jueves, 9 de abril de 2020

A TABERNA DE AVELINO CAMEJO (CAPÍTULO 8 )





CAPÍTULO 8
O casamento da tia Pituca


- Tia Pituca, conta um pouco mais da tua vida.
- Ai filha vês a minha vida como se fosse um conto de fadas, mas as fadas querida afilhada, só existem quando se acredita com muita força. Onde ficámos?

- O tio Zé tinha ido a Évora no descapotável.

- Pois é verdade, foi e nem calculas a surpresa que teve quando chegou à Cidade e o Sr. Dias e  Pereira quis falar com ele.

- Conta!

- Pois bem, disse-lhe que admirava o seu talento, a sua dedicação ao trabalho, que não tinha filhos e estava a ficar velho, que não queria que a firma fechasse, já tinha falado com a mulher e que, lhe dava sociedade na oficina. Pelo que as placas de publicidade passaram a ser Dias e Pereira & José Boavida Lda.

- Passou a ser dono da oficina?

- De metade e quando cheguei para férias transitando para o segundo e último ano da Escola de Magistério em Évora, já todos me tratavam por professora e ao tio, Sr. José.

- E o teu pai?

- Olha filha, neste mundo triste em que vivemos parece que estamos na Índia, divididos em castas.

- Castas?

- Sim, dividido por classes sociais, bem aqui melhor porque se pode mudar de casta e aí não. Pois o tio Zé, mudou de casta, e foi convidado a pedir a minha mão, mas só quando fosse o final do meu curso, em julho do próximo ano.

- Boa!

- Não foi tão fácil, porque a visita do tio Zé a Évora foi o apressar de tudo. Fomos guardar o carro ao armazém, demos as mãos, deu-me um beijo pela primeira vez e outro, e outro, comecei com os calores, aqueles olhos grandes e azuis e depois filha, tem que se ter muito cuidado com os homens...

A menina pensou que os calores eram assim como o cio das gatas, que chegavam a sair de casa, miando para chamar os gatarrões para lhes tirar as quenturas.

- Mariazinha, pela tua cara não estás a perceber, havia amor, ele sabia muito destas coisas e tocou-me meigamente em sítios que a tia nunca tinha sido tocada, nem vista por outras pessoas. Deixei-me ir filha, e quando chegou o Natal, não fui a casa, dizendo que tinha que estudar, mas o meu medo era que me vissem a barriguinha que já se notava um pouco.

- Um bebé?

- Sim, o João Fernando já estava dentro de mim. A tia cuja casa eu ocupava em Évora, talvez pela língua da prima com quem eu dormia, apercebeu-se e telefonou à minha mãe.

- Ai tia! e depois?

- Depois a minha mãe contou ao meu pai.

O pai:
- Sacana, agora que é alguém já julga que pode fazer o que quer.

A tia continuou a contar à sobrinha. A minha mãe andava preocupada, quando dias depois de muitos silêncios, o encontrou no quintal na casa das tintas, pincéis e ferramentas que estava ao pé da laranjeira e viu-o a limpar a caçadeira.

Aflita, gritou-lhe:

- Ai homem que nos vamos desgraçar.

- Nada mulher, vou apenas salvar a honra da nossa filha.

- Meteu-se no carro de grandes faróis como uma coruja e saiu de casa enquanto a minha mãe ficou a rezar o terço pedindo a Nossa Senhora de Fátima que desse luz aos actos do meu pai.

A menina estava a adorar a história, mas não gostava dos silêncios que a tia fazia, eram intervalos largos como se estivesse a rever um passado, uma forma de apelo à memória dolorosa e Mariazinha como mudanças de um carro, meteu a primeira e:

- Vamos, e depois?

- Bem, depois passou com o carro pela oficina com letreiro luminoso que dizia “Dias e Pereira & José Boavida Lda”. Estava já fechada, avançou rumo à pensão e perguntou pelo Sr. José Boavida – quarto 27 – e o meu pai, com o nome tão grande como o meu subiu as escadas, foi quando a senhora se apercebeu que o Sr. Albuquerque de Sousa ia armado. Assustada, telefonou à Guarda que chegou a cavalo quase uma hora depois, com os bichos escorregando na calçada.

À moda dos filmes do Oeste, abriu a porta de espingarda apontada. 

O tio Zé, assustado, levantou os braços como via na televisão do café em situações idênticas. 

O meu pai então disse-lhe:
- Ou casas com a minha filha ou rebento-te os miolos.

- Sr. Albuquerque de Sousa, mas isso foi o que sempre quisemos, eu e ela.

- Não a metas neste assunto, que a conversa é entre nós. Não vais abandoná-la grávida, desonrada e com um filho nos braços, porque nunca o vou permitir.

O tio Zé colocou as mãos na cara:

- Estás a chorar meu velhaco?

Foi aí que o tio se levantou:

- É de alegria Sr. Sousa, eu não sabia, só a queria ter aqui.

Foi nessa altura que Albuquerque de Sousa viu que o rapaz nada sabia, e algo houve nessa atitude do tio, que levou o pai a baixar a arma.

A menina olhou a tia:

- Mas ele não sabia tia Pituca?

