sábado, 20 de enero de 2018

UM CONTO CHAMADO 115


Este espelho é tão velho como eu.

Não se lhe nota o passar do tempo, como eu também não vi o seu passar. 

Faço diante dele a barba todos os dias, ano após ano, e não me vi envelhecer.

Os retratos sim, esses param o tempo.

Sou mesmo aquele da fotografia da festa de anos da minha filha?

O bolo tem quatro velas.

Ela sim está diferente. 

Muito mais diferente do que eu.

Ainda me identifico com a fotografia reconhecendo-me. 

Ela não. 

Com vinte e dois anos, hoje, não tem fisicamente qualquer semelhança.

Estes anos também passaram sobre mim... só que o meu espelho me tem iludido.

Senti saudades, não do tempo, mas dela naquele tempo.

Agora reparo que tenho uns pelos brancos na barba.

Não é grave.

Grave, muito grave é o sentir-me tão branco por dentro.

Branco, não de puro, mas de vazio.

Vazio de amor.

A minha mulher, a quem há longos tempos escrevia longos poemas, fazia longas promessas e me auxiliava a desenhar longas esperanças de futuros, passou simplesmente a ser mãe e longamente dona de casa.

Mulher apenas, deixou cair frivolamente a minha, e eu, aos poucos, também deixei de ser dela.

Somos assim dois adultos que fingem sermos pertença um do outro ao pé dos outros.

Refugiados no trabalho, usamos para o seu escrupuloso desempenho o pretexto das filhas, e transformámo-nos em irmãos, às vezes amigos, defendendo espaços, mas culpando-nos mutuamente, ferozmente também, por termos deixado fugir o amor, e termos tido a infelicidade de que o destino nos tenha escolhido para enfrentar o medo do futuro.

Tratámos o nosso amor como algo que uma vez adquirido pensamos ser eterno, em vez de o tratarmos como um frágil bonsai que se tem que cuidar dia a dia.

Não trocamos as mãos nem as ideias há muito, nem os lábios em saudação, muito menos os corpos em prazer.

Houve tempos em que o fazíamos por gozo, depois por rotina, mais tarde por obrigação, obviamente amadurecidos pelo tempo e entrincheirados pelos problemas diários, deixámo-nos disso.

Passou a ser quando calha e menos apetece, normalmente após uma festa com amigos onde o álcool supera, ou esconde, a realidade.

Agora, já nem assim, e sentimos, angustiosamente que é a menoridade da filha mais nova que nos empurra a partilhar a casa e o desconforto de se ver passar os dias sem planos.

Mãos suadas nos bolsos, pensamentos em torvelinho de tentativas de fuga, Carlos Santiago abriu o porta-chaves, escolheu uma e meteu-a no carro.

A porta abriu-se e sentou-se nele. Fechou-a, ligou o rádio e recostou a cabeça no encosto do banco. 

Metade de uma vida perdida, tantas coisas que gostava ainda de fazer...

O Paco cantou-lhe por rádio "a ternura dos quarenta".

Levantou o som.
Meteu a primeira e arrancou.

Apetecia-lhe beber algo.

As luzes da discoteca confundiram-lhe o humor.

Entrou e pediu um whisky com duas pedras de gelo.

Uma mão tocou-lhe no ombro, era o Luís:

- Anda, vens mesmo a calhar, tenho aqui uma surpresa para ti.

Levou-o para uma mesa, onde lhe apresentou duas jovens, com vida e sonhos.

Enquanto o Luís saltou para a pista, ficou sentado com a que restou.

Apetecia-lhe conversar.

- Que fazes?
- Sou psicóloga.

Falou-lhe do eu, dos desenvolvimentos cognitivos, dos estádios onde se agrupam as resoluções de conflitos, da adolescência, da sexualidade, da sida, dos preservativos...

E o Luís dançava, dançava, dançava e bebia... e nunca mais vinha.

Chegou finalmente.

- Está tudo pago. Vamos embora daqui. Trouxeste carro? Óptimo, ela vai contigo e vens sempre atrás de nós.

Ordens consecutivas, que se cumpriram sem perguntas.

Encontrou-se no carro em plena noite com uma adolescente tardia a seu lado, à frente seguia o Luís noutra viatura com outra adolescente de quem ele nunca haveria de saber o nome.

Cruzaram a cidade, parando e arrancando ao ritmo dos semáforos.

O Luís parou à porta de um hotel grande. 

Catorze, quinze andares, garagem por baixo.

Saiu do carro, entrou na recepção e tornou a sair.

Trazia duas chaves nas mãos.

- Um quarto para cada um. Vou meter o carro na garagem. Venham atrás de mim.

Santiago olhou a companhia nos olhos.

