lunes, 18 de mayo de 2020

A MULHER DO SARGENTO ESPANHOL / CAPÍTULO 3 (Cheirinho)





3. A Chegada do Professor Primário

Chegou  à  aldeia  com  uma  mala,  em  1970.  Pousou-a  no  chão  do  café  da  Josefa quando ainda estavam vivos e faziam parte do pulso da aldeia, o marido de um lado e o Esteves do outro da estrada. 

Nesse ano, era o Costa um rapaz que caçava ninhos, a filha da Josefa ajudava  no  café  quando  saía  da  escola,  a  Mariana  nem  sonhava  vir  a  casar-se  com  o Fagundes Fonseca e a Glorieta ainda fazia os petiscos da taberna.

Tal como o leite que começa a ferver, nada estava mudado, mas tudo estava em mudança.

África continuava a ter províncias portuguesas. A guerra estava assumida como quem tem que  vestir  um  casaco  quando  faz  frio.  

As  previsões  eram  meteorológicas,  e  as  gentes, acostumadas  aos  enganos  dos  boletins  da  televisão,  sabiam  que  se dissessem  que  iria fazer sol,  poderia chover, ou se dissessem que as trovoadas ameaçariam, poderia sair um dia de céu azul e limpo. 

Pelo sim pelo não, saía-se sempre com o guarda-chuva, pois os 
barcos iam e vinham e os homens iam sem saber se voltavam. 

O Eusébio aterrorizava o Sporting, mas não o suficiente para que o Benfica não perdesse o campeonato nesse ano. 

Lembram-se do Dinis? Foi ele quem marcou o golo que derrotou o 
Benfica. 

Ana Maria Lucas ganhou o concurso de Misse Portugal, Joaquim Agostinho a Volta e tudo era mexido, e dado a dedo, a quem via a RTP 1 com menos de 12 horas por dia de emissão e pela RTP 2 que não chegava às 3 horas diárias, com a grande antena de ferro no 
início e a bandeira mais hino no final.

Começava,  no  entanto  a  sentir-se  a  fervura,  pois  a  licença  de  isqueiro  acabou  em  maio, Simone de Oliveira apesar de insultada, continuava a cantar “a desfolhada”, fazendo filhos por gosto na exaltação do vermelho milho rei, e Salazar, depois de dois dias no Mosteiro dos  Jerónimos  em  câmara-ardente,  partiu  para  Santa  Comba  Dão  em  retiro  perpétuo, depois de grande passeio numa carrinha, dessas dos hippies, Volkswagen, cortada a partir da cabina para a urna ser visível e despedir-se do país em caixa aberta.

A  mala  do  viajante  chegado  ao  café  da  Josefa  tinha  os  cantos  cobertos  com  metal, cantoneiras que  reforçavam  a  proteção  do cartão.  Era  castanha  escura,  e  os  dois fechos 
dourados com buraquinho para a chave fazia adivinhar o grande diário que em si mesma continha.

Colocou o chapéu de feltro no balcão como quem coloca uma pedra de damas em tabuleiro de mármore. Agarrado por cima, com cuidado e precisão. O homem procurava uma pensão. 

Depressa correu pela aldeia que o novo professor tinha chegado.

Fernando António Figueiredo Mata, seu nome completo, Fernando Mata, o que utilizava, só Fernando para amigos íntimos e família, e o Batalha, como era conhecido na tropa, não por ter participado em alguma de referência, mas porque tinha nascido no local, perto de Leiria, onde D. João I mandou construir o Mosteiro que embora tenha o nome de Santa Maria da Vitória é conhecido apenas por Mosteiro da Batalha, esse sim em homenagem à sessão de 
pancadaria entre Portugal e Castela e que como um foguete de lágrimas deixou pinceladas de  cor  nas  lendas  de  um  povo  que  queria  ser  país:  a  Padeira  de  Aljubarrota,  a  Ala  dos 
Namorados,  a  grande  ideia  da  colocação  das  tropas  em  quadrado,  com  os  cavalinhos espetados nas lanças das valas e a castelhanada, com as pesadas e lustrosas armaduras, no chão, sem se levantarem do peso e com as gargantas, os sovacos e as partes baixas ao alcance das lendárias espadas Alfagemanas de Santarém, e por aí fora, porque país sem história é apenas povo, e esse é sempre anónimo, herói sem nome, acabando sempre num só símbolo de soldado desconhecido, em campa rasa.