A tia baixou os olhos e riu-se:
- Nem eu tinha a certeza. Aquilo só aconteceu uma vez e doeu-me imenso, tanto que...
- Que o quê, tia?
- Nada.
- Vá, diga.
- Foi assim como que a tentar, mas como me ouviu gritar, parou.
- E mais?
- Bem, comecei a ter a falta do período, notava que a barriga estava a crescer e fui a um médico com a minha amiga.
- Falou-me de hímen complacente, de anelares, impreparados e até numa palavra rara chamada “criptomenorréia” – a tia começou a rir, foi o nome que chamámos ao nosso primeiro cãozinho do quintal, mas que como era muito grande passou a ser chamado apenas por “Cripto”.

- Tia e que palavras são essas todas?

- Não importa, lembra-te sempre é que podes ser mamã sem ter contatos completos.

- Sem relações?

- Olha daqui a tia não passa, tu que tens computador vai ver no “goglé”.

- No Google, tia.

- Ou isso!!

- Já não me contas mais nada?

- Sim, conto meu amor, mas a partir da pensão, não tens idade para certas conversas.

- Tia, eu contigo aprendo mais do que na escola.

- Bem, voltemos então à pensão. Acreditas que o tio Zé e o meu pai se abraçaram? Depois ouviram muito ruído na rua, estava cheia de gente, tinha chegado a Guarda a cavalo. Foram espreitar pelo vidro da janela e estava a começar um princípio de escândalo, mas o meu pai era muito inteligente.

- Confio em ti, José. Guarda a arma, vim entregá-la para a arranjares na oficina. Amanhã à noite quero-te na minha casa.

Fechou a porta e desceu as escadas.

O Guarda montado no cavalo perguntou-lhe:
- Algum problema?
- Isso pergunto eu, passa-se alguma coisa?
- Nada, disseram-nos que tinha entrado aqui com uma espingarda e...
- Tontaria, vim entregar a espingarda ao Sr. José Boavida para que me a limpe e arranje a abertura do baixar dos canos.
- Desculpe Sr. Albuquerque de Sousa.

Os Guardas entre eles ainda disseram, isto só a nós, depois esporearam os cavalos e subiram a rua obrigando-os a um trote.

As pessoas regressaram às suas casas.

- Ai tia, que história... e depois?

- Depois nada, na noite seguinte foram buscar-me a Évora, onde me levaram dois dias depois. O tio Zé ia com os meus pais no carro e eu estupidamente dei-lhe um aperto de mão. Jantámos em casa, conversámos num âmbito de grande alegria, família mesmo, e o João Fernando era o responsável de tamanha felicidade entre todos. Depois o meu pai disse:

- Têm que casar no Natal, depois acabas o curso e em julho ficam cá em casa que é grande. Até lá o José fica na pensão, mas pode visitar-te sempre que não seja aqui na terra, por enquanto.

- Voltei para Évora no outro dia, o tio também veio, apesar de lhe dizermos que não era necessário, eles insistiram:
- Até ao casamento, não queremos falatórios!
- E tu, tia Pituca? Como te sentias no meio disso tudo?
- Até ao Natal nunca fui tão feliz.

- E depois?

- Filha, és chatinha. Depois casámos no dia 24 de novembro, que a barriguinha mesmo apertada já queria fazer-se notar. Eu meti um atestado médico, embora o diretor andasse desconfiado, chamou-me:

- Olha, minha amiga. Espero que cases mesmo. Em janeiro traz um comprovativo, aqui não nos importa o talento ou os conhecimentos, mas sim a moral. Sois as educadoras escolhidas e pagas pelo Estado, pelo que tereis a responsabilidade de cumprir os valores principais do vosso país, Pátria, Deus e...

- Autoridade, Sr. Diretor, eu sei.

- E mais do que autoridade, a defesa dos costumes. Pelo teu terceiro período, do último ano do teu curso, quero provas do casamento religioso.

- Ai, tia, que chatos!

- Mas eu ouvia aquele blá, blá, blá, mas só pensava que o tio Zé ia ser o meu marido durante toda a vida e faltava pouco, muito pouco.

- E o casamento?

- Do outro mundo, querida afilhada. Casamos na Cidade, na Igreja de São Lourenço e fomos transportados depois para a Cervejaria “O Melhor do Mundo”, que o tio, bem, o meu pai que resolveu pagar tudo, mandou fechar só para a nossa festa, e o tio meteu o carro do nosso segredo e que ele tanto gostava no transporte dos noivos. Como só tinha dois lugares, ia de tejadilho aberto e o tio conduzia, cumprimentando as pessoas, enquanto segurava o volante.

- E a lua de mel?

- Muito pequena, num hotel – a tia aqui começou a rir como não o fazia há muito tempo – num hotel, quer dizer, na estrada, que o tio tinha bebido uns copitos e dançou com toda a gente, até cantou o fado e encostou na berma só um pouco para dormir um pedacinho. Assim que parou o carro, encostou-se a mim e começou a roncar. Só três horas depois acordou quando um camião apitou sempre seguido, por ver que estava uma noiva no carro. O tio disse estremunhado – caramba, já é de dia. Fomos para o hotel e só saímos no fim do aluguer, baixávamos apenas uma ou duas vezes para não comermos sempre no quarto.

- E onde era o hotel?

- Na Serra da Estrela e agora, acabou.

- Ó tiazinha, madrinha do meu coração, “porfa”, por favor só mais um bocadinho.
Mariazinha tinha um talento especial para fazer da tia o que queria, desde que ela não dissesse “não é não!” e não tinha dito.

