol e cobertas de mil gaivotas que deixam as suas marcas no chão húmido, pouco duradouras que a água apaga quando sobe a maré, não passa de terra leve e triste que oculta cadáveres tapados.

Dantes chegavam mais espaçadamente no tempo e eu, pensando ainda ser uma coincidência, esforçava-me com uma maior ilusão em salvá-las, depois com o passar dos anos, transformei em rotina passar os dias a abrir valas, à mão, enormes, para onde as arrastava e cobria, tentando mais salvar a imagem paradisíaca da minha baía dourada que os turistas aplaudiam, do que a vida destes gigantescos mamíferos que me procuravam, vá-se lá saber porquê.

Às vezes acordava envolto em medos e dormia mal com pavor aos pesadelos.

Na minha pressa, agora objetiva, de manter superficialmente a praia limpa, duvidava se alguma vez enterrara alguma daquelas criaturas viva.

Este pensamento arranhava-me como o frio cortante que enfrento no inverno, e porque constante, passou a arranhar-me durante todo o ano transformando-me em praia com inverno permanente, com marés vivas, ondas altas e ventos que dobravam as palmeiras, outrora belas sempre, tanto calmas como promessas com as suas novas folhas na primavera, como acolhedoras nas suas espraiadas sombras no verão, como poéticas nos pores-de-sol de outono ou dançarinas no inverno, impedindo o vento nesse entreter de baile, de consumir as dunas.

É neste inverno permanente, agora sem música para o baile ou palmeiras para dançar, que hoje continuo a assistir à vinda das baleias e à destruição das dunas.

Deixei de acreditar que as posso salvar e consumo meses inteiros a abrir covas e a enterrar. Algumas dessas covas nem sequer têm ainda baleias mortas. Hoje já não me preocupo com a paisagem e muito menos com os turistas, sou no entanto mais sensível aos cheiros. Abro buracos para evitar os cheiros. Cavo e tapo porque as baleias cheiram mal. Perdi a ilusão de poder salvá-las.

A última vez que o fiz, levei quase um mês envolto em suores e canseiras, empurrando uma baleia resistente perante os olhares dos turistas, mar dentro. Assim que virava costas, ela aí vinha, boiando, atrás de mim, aproveitando as ondas calmas para me impregnar de odores.

- Deixa-me! Segue o teu caminho! Eu só te posso dar uma cova, nada mais. Ainda por cima, uma cova pequena, que tenho os dedos feridos de tanto escavar com eles. Dedos que quase não têm impressões digitais, dedos quase sem identidade. Deixa-me! Para ti tenho uma cova pequena, nada mais.

Nunca fui dos melhores nos meus entendimentos dialogantes com as baleias, e talvez este "nada mais" fosse entendido como uma forma do verbo "nadar", ela continuava a perseguir-me.

- Deixa-me! - e pedi por favor.

Ignorou este meu último queixume. Não sei porque mistério continuava a escolher-me a mim, trocando pelas minhas águas baixas e sufocantes a liberdade das profundezas do mar, onde com a barbatana horizontal desenhava o azul dos céus e pelo seu orifício atirava repuxos mais altos do que metade da cova de areia escaldante que a esperava comigo. Ajustada ao tamanho do seu corpo. Nada mais ali cabia. Apenas o seu corpo, nunca a imensidão do seu espírito.

- Vai-te! Deixa-me! - e batia ferozmente na água tentando afugentá-la, ruído e mais ruído, que a fizesse renunciar à morte nem que fosse pelo medo.

Parece que finalmente se foi.

Deixei-me eu agora arrastar na espuma das minhas ondas que me enrolaram cansado na areia.

Reparei então, que durante este tempo, enquanto eu lutei para salvar uma baleia, tinham chegado à praia sessenta, estas já cadáveres, trocando moscas por cheiros.

Levantei-me em ângustia, gritei, ergui o mar e agitei a areia espetando os seus grãos de quartzo como agulhas no vento. O que restava das palmeiras foram abanadas até à exaustão e depois, numa tristeza, numa resignação, resignação, resignação, recomecei, recomecei a abrir covas, abrir covas, maquinalmente, maquinalmente...

