martes, 14 de agosto de 2018

" O QUE FOSTE LÁ FAZER?" ( Livro em elaboração sobre um cooperante alentejano de Timor-Leste / Reedição de um pequeno excerto do IV Capítulo)



(...)

A Salenda é para um europeu o mais parecido a um cachecol, para um timorense, um gesto de honra, um privilégio, algo que se usa ou dá em momentos especiais. 

Usá-lo é um grande abraço de todo um povo e de quem é merecedor e aceite pela sua cultura.

Os professores portugueses, ainda num misto de despertar e sonho, estavam formados em fila e um a um, iam recebendo a sua salenda das mãos das crianças de uma escola de Díli, que alinhadas, tinham organizado aquela primeira recepção de boas vindas.

O dragão, continuava a lançar as suas baforadas e a fila era demorada, porque cada professor, era tocado pela emoção quando se baixava, para que o menino ou a menina lhe colocasse no pescoço aquele sinal de boas vindas com o coração aberto.

Carlos Novais, lenço na mão pronto a ser espremido, avançava passo a passo debaixo de um sol intenso, passava-o pela testa, pelos braços nus e metia as mãos entre o corpo e a camisa para a desagarrar da pele que a aspirava com suor.

Incómodo.

Quem o mandara ir para aí com aquele peso? Sentia-se em sacrifício e pensava que o primeiro a fazer era vencer aquele clima que lhe diminuía o oxigénio que respirava.

Avançava, lento, a colega da frente abanava-se com o folheto do programa e ele ali em passinhos de vinte centímetros.

Faltam ainda dezasseis, pausa, passinho, quinze, pausa, passinho, catorze…

Faltavam exactamente três professores e quatro passinhos quando ouviu o que os meninos diziam quando colocavam a salenda nos ombros dos professores, baixinho, como que envergonhados:

- Bem-vindo a Timor-Leste.

Estava quase.

Dois, a seguir era ele e depois, fugir dali, procurar uma sombra, uma cerveja, fugir, desaparecer, esconder-se num sítio escuro, numa gruta onde fosse proibida a entrada do sol e talvez por isso se surpreendeu, que o sol, com um sorriso tímido, lhe tocasse o corpo e estivesse ali, à sua frente, na cara daquela menina que lhe colocava nos ombros a responsabilidade da sua salenda enquanto soltava a frase mágica:

- Bem-vindo a Timor-Leste.

Carlos Novais arrependeu-se de ter tentado fugir, puxou a menina, deu-lhe um beijinho, agradeceu e perguntou-lhe:

- Como te chamas?

A menina olhando para ele respondeu:

- Bem-vindo a Timor-Leste.

Novais pensou, coitadinha, não entendeu:

- Não é isso filha, quero saber o teu nome, o meu é Carlos e o teu?

- Bem-vindo a Timor-Leste.

- O teu nome, como te chamas?

- Bem-vindo a Timor-Leste.

A menina ficou apavorada perante aquela alteração do guião, isso não estava no papel, era meter a salenda e pronto, logo a ela lhe havia de ter calhado aquele professor gordo e chato que inventava coisas que não estavam escritas em lado nenhum.

 Desviou o olhar de surpresa, passou-o para os companheiros que com outras salendas nas mãos aguardavam os professores que transpiravam atrás daquele e repetiu, desta vez pausadamente para ver se aquele idiota percebia de vez:

- Bem-vindo (pausa) a Timor-Leste.

Carlos Novais sorriu:

- Eu entendi queridinha, só quero saber o teu nome - insistiu Carlos – o teu nome amiguinha…

Fixou-o.

Carlos sentiu que com os olhos lhe dizia “ Vai-te embora daqui pá! Desampara-me a loja! Olha o que me saiu na rifa! Então não querem ver este?” apesar de tudo dignamente dizia-lhe, agora de uma forma clara, sílaba acentuada e lisa:

- Bem-vindo a Timor-Leste!

Nesse mesmo instante, Carlos Novais afagou-lhe a cabeça, ajeitou a sua salenda e deu o lugar ao colega de trás.

A menina respirou aliviada.