A gaiatagem depressa se dedicou a espiar o novo professor que dentro de dias iria partilhar o mesmo espaço na escola, mais os rapazes do que as raparigas, pois as meninas eram todas alunas da Dona Antónia Tavares, que fazia já parte da aldeia como o coreto, o mesmo que seria responsável, anos mais tarde, pelos falsos gases da filha da Josefa.

Da  primeira  à  quarta  classe.  Duas  salas.  Rapazes  e  raparigas,  um  professor  a  quem chamavam Senhor Professor e uma professora a quem chamavam Minha Senhora. 

-Já  avisámos  a  Alzira,  Senhor  Professor,  o  melhor  quarto  da  Pensão  Luz  está  a  ser preparado para si.

Fernando Mata sorveu o café.

- A escola não tem casa?

- Ter tem Senhor Professor, a Dona Antónia ainda aí morou, mas já lá vão muitos anos, está a ver, o filho mais velho dela está agora na tropa e era pequenino quando vieram para a aldeia...

Novo sorvo.

- Está suja?

-  Suja?  A  cair  de  podre  Senhor  Professor  e  cheia  de pombos,  autorizados  pela  Junta  à Sociedade Columbófila da terra.

Último sorvo. Chávena solta no pires, chapéu na cabeça e mala na mão.

-  Bem, vamos lá então conhecer a Alzira, casa de pombos, casa de tombos  –  e riu-se, pelo que todos se sentiram na obrigação de rir também.

Uma  lambreta cinzenta  parou  na rua.  Duas  referências  brancas,  os  dentes  e  o  colarinho, estenderam a mão num cumprimento de cumplicidade. 

A igreja e a escola encontraram-se na rua principal. 

-Sou o padre Cabral, dou-lhe as boas-vindas.  

O professor tirou o chapéu e soltou o nome Fernando. Trazia o convite para o chá em casa da Dona Antónia, às dezassete horas, estaria também o farmacêutico. Chá ou vinho enrolou com
palmadinha nas costas o padre Cabral.

A Pensão Luz era uma casa de família, com quintal e cão na frente. 

Uma escada com grade de ferro pintada de branco levava à porta principal. 

Duas  laranjeiras de laranjas no Natal e um  limoeiro  de  limões  todo  o  ano  eram  vistas  de  cima  na  porta  de  casa.  

Alzira  alugava quartos, e tinha hóspedes certos como o Chefe dos Correios, o Gerente do Banco Nacional Ultramarino  e  agora  o  professor.  O  quarto  era  limpo,  sem  luxos,  pequena  mesa  com 
candeeiro de bicha metalizado e com uma janela como um olho gigante sobre a planície.

Alzira era filha de Dona Francisca, a fundadora da pensão, e de Luís Pinheiro, hoje já na casa  dos  que  Deus  tem.  Foram  os  pais  que  depois  de  anos  emigrados  em  França, trouxeram  as  poupanças  e  construíram  a  casa.  

Deixaram  de  fazer  camas  lá,  para  as fazerem cá, de jardinarem lá, para jardinarem cá, de cozinharem lá, para cozinharem cá, no 
que era deles. 

Os sacrifícios que passaram muitas vezes com as estrelas a
servirem-lhes de teto, levaram-nos a chamar Luz à pensão.

A sua estrela arrancada aos céus franceses, a sua luz colocada na sua aldeia. 

Hoje era Alzira que fazia as camas, lavava as toalhas, fazia as comidas e regava o jardim, onde  duas  santinhas  de  pedra  estavam  colocadas  lado  a  lado,  a  Virgem  de  Lourdes  e  a 
Virgem  de  Fátima.  Quando  o  pai  era  vivo,  chegaram  a  ter  sempre  duas  bandeiras desfraldando  com  o  vento  ou  adormecendo-se  nele,  a  tricolor  francesa  e  a  bicolor 
portuguesa com a sua esfera armilar, cujos caminhos também tinham ensaiado. 

Alzira tinha um irmão, mas esse, como todos os irmãos da mesma idade, estava para África, forçando a que a bandeira das quinas se mantivesse noutro mar, mesmo com mortes no capim. 