Vestida de preto tentava aparentar mais idade, puxando conversas que tentassem comprovar o alto conhecimento que tinha da vida, mas que os poucos anos atraiçoavam.

Santiago olhou para ela:

-É uma situação inesperada. Queres mesmo subir?

Fez-se silêncio.

- E tu queres?
- Eu por mim...
- Mete o carro na garagem.

Carlos Santiago assim fez. Estacionou, chamou o elevador e ela deu-lhe a mão.

O pedaço grande de chapa presa à chave marcava o número 115.

Parou no 1º andar.

O Luís já lá estava, eufórico, macho e feliz, os filhos pequenos em casa da avó que a mulher, enfermeira, estava de turno naquela noite deixando-lha toda, inteirinha para ele.

- Mostra o teu quarto pá, é igual ao nosso. Amanhã o primeiro a acordar chama o outro. Divirtam-se.

E trancou-se no 116.

No 115, a história estava diferente. Santiago sentou-se na cama, enquanto a jovem despia a saia com cuidado e começava a desabotoar as mangas da camisa.

- Que se passa? Não te despes?

Santiago levantou-se, lembrou-se dos pelos brancos da barba e do branco do seu vazio, do espelho, da sua vida.

Colocou-lhe as mãos na cintura e perguntou-lhe:

- Acabaste o curso há muito tempo?
- Não, ainda estou a estagiar...
- Que idade tens?
- Vinte e dois anos.

Santiago afagou-lhe os cabelos, olhou-a com ternura nos olhos e disse-lhe:

- Não se vai passar nada entre nós.

Ela sorriu, apenas exclamou:

- Eu sabia...
- Onde queres que te leve?
- Fico em casa dela este fim de semana, foi o que disse aos meus pais...
- Bebeste muito, deita-te e tenta descansar.

Deixou-se dormir num repente.

Santiago puxou um cobertor e tapou-a. Parecia uma criança dormindo. O álcool tinha-a afectado bastante. Lembrou-se das suas filhas, e enquanto a via dormir, afagava-lhe a testa e aconchegava-lhe a roupa.

Estava a amanhecer depressa.

Santiago foi para a varanda do quarto e fumou, um, dois, três, muitos cigarros.

As luzes da cidade foram-se desmaiando com a claridade do dia.

Eram 5 horas da manhã.

No 116 tudo estava tranquilo. Mesmo assim arriscou-se a bater.

- Luís, abre.

Olhos de sono e muita bebida abriram-lhe a porta.

- Olha, a amiga da tua amiga está a dormir no quarto. Depois leva-as. Eu vou-me embora.
- Passou-se alguma coisa?
- Nada, absolutamente nada.

Desceu o elevador, meteu-se no carro e foi direito a casa.

Meteu a chave na porta e subiu ao quarto das filhas. Beijou-as, tapou-as e foi para o seu.

Despiu-se devagar para não acordar a mulher, embora adorasse que ela despertasse, e o amasse, e o acariciasse, e lhe deixasse pelo menos descansar entre os seus braços.

Deitou-se.

A mulher ao senti-lo disse-lhe meio a dormir:
- Cheiras mal da boca, vira para lá a cara.

Santiago olhou o tecto ainda meia hora. Quando sentiu que as lágrimas estavam a rebentar nos olhos, levantou-se, vestiu-se, saiu sem ruído, meteu-se no carro e avançou precipitadamente para a auto-estrada. 

As faixas de rodagem eram dele àquela hora. 

Cento e vinte, cento e trinta, abriu a janela e o vento da manhã lavou-lhe a cara e soltou-lhe o cabelo colando-lho e retirando-lho do rosto, cento e quarenta...

Ligou o rádio, novamente o Paco Bandeira cantando, outra vez,  "... a ternura dos quarenta...", cento e cinquenta...

Duas horas mais tarde o telefone tocou na sua casa.

O 115, o seu número da noite, tinha ligado para a policia, e a polícia para a sua residência.

A mulher atendeu. Subiu ao quarto das filhas e agarrou-se a elas em pranto:

- Meninas, meninas o papá está muito mal no hospital, teve um acidente e dizem que é grave.

Não teve coragem de lhes dizer nada mais.

A essa hora, Carlos Santiago já estava morto.


A.M.
1996


in- Retratos Esquecidos de uma Velha Gaveta ( na gaveta ).


lunes, 8 de enero de 2018

O MISSIONÁRIO




"Nascer no Alentejo, ao pé de uma estação de caminho de ferro, crescer com o hábito dos sons dos comboios, sentir o carrossel das luzes rápidas rompendo o silêncio das noites quentes de verão, e ficar.

Ficar sempre, sem ir nem vir, preso no cais de embarque, na planície pintada de sobreiros, sem nunca embarcar.