Todo o peso do infortúnio se abateu na minha baía nesse instante. Varreu-se o presente e o futuro, só o passado, essa repetição deste presente e imagem de provir invadia tudo.

Covas, continuar a abrir covas para sempre.

Revoltei-me na praia e transformei-me naquele momento em local de tormenta.

Os que observavam a minha baía naquele instante, nada fizeram. 

Indiferentes ao sofrimento daquela agressividade da natureza, limitaram-se a levantar bandeiras vermelhas, e quando já cansado e sem forças para cobrir de areia os sessenta buracos onde com esforço ainda tinha conseguido depositar os cadáveres que arrastei um a um, limitaram-se a colocar cartazes que alertavam para o perigo de que alguém pudesse cair naquelas covas.

Fui considerado uma praia perigosa, uma praia a evitar.

Sempre foi assim.

Cada vez que como praia necessitei de auxílio, apenas me cercaram de bandeiras e cartazes de perigo, regalando-me a quarentena forçosa até que sozinho, acabasse as minhas tarefas e pintasse  a praia, cada vez mais retocada, mais maquilhada, em doirados de areia e sol, palmeiras em descanso e céu sem núvens, passaporte de relações com as gentes que então aí iriam desfrutar, mais amantes de sedas e brocados que de corpos nús.

E eu? Que sempre aceitei qualquer relógio? Mesmo quando alguém me disse que não passava de um relógio parado? Mesmo antes de ter lido, ouvido e confirmado, que mesmo um relógio parado, duas vezes por dia tem as horas certas?

Quem me aceita como sou, como destino de um mistério, sem serem as baleias? Essas criaturas grandes e pacíficas que me procuram, vamos lá saber por quê? Ainda por cima para morrerem em mim?

Voltemos à praia.
Voltemos à praia onde morrem as baleias.
Voltemos a mim.

Acabei a tarefa extenuadora de me limpar, mar calmo de um lado, areia alisada do outro, céu por cima como mandam as regras de todas as praias, todas as covas tapadas, as moscas e os cheiros longe dali, olhei-me nas águas. 

O meu reflexo ia-se alterando com o vai-vem das águas, o rosto era distorcido, umas vezes alongado, outras com formas lunares, havia dificuldade de saber como era realmente. Tinha no entanto os olhos fundos e vermelhos, as mãos doridas e lixadas, não sei de onde mais uma vez me vieram as forças para terminar tamanha tarefa.

Sentei-me, mas tive poucos momentos para gozar o descanso.

Olhei o horizonte.

Não queria acreditar.

Gritei, arranhei a areia, esfreguei as costas nas palmas pontiagudas das palmeiras, feri os pés de raiva com as conchas mortas também. - Não posso crer! É ela! A estúpida de novo. Vem para cá! - gritei em desespero - Fora! Fora daqui! Aqui não! Aqui não! Fora! - e agitava os braços no ar impedindo-a de regressar. - Vais morrer idiota! 

(Sinceramente naquele momento preocupava-me mais com o trabalho que a sua morte acarretaria do que a sua vida) 

- Vais morrer idiota! Para quê? Porque é que aqui? Fora! Fora! - e agitava as minhas águas e levantava as minhas areias e dobrava violentamente o que restava das minhas palmeiras.

Insensível ela aproximava-se, parecia que descansava nas águas. A distância ia-a fazendo cada vez maior.

Sentei-me desiludido. 

Ela foi-se aproximando, mas de repente, parou. Muito antes do recife. Tinha percebido onde terminava a liberdade do mar e começava o perigo da praia. Movimentou-se então, evitava a todo o custo as águas baixas da minha praia, as minhas águas. Mergulhou e bateu com a barbatana no azul forte fazendo saltar um chorro de água em cascata circular e foi então, supresa das surpresas, que vi outras duas pequenas barbatanas chapinharem o oceano, mais pequenas do que a cabeça da mãe. E eu que pensava que as baleias só podiam ter uma cria de cada vez. Estava atónito. Havia vida pela primeira vez na minha praia depois de tantos anos. 

Havia vida novamente em mim. 