Só aí se deu conta do peso enorme da responsabilidade que essa salenda lhe transmitia, a responsabilidade de fazer renascer a língua portuguesa, proibida durante uma geração, perseguida à ponta de catana e metralha, sofrimento e luto, tirada à força da história, e esse ano, o ano em que recebera a sua salenda, era aquele em que se celebravam os quinhentos anos da chegada dos primeiros portugueses a Timor.

Sentindo o enorme trabalho que tinha pela frente, Carlos Novais juntou-se aos companheiros, anichados debaixo do alpendre, assistindo à dança da cultura timorense que outras crianças tinham preparado para eles.

Carlos Novais sentiu-se pela primeira vez na sua vida a fazer parte da história, que parecia que o tinha posto na fila de propósito, pedindo-lhe ajuda e colocando também nas suas mãos uma pequena parte, para que pudesse continuar a ser contada com orgulho, o orgulho de ser língua, afago de pátrias, espalhadas pelos mares, pelos ventos e pelas estrelas.

Carlos Novais fechou os olhos e no meio daquele momento tão nobre, ficou surpreendido consigo, lenço ensopado nas mãos, pois quando os abriu, em vez de pensar em hinos e bandeiras, estátuas, monumentos e glórias tão apropriadas aos egrégios avós dos seus pensamentos, apenas lhe veio à mente “tenho que emagrecer”.

Por Deus, que falta de oportunidade histórica para uma frase a ser registada nos anais.

Sorriu, só esperava que o destino histórico se não tivesse enganado ao colocá-lo naquela fila.

“Tenho que emagrecer”, que pobreza de pensamento e pior se sentiu quando o segundo, a outra oportunidade que podia ainda ter aproveitado foi:

- Tenho fome.

Deu-se conta de o ter dito em voz alta, porque uma senhora ao seu lado, pertencente à organização lhe respondeu:

- Isto está quase a acabar.


(...)

in O que foste lá fazer?
... em construção...         

domingo, 12 de agosto de 2018

" O QUE FOSTE LÁ FAZER?" ( Livro em elaboração sobre um cooperante alentejano de Timor-Leste / Reedição de um pequeno excerto do II Capítulo)




(…)