- Bem, vá lá mais um bocadinho. O que queres?

- Quando vieram da Serra da Estrela foram para onde?

- Para casa, já tínhamos um quarto preparado no rés do chão e o resto das divisões estavam pintadas e desalojadas de tudo o que tinham. Nós que comprássemos as mobílias que queríamos. O meu pai abriu uma porta para a rua e fechou a parede que dava acesso ao segundo andar, enquanto fez uma cozinha e uma casa de banho no rés do chão, bem, essas inacabadas para que fossemos nós a escolher os azulejos, agora bastava o quarto e que escolhêssemos as mobílias até ao Natal. 

Quando acabasse o curso, teríamos a casa em ordem, individual e com portão de vidro para o quintal. Perguntei ao meu pai porque não ficava o tio já na casa, escusando o ter de pagar a pensão, disse-me de imediato que não, quando acabasse o curso e viesse em julho, logo começaríamos a vida. Ainda me disse o meu pai que o meu marido tinha mais dinheiro do que ele, pois negou-se a aceitar o seu dinheiro para pagar as mobílias, os azulejos e as obras que ele tinha começado.

- E quando chegaste do curso?

- Tive que interromper em fevereiro, pois nasceu o meu João Fernando. Estávamos já na parte de fazer o trabalho final, por nossa conta e risco, mas fui bastante ajudada pelas colegas do grupo. O que não esperavam é que a tua tia Pituca, quinze dias depois do bebé ter nascido, estava na escola com ele e foi a primeira vez que uma mãe amamentava numa Escola de Magistério, com quarenta colegas/tias que ajudavam. 

O Diretor nem abria o bico, pois Deus o livrasse de uma rebelião de alunas. Dizia-me era que lhe desse a mama no seu gabinete, que ele obviamente sairia, mas tinha melhores condições.

- Ó tia, que giro... e depois?

- Depois acabei o curso, voltei a casa que mobilei com o tio, o João Fernando cresceu e tive o primeiro desgosto, pois o tio Zé não me deixou trabalhar fora de casa. 

Deram-nos um cãozinho ao que chamamos Cripto e que cresceu com o teu primo. Eram dias aborrecidos, a avó tinha três quartos alugados a alunos que vinham fazer o Ensino Secundário à Cidade e eu ajudava-a. 

O tio desenvolveu a oficina, meteu umas bombas de gasolina da Sacor, ficou como representante da Fiat e começou a fazer crescer a empresa e a passar menos tempo em casa. 

Eu estava já farta e como tínhamos tantos quartos livres no primeiro e no segundo andar, aproveitámos a abertura, da Escola de Magistério na Cidade e logo no primeiro ano, fizemos uma pequena pensão onde não dava aulas, mas andava entretida com as futuras professoras. 

Todos os meses, o valor de um hóspede era metido no banco numa poupança que garantisse um curso superior ao João Fernando. 

Chegámos a ter doze raparigas em casa, três no secundário, no Liceu, e nove alunas da nova Escola do Magistério. Tinham quarto e alimentação, pelo que na cozinha tínhamos a Rosália, que ajudava nas tarefas todas, mas que levava o tempo muito ocupado com as panelas. 

As mulheres que trabalham hoje fora de casa, julgam que são mais independentes. É um engano, filha. Eu vivia bem. Ia ao mercado com a Rosália, escolhia, pagava e ela trazia os sacos para casa. Só orientava e tinha tempo para o João Fernando e até para o Cripto, enquanto ouvia as radio-novelas. 

Hoje, as pobres, trabalham tanto como os homens e depois de chegar a casa, ainda têm de cuidar dos filhos, das comidas, do aspirador... trabalham muito mais porque os homens não fazem nada. Mas não ligues, isto são conversas de velhos.

Naquele tempo vivia-se muito mal. Havia gente rica, muito rica, pobre e muito pobre. Nós éramos assim uns remediados mais para o rico, mas com muito trabalho. Nada nos faltava, mas era graças ao trabalho. A tia às vezes até cosia, tinha revistas de moda e quando calhava ainda fazia uns vestidos para mim, umas camisas para o João Fernando, e até para fora, que havia sempre amigas que gostavam do que eu fazia, até fiz vestidos para casamentos e chapéus. 
Não me dava para estar quieta.

Havia as guias de racionamento por causa da guerra, mas tudo nos aparecia em casa, sem faltas, o tio conseguia açúcar, manteiga... tudo o que era racionado (Pituca riu-se). 

Um dia mandei o meu João Fernando, tinha ele por aí nove ou dez anos, levar um vestido a casa da mulher do juiz da Cidade.

- Queres lanchar, meu menino? O meu filho está a comer uma torrada, queres uma? – João Fernando que sempre foi de boas comilonas, abanou a cabeça dizendo que sim. Comeu e por lá ficou a brincar com o novo amigo, obrigando a que eu acabasse já preocupada por ir buscá-lo.

- Entre, Dona Pilar, o menino está bem, tem brincado com o meu filho e até lanchou.

Depois, virando-se para o meu João Fernando disse-lhe:

- Gostaste da manteiga no pão? - o garoto olhou-me e com as respostas sempre na ponta da língua... respondeu à senhora:

- Sim, mas a minha mãe lá em casa mete sempre a manteiga dos dois lados da torrada.