Não me restavam dúvidas, a baleia desta vez não regressava para morrer, vinha saudar-me e apresentar-me as crias que trouxera consigo do vasto oceano. 

Levantei-me e ri. Ri muito. As minhas gargalhadas ecoavam nas escarpas e eram molhadas, porque uma grande vontade de chorar me vestiu o peito e lavou a cara. 

Saltei, acenei, e ela feliz saltava com as pequenas, dialogando comigo numa mímica agradecida.

Dei-me conta então, que tempos houve, em que gostei de ser a praia onde morrem as baleias, talvez por ser a única forma de ter junto a mim gente, turistas, que se deitavam em mim, e desfrutavam das minhas palmeiras por esse tempo de pé e viçosas, até terem uma boa fotografia de uma baleia morta, ou me auxiliavam a levá-las para o mar alto, com o mesmo fim, deixando-me logo que a imagem ficava gravada e pronta para ser reproduzida e mostrada a outros turistas, não se preocupando se a mesma tinha sobrevivido ou não. 

Turistas, apenas turistas. 

Sempre turistas da vida. Sacadores de momentos à distância, não bebedores da mesma, e que eu, proprietário de uma praia, pobre diabo, tinha a ousadia de confundir com aplausos e até mesmo com amor.

Há decisões na vida que se têm que tomar rápido. Sem necessidade de tempo para pensar. Pensar muito pode levar ao adiamento das decisões.

Entrei na água, baloucei-a ritmada, cobri-me, atravessei a distância entre nós sem nunca olhar para trás e esquecendo as sessenta covas que tinha acabado de cobrir com os cadáveres dentro, atravessei as águas baixas, nadei a partir do recife e juntei-me às crias.

Parti com elas.

Despi-me da praia, abandonei as bandeiras vermelhas e os repetidos cartazes de perigo que me isolavam e impediam.

Nadei com elas, nadei e continuo nadando.

Deixei de ser uma praia onde as baleias vão morrer.

Sou uma baleia que guia outras no evitar os recifes e as águas baixas.

Hoje já não sou uma praia de baleias mortas.

Hoje sou uma baleia que só procurará a sua praia no fim da caminhada.

Confesso que estou a gostar de fazer esta viagem.

Afinal o que eu sempre gostei, foi de água.


                                                                                           A.M
i



in- Retratos Esquecidos de uma Velha Gaveta ( na gaveta ).

jueves, 28 de diciembre de 2017

RETRATO DE UM VELHO DA MINHA TERRA NO MEU TEMPO






Escorria-lhe do canto da boca, baba viscosa que lhe molhava a beata curta, apagada, enganadora do vício que teimava em enganá-lo.
Nunca vi mãos que tremessem tanto, mas as palavras eram seguras, diretas, eram palavras com força, contendo uma história em cada letra.
- Sabe , Senhor? Nasci aqui, no Alentejo, ainda fui à escola, sim senhor. Pouco tempo, mas fui.Conhece a Rosa do montado? Namorei-a nove anos!... antes de conhecer a minha patroa. Andámos juntos na escola. O pai dela era merceeiro, uma profissão muito boa naquela altura. Tirou a quarta classe e foi estudar para a cidade. Hoje é professora. Mas, namorei-a nove anos, sim senhora! É que sabe? Ela nas férias vinha à aldeia, e eu... gostava dela, naquela altura... coisas de gaiatos... (sorriu) era bonita, muito bonita mesmo. Depois, a cidade subiu-lhe à cabeça, começou a dar aulas aos cachopos e conheceu um qualquer desses das Finanças, que lhe deu um carro, uma casa... encheu-lhe a barriga.
Eu não podia, tirei só a terceira classe. Andava pelo campo a guardar catorze ovelhinhas. Ganhava um tostão por dia.
Hoje, ela é uma senhora fina, dona do montado.
Se calhar já se nem lembra de mim. Nem me olha na rua.
Coisas de crianças, sabe? Coisas de crianças...
                                                                           AM
1999
in- Retratos Esquecidos de uma Velha Gaveta ( na gaveta)

jueves, 19 de octubre de 2017

A TORTILHA DE BATATA - Clarinha



( Eu, Clarinha, sou a segunda a contar da esquerda,
 as outras são as minhas irmãs)