Pelas  dezassete  horas,  o  professor  Fernando  Mata,  estava  a  ser  recebido  em  casa  da colega  Antónia,  onde  já  estava  o  padre  Cabral  e  o  farmacêutico  Luís  de  Sousa.  Uma serviçal com avental branco trazia a bandeja de prata com o bule a fumegar. Falou-se do tempo no início e em  política no final, sem discussões, todos os presentes eram defensores do  hino,  da  bandeira  e  do  patriotismo.  

-Como  veio  para  professor?  Por  vocação. - E  você Padre? Por vocação. - E você Doutor? - O farmacêutico sem mexer um músculo, mas também sem modificar uma letra ou entoação, disse também:- Por vocação. 

Mentiam todos.

A  única  acariciada  pela  vocação  era  a  Dona  Antónia,  que  desde  pequena,  brincava  às escolas e aos puxões de orelhas. 

O Padre Cabral, nascera em Alcaria, uma aldeia da margem do Zêzere já crescidinho pelos degelos da Serra da Estrela, mas onde a pobreza era escura como a broa e onde o chão, rochoso, era inimigo da fartura. 

Na escola, o menino Cabral filho do coveiro da aldeia era esperto  para  as  letras  e  quando  chegou  a  altura  de  decidir  sobre  emigrar  ou  seminário, optou pelo seminário e acomodado por lá ficou. 

O  farmacêutico,  bem  que  gostaria  mais  de  se  ter  dedicado  às  letras,  especialmente  à poesia, mas a farmácia acompanhava a família desde os avós e era um destino. Foi para Lisboa a mando do pai onde foi um aluno medíocre na Faculdade de Farmácia e acabou o curso  a  pago  de  perus  no  Natal,  borregos  na  Páscoa  e  fruta  fresca  todo  o  ano, acompanhado de imensos pedidos e recomendações de um primo da mãe que era ministro. 

Fernando Mata acabou professor por amor. Com quinze anos, viveu o seu primeiro romance de borboletas e água das pedras com a filha de um funcionário público. Com dois anos de mãos dadas escondidos nos jardins públicos, ou descendo e subindo as ruas lado a lado, confessaram  um  ao  outro  futuro  eterno.  Quando  a  escola  do  Magistério  Primário  se estendeu da capital de província para a capital do distrito, o sonho de ser professor mostrou-se  fácil  à  carteira  do  pai  que  assim  pôde  mandar  estudar  os  filhos  sem  necessidade  de deslocá-los.  

Maria  Catarina  passou  assim  a  usar  bata  branca  e  a  juntar-se  às  cinquenta meninas  que  iriam  dois  anos  depois  ser espalhadas  pelas  escolas  públicas  do  regime. 

Bastava-lhes  naquele  tempo  ter  um  sentido  rigoroso  da  moral,  acreditar  na  trilogia  Deus, Pátria e Família, usar meias de vidro e saias dois dedos abaixo dos joelhos. 

Calças nunca. 

O diretor tinha até o chefe dos contínuos autorizado, a que ao subir as escadas que levavam às  salas  de  aula,  pudesse  beliscar  as  pernas  das  futuras  senhoras  professoras,  com  o objetivo  de  ver  se  tinham  ou  não  meias  e  de  imediato,  caso  tocasse  as  pernas  nuas  e firmes,  comunicar  à  Direção,  que  neste  caso  era  ele,  o  Diretor,  nomeado  por  Diário  do Governo em cargo perpétuo.

As meninas com namorado tinham-nos todos em fila, de casaco, gravata e lenço no bolso, esperando a saída da escola a trezentos metros daí, numa linha de meta imaginária, frente à  tasca  do  Capote  na  rua  que  baixava  para  o  Café  Alentejano,  a  sala  de  espera.  

As namoradas  chegavam,  e  eles  ali,  sem  dar  um  passo,  que  encurtasse  a  distância  fixada. 

Uma  ou  duas  com  mais  idade,  já  com  casamento  autorizado  para  os  poucos  meses que faltavam para a queima das fitas e a missa da praxe, podiam ser levantadas na porta como encomendas desde que os destinatários nunca entrassem no  edifício, e sempre depois de uma  autorização  escrita  do  pai  da  menina  entregue  ao  diretor,  em  papel  azul,  de  vinte  e cinco  linhas,  selado  e  começado  sempre  da  mesma  maneira:  Eu…  abaixo  assinado  –  e acabado também formatado, assinatura e data depois do: Pede deferimento.