Se os dragões existissem, diria que um, enorme, gigante mesmo, boca e narinas dilatadas, vivia sobre o monte Ramelau, e que àquela hora, sempre a mesma em que chegava um avião, tentava mandar para trás quem se atrevia a invadir a sua ilha, com enormes baforadas de hálito quente.
Esta foi a primeira sensação que Carlos Novais teve quando baixou as escadas íngremes encostadas ao avião acabado de chegar.
Juntou-se ao grupo de colegas que embarcaram nesta aventura e se iam reunindo na pista.
Olharam uns para os outros e tardou que alguém mais afoito, rompesse o silêncio húmido e abafado e dissesse: - Uma foto companheiros, ânimo, chegámos a Timor.
Saíram sorrisos como abraços em grupo para a câmara.
Tinham deixado Portugal dia 19 e chegado a Timor-Leste às 13.45 (hora local) do dia 23 de Maio.
Engoliram horas.
Noites e dias estavam às avessas como estavam os corpos e os pensamentos.
Saíram juntos do aeroporto.
Lá fora aguardavam-nos outros colegas que já viviam essa experiência há mais tempo.
Para além dos amigos que alguns lá tinham, Novais tinha o abraço da Maria e do Alberto, esperavam-nos também as coordenadoras gerais do projeto, a Coordenadora Portuguesa e a Timorense e com elas, os treze coordenadores das treze escolas, uma por distrito, nesta teia organizada para reiniciar o acesso à Língua Portuguesa e que, funcionava como os tentáculos de um polvo, cuja cabeça bicéfala estava em Dili.
Cada escola tinha uma carrinha com motorista e os professores foram distribuídos por elas e levados para alojamentos provisórios na capital.
Carlos Novais, um dos quatro homens que chegaram, foi levado para um hotel, de onde se via o mar, esse seu mar que tanto lhe seria companheiro durante a sua estadia na Ilha.
As colegas, ficaram em casas, uma zona fechada chamada Vila Verde e que Carlos Novais não recorda bem.
Recorda-se, isso sim do seu hotel.
Novo Horizonte, porque os horizontes podem ser novos, entre o centro de Dili e a praia da Areia Branca.
Até chegar ali, tinha feito uma curva nas condições que subiam e baixavam consoante as escalas.
Partira do seu distrito às seis horas da manhã de dia dezanove, e a partir daí, tinha tocado movimentos em Lisboa, Madrid, Doha e Bali.
Em Doha sentiu o primeiro rugir da diferença, com mulheres apenas com olhos e homens todos de branco.
Em Bali, respirou a Ásia.
Ficou num hotel majestoso e sentiu o poder do dólar.
Pagou com eles as refeições, onde as rupias, apesar de muitas para valerem mais, continuam a ser pobres envergonhadas de pouco valor.
Uma refeição no hotel andava pelos quatro dólares.
Carlos Novais comparou mentalmente com o euro... mas isto seriam, ora bem, o quê? Só? Três euros e vinte, menos de um maço de cigarros? Um hotel de luxo destes?... Não conseguiu deixar de pensar que a Europa não ia por bom caminho.
Timor, tem a Austrália como guia e a Austrália, tem como rainha, a mais antiga monarquia europeia, consciente disso, tenta manter laços com os países vizinhos, mesmo com a sua velha inimiga Indonésia e agarra-se à CPLP para manter a sua identidade histórica.
Mas regressemos à primeira noite com oito horas de diferença de Lisboa, agora, ou nove, quando Lisboa anda ao sabor da mudança dos ponteiros, um passo para o lado, outro para o outro, numa valsa dançada pela luz.
Carlos Novais, chega ao hotel Novo Horizonte, dão-lhe um quarto, uma chave e um código de internet.
Coloca as duas malas e o saco de mão no chão, tira o portátil, liga-o e começa a chamar a família.
Tinham-se passado tantas coisas novas em tão pouco tempo que lhe parecia ter saído de casa há uma eternidade.
Como sempre, o melhor tinha deixado lá e não se referia só à família e aos amigos, trouxe o seu telefone velhinho, o computador sem autonomia de bateria, roupa q.b. como o sal, nem a viola, nada, o que cozinhasse na sua vida a partir desse momento, seria com os seus recursos e com os ingredientes de lá.
Não se preocupou por isso com os vinte e sete quilos de limite de bagagem, a dor de cabeça das companheiras.
Ele e só ele estavam ali, nessa primeira noite, e o computador sem câmara, só podia escrever, não podia ver ninguém:
- Sou eu !!
-Papá, Papá!
- Então como estão?
- Vimos a tua viagem pela Net, seguimos a rota do avião.
Modernices destes tempos, uma das que Carlos Novais sabia ter como deficiência.
- Quem está aí?
- Todas!!
E estavam, mulher e filhas, as pequenas e as maiores que foram apoiar este momento que também para elas não deveria estar a ser fácil.