A TORTILHA DE BATATA

Estou irritadíssima, imaginem vocês, que os fotógrafos, que eram dois, um que meteu um palco com flores de papel e outro que carregava no botão da máquina, foram hoje à minha escola, e embora a minha mãe pagasse treze euros pelas fotografias, mais um do que no ano passado, algumas com calendário, eles é que decidiram como eu me sentava não me deixando escolher o meu melhor perfil, que é o esquerdo, porque no direito tenho um biquinho numa orelha igual à do meu pai. A minha avó diz que essa orelha do meu pai, é em bico, porque ele era um diabrete quando era pequeno, mas ele diz que essa orelha tem um bico porque a direita é o diabo. Agora se eu não gosto do biquinho da minha orelha, tenho todo o direito de mostrá-la só a quem quero, seja a direita ou a esquerda, era o que faltava, e não metê-la assim na montra do calendário que os meus avós vão ter todo o ano de 2018 colado no frigorífico como o de 2017, pois é a prenda de natal que os meus pais lhes dão desde que há fotografias na escola, já no tempo das minhas irmãs grandes era igual.
Todos os meninos e meninas tiraram fotografias, e os professores também, sozinhos e em grupo, de pé e sentados, de todas as maneiras como no casamento da minha prima Clotilde, que já está divorciada, que tirou fotografias em todo o lado, até agarrada ao telefone da sala e à cortina do quarto.
Só é pena que nem todos os meninos e meninas da minha escola possam como eu levar as fotografias para casa, porque os pais de alguns não têm dinheiro para as pagar. Eu acho mal, afinal aquilo não é um colégio como o da minha prima Leonor, com nome de princesa, que os meus tios pagam para ela lá estar porque o meu tio é médico e a minha tia é enfermeira mulher de médico e não têm mais filho nenhum. A minha é uma escola do governo e deveria ser igual para todos os que lá andamos.
A minha mãe, já anda um pouco farta de eu ser assim e está sempre a dizer-me, cada vez te pareces mais com o teu pai, e como ele, não sairás nunca da cepa torta, e hoje quando estava a comer na mesa da cozinha e lhe ia contar o que pensava das fotografias, disse-me:
- Come e cala-te.
O meu tio gordo, irmão do meu pai, diz muitas vezes que nos temos de calar para podermos comer e dar de comer aos nossos. Também outro dia o meu pai disse que se não nos tivesse que dar de comer, a mim e à minha irmã, que as outras já comem sozinhas, lhes cantaria as quarenta. Tentei que o meu pai me dissesse mais sobre os quarenta, mas ele disse-me que um dia quando eu fosse grande iria perceber, porque as crianças não têm entendimento para números tão grandes, eu apesar de tudo, descobri que há uma relação entre as palavras e os alimentos e quando na mesa da cozinha insisti com a minha mãe que o euro que o senhor fotógrafo este ano leva a mais a cada menino, que não é nada, assim como o euro do senhor Costa amigo do meu pai leva aos turistas, multiplicado por mais de mil meninos e meninas que tem o agrupamento, dava para pagar as fotografias dos meninos sem dinheiro, pois os senhores professores vão ter as fotografias de borla. Aí sim, a minha mãe zangou-se mesmo e já com a voz muito alta ainda conseguiu gritar:
- Cala-te, já te disse e come Clara (chamou-me Clara e não Clarinha).
Eu então calei-me e comi tudo, não fosse por causa das palavras, conseguir fazer desaparecer da mesa a tortilha de batata.

CLARINHA

PS 
Esta redacção (com dois cç de propósito e para aborrecer), foi vítima de tentativa de censura por parte do meu pai, que me disse que as fotografias dos professores não tinham calendário. Embora saiba que não têm calendário pois ganham o mesmo que há uma data de anos atrás, esta tentativa foi inadmissível.

Clarinha.           


lunes, 2 de octubre de 2017

O QUE FOSTE LÁ FAZER? - Excerto da chegada..