Aqui começaram os problemas de Fernando Mata. 

O  governo  de  Salazar,  pai  exemplar,  acima  de  cada  pai,  foi  quem  criou  a  lei  sobre  as autorizações  de  casamento  das  senhoras  professoras.  Se  lhes  pagara  a  formação,  e  lhe 
pagava um ordenado sentia-se na obrigação e o pior era que no direito também, de protegê-las, como pastor de ovelhas com dono.

Havia que evitar a todo o custo a figura parasitária do marido da professora, que corrompia a moral e sem trabalho vivia de um ordenado que não era seu. Então, naquela ânsia de tudo ter bem atado, num novelo cuja ponta estava sempre nos seus dedos, o governo da nação proibiu o casamento das senhoras professoras 
com  quem  não  tivesse  um  emprego  digno,  como,  para  eles,  empregado  de  banco, funcionário  público  ou  empresário  com  provas  dadas  e  salários  superiores  e  onde  o casamento  entre  professores,  senhor  professor  e  minha  senhora,  era  o  mais  autorizado, como também o era o de minha senhora e funcionário das finanças.

Viu-se  assim,  Fernando  Mata,  por  amor  a  Maria  Catarina  a  apresentar-se  ao  exame  de admissão da Escola de Magistério, onde os homens tinham privilégios especiais de entrada, vá-se lá saber por que, pelo menos com professores não se colocava a questão de autorizar casamentos.

O melhor tempo do seu amor com Maria Catarina foi o do seu primeiro ano como aluno da escola, aluno único, com namoro autorizado com a menina da bata branca que estava no segundo e quase a sair como professora, quase pronta para escrever nessas almas infantis, como dizia Junqueiro, gravado no parque infantil da Cidade, essas almas virginais onde tudo quanto nelas se grava não se apaga mais, quase preparada para escrever e gravar, nessas 
almas  brancas  como  a  neve,  nessas  pérolas  de  leite,  o  cunho  como  ferrete  de  um  país cinzento que usava as senhoras de bata branca, para unificar o pensamento eternamente.

Maria  Catarina  começou  a  sua  carreira  de  professora  primária  na  escola  de  Monte  Sete, uma herdade com um casarão com oitenta quartos vazios, lareiras apagadas, biblioteca sem ser lida e cabeças de javalis e veados, dentes de javalis, cornos de veado, javalis e veados e  mais  javalis  e  veados  a  forrarem  os  corredores  e  os  salões.  

Fechados  todo  o  ano.  

família proprietária vivia em Lisboa e apenas abriam a casa uma ou duas vezes no outono onde faziam festas após as caçarias com dezenas de carros de marca parados no pátio. A mulher  do  pastor  tinha  a  chave,  a  senhora  Conceição,  e  abria  as  janelas  uma  vez  por semana  para  que  a  humidade  não  embolorasse  a  pele  dos  cadáveres  e  os  tapetes  de Arraiolos. 

Dona Conceição tinha sete filhos e vivia com o marido numa choça de pedra e telhado lusalite todo o ano. A bondade dos senhores era tanta, que construíram uma escola, com  mesas,  cadeiras  e quadro  preto,  onde  o  vento  entrava  pelas  frinchas  e  os  pardais 
defecavam  no  chão.  

Sete  alunos  tinha  a  escola.  

Os  filhos  do  pastor  e  da  senhora Conceição.  

Colaborava  o  Ministério  com  a  bondade  desta  ilustre  família,  motor  de desenvolvimento, empregando logo nas tarefas do campo os alunos a partir dos dez anos, mas ensinando o ofício, tarefa dos pais, bem mais cedo. 

Dar de comer ao gado, ajudar no pastoreio, ordenhar as ovelhas, alimentar as galinhas, cuidar dos cães, soltar as perdizes e bater os javalis nos dias de caçaria. 

Por isso mesmo o Ministério de Educação  agradecia o esforço  colocando  anualmente  um  professor  presente  de  outubro  a  julho,  todos  os  dias, desde que a ribeira não enchesse e
impossibilitasse o acesso. 