Ver a luz da máquina, farol minúsculo ao longe, aumentando cada vez mais até passar veloz, como cometa que arrasta a cauda luminosa e desaparece com ela no infinito dos carris de ferro.

A passagem por ele do comboio era sempre uma estrela cadente."



Fechou o caderno e pensou.
Não tinha nascido perto de qualquer estação de comboios. No Alentejo sim, naquela imensa terra de horizontes que se não atingem, por mais que se ande, se ande e se ande...

 A passagem rápida das janelas iluminadas vira-as nalgum filme, talvez.

Andado de comboio, uma vez, quando foi "às sortes", inspecção militar, com uma guia de marcha onde o exército lhe ofereceu um passeio de ida e volta ao Centro de Recrutamento Militar de Leiria, para se despir, todo em pelota, na frente de camuflados gigantescos que avaliavam as capacidades físicas para uma outra viagem, um outro bilhete, de barco, para outras terras e outros mares.

Mas entendia o pedaço de texto que acabara de escrever.

Entendia essa angustia de ter que ficar quando os empurrões para a partida eram tantos, e neste caso, ali, mesmo à mão, só que distante da coragem de enfrentar o novo.

Não tinha um espírito de aventureiro, no sentido da adrenalina. Tinha-o escondido na desculpa inconsciente do auxílio do outro como forma de se auxiliar a si mesmo.

De pequeno fascinava-o a revista "Audácia", que um amigo do pai, acabado de fazer um curso de cristandade, desses que com três dias mudam radicalmente os comportamentos por serem capazes de modificar os objectivos de vidas sem sentido, com afectos "de colores", lhe oferecera com uma assinatura anual.

Era uma revista feita por missionários para jovens.

Aquele trabalho de missão fascinava-o, não tanto por questões de fé, ou pelas heroicidades dos padres Josués que construíam igrejas no meio do mato. Agora a construção de hospitais sim, a multiplicação de escolas também, as lutas para conseguir alimentos ou mesmo os pequenos afagos aos negritos de enormes barrigas e pernas franzinas, de cujos rostos magros sobressaiam olhos grandes... era mesmo o que o impressionava.

Depois viver lá, calções e barba comprida, com tarefas diárias que tinham sempre resultados palpáveis.
Que se viam.
Trabalhar em função dos outros. Sem riquezas, longe de televisões, discotecas, bancos e repartições de finanças, apenas ali, perdido na descoberta, pores de sol como travesseiros, onde encostar a cabeça e dormir.

Casou no entanto, tirou um curso e se ambas as coisas não eram incompatíveis para que tal fosse possível, já os filhos nascidos desse casamento passaram a ter peso na decisão, peso porque teriam que decidir também e para eles, África, por toda uma informação colonial que lhes era distribuída por meios de comunicação ou filmes da moda não inocentes, era um paraíso a desfrutar. Um paraíso de prazer, com cocos e palhinhas, marisco, festas e hotéis, românticos, que madrugavam em frutas tropicais e águas límpidas de praias em toplesse com bandeiras portuguesas ondulando nos edifícios públicos.

A guerra, a fome, essas não ficavam por ali, era lá para o interior, porque o continente africano é enorme e de uma ponta, não se vê a desgraça da outra.

Se a família fosse para África, tomariam lá, certamente, rumos diferentes.
Ficaram.
Ele no entanto com aquele sonho reprimido, a família sem nunca mais se lembrar de tal coisa.
Passaram os anos.
Os filhos cresceram à velocidade da luz.

Com os filhos criados, o casal deixou de sentir a necessidade de o ser.

No tempo dos seus pais, o casamento era "até que a morte os separasse" e quando entrava a velhice, mais necessidade sentiam de se protegerem uns aos outros, dois a dois, agora que os filhos já não estavam.

Hoje é diferente.

Os casais recusam-se a envelhecer, descobrem no outro o reflexo do tempo, como num espelho, e porque a imagem lhes é ingrata, recusam-se a olhá-la.

Separam-se.

Elas, puxam em plásticas as peles do rosto e esticam-nas, forçando sorrisos de quem já não consegue fechar a boca e começam a vestir mini-saias.

Eles, calvos à frente, deixam crescer os cabelos que sobram, atam com elástico um rolinho atrás, cravam um brinco tímido e pequeno na orelha, vestem camisas de marca, compram óculos escuros que lhes disfarcem os papos dos olhos, vestem calções e bebem nas discotecas, onde deixam à porta bem visíveis, os carros desportivos.

Não se necessitam uns e outros, no fundo temem encontrar-se evitando um diálogo entre si, para não terem que recordar um passado que os envelhece.

Procuram misturar-se com gente mais nova, e esta, sem instrução e formação onde tenham estado presentes os cavaleiros andantes ou os príncipes encantados, alinham com estas meias-idades portadoras de cartões de crédito.