(…)
Se os dragões existissem, diria que um, enorme, gigante mesmo, boca e narinas dilatadas, vivia sobre o monte Ramelau, e que àquela hora, sempre a mesma em que chegava um avião, tentava mandar para trás quem se atrevia a invadir a sua ilha, com enormes baforadas de hálito quente.
Esta foi a primeira sensação que Carlos Novais teve quando baixou as escadas íngremes encostadas ao avião acabado de chegar.
Juntou-se ao grupo de colegas que embarcaram nesta aventura e se iam reunindo na pista.
Olharam uns para os outros e tardou que alguém mais afoito, rompesse o silêncio húmido e abafado e dissesse: - Uma foto companheiros, ânimo, chegámos a Timor.
Saíram sorrisos como abraços em grupo para a câmara.
Tinham deixado Portugal dia 19 e chegado a Timor-Leste às 13.45 (hora local) do dia 23 de Maio.
Engoliram horas.
Noites e dias estavam às avessas como estavam os corpos e os pensamentos.
Saíram juntos do aeroporto.
Lá fora aguardavam-nos outros colegas que já viviam essa experiência há mais tempo.
Para além dos amigos que alguns lá tinham, Novais tinha o abraço da Maria e do Alberto, esperavam-nos também as coordenadoras gerais do projeto, a Coordenadora Portuguesa e a Timorense e com elas, os treze coordenadores das treze escolas, uma por distrito, nesta teia organizada para reiniciar o acesso à Língua Portuguesa e que, funcionava como os tentáculos de um polvo, cuja cabeça bicéfala estava em Dili.
Cada escola tinha uma carrinha com motorista e os professores foram distribuídos por elas e levados para alojamentos provisórios na capital.
Carlos Novais, um dos quatro homens que chegaram, foi levado para um hotel, de onde se via o mar, esse seu mar que tanto lhe seria companheiro durante a sua estadia na Ilha.
As colegas, ficaram em casas, uma zona fechada chamada Vila Verde e que Carlos Novais não recorda bem.
Recorda-se, isso sim do seu hotel.
Novo Horizonte, porque os horizontes podem ser novos, entre o centro de Dili e a praia da Areia Branca.
Até chegar ali, tinha feito uma curva nas condições que subiam e baixavam consoante as escalas.
Partira do seu distrito às seis horas da manhã de dia dezanove, e a partir daí, tinha tocado movimentos em Lisboa, Madrid, Doha e Bali.
Em Doha sentiu o primeiro rugir da diferença, com mulheres apenas com olhos e homens todos de branco.
Em Bali, respirou a Ásia.
Ficou num hotel majestoso e sentiu o poder do dólar.
Pagou com eles as refeições, onde as rupias, apesar de muitas para valerem mais, continuam a ser pobres envergonhadas de pouco valor.
Uma refeição no hotel andava pelos quatro dólares.
Carlos Novais comparou mentalmente com o euro... mas isto seriam, ora bem, o quê? Só? Três euros e vinte, menos de um maço de cigarros? Um hotel de luxo destes?... Não conseguiu deixar de pensar que a Europa não ia por bom caminho.
Timor, tem a Austrália como guia e a Austrália, tem como rainha, a mais antiga monarquia europeia, consciente disso, tenta manter laços com os países vizinhos, mesmo com a sua velha inimiga Indonésia e agarra-se à CPLP para manter a sua identidade histórica.
Mas regressemos à primeira noite com oito horas de diferença de Lisboa, agora, ou nove, quando Lisboa anda ao sabor da mudança dos ponteiros, um passo para o lado, outro para o outro, numa valsa dançada pela luz.
Carlos Novais, chega ao hotel Novo Horizonte, dão-lhe um quarto, uma chave e um código de internet.
Coloca as duas malas e o saco de mão no chão, tira o portátil, liga-o e começa a chamar a família.
Tinham-se passado tantas coisas novas em tão pouco tempo que lhe parecia ter saído de casa há uma eternidade.
Como sempre, o melhor tinha deixado lá e não se referia só à família e aos amigos, trouxe o seu telefone velhinho, o computador sem autonomia de bateria, roupa q.b. como o sal, nem a viola, nada, o que cozinhasse na sua vida a partir desse momento, seria com os seus recursos e com os ingredientes de lá.
Não se preocupou por isso com os vinte e sete quilos de limite de bagagem, a dor de cabeça das companheiras.
Ele e só ele estavam ali, nessa primeira noite, e o computador sem câmara, só podia escrever, não podia ver ninguém:
- Sou eu !!
-Papá, Papá!
- Então como estão?
- Vimos a tua viagem pela Net, seguimos a rota do avião.
Modernices destes tempos, uma das que Carlos Novais sabia ter como deficiência.
- Quem está aí?
- Todas!!
E estavam, mulher e filhas, as pequenas e as maiores que foram apoiar este momento que também para elas não deveria estar a ser fácil.