- Não morri, caramba. Só saí de casa por uns tempos.
Carlos Novais tentava inventar coisas para lhes dizer, a cabeça estava branca como as vestes dos homens de Doha.
- Tu estás bem?
- Na maior!!
Nessa altura e enquanto escrevia, chorava, e ainda bem que o não viam para evitar o gozo das filhas, “andas muito chorão” e andava.
Antes de ir, chorava por tudo e por nada, não era berraria, não pensem, era assim, comovia-se e pronto.
Comovia-se com tudo, com as palavras que ouvia, com os livros que lia, sobretudo se falassem de crianças ou de velhos, mas reconhecia que ultimamente a coisa se tinha complicado e já torcia o beiço, com um filme, com a televisão e até com as telenovelas que dizia não ver, mas que espreitava.
- Andas aí?
- Sim, estou.
- Então já viste algum crocodilo?
A mulher de Carlos, culpada com a amiga Lurdes com quem aprendia receitas novas, do seu elevado peso que o fez não ter cinto suficiente no último voo entre Bali e Timor escreveu:
- Que comeste?
- Coisas do avião.
Carlos, ao olhar para os seus cento e trinta e oito quilos e lembrando-se do pormenor de no voo que o deixou em Dili não ter tido cinto suficiente para o apertar e proteger, acrescentou:
- Olha amor, estou entregue a mim mesmo. Estou em Timor-Leste, a dezassete mil quilómetros de casa onde aterrei sem cinto de segurança.
Mal sabia Carlos Novais que muitas outras vezes iria sentir a falta desse cinto.
-Então? Então? Carlos estás aí?
Não tinha ficado sem Net, conforme lhes foi dito durante as conversas preliminares com o ministério, foi sem luz e só três horas depois conseguiu ligar de novo o computador onde uma fileira de preocupações estava escrita em monólogo:
- Carlos estás bem?
- Carlos porque não escreves?
- Passa-se alguma coisa?
Carlos respondeu de imediato:
- Está tudo bem, fiquei sem luz.
Em desabafo em tom depreciativo, a mulher escreveu:
- Pronto, já estás em Timor…
Carlos esperou um pouco e respondeu:
- O problema não é de Timor, é ainda de Portugal, onde com os roubos nos ordenados, os congelamentos de salários e tudo aquilo que sabes na pele, não dá hipóteses a que um professor possa ter um computador em condições, que não tenha que estar ligado à luz, por velho e muito uso ao seu serviço, tenha ainda que sair do país que é seu… e, caramba!!!
Judite, esposa:
- Não te metas em política Carlos, dá-me tanto medo que sejas assim.
Para Carlos Novais, a conversa estava terminada, não sabia era como o fazer.
Irritava-o a passividade dos portugueses, os medos, as permissões, a última greve de professores em que em todo o agrupamento de escolas a que pertencia, só ele como um tonto perdeu o dia de trabalho, surpreendido por todos os colegas que se manifestavam contra a política desgraçada do governo se terem perfilado religiosamente na escola, como cordeiros silenciosos.
A diretora pela manhã telefonou-lhe:
- Olha, as auxiliares fazem greve, não vai haver aulas, anda que não perdes o dia.
Não queria acreditar no que ouvia, montarem-se sobre as pobres auxiliares educativas que ganhavam quinhentos euros por mês.
Tinha mesmo que sair, para longe, nada fazia sentido, o país estava falso, vivendo de expedientes.
Lembra-se de ter chegado à escola no outro dia e dizer às colegas:
- A partir de hoje falem comigo de novelas, do festival da canção, da Bárbara Guimarães e das nódoas negras, mas não se atrevam a dizer mal da escola, do ministro ou do governo, que eu não discuto mais esse tema convosco.
Decidiu nesse dia colocar mar e terra sobre ele e o país.
- Olha estão a chamar-nos para jantar.
Não estavam.
- Está bem, quando voltas a falar?
- Não sei, quando puder.
- E como sei quando podes?
- Dou-te um toque de telemóvel. Não atendas que deve ser caro e vai para o computador.
- Adeus amor.
- Adeus Papá.
- Papá beijinho para ti.
- Papá compra-me coisinhas.
- PAI, PAI.
- Papá, foi a pequenina que escreveu PAI, eu ajudo a cuidar das minhas irmãs.
Carlos Novais contou as despedidas:
- Eh! Falta uma.
- Sim, a Nevita, ela também te manda um beijo. Só vem amanhã.
Carlos Novais desligou o computador, abriu as malas, tirou uns calções, uma camisola e roupa interior.
Completamente suado, sentiu a água fria do chuveiro como bênção. 
Limpou-se.
Sentiu-se húmido, incómodo, e deu-se conta que estava suado outra vez.
Entrou novamente no chuveiro.
Saiu e meteu-se debaixo do ar condicionado.
Foi assim que Carlos Novais apanhou a primeira constipação na Ásia.
(...)