Também neste casal tal se passou, e a distância entre ambos era cultivada, para resultar o mais duradoura possível.

Apesar dos filhos terem mais de vinte anos (hoje fazendo parte de uma nova classe de adolescência devido à dependência paterna), o que lhes daria uma proximidade vertiginosa aos cinquenta anos, negavam-se determinantemente  a envelhecer, e ambos queriam começar tudo de novo. Como se tivessem vivido e terminado uma vida já, e houvesse tempo de viver uma segunda. Tudo de novo, a adolescência, as roupas, a música, até novos namorados, porque não?

Separam-se.

Os filhos, rodados nestas experiências pelas experiências múltiplas da maior parte dos seus colegas, aceitam bem.

Para eles até foi melhor.

Mais liberdade, se não deixava o pai, autorizava a mãe. Dinheiro tinham sempre pois os pais disputavam-se para ver quem dava mais, a custo sei lá de quê, trocando moedas em tentativas de substituir o amor que sabiam não dar conscientemente. Tinham até duas casas, duas portas sempre abertas em dois lugares distintos da cidade, e com essas duas portas abriram-se dezenas de mais. Durmo em casa do pai. Durmo em casa da mãe.

Depois por telefone:

- Dormiram aí em casa?

- Não, eu pensei  que estivessem contigo.

Tinham dormido por aí.

A separação dos pais tinha sido para eles uma liberdade precoce, uma autonomia para que não tinham sido preparados.

Custava-lhes às vezes encontrar os namorados dos pais nas suas casas. Por mais que estes se esforçassem, nos jantares ou no cinema, não conseguiam nunca substituir a mãe se fosse a namorada do pai ou o pai se fosse o namorado da mãe.

Tinham até manifestações de ciúmes que traduziam em comunicações ao outro lado.

Como a mãe ficava furiosa quando lhe diziam que no dia anterior ao jantar a namorada do pai estava lá...

Como o pai ficava furioso quando lhe diziam que no dia anterior, depois de jantar, o namorado da mãe os foi levar à discoteca e passou a buscá-los às seis horas da manhã…

Os filhos gostavam de ver os pais reagirem como crianças:

- Ele levou-os a ver o Benfica? Vocês sabem que ao Estádio da Luz só vão comigo. Sempre foram só comigo. Esse “gajo” é tanto do Benfica como eu do Clube de Freixo-de-Espada-à-Cinta. E ela foi? Comigo nunca queria ir.

- Ela é que vos cortou o cabelo? Quem autorizou? Olhem para a tua cabeça, estás horrível, deve ter aprendido na espelunca da cabeleireira onde costuma ir. O teu pai varreu os cabelos do chão? Comigo nunca pegou numa vassoura…

Haveria neste ciúme alguma réstia de amor?

E foi num desses dias em que a autoridade estava diminuída, que algo muito grave aconteceu.

- São duas da manhã, devem estar com a mãe.

- São quatro da manhã, devem estar com o pai.

Ambos pensaram que deveriam telefonar um ao outro, mas não pensaria o outro que se estava dando parte fraca, depois da última discussão em que entre gritos, insultos e ameaças se afirmou que nada mais havia para dizer, tendo-se a partir daí transformado os filhos em mensageiros?

- Deviam lá estar certamente – pensaram ambos acerca da casa um do outro.

Dormiram.

A única coisa comum que tiveram nessa noite em cada uma das suas casas, foi sem o saberem terem visto o mesmo filme na televisão, e o ciúme de que os filhos tivessem preferido dormir na casa do outro.

O relógio avançava dia dentro e a manhã de domingo surgiu ao mesmo tempo que o telefone tocou em casa dele.

Ouviu-o tocar lá ao longe, como a manhã, depois olhou o relógio de cabeceira e ergueu-se de um salto, era mesmo o telefone.

- Diga?

- Estou a falar com o Senhor Raul dos Santos Costa Brás?

Aquele seu nome completo dito assim do outro lado por voz desconhecida, deixou-o intranquilo.

Houve um acidente. Falo do hospital. Deveria vir…

- A minha mulher?

- Não…

Deixou cair o auscultador, enfiou as calças, a camisa, desceu a escadaria do prédio, meteu-se no carro e partiu como um sonâmbulo.

A mulher já estava no átrio do hospital, quando o viu chegar correu para ele e embrulhou-se em pranto e dor.

Foi a primeira vez que sentiram a nítida necessidade de se abraçarem.

Viram-se pela última vez no funeral.

Dela, ninguém mais ouviu falar.

Ele é hoje um missionário triste e barbudo, amando cada criança da Guiné com a dor de ver em cada um deles os filhos que ajudou a vida a roubar.