A tia Pituca riu, gargalhou mesmo.

- Mas olha, filhota, vivia-se mesmo muito mal. Um dia, apareceu uma senhora a bater-me à porta com uma menina que ela dizia ter dezasseis anos, mas a quem eu daria treze ou catorze, do delgada que era, pequenina, mas com uma cara de sonho. Linda, muito linda, olhos de um verde escuro e límpido, numa pele escura de calor e campo, chaminé e campo, sempre campo, onde se arrancava a pulso o pão naqueles tempos sem supermercados.

- Sei quem é a senhora, dizem-me, que é boa pessoa e gostava que a minha filha fosse criada por si. Sabe fazer tudo em casa, é a mais pequena das oito irmãs. Os rapazes ficam comigo e com o pai, mas mesmo assim o chão não nos dá o suficiente para tanta boca. Trabalhará só pela comida e por aprender a ser uma pessoa de bem. Fique com ela, minha senhora e se lhe der por mês algumas moedas pode estar certa que ela entregará à família, sabe que tem gente que depende deste seu trabalho, desta sua nova casa, da segurança da barriga cheia e quem sabe, se a senhora Dona Pilar não a ensinará a ler. Faça, por favor, dela uma mulher.

- Quem lhe falou de mim?

- Foi a senhora do Sr. Doutor Juiz. A irmã ficou lá e falou-me da senhora que tem uma casa basta onde a fome e a miséria não passam da porta de entrada.

- E que fez a tia Pituca?

- Querias que fizesse o quê, meu amor? Ficou lá, comprei-lhe roupa nova de trabalho, mas também para sair, ajudava a Rosália, aprendeu a fazer camas, a trabalhar com a enceradora, mas muitos dias, deixava-a brincar no quintal com o João Fernando, pouco mais velho do que ela e com Cripto, que estava um canzarrão brincalhão e gostava dos dois companheiros de brincadeira. Nunca mais me esqueço das últimas palavras da mãe:

- Faça dela uma mulher, minha senhora.

- Por isso nos fins de semana, comecei a ensiná-la a ler, comprei cadernos de duas linhas, lápis, borracha, uma pedra e um caneto e um livro da primeira classe que curiosamente abriu e cheirou antes de ver os bonecos e as letras que em breve conheceria.

- Muito obrigada, minha senhora – quis beijar-me as mãos.

- Como se chamava a menina?

- Beatriz.


in A TABERNA DE AVELINO CAMEJO
(...a ser escrito...)

jueves, 2 de abril de 2020

MENSAJE EN UNA BOTELLA




Son días de abrazar con la palabra,

de besar con los ojos,

de bailar con escobas.

Son días de mirar por la ventana

como florecen las lilas del paseo,

como el viento se lleva los letreros

de la pieza que no llegó a estrenarse.

Y de volar con la hoja en remolino,

con el jilguero que canta en las antenas

de la fábrica que como ayer dormita.

Y de pensar que, muy a pesar nuestro,

el mundo no paró, sigue corriendo…

Para muchos será el último día,

para otros, tan solo es el primero,

para ti y para mí será uno menos.

Hay que gastarlo bien,

no vuelve a repetirse.

Si viniera a buscarnos de repente

la condenada sombra y su condena

que nos encuentre vestidos de domingo,

que nos encuentre locos,

locos de ingenio y libres,

confinados al sueño,

cuidando de las flores,

inventando remedios,

escribiendo mensajes

de amor en las botellas,

que nos encuentre tocando melodías,

escribiendo unos versos,

cantando en los balcones,

pintando los jardines

que hace mucho nos tapan los tejados:

la mimosa y sus soles amarillos,

el carmesí perfume de las rosas,

la figura de un niño y su alboroto

difuminada porque ya se aleja

detrás de lo que debe ser una pelota…

Que nos encuentre amantes,

con la luz encendida,

latiendo una esperanza,

que nos encuentre humanos,

¡que nos encuentre vivos!

                                          
in Poemas da Ilha do Sândalo e Outros Versos
(no prelo) 
 Amelia Bravo Vadillo


A TABERNA DE AVELINO CAMEJO (CHEIRINHO PARA O FIM DE SEMANA)



Capítulo 9.
 O fim dos serviços da Aldeia da Pena


Primeiro ouvia-se à boca pequena que iam fechar a escola, e logo dois anos depois de terem inaugurado com estilo a Telescola, que tinha levado os meninos a fazerem aí também o preparatório, junto das famílias, abrilhantada no primeiro dia, pelas entidades e pelo Rancho Folclórico de Aldeia da Pena.

Tinha assim uma educadora de infância com 14 meninos, uma primeira fase da primária, 1º e 2º ano, com 12 alunos e um professor, uma segunda fase de , 3º e 4º ano com 9 e o posto com 16 alunos no preparatório da Telescola, 7 no 1º ano e 12 no 2º com dois professores que funcionavam nas mesmas salas pela tarde, um com as disciplinas de Ciências e outro com as de Letras.

Tinha assim a escola cinco professores para cinquenta e quatro alunos.

- Não fecham nada, isso são boatos e depois? Que faziam aos alunos?
- Vão para a escola grande da Vila...
A primeira a fechar, foi a Telescola e levaram televisões, antenas, biblioteca, tudo o que puderam.
Reuniram os pais, das vantagens da proximidade dos professores e dos seus alunos com outros recursos materiais, pois a Escola grande da Vila tinha tudo, mapas, laboratórios para abrirem sapos e rãs, as crianças ficavam melhores, até tinham pavilhão para jogarem mesmo que chovesse e chuveiros para se molharem depois.