In O Que Foste lá Fazer?
... em construção...

viernes, 10 de agosto de 2018

" O QUE FOSTE LÁ FAZER?" ( Livro em elaboração sobre um cooperante alentejano de Timor-Leste / Reedição de um pequeno excerto do V Capítulo)



(…)

Como as mangas, as papaias, os cocos e as jacas, Lino Alves era fruto da ilha.

Falava português, como quem fala uma língua perdida, aos solavancos, verbos sem conjugação, vocábulos soltos, sem plural ou singular mas com o sentido da representação e o significado da imagem: _ Eu exército de Portugal. – Fazia-o com orgulho, pequenino, embrulhado numa lipa, pés escuros como o corpo, visíveis numas sandálias finas, sola invisível e leve, entaladas em dois dedos magros e limpos. 

Apontou a fotografia na parede, camuflado, outra idade, retida numa moldura que lhe avantajava o tronco, boina ao lado, bigode negro e com desenho em arco abaixo da boca – Eu exército português - Sorriu, num convite – Bebe cerveja comigo professor.

António Salvador acenou com a cabeça, segurou a lata Bintang, limpou-a bem, fez estalar a argola e Lino Alves meteu o dedo na sua. - Granada, professor - e arrancou o selo como quem despoleta uma arma, levou-a aos lábios, bebeu metade de um sôfrego, limpou os bigodes que mantinham a linha mas modificaram a cor e rematou – esta não mata - soltando depois uma gargalhada de quem estava feliz.

(…)





in O Que Foste Lá Fazer?
... em construção...

miércoles, 8 de agosto de 2018

" O QUE FOSTE LÁ FAZER?" ( Livro em elaboração sobre um cooperante de Timor-Leste / Reedição de excerto do VII Capítulo)





(...)
Um muro à volta do mar.

O povo não sabe o porquê, apenas que os barcos deixaram de poder dormir na areia negra da praia.

_ É para evitar ataque “lafaek” (crocodilo).

- Não! É para proteger tsunami!

_ Não! É para parar o mar que comeu terra desde o tempo dos portugueses.

Povo heróico, de guerras de David e Golias, atraído pelo gigantismo do inimigo, ora frente à Indonésia, ora exigindo o seu mar de Timor frente à Austrália, ou contra o mar, pois então, esse mar que come Timor desde o tempo dos portugueses que aliás, tiveram um, chamado Dinis, que temendo o mesmo diminuir do território português, plantou pinheiros, nas areias, frente às ondas.

E tentam barrá-lo, sustê-lo, pés de galo, centenas, num muro gigante com quilómetros de extensão.

Este mar já viu tudo, o timorense também e se pacifico como o mar, não quer esquecer.

Assim o provam as ruínas frente ao largo, queimadas, um “POLISI” azul, ainda na parede já desbotado, mas indicando que não há muito tempo esta paz que se respira, custou muito, como custa hoje recordar os que não estão porque teimaram em ser um País.

Sempre gostou Carlos Novais de países originais para o seu tempo, por isso, também começava a estar enfeitiçado (chamam feiticeira à ilha) por aquela terra, julgo única no mundo, com governos de coligação entre Bispos e Che Guevaras que faziam sentido.

Tudo isto lhe passava pela cabeça, salto atrás de salto, ladeio atrás de ladeio.

Em breve estaria na escola e matutava no que já fizera nos últimos anos.

Tinha vindo como professor do primeiro ciclo e sem mais, começou a leccionar no segundo.

Pediam-lhe agora que desse uma disciplina de 7° ano, Educação Cívica e Direitos Humanos.

Coragem a deste povo de ter metido assim, toma e já está, esta disciplina nos currículos de Timor, mostrando que não teme a liberdade frente ao futuro.

Há muito que defendia em Portugal, esta disciplina na escola portuguesa e tinha feito um CESE (Curso de Estudos Superiores Especializados) essa trampa de complementos de formação com que enganaram os professores do primeiro ciclo, por forma a escancararem as portas das escolas primárias a todos os formados de outras áreas em troca de poderem meter um Dr. nos livros de cheques e nas publicações que recebem da Deco.

Vinte anos depois, Carlos Novais teve uma oportunidade de dar oportunidade ao bolor desses três anos e aceitou.

Bateu com a moeda no vidro da janela da "Biscota", o sol tinha ido para outras paragens e a noite cobria já Manatuto.

Estava a crescer de dia para dia, ele e o Município.

Reparou com gosto que nestes dias, tinha aberto o supermercado dos chineses, o restaurante tinha sido pintado, os pés de galo avançavam margem fora e já iam a caminho da igreja.

Encontrou o segurança da escola nova, em construção há três anos, mas com uma das partes já pintada de cor-de-rosa, a outra, andando.

- Então Kolega (amigo)? Quando temos escola nova?

- Quase professor, quase, já vai ter vidro na janela. Chegaram, tão aí, e também veio mais tinta para pintar.

A nova escola era esperada por todos, até lá, usavam umas instalações emprestadas que com muita imaginação e trabalho, faziam realçar cores e vida, bons sintomas de alegria.