Há gentes que deveriam seguir logo os seus destinos, para que as suas vidas não tivessem que ser livros com folhas arrancadas a meio. Livros com capítulos em branco só com dor e vazio.

Só que, no fundo, é isto que nos define como seres humanos, cabe aos deuses determinar os carris.



A.M.
1996


in- Retratos Esquecidos de uma Velha Gaveta ( na gaveta ).

miércoles, 3 de enero de 2018

A DÚVIDA DA PRINCESA



Era uma vez uma princesa que vivia, como todas as princesas, num palácio.

Preparada desde pequena, com bonecas e fogões, de sala, para poder um dia servir um qualquer príncipe a última metade da sua vida, cresceu.

Como o peixe que se julga livre na sua rotina secular de subir o rio apenas naquela época do ano, buscando a desova como tradição geneticamente interiorizada, fez-se princesa quando a idade lhe ditou que era hora, só que no seu interior e com o passar do tempo, descobriu que o seu palácio era um castelo e o príncipe, o proprietário provisório aguardando a herança das terras do pai.

Proprietário do castelo, mas também o seu.

A princesa vivia segura dentro dele. Aquela segurança de quem tem um príncipe e será herdeira de um reino que passará aos seus filhos.

Lá dentro nada lhe faltava, parecia, mas o mundo, esse, só o via das ameias de pedra escura e sobreposta, projectado em horizontes de impossíveis castradores de liberdades e balizadores contratuais de comportamentos.

Enquanto ia passando veloz a segunda metade da sua vida, descobriu a rotina, descobriu sentimentos que era obrigada a compartilhar apenas consigo mesma.

Começou a entender que a vida corria rápida e igual e que não era só o seu corpo que estava preso no castelo, mas também os sentimentos, e com o passar dos dias, notou que muitas vezes as lágrimas iluminavam os seus olhos e não sabia o porquê.

Gostava de fazer coisas novas, coisas que sabia ser capaz de realizar com êxito... mas era conservador o seu palácio.

Viria daí aquela ansiedade que certos dias, cada vez em maior número, lhe apertava o peito e lhe humedecia os olhos grandes impedidos de ver o mundo?

Às vezes apetecia-lhe sair das muralhas, enfeitadas com grandes jardins interiores, mas rodeadas de um fosso impeditivo.

Nunca entendeu se esse fosso, apenas transponível por uma ponte levadiça de que não dispunha de força para levantar, julgava, servia para a proteger no seu castelo ou para a prender dentro dele.

Cansada de se deitar e levantar igual, cansada do espaço que percorria limitado, um dia arriscou e saltou o fosso.

Não percorreu o espaço livre cá fora até muito longe, pois temia o não poder regressar já ao castelo, à segurança, para que fora criada.

Quando voltou, fechou-se durante horas no quarto sobre a cama de dossel.

A forma como fora educada, trouxera-lhe um desconhecido sentimento de culpa e do quarto, passou à capela, tão medieval como o castelo, como se Deus condenasse alguma vez a busca da felicidade de alguém.

Mas aquela rotina, aquela sensação de escrever poemas que ninguém lia, aquela certeza de ser capaz de fazer mais, levou-a a saltar de novo o fosso, desta vez um pouco mais longe, mas sempre com o regresso como certeza, ao castelo da segurança.

Depois, outra vez aquela sensação de culpa que a levava a não tentar nova aventura além muralhas, durante meses.

Mas eram grandes as tentações do mundo, grandes as portas de tanta coisa para fazer, e tantas, tantas as portas e as coisas.

Ainda adolescente, enquanto preparava a segunda metade da vida, poderia ter ficado com outro príncipe, quem sabe se castelo ou palácio? Só que aí não era a norma tradicional de viver em função de quem, era amor.

A palavra amor é ridícula quando se não ama.

Não calhou a entrada por essa porta, mas a adolescência é marcante e o amor, uma vez sentido, nunca se esquece, mesmo que se esqueça o amante.

Pode camuflar-se, enrolar-se nas lianas do tempo que cobrem as florestas, onde Diana reina sobre a fauna, com milhares de gotas de água que caem e fazem crescer o emaranhado da vegetação, tal como a vida das pessoas com a queda das milhares de horas que enleiam e enlameiam os destinos.

A princesa, tinha conhecido o amor e hoje, tantos anos passados necessitava senti-lo de novo, e essa necessidade, parecia mais viva, mais madura, mas também mais ameaçadora da segurança do castelo que nunca conseguiria ser palácio.

Tocou o telefone.

Nunca era a princesa que atendia, mas naquele dia fê-lo, como se o destino lhe coordenasse os movimentos.

- Sou eu. Quero ver-te.

Um arrepio percorreu-lhe o corpo numa decisão de dizer basta.