- E os irmãos? Os pais e avós? A família, as ruas da terra e de terra? Os ofícios? onde aprendiam fora da escola com os artesão mais velhos? A olaria? O meter que fosse um par de sapatos na forma? - Falava bem o Presidente da Junta- a relação entre eles? As brincadeiras, a pesca? o descobrirem os ninhos e saberem os nomes das árvores da sua aldeia? Não eram recursos que estavam a ser retirados para sempre? Estavam a roubar-lhes os filhos!

- Pois, mas está decidido! Não viemos pedir opinião!
E se estava decidido, decidido ficou.

Acabou a reunião quase como os jogos de futebol entre Aldeia da Pena e a aldeia de Vitória e se não houve pedradas, foi porque o Presidente da Junta protegeu os homens ao contrário de como também, quase sempre, não defendia os árbitros quando havia sarrabulho, interferiu como no final dos bailes da romaria da Senhora da paz, onde de braços abertos, se metia na confusão aos berros:

-Para o ano acabo com a merda da Comissão de Festas!

Por essa altura, a livraria teve a primeira rasteira, os livros e materiais do segundo ciclo deixaram de ter venda. Com eles as prendinhas de aniversário das festas dos putos, os jornais dos pais que partiram com os filhos para a Vila e quando lhe foi retirado pela Santa Casa da Misericórdia o totoloto e a lotaria por não se justificar uma agência na aldeia, as coisas ficaram feias e foi fechando em agonia.

Muitas famílias deslocaram-se para Vila Alva de Pena com os filhos e levaram os mais pequenos.
Começou o corte abrupto de relação entre gerações, avós separados dos netos.
Depois, com mais insistência começou a falar-se da escola primária e do jardim de infância.

Os pais fizeram uma reunião, desta vez proposta por eles e com o apoio da Junta de Freguesia e manifestaram-se frente à porta da escola, com cartazes contra o fecho da mesma.

Tiveram que vir uns senhores com gravatas, do Ministério, conhecedores do que era melhor e pior para a vida dos filhos dos outros.

Quando a situação começou a piorar, como o futebol e o final dos bailes das romarias da Senhora da Paz, sacaram da manga uma palavra nova “amianto”, que junta com uma velha “cancro”, fez os pais dar dois passos atrás.

-A escola tem amianto, um perigo para as vossas crianças.

A Câmara Municipal de Vila Alva da Pena colocava os transportes, a escola nova da Vila dava as refeições, tinham muito espaço e professores, para poderem fazer jogos, com bolas, arcos e todos os materiais que desconheciam como pinos, com balneários e até um parque infantil.

A escolha começava a ser agora entre o paraíso e o inferno.

Fizeram como entenderam e fecharam mesmo a escola e os autocarros da Câmara passaram a ser visitas frequentes da aldeia. Nos primeiros dias, choravam mães e crianças, depois, foram-se habituando.
-Na Escola Grande há de tudo, tabaco, drogas, palavrões, namoros sacados de filmes da net, que futuro?
- As crianças têm que aprender a viver no mundo real, defenderem-se dele e fazerem as suas próprias escolhas – dizia um dos senhores de gravata chamado a responder a este problema.

- E não é cedo demais para isso?

- O futuro já começou ontem – respondeu com sabedoria o senhor, com filhos da mesma idade – dizia - mas esquecendo-se de referir que estavam matriculados num colégio privado, onde mesmo com dinheiro, quem trouxesse rastos de comportamentos inadequados, não era admitido.

O Presidente da Junta, agora com um edifício fechado, fez dele um Centro de Dia, abriu-o com pompa e circunstância e os velhos tinham um bar com café, cerveja e empadas que não comiam que a reforma era apertada. Às vezes um rissol para não beber sem comer. 
As mulheres também iam e para além de verem televisão, numa que a Telescola esqueceu por engano, podiam ter acesso aos programas que viam nas salas de espera do hospital da Vila, a Júlia e o Baião, por isso faziam melhor, davam à língua e faziam malha.

O amianto foi esquecido, e as auxiliares da escola, como funcionárias da Junta, mudaram as funções e passaram das crianças para os idosos, tratando-os muitas vezes como meninos:

- Então que conversa é essa? Tratares-me por tu? Vi-te nascer rapariga!

Tudo começou a fechar na aldeia com a falta dos pais que acompanharam os filhos. Os transportes também foram à vida e a estação de comboios passou a luxuoso restaurante depois de vendido a uma sociedade anónima da Vila.

O Apeadeiro.

Dava meia dúzia de empregos a gente da aldeia que lavavam loiças e serviam mesas fardados com lacinho e tudo.

Quando vemos os meninos de um rancho folclórico dançar, inebriados pela inocência, esquecemos que os grupos infantis são a escola que alimenta o grupo de adolescentes  e adultos. Sem elas. O rancho Folclórico de Aldeia da Pena, fechou. O Senhor Parreira foi convidado para criar um na Vila e lá foi, inaugurar o Rancho de Danças e Cantares de Vila Alva da Pena.