Pneus pintados, materiais feitos artesanalmente, programas desdobrados em invenções diárias que substituíssem os manuais escolares que existem mas não chegaram e por isso se usavam os telemóveis, os computadores particulares e cada professor dava o máximo de si próprio.

Carlos Novais, tinha comprado um projector e com ele pensava nessa nova disciplina que iria começar a leccionar.

Comprara-o em Bali, atraiçoando a filha pequenina que queria um computador no natal e viu passar a promessa para o aniversário.

Levantou-se às seis e meia como habitualmente, com o sol, comprou o pão, fez café, "matou o bicho", só depois tomou banho e se vestiu.

A carrinha chegou às sete horas e trinta, cinzenta.

Se fosse ele a mandar, há muito que seriam vermelhas, verdes, azuis, cinzento? Cor mais feia para quem inicia uma semana de trabalho que se quer de festa, porque ensinar e aprender, se não for uma festa, é um aborrecimento sem sentido.

Os primeiros noventa minutos, correram bem, os nomes, os sonhos, aquelas coisas das apresentações.

Não eram meninos, eram rapazes e raparigas, confusos como todos os adolescentes, descobrindo respostas para depois procurar caminhos.

Da janela da escola via-se o mar.

A pedra bateu na jante de carro suspensa (o sino) e saíram para o recreio.

Carlos ficou sentado no gosto do silêncio.

Nada é gostoso durante muito tempo.

De repente, ouviu-se um estrondo rompendo a calma, a seguir, mil ruídos de mil estilhaços e por fim, outra calmaria, mas de destroços.

Uma bola, como uma bala, tinha rompido a janela da sala e os vidros estavam espalhados por tudo o que era sítio.

Carlos Novais saiu e fez a pergunta rotineira:

- Quem foi?

Obviamente que não tinha sido ninguém.

Lembrou-se da sua nova disciplina.

É o medo que impede muitas vezes o assumir das responsabilidades.

_ Não importa, eu também parti muitos vidros a jogar à bola, temos é que assumir as responsabilidades, parti, pronto, está partido, fui eu, já está.

_ Um rapagão repetiu:

_Fui eu, já está.

Carlos Novais, preparou-se para o brilho.

_ Tu tinhas uma equipa, não jogavas sozinho, quem era a tua equipa?

Nada, o rapaz estava isolado, nem acusava, nem ninguém vinha em seu auxílio.

Carlos explicou o que era ser uma equipa, a necessidade uns dos outros, a camaradagem, um daqueles discursos pedagógicos que marcam ou tentam marcar.

- Não há nenhum problema, a não ser que temos que colocar outro vidro e limpar isto. Julgo que se uma equipa é tudo o que vos expliquei, será melhor assumirem a responsabilidade. Tiro os nomes, aponto a equipa, reponho o vidro e cada um paga uns centavos, quantos mais, melhor, não vai este pobre que se enganou na baliza, pagar o vidro sozinho e limpar a sala, além disso, esta escola não é nossa, foi-nos emprestada.

Vendo que o terreno estava macio, os rapazes da equipa de futebol, acusaram-se, deram os nomes e para surpresa de Carlos Novais, um perguntou:

_ E os da outra equipa também podem entrar no pagamento?

_ Se querem podem, mais barato fica a cada um.

Todos os rapazes do sétimo ano se prontificaram a pagar o vidro que o professor iria comprar.

Carlos Novais estava satisfeito e mais satisfeito ficou, quando depois do almoço, os rapazes lhe trouxeram um vidro para a janela, resolvendo eles mesmo o problema.

Rejubilou.

Fez-lhes um elogio sentido, o valor do espírito de grupo.

Registou nas suas memórias para contar aos seus netos.

A sua auto-estima profissional disparou, subiu aos céus, acima das nuvens.

Ah grande Piaget das montanhas, Freinet do Suco, Kohlberg de Manatuto e arredores, inchado, como só poderiam inchar os perus com êxito antes do natal.

Tudo terminou quando o segurança das obras da escola nova apareceu:

_ Professor Carlos, os meninos desta escola, ao almoço, roubaram um vidro e fugiram para aqui.

(…)

in O Que Foste Lá Fazer?
( em elaboração )