- Passo a buscar-te dentro de meia-hora.

A princesa pousou calmamente o telefone, enquanto por dentro se dava a mestria da explosão de adrenalina  subindo pelo corpo como espumante desenrolhado lentamente.

Subiu ao quarto. Olhou o espelho. Com o polegar e o indicador abriu o olho esquerdo. Depois com a mesma mão fez o mesmo ao direito.

Os trinta e seis anos ameaçavam-lhe o rosto, e aquelas ténues rugas começavam o aviso.

Renasceu então, como magia.

Desceu as escadas, ignorando os guardas, as vizinhas nas janelas viram-na saltar o fosso sem medo e entrar no carro.

Partiram dali, pela primeira vez sem pensarem como voltar a meter a princesa no castelo sem que ninguém o soubesse.

Pararam no cruzamento de uma estrada perdida, lugares que a natureza oferece aos plebeus errantes sem dinheiro para comprar espaços de tempo no tempo confortável das hospedarias, entre a noite e a folhagem.

Só a luz vermelha do rádio alumiava a noite, aquecendo timidamente com uma música ligeira e baixa o momento.

Apenas plebeus errantes.

Abraçaram-se, beijaram-se, fizeram amor com o espírito sem se tocarem os corpos, naquele platonismo infantil que teme destruir o sonho.

Em imaginação, as roupas ficaram espalhadas nos bancos, vidros embaciados de respirações alternadamente comuns, loucura contrastando com a chuva miudinha que caía.

Depois, suados, abriram o tecto eléctrico do carro e deixaram a chuva embalar-lhes a visão imaginária dos corpos nús, no meio do riso e do prazer.

Apenas plebeus livres.

Tiveram que passar tantos anos para a princesinha se sentir verdadeiramente feliz.

Agora sabia que o poderia ser sempre que entendesse, apenas tinha que decidir se voltaria ou não ao castelo que já não considerava seu.

Afinal, tinha descoberto com toda a certeza que não se tratava de um palácio.

Tinha também a seu favor, o saber que as muralhas, o fosso e a ponte levadiça, não existiam para a proteger, mas para a manter.

Só lhe faltava decidir.

Voltar ou não voltar?

Estava facilitada a decisão, mas só ela sabia como era difícil optar, entre a segurança rotineira, ou a aventura sem certezas de futuros, presentes felizes, é certo, mas muito para trocar.

Coragem? 

Apenas o amor sabia ser verdadeiro, embora uma voz pequenina lhe repetisse ao ouvido:

- E se daqui a algum tempo apenas trocaste um castelo por outro?

Nunca o poderemos saber. 

Hoje é dia 31 de Agosto de 1977.

Deveríamos ser nós a controlar o nosso destino.


A.M.
1997

in- Retratos Esquecidos de uma Velha Gaveta ( na gaveta ).

sábado, 30 de diciembre de 2017

A PRAIA ONDE MORREM AS BALEIAS OU UMA BRAÇADA PARA FORA DA DEPRESSÃO



Eu sou a praia onde morrem as baleias. Não sei porque me escolhem as baleias para morrer. Nem sei sequer se é isso que desejam, sei apenas que é a mim que chegam e que ao longo dos anos, é em vão que luto, dia a dia, para guiá-las de novo ao oceano, o que é difícil.

Uma baleia pesa muito, e se permitem porque inofensivas o meu contato com elas na água, torna-se muito dificultosa a tarefa de as desencalhar dos meus baixios.

São poucas as que conseguem recuperar os seus rumos e muitas, depois de o conseguir, regressam de novo para agonizarem definitivamente.

As minhas areias, embora doiradas ao sol e cobertas de mil gaivotas que deixam as suas marcas no chão húmido, pouco duradouras que a água apaga quando sobe a maré, não passa de terra leve e triste que oculta cadáveres tapados.

Dantes chegavam mais espaçadamente no tempo e eu, pensando ainda ser uma coincidência, esforçava-me com uma maior ilusão em salvá-las, depois com o passar dos anos, transformei em rotina passar os dias a abrir valas, à mão, enormes, para onde as arrastava e cobria, tentando mais salvar a imagem paradisíaca da minha baía dourada que os turistas aplaudiam, do que a vida destes gigantescos mamíferos que me procuravam, vá-se lá saber porquê.

Às vezes acordava envolto em medos e dormia mal com pavor aos pesadelos.

Na minha pressa, agora objetiva, de manter superficialmente a praia limpa, duvidava se alguma vez enterrara alguma daquelas criaturas viva.