Quando as professoras eram insuficientes,  colocavam  o  que  designavam  como  Regentes  Escolares,  que  sabiam  ler, escrever  e  contar,  eram  normalmente  solteironas  e  algumas  vezes, antes  ou  depois, acabavam  como  amantes  escondidas,  dos  donos  das  herdades,  não  todas,  obviamente, algumas havia que colocavam um gosto nas tabuadas, nos mapas, nas réguas de medir e de esfolar, e beatas quase todas, levantavam o dedo aos patrões e ameaçavam-nos com o Bispo.

Nesta  escola  começou  Maria  Catarina  a  trabalhar,  alojada  num  quarto  da  aldeia  mais próxima, indo a casa nas sextas-feiras à tarde onde lavava as roupas da cama e enchia as marmitas  que  levava  com  comida  feita  aos  domingos,  para  aquecer  em  banho-maria durante o resto da semana, enquanto falava de barcos a quem nunca tinha visto o mar, de estações de caminhos-de-ferro a quem nunca tinha visto um comboio, de aviões que sabiam 
ser  pequeninos  lá  no  ar,  viam-nos  às  vezes  quando  passavam  nos  dias  sem  nuvens, embora as abetardas fossem muito maiores e nunca voassem isoladas, e de rios, grandes, dizia a Senhora, e compridos, de norte a sul do mapa de Portugal, maiores,  muito maiores do que a ribeira da aldeia no inverno, embora fossem pequenas linhas azuis que a Senhora dizia  serem  grandes  e  se  a  Senhora  dizia  era  porque  sabia...  e  de  um  outro  mapa  com 
pretinhos nus que cantavam o hino nacional com as bandeirinhas de Portugal nas mãos.

Foi  difícil  o  primeiro  ano  de  trabalho  de  Maria  Catarina  e  o  último  de  Fernando  Mata  na Escola de Magistério. Viam-se pouco. Ele, assediado por quarenta e nove batas brancas, ela rejeitando os presentes que o filho do patrão, o Senhorito, como lhe chamava a senhora Conceição,  insistia  em  trazer-lhe  de  Lisboa,  nas  visitas  que  aumentaram  da  sua  parte  à herdade nesse ano.

Estiveram no verão, já professores os dois, com os pais dela, numa residencial em Setúbal, na Avenida LuísaTody. Da janela do quarto dele viam o Sado e o movimento dos barcos de pesca fronteirando com Tróia. 

Aí passaram horas com planos e beijos, pois à noite, Catarina 
voltava  ao  outro quarto onde  dormia  com  os  pais,  não fosse  o  diabo tecê-las, que  nessa altura o biltre, ao contrário dos dias de hoje, era adverso do prazer.

Foi a última vez que estiveram juntos. 

Fernando Mata  recebeu a guia de marcha para se apresentar no Centro de Recrutamento Militar  de  Leiria,  daí  para  Santa  Margarida  e  de  Santa  Margarida  para  Santarém,  último 
quartel antes de desembarcar em Moçambique.

- Tens que mudar de escola, Maria, não te quero aí sozinha.

Partiu como furriel e juras de se casar por procuração. Fotografia de um e do outro, nos dois lados do mar, frente a frente, só um coração de cada lado, ela com o pai como padrinho, ele 
com alguém de confiança que poderia vir a conhecer e em último caso, um oficial do seu batalhão  que  convidaria  se  necessário,  com  dois  notários  a  perguntarem  se  sim,  se  para toda a vida. 

Os  aerogramas  começaram  a  voar  entre  oceanos,  primeiro  muitos,  depois  menos,  até  se estabilizarem  num  por  mês,  às  vezes  dois,  até  passarem  a  um  de  dois  em  dois,  o  que 
significava  por  ano,  seis  para  lá,  seis  para  cá,  se  o  tempo  se  prolongasse  para  além  da estação das chuvas e do regresso definitivo. 

O furriel Batalha tinha para além de participar nas colunas militares mato dentro, que ensinar a  ler  os  companheiros,  muitos,  que  o  não  sabiam  fazer,  pois  trocaram  cedo  o  giz  pela enxada, pelo cajado, e estes pelas G3 que os acompanhavam a diário e com quem dormiam como  esposas.  