Com o encerramento do Banco, fecharam as pequenas casas de pasto onde comiam os funcionários, também os professores, tudo se foi e só não era um deserto porque areia não havia e alguns dos habitantes continuavam a resistir.

Para além da taberna do Avelino, manteve-se o mini-mercado da Chica Badalo, Badalo de anexim, pois incapaz de guardar um segredo era cusca ao ponto de comentar a vida de toda a gente.

Para além do Apeadeiro, abriu, sim abriu, com coragem e oportunidade, uma loja de chineses, que fez encerrar a drogaria, o sapateiro e a pequena retrosaria do João do Botão.

A loja dos chineses tinha tudo, desde pregos, roupas, sapatos, brinquedos, cadernos, lápis e invenções. Não deram trabalho a ninguém da aldeia e fora dela e aprenderam português sem escola. Na loja só tinha trabalho quem tivesse os olhos em bico, filhos, filhas, noras, genros e até netos com idade de carteira e sacola. 

Eram trabalhadores, para eles não havia folgas nem horários, abertos sempre, fizesse sol ou chuva, fosse tarde ou manhã, fosse sábado, domingo ou feriado.

Mas foi o fecho dos Correios que mais comentários gerou.

Então não é que foram entregar os CTT ao mini-mercado da Chica Badalo?

- Ó António passa por lá que tens uma carta do Tribunal para assinar se queres ler...ou dares a ler que na escola ainda eras pior que o Avelino.

- Recebeste hoje a reforma, podes pagar a conta, toma que eu dou-ta. Assina e tens aqui o troco do que me devias.

- Uma encomenda para si, senhor Jacinto, é do seu filho – depois chocalhava-a – não se ouve nada, vem bem embrulhado, cá para mim, são um par de sapatos, que os seus estão uma lástima.

O carteiro ia uma ou duas vezes por semana, às vezes nenhuma e o pior é que nunca era o mesmo. 

Tocava uma vez e se não houvesse ninguém, entregava ao badalo, que também vendia selos, enviava encomendas e faxes e tirava fotocópias.

Foi através do mini-mercado, que toda a gente da aldeia soube que o tribunal tinha notificado todos os elementos do IVAP por terem colocado o acento aguda nas placas da aldeia.



  ALDEIA DÁ PENA


                                                                      (...)
                      
in A TABERNA DE AVELINO CAMEJO
(em construção)
Aragonez Marques

jueves, 26 de marzo de 2020

A TABERNA DE AVELINO CAMEJO (NOVO CHEIRINHO DO NOVO LIVRO)




Capítulo 4.
Os amigos

Todos os dias se viam. Tinham uma camaradagem de irmãos. Muitas vezes jantavam com as mulheres e os filhos, e os Natais eram passados à vez em casa de cada um, todos juntos. 

Poderiam utilizar sempre a courela de Sebastião, onde havia mais espaço, mas tinham decidido rodar anualmente. 

Faziam viagens juntos, excursões que a vizinha, foliona, metia sempre na caixa do correio dos três. 

Já tinham ido juntos ao Santoinho de Viana do Castelo, comer o caldo verde, a sardinhada, dançar e beber o champorrião. Foram também ao Porto, andar de barco por baixo das pontes e visitar as adegas. Era uma paródia, só tinham que ter cuidado com a mulher de Ludovino que, se havia vendas nessas excursões, cobertores, camas ou colchões, televisores ou aparelhos de cozinha, comprava tudo o que podia e depois os regressos não eram os mais alegres, pois Ludovino vinha “birrento” e a mulher calada de arrependimento tardio, pois a sua assinatura no contrato era um agravar das prestações, somadas às que já tinha.

Quando andavam os três sozinhos, diziam: - Olha, ali vão os três porquinhos - Juntos e anafados todos eles, Cícero, Heitor e Prático, Avelino Camejo, Sebastião e Ludovino tinham lobo comum, as mulheres, que lhes apareciam quando menos esperavam, e sopravam até os meterem nas únicas casas seguras, as suas.

Avelino e Ludovino conheciam-se de crianças, foram juntos à escola, tirando alguns tempos em que Avelino ia para a casa da tia, na Cidade. Já Sebastião, o com mais humor de todos eles, tinha e fazia-os ter quando juntos, apareceu mais tarde, na tropa, ora vejam bem terem os três feito juntos o serviço militar e terem-se conhecido no Entroncamento, mudando de comboios e apanhando o mesmo que os levaria a Leiria ao Centro de Recrutamento.

Avelino quando o comboio arrancou, tinha a cabeça na porta e estava feliz a ver a estação a afastar-se, desconhecendo que as portas eram automáticas, ficou com a cabeça entalada. 

Ludovino tentando puxá-lo para dentro enrolado à sua cintura e Sebastião, que nenhum conhecia:

- Socorro, acudam, socorro!!!

Um passageiro carregou no botão de abrir as portas e salvou Avelino que libertou a cabeça, mas com duas feridas atrás das orelhas dos puxões que lhe dava Ludovino.

O passageiro perguntou:
- Não sabiam que tinham que carregar aqui para abrir as portas? – e apontou o botão.

Sebastião que não gostava de ser considerado ignorante, respondeu:
- Fiquei em pânico, não me lembrei, só pensava que podia passar um comboio em sentido contrário e zás, cabeça fora.

O passageiro foi para dentro pensando “que pacóvios”.

Eles olharam uns para os outros e não conseguiram parar o riso, as gargalhadas saíam incontroladas.