Este pensamento arranhava-me como o frio cortante que enfrento no inverno, e porque constante, passou a arranhar-me durante todo o ano transformando-me em praia com inverno permanente, com marés vivas, ondas altas e ventos que dobravam as palmeiras, outrora belas sempre, tanto calmas como promessas com as suas novas folhas na primavera, como acolhedoras nas suas espraiadas sombras no verão, como poéticas nos pores-de-sol de outono ou dançarinas no inverno, impedindo o vento nesse entreter de baile, de consumir as dunas.

É neste inverno permanente, agora sem música para o baile ou palmeiras para dançar, que hoje continuo a assistir à vinda das baleias e à destruição das dunas.

Deixei de acreditar que as posso salvar e consumo meses inteiros a abrir covas e a enterrar. Algumas dessas covas nem sequer têm ainda baleias mortas. Hoje já não me preocupo com a paisagem e muito menos com os turistas, sou no entanto mais sensível aos cheiros. Abro buracos para evitar os cheiros. Cavo e tapo porque as baleias cheiram mal. Perdi a ilusão de poder salvá-las.

A última vez que o fiz, levei quase um mês envolto em suores e canseiras, empurrando uma baleia resistente perante os olhares dos turistas, mar dentro. Assim que virava costas, ela aí vinha, boiando, atrás de mim, aproveitando as ondas calmas para me impregnar de odores.

- Deixa-me! Segue o teu caminho! Eu só te posso dar uma cova, nada mais. Ainda por cima, uma cova pequena, que tenho os dedos feridos de tanto escavar com eles. Dedos que quase não têm impressões digitais, dedos quase sem identidade. Deixa-me! Para ti tenho uma cova pequena, nada mais.

Nunca fui dos melhores nos meus entendimentos dialogantes com as baleias, e talvez este "nada mais" fosse entendido como uma forma do verbo "nadar", ela continuava a perseguir-me.

- Deixa-me! - e pedi por favor.

Ignorou este meu último queixume. Não sei porque mistério continuava a escolher-me a mim, trocando pelas minhas águas baixas e sufocantes a liberdade das profundezas do mar, onde com a barbatana horizontal desenhava o azul dos céus e pelo seu orifício atirava repuxos mais altos do que metade da cova de areia escaldante que a esperava comigo. Ajustada ao tamanho do seu corpo. Nada mais ali cabia. Apenas o seu corpo, nunca a imensidão do seu espírito.

- Vai-te! Deixa-me! - e batia ferozmente na água tentando afugentá-la, ruído e mais ruído, que a fizesse renunciar à morte nem que fosse pelo medo.

Parece que finalmente se foi.

Deixei-me eu agora arrastar na espuma das minhas ondas que me enrolaram cansado na areia.

Reparei então, que durante este tempo, enquanto eu lutei para salvar uma baleia, tinham chegado à praia sessenta, estas já cadáveres, trocando moscas por cheiros.

Levantei-me em ângustia, gritei, ergui o mar e agitei a areia espetando os seus grãos de quartzo como agulhas no vento. O que restava das palmeiras foram abanadas até à exaustão e depois, numa tristeza, numa resignação, resignação, resignação, recomecei, recomecei a abrir covas, abrir covas, maquinalmente, maquinalmente...

Todo o peso do infortúnio se abateu na minha baía nesse instante. Varreu-se o presente e o futuro, só o passado, essa repetição deste presente e imagem de provir invadia tudo.

Covas, continuar a abrir covas para sempre.

Revoltei-me na praia e transformei-me naquele momento em local de tormenta.

Os que observavam a minha baía naquele instante, nada fizeram. 

Indiferentes ao sofrimento daquela agressividade da natureza, limitaram-se a levantar bandeiras vermelhas, e quando já cansado e sem forças para cobrir de areia os sessenta buracos onde com esforço ainda tinha conseguido depositar os cadáveres que arrastei um a um, limitaram-se a colocar cartazes que alertavam para o perigo de que alguém pudesse cair naquelas covas.

Fui considerado uma praia perigosa, uma praia a evitar.

Sempre foi assim.

Cada vez que como praia necessitei de auxílio, apenas me cercaram de bandeiras e cartazes de perigo, regalando-me a quarentena forçosa até que sozinho, acabasse as minhas tarefas e pintasse  a praia, cada vez mais retocada, mais maquilhada, em doirados de areia e sol, palmeiras em descanso e céu sem núvens, passaporte de relações com as gentes que então aí iriam desfrutar, mais amantes de sedas e brocados que de corpos nús.

E eu? Que sempre aceitei qualquer relógio? Mesmo quando alguém me disse que não passava de um relógio parado? Mesmo antes de ter lido, ouvido e confirmado, que mesmo um relógio parado, duas vezes por dia tem as horas certas?

Quem me aceita como sou, como destino de um mistério, sem serem as baleias? Essas criaturas grandes e pacíficas que me procuram, vamos lá saber por quê? Ainda por cima para morrerem em mim?