- Não morri, caramba. Só saí de casa por uns tempos.
Carlos Novais tentava inventar coisas para lhes dizer, a cabeça estava branca como as vestes dos homens de Doha.
- Tu estás bem?
- Na maior!!
Nessa altura e enquanto escrevia, chorava, e ainda bem que o não viam para evitar o gozo das filhas, “andas muito chorão” e andava.
Antes de ir, chorava por tudo e por nada, não era berraria, não pensem, era assim, comovia-se e pronto.
Comovia-se com tudo, com as palavras que ouvia, com os livros que lia, sobretudo se falassem de crianças ou de velhos, mas reconhecia que ultimamente a coisa se tinha complicado e já torcia o beiço, com um filme, com a televisão e até com as telenovelas que dizia não ver, mas que espreitava.
- Andas aí?
- Sim, estou.
- Então já viste algum crocodilo?
A mulher de Carlos, culpada com a amiga Lurdes com quem aprendia receitas novas, do seu elevado peso que o fez não ter cinto suficiente no último voo entre Bali e Timor escreveu:
- Que comeste?
- Coisas do avião.
Carlos, ao olhar para os seus cento e trinta e oito quilos e lembrando-se do pormenor de no voo que o deixou em Dili não ter tido cinto suficiente para o apertar e proteger, acrescentou:
- Olha amor, estou entregue a mim mesmo. Estou em Timor-Leste, a dezassete mil quilómetros de casa onde aterrei sem cinto de segurança.
Mal sabia Carlos Novais que muitas outras vezes iria sentir a falta desse cinto.
-Então? Então? Carlos estás aí?
Não tinha ficado sem Net, conforme lhes foi dito durante as conversas preliminares com o ministério, foi sem luz e só três horas depois conseguiu ligar de novo o computador onde uma fileira de preocupações estava escrita em monólogo:
- Carlos estás bem?
- Carlos porque não escreves?
- Passa-se alguma coisa?
Carlos respondeu de imediato:
- Está tudo bem, fiquei sem luz.
Em desabafo em tom depreciativo, a mulher escreveu:
- Pronto, já estás em Timor…
Carlos esperou um pouco e respondeu:
- O problema não é de Timor, é ainda de Portugal, onde com os roubos nos ordenados, os congelamentos de salários e tudo aquilo que sabes na pele, não dá hipóteses a que um professor possa ter um computador em condições, que não tenha que estar ligado à luz, por velho e muito uso ao seu serviço, tenha ainda que sair do país que é seu… e, caramba!!!
Judite, esposa:
- Não te metas em política Carlos, dá-me tanto medo que sejas assim.
Para Carlos Novais, a conversa estava terminada, não sabia era como o fazer.
Irritava-o a passividade dos portugueses, os medos, as permissões, a última greve de professores em que em todo o agrupamento de escolas a que pertencia, só ele como um tonto perdeu o dia de trabalho, surpreendido por todos os colegas que se manifestavam contra a política desgraçada do governo se terem perfilado religiosamente na escola, como cordeiros silenciosos.
A diretora pela manhã telefonou-lhe:
- Olha, as auxiliares fazem greve, não vai haver aulas, anda que não perdes o dia.
Não queria acreditar no que ouvia, montarem-se sobre as pobres auxiliares educativas que ganhavam quinhentos euros por mês.
Tinha mesmo que sair, para longe, nada fazia sentido, o país estava falso, vivendo de expedientes.
Lembra-se de ter chegado à escola no outro dia e dizer às colegas:
- A partir de hoje falem comigo de novelas, do festival da canção, da Bárbara Guimarães e das nódoas negras, mas não se atrevam a dizer mal da escola, do ministro ou do governo, que eu não discuto mais esse tema convosco.
Decidiu nesse dia colocar mar e terra sobre ele e o país.
- Olha estão a chamar-nos para jantar.
Não estavam.
- Está bem, quando voltas a falar?
- Não sei, quando puder.
- E como sei quando podes?
- Dou-te um toque de telemóvel. Não atendas que deve ser caro e vai para o computador.
- Adeus amor.
- Adeus Papá.
- Papá beijinho para ti.
- Papá compra-me coisinhas.
- PAI, PAI.
- Papá, foi a pequenina que escreveu PAI, eu ajudo a cuidar das minhas irmãs.
Carlos Novais contou as despedidas:
- Eh! Falta uma.
- Sim, a Nevita, ela também te manda um beijo. Só vem amanhã.
Carlos Novais desligou o computador, abriu as malas, tirou uns calções, uma camisola e roupa interior.
Completamente suado, sentiu a água fria do chuveiro como bênção. 
Limpou-se.
Sentiu-se húmido, incómodo, e deu-se conta que estava suado outra vez.
Entrou novamente no chuveiro.
Saiu e meteu-se debaixo do ar condicionado.
Foi assim que Carlos Novais apanhou a primeira constipação na Ásia.
(...)