Nenhum deles tinha nunca andado de comboio e se o faziam agora, era para irem “às sortes” (inspecção militar) com guia de marcha com viagem e estadia paga.

Foram para dentro e ficaram colados às janelas a ver as árvores a andar para trás.

Ainda foram ver a casa de banho, nunca tinham visto nenhuma num comboio e pelo sim pelo não, entraram os três, mão na porta não fosse esta fechar-se e eles não encontrarem o botão.

Jantaram no quartel mostrando a guia. Foi terrível, os soldados metiam-se com eles, atiravam-lhes bolinhas de pão amassado com os dedos e diziam-lhes:
- Pio, pio, pio...
Era uma sopa grossa de massa e feijão.
Sebastião gostou.
Dormiram no quartel também, mas aí melhor, era uma camarata apenas para os pios-pios que no outro dia iam à inspeção.

Um sargento entrou e disse-lhes:
- Vou fechar as luzes, amanhã às seis, levantar, seis e quarenta e cinco pequeno-almoço na cantina, sete e quinze pátio, mas às oito horas todos em forma para os levarmos ao Centro de Recrutamento onde os oficiais médicos os esperam. Há duas enfermeiras a ajudar, a quem vir subir o pau, corto-o, e tirou a faca de mato do cinto.

Os três, sem falarem uns com os outros tinham uma estratégia para ficarem “livres”, mas guardavam-na para si.

Aquilo tinha três partes.
A primeira era fazerem contas, problemas, quadrados para acabar, circunferências para meterem dentro, em mesas individuais como se fosse uma escola.

A segunda eram umas máquinas de onde saíam fichas com números que tinham que enfiar nas ranhuras numeradas com uma velocidade que ia aumentando.

A terceira é que foi a surpresa. 

Todos em fila indiana e em pelota, duas filas, uma por cada oficial médico, e sim, era verdade havia duas enfermeiras, mas o cagufo era tanto que iam encolhidos e cabisbaixos desde que se despiram até que os mandaram vestir.

As duas primeiras partes, mesmo que o quisessem fazer melhor, era impossível, tinha corrido mal, melhor para eles.

O primeiro foi o Avelino que levava como estratégia ver mal do olho direito.

Com o esquerdo via tudo, V H C U P  V H C U P  V H C U P  com o esquerdo trocava tudo, do V um U, do H um A, do C um S, do U um 0, do P um R.

O médico perguntou-lhe:
- És alérgico a alguma coisa?
- Não, que eu saiba.
- Tens pé chato?
- Não, que eu saiba.
- Levanta o pé.
Avelino levantou-o:
- Parece o Arco da Rua Augusta e da vista não te preocupes, aprendes a disparar à esquerda que esse olho direito é uma maravilha.
Pum, pum. O carimbo bateu na almofada da tinta e no papel e desenhou “Apurado” na sua ficha.
- Vai-te vestir, outro!

O outro era Ludovino que não se podia esquecer da palavra “amparo”.

- Alergias?
- Não, mas Senhor Doutor Capitão, eu sou órfão de pai, vivo com a minha mãe e uma irmã, sou o único homem da casa, sou amparo.
- E como amparas? Onde trabalhas?
- Estou à procura de emprego...
- Então estás desempregado.
- Por enquanto...
- Ótimo, menos uma boca em casa a ajudar o esforço da tua mãe.
Pum, pum, “Apurado”.
- Vai vestir-te, outro!

Sebastião aprendeu a dizer “toxicodependente”, pois sabia que não queriam drogados na tropa. Precisavam de gente, mesmo coxos, que a guerra estava para acabar, dizia-se, com o 25 de Abril há poucos meses, mas dizia-se... os homens estavam lá e a política de recrutamento não tinha sido alterada, pelo menos até agora.

Antes que o oficial médico lhe dissesse algo, Sebastião disse logo:

- Sou toxicodependente!

- Cavalo?

- Para a cavalaria não posso ir, não sei andar de cavalo e sou alérgico ao pêlo.

O médico levantou a cabeça:

- Heroína.

- Conheço algumas, mas a que mais gosto é da Padeira de Aljubarrota.
Não sem uma gargalhada, pum-pum, “Apurado”.

Assim se conheceram os três amigos, desde essa altura e até hoje completamente inseparáveis.

In A TABERNA DE AVELINO CAMEJO
(...a ser escrito...)

viernes, 20 de marzo de 2020

A TABERNA DE AVELINO CAMEJO (UM PRIMEIRO CHEIRINHO)