Voltemos à praia.
Voltemos à praia onde morrem as baleias.
Voltemos a mim.

Acabei a tarefa extenuadora de me limpar, mar calmo de um lado, areia alisada do outro, céu por cima como mandam as regras de todas as praias, todas as covas tapadas, as moscas e os cheiros longe dali, olhei-me nas águas. 

O meu reflexo ia-se alterando com o vai-vem das águas, o rosto era distorcido, umas vezes alongado, outras com formas lunares, havia dificuldade de saber como era realmente. Tinha no entanto os olhos fundos e vermelhos, as mãos doridas e lixadas, não sei de onde mais uma vez me vieram as forças para terminar tamanha tarefa.

Sentei-me, mas tive poucos momentos para gozar o descanso.

Olhei o horizonte.

Não queria acreditar.

Gritei, arranhei a areia, esfreguei as costas nas palmas pontiagudas das palmeiras, feri os pés de raiva com as conchas mortas também. - Não posso crer! É ela! A estúpida de novo. Vem para cá! - gritei em desespero - Fora! Fora daqui! Aqui não! Aqui não! Fora! - e agitava os braços no ar impedindo-a de regressar. - Vais morrer idiota! 

(Sinceramente naquele momento preocupava-me mais com o trabalho que a sua morte acarretaria do que a sua vida) 

- Vais morrer idiota! Para quê? Porque é que aqui? Fora! Fora! - e agitava as minhas águas e levantava as minhas areias e dobrava violentamente o que restava das minhas palmeiras.

Insensível ela aproximava-se, parecia que descansava nas águas. A distância ia-a fazendo cada vez maior.

Sentei-me desiludido. 

Ela foi-se aproximando, mas de repente, parou. Muito antes do recife. Tinha percebido onde terminava a liberdade do mar e começava o perigo da praia. Movimentou-se então, evitava a todo o custo as águas baixas da minha praia, as minhas águas. Mergulhou e bateu com a barbatana no azul forte fazendo saltar um chorro de água em cascata circular e foi então, supresa das surpresas, que vi outras duas pequenas barbatanas chapinharem o oceano, mais pequenas do que a cabeça da mãe. E eu que pensava que as baleias só podiam ter uma cria de cada vez. Estava atónito. Havia vida pela primeira vez na minha praia depois de tantos anos. 

Havia vida novamente em mim. 

Não me restavam dúvidas, a baleia desta vez não regressava para morrer, vinha saudar-me e apresentar-me as crias que trouxera consigo do vasto oceano. 

Levantei-me e ri. Ri muito. As minhas gargalhadas ecoavam nas escarpas e eram molhadas, porque uma grande vontade de chorar me vestiu o peito e lavou a cara. 

Saltei, acenei, e ela feliz saltava com as pequenas, dialogando comigo numa mímica agradecida.

Dei-me conta então, que tempos houve, em que gostei de ser a praia onde morrem as baleias, talvez por ser a única forma de ter junto a mim gente, turistas, que se deitavam em mim, e desfrutavam das minhas palmeiras por esse tempo de pé e viçosas, até terem uma boa fotografia de uma baleia morta, ou me auxiliavam a levá-las para o mar alto, com o mesmo fim, deixando-me logo que a imagem ficava gravada e pronta para ser reproduzida e mostrada a outros turistas, não se preocupando se a mesma tinha sobrevivido ou não. 

Turistas, apenas turistas. 

Sempre turistas da vida. Sacadores de momentos à distância, não bebedores da mesma, e que eu, proprietário de uma praia, pobre diabo, tinha a ousadia de confundir com aplausos e até mesmo com amor.

Há decisões na vida que se têm que tomar rápido. Sem necessidade de tempo para pensar. Pensar muito pode levar ao adiamento das decisões.

Entrei na água, baloucei-a ritmada, cobri-me, atravessei a distância entre nós sem nunca olhar para trás e esquecendo as sessenta covas que tinha acabado de cobrir com os cadáveres dentro, atravessei as águas baixas, nadei a partir do recife e juntei-me às crias.

Parti com elas.

Despi-me da praia, abandonei as bandeiras vermelhas e os repetidos cartazes de perigo que me isolavam e impediam.

Nadei com elas, nadei e continuo nadando.

Deixei de ser uma praia onde as baleias vão morrer.

Sou uma baleia que guia outras no evitar os recifes e as águas baixas.

Hoje já não sou uma praia de baleias mortas.

Hoje sou uma baleia que só procurará a sua praia no fim da caminhada.

Confesso que estou a gostar de fazer esta viagem.

Afinal o que eu sempre gostei, foi de água.


                                                                                           A.M
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in- Retratos Esquecidos de uma Velha Gaveta ( na gaveta ).