In O Que Foste lá Fazer?
... em construção...

martes, 12 de septiembre de 2017

A MULHER DO SARGENTO ESPANHOL - Mais um cheirinho mensal. Nas bancas antes do natal.



 XLI. Patry e Bahamonde

A avioneta passou sobre El Pueblo.
As mulheres e as crianças meteram-se em casa enquanto os velhos se encaixavam na taberna.
A Guarda Civil saiu para a praça.
Todos olhavam o céu enquanto sobrevoava a aldeia, cada vez mais baixa procurando nitidamente um sitio para aterrar.
Correram os militares de tricórnio para a estrada poeirenta que ligava a aldeia ao montado, “dehesa”, doada ao povo por uma herança de uma condessa sem descendência, e que antes da guerra, era lugar de romaria, especialmente em maio, dia quinze, quando todas as famílias aí se reuniam com música, cantares e sol, num enorme festim, celebrando o padroeiro de El Pueblo, Santo Isidro, patrono dos lavradores.
Quando o pequeno avião aterrou, os guardas correram para ele, mãos sobre os olhos e sobre a boca, vultos com espingarda no meio do pó. Cercaram a aeronave e apontaram as armas enquanto a hélice ia morrendo com a nuvem amarelada de partículas infinitas, que baixavam caindo lentamente, nos tricórnios e nas baionetas levantadas.
Perfilaram-se, direitíssimos, coronha na terra e saudação de continência, quando se levantou o piloto, baixou para a asa e saltou para o chão, com a sua farda de graduado da Força Aérea.
- Onde está o oficial de mando?
- Siga-me meu tenente.
O piloto aviador seguiu o guarda civil, montou-se no jipe e ordenou:
- Quero dois homens sempre ao pé do avião.
Não corria perigo de atentado a avioneta, pois o único atentado de que foi vitima, foi o da curiosidade de velhos, mulheres e crianças que meia hora mais tarde a circundavam, nessa oportunidade única de verem aquele pássaro grande, ali, no chão, inofensivo como uma varejeira em descanso.
Pediu o tenente no posto, que fossem buscar Patry a casa.
E foram.
Assustados, os pais de Salustiano seguiram-nos de longe. Ascensión também. Apenas descansaram quando as duas mulheres saltaram para os braços do tenente Bahamonde.
- Venho buscar-te Patry. Não posso levar-te a Portugal, não consegui autorização de voo, mas deixo-te em Talavera la Real, na Escola de Reatores e daí, alguém te levará à fronteira. Salustiano espera-te em Portugal. Tardará meia dúzia de dias a chegar...
- E vamos de avião?
- Sim, de avião, é o mais seguro, depois tenho um amigo que te levará para Portugal, confia em mim. É o máximo que posso fazer por vós.
Apresentou as cortesias ao “alcalde” de El Pueblo, merendou com os pais de Salu, com Patry e com a pequena Ascensíon, ternurenta, enrolada no seu braço.
Exatamente às dezasseis horas e trinta e cinco minutos, a enorme hélice começou a girar acompanhando um roncar enorme vindo das entranhas do aparelho. Bahamonde gostava de aproveitar a luz do sol e sentia certo prazer por ser reconhecido como herói. No fundo tinha razão para se sentir orgulhoso, tinha sido o primeiro homem a fazer a travessia do Atlântico Sul, no seu, hoje no Museu Militar, Plus Ultra, um hidroavião de passageiro único.
- Que levo?