13. O acidente

A Fernanda Sardinha era espírita. Daquelas que sabiam de cor o livro de Allan Kardec. Às vezes falava comigo e dizia-me que todas as crianças que morriam eram anjinhos pois apenas tinham vindo a este mundo para cumprir uma pequena parte do ciclo que lhes faltava. O povo, sem essa consciência implícita, tinha noção da raridade desses acontecimentos e acabava por os sepultar em urnas brancas e vestirem-nos de anjinhos, de primeira comunhão e se já adolescentes vestidas de noivas se eram raparigas.
Falávamos às vezes, até gostava de a ouvir e dizia-me que quando as pessoas morriam de repente não se apercebiam que estavam mortas, justificava até que mesmo que lhe amputassem um membro, durante muito tempo e embora o mesmo lá já não estivesse, sentiam dores no mesmo e que aos poucos iam perdendo a noção da sua posse, sentindo-o cada vez mais curto.
Ouvia-a porque conhecia o João Malagueta, a quem tinham cortado uma perna de uma malvada mina na Guiné, era contínuo da Sociedade Alentejo, onde se jogava bilhar, ping-pong e laranjinha e manipulava a cadeira de rodas com uma facilidade dos diabos, mas que muitas vezes me dizia:
- Hoje esta puta dói-me que se farta, como se cá estivesse – e apontava o coto com a perna das calças dobradas e presas com alfinetes de dama.
Por isso ia ouvindo a Fernanda falar.
- Mortes de repente, são as piores para as almas que se continuam perpetuadas no corpo e eu, que tenho este dom de ver o martírio, já vi muitas ainda nos funerais rodeando as esposas, os filhos, dizendo-lhes, estou aqui, não me vês? Caramba que se passa?
É por isso que mesmo que apesar de todos os pêlos de João Fernando estarem de pé, arrepiados, mesmo que o seu corpo tivesse sido esmagado e com uma rótula que só dias mais tarde apareceu na beira da estrada, não viu as luzes do outro carro que afocinhou no seu, elevado sobre ambas as viaturas, estava já morto sem o saber.
A morte de João Fernando foi quase a morte da mãe, cujo coração inchou quando soube da notícia.
Tudo mudou, José Boavida acreditou que tal tristeza fosse um castigo de Deus e nunca mais ninguém o viu com outras mulheres. Já Pituca, transportou a dor para o resto da vida e foi nessa altura que a irmã lhe entregou o filho, quase definitivamente, Avelino, que passou a ter uma infância onde nada lhe faltava mas com sustos e medos que nunca contou. 
Acordava muitas vezes a meio da noite, com a tia fazendo-lhe festas na cara, beijando-o e deixando cair lágrimas grossas enquanto lhe chamava João Fernando.
Um dia ouviu choros na sala, levantou-se e foi espreitar, na parede estavam a ser projetados “slides”, do João Fernando com o seu camuflado de alferes, em corpo inteiro, do tempo em que esteve em África e a tia, com a sua sombra de braços abertos, negra, sem luz, na parede onde deixava os beijos e os abraços:
- Querido filho, não fiquei sem ti lá para ficar sem ti aqui.
Avelino foi pé ante pé meter-se na cama, encolhido, rezando para que a tia não deixasse a parede e se fosse agarrar a ele.
Viveu assim a sua infância entre o amor e o medo.
O tio levava-o à pesca, ensinou-o a meter os chumbinhos nas bóias, os nomes dos peixes, ensinava-lhe tudo o que não fez com o filho e ao contrário da tia, queria esquecer, não gostava de falar sobre o assunto e até as fotografias do João Fernando o incomodavam, era uma forma de sofrimento que tentava obstaculizar.

A.M.
in A TABERNA DE AVELINO CAMEJO
(...a ser escrito...)

sábado, 28 de diciembre de 2019

AMELIA BRAVO VADILLO VAI FINALMENTE EDITAR " POEMAS DA ILHA DO SÂNDALO E OUTROS VERSOS" COM PREFÁCIO DA DRª. LURDES BESSA.




Finalmente Amelia vai editar o seu primeiro livro de poesia sendo a primeira pessoa a conhecê-lo a Drª. Lurdes Bessa (ex-Vice Ministra da Educação e atual Assessora para a Educação de Sua Exª. o Sr. Presidente da República de Timor-Leste), que o receberá para prefaciar durante o mês de fevereiro.   
Segue um dos poemas inseridos no livro com a autorização da autora.

AMANHECE EM MANATUTO

Amanhece,
a primeira luz do dia vem à janela
e com ela o som do campanário,
das portas que se abrem,
das vozes das mães que aprontam os seus filhos.

Grupos de dez, de doze, de catorze...
vestem de fardas a berma das estradas.

Amanhece,
e passa uma biscota abarrotada,
gente, sacos, mais gente, dois cabritos...
Estendem-se na terra tapetes coloridos,
filigranas de frutas e legumes.

Amanhece,
um casal e três filhos numa mota,
karetas do Estado e uma anguna.
Uma senhora de trouxa na cabeça
apressura-se a caminho do mercado.

Amanhece
e um ojek com outro ojek se encontra,
misturando no ar risos e músicas.
A vizinha penteia os seus cabelos
no alpendre de bambu entrelaçado.


Amanhece
um cão sem dono entretém-se nas valas,
a menina do pão já montou o posto,
a velhota do sal já está sentada
por detrás dos cestinhos de palmeira.

Amanhece,
Loron diak, loron diak, Timor-Leste,
Loron diak, loron diak, tenhas sempre!
 A.B.V.

miércoles, 18 de diciembre de 2019

PERSONALIZAR OS LIVROS É REVER TODOS OS LEITORES AMIGOS



Continuo a assinar 
com dedicatória pessoal 
Margens de um Rio Violento


...O cigarro está apagado, é vício de mão, os livros estão a diminuir, falta pouco, espero que hoje e amanhã estejam todos no correio...




...os de Espanha estarão antes dos Reis...


... os de Portugal antes...


...do NATAL...

...fora da Península Ibérica, já não consigo prometer... 

BOAS FESTAS
 E 
EXCELENTES LEITURAS!!