- Nada, rigorosamente nada. Não temos tempo nem espaço.
O avião começou a percorrer a pista, asa de um lado e do outro ganhando ponto de equilíbrio, o focinho a tentar erguer-se em esforço, uma, duas, três vezes como locomotora de todo o corpo que rodava a metros do chão, e mais metros, e uns quantos mais, deixando atrás uma nuvem de poeira e a gritaria de cem meninos descalços correndo com os braços abertos.
As pontas do cachecol de Bahamonde, quase tocavam o rosto de Patry, sentada atrás, e estranhamente, começou a perder o medo.
- Gostas?
 Gritou-lhe Bahamonde...
- Estou beemmm...
No lugar detrás, havia duplos instrumentos de voo:
- Pega nos comandos e leva-o tu.
Patry agarrou, puxou para si por instinto, o focinho empinou e nesta posição de mando, virou um pouco à direita, depois à esquerda... Bahamonde levantou ambos os braços:
- Estás a voar Patry.
Como o não sentira há muito tempo, um travo agudo de adrenalina, percorreu-lhe o corpo. Adrenalina ou liberdade. Não sabia, porque as lágrimas lhe molharam a parte interior dos grandes óculos de vidro encaixados em borracha negra. Apenas sabia que naquele instante poderia desaparecer que não se importava, poderia morrer porque nada lhe pesava e era, entre as nuvens e o pôr do sol que se começava a ver, imensamente feliz.
Bahamonde, apenas mantinha o rumo e só pegou nos comandos, quando começou a descer.
- Onde estamos?
- Vigo!
Saltaram e espreguiçaram pernas e braços.
- Quero que te vistas de perfume. Tenho saudades da Patry de Madrid. Esta parte está controlada por nós, a Madrid não poderemos ir nem para comprar as roupas que gostaria para ti. Quero que leves tudo do melhor para Portugal mereces e quero ter de ti a imagem que deixei na “Plaza del Sol”, na Castelhana, na Ópera...
- Mas falaste-me em Talavera la Real...
- Iremos amanhã. Deixa-me entregar-te como uma princesa.
Nessa noite passearam de mãos dadas, numa Galiza onde o vestígio da guerra lhes serviu de cenário, mas onde as estrelas não acusavam qualquer alteração desta discórdia entre os homens.
Não me perguntem se dormiram juntos, se se amaram, se se perderam ou encontraram, sei apenas que se despediram, num encontro que sentiram ser o último.
Na guerra, só importa o dia.
Aterraram em Talavera, onde o conhecido de Bahamonde os esperava.
- Cuida dela, Romão.
Entraram num carro negro, cujas portas lhes foram abertas por um cigano português forte e fiel.
- Ainda esta noite, estará a salvo na minha propriedade.
Gostaria Patry, de lhe ter perguntado por que mudara de bando.
Anos mais tarde, com a guerra terminada, a Grande Enciclopédia Universal, quando a república já era história e passado, referia:

FRANCO BAHAMONDE, RAMÓN Aviador militar español (El Ferrol, 1896- costa de Mallorca, 1938). Hermano de Francisco Franco, realizó la travesía del Atlántico Sur, a bordo del hidroavión Plus Ultra, del 22 de enero al 10 de febrero de 1926. Aunque conspiró contra la monarquía y fue elegido diputado por Ezquerra Republicana en 1931, secundó el alzamiento militar de 1936.

Era o irmão do Generalíssimo.
(...)
in A Mulher do Sargento Espanhol
...no prelo...