Maria  Catarina  mudou  para  nova  escola,  desta  vez  para  o  Gavião,  onde conheceu a Alierta, uma açoriana desinibida que a convenceu a concorrer para os Açores no ano seguinte. E  acabou por ir, TAP primeiro e SATA depois até às ilhas, onde se sentia 
útil  cuidando  meninos  ranhosos  e  com  a  cabeça  compartindo  os  piolhos  com  o  sonho,  o sonho de embarcar, acenando com lenço branco na proa de qualquer barco que os levasse dali. 

Enquanto  o  furriel  Batalha  pensava  diariamente  sobreviver,  Maria  Catarina  pensava  em viver. Foi assim, que pisou os telhados do vulcão dos Capelinhos, que se molhou nas águas 
quentes das praias de São Miguel, com os pés enterrados na areia preta que fazia com que os corpos em calções parecessem andar todos de peúgas, comeu o cozido à portuguesa feito  nos  buracos  das  furnas  com  o  calor  da  terra,  comeu  figos  no  Pico  das  figueiras rastejantes que saltavam os muros, bebeu vinho de cheiro, comeu ananás e polvo cozido, cavacos  e  lapas,  fotografaram  as  lagoas,  provou  a  aguardente  amarela  de  São  Jorge, respirou as hortênsias que dividiam as propriedades nas Flores, assistiu à captura solidária das últimas baleias, provou o gin tónico do Peter na Horta e até um dia, no Cais, embarcou num navio de carga, o  Ponta Delgada,  e visitou o Corvo, onde o barco ficava fora por falta de  porto  e  os  passageiros  desembarcavam  na  praia  a  remos  como  no  cinema.  Cem habitantes tinha a ilha e moravam na mesma rua em casas sem chaves nem fechaduras e onde existia apenas um veículo motorizado, concretamente um trator que puxava uma zorra e onde os aventureiros turistas pagavam trezentos escudos, para de pé e agarrados uns aos outros, subirem até à cratera do vulcão. 

O furriel Batalha, exatamente onze meses depois de ter sido engolido por África e quando lhe faltavam sete para terminar a comissão de serviço, pediu ao alferes Faial, com ordem de 
marcha  para  férias  merecidas,  que  mandasse  saudades  para  a  sua  terra  e  deu-lhe  a morada de Maria Catarina para que lhe entregasse em mão uma carta, com fotografias suas barbudas e de camuflado, ora encostado a um tanque, ora na asa de um avião parado com focinho de tigre pintado, ora com um pretinho ao colo com a mãe ao lado, de  boas carnes e mamas de fora, ora afagando uma macaquinha com correia ao pescoço, que acabou por 
trazer do Continente Africano e já na aldeia, anos mais tarde e já crescidita, foi levada para a quinta do Papafina, onde muitas vezes os meninos da escola iam  ver África, o nome que tinha a macaca e que era conhecida por todos. 

Tudo  lhe foi  devolvido  quando  o  alferes  Faial  regressou  dos  Açores  para  se  incorporar  à guerra.

- Temos que falar.

Sentaram-se  debaixo  de  um  embondeiro,  duas  grades  vazias  de  cerveja,  de  madeira húmida, como bancos, uma garrafa de VAT 69 a beber sem copo.

- Não a vi. Já lá não está. Não cheguei a dar-lhe nada. Toma. 

Tirou o envelope dobrado do bolso chapado das calças.

- E não sabes nada?

-  Sim pá, é melhor que bebas e esqueças  -  e estendeu a garrafa depois de lhe limpar o gargalo.

Maria Catarina tinha partido para os Estados Unidos, grávida de três meses, deixando os alunos sonhando com barcos, e
acompanhada pelo açoriano que conhecera na Horta e com 
quem combinou passar o resto da vida.

Fernando Mata nunca mais soube nada dela.

Começou a esquecê-la naquela primeira garrafa e apenas ficou com a profissão, da qual passou a viver quando foi desmobilizado e que o levara até a casa da Dona Antónia, para tomar chá com o farmacêutico e com o Padre Cabral.

In A Mulher do Sargento Espanhol
Filigrana Editora

lunes, 11 de mayo de 2020

A TABERNA DE AVELINO CAMEJO / CAPÍTULO 14 (Cheirinho)



14. Cobarde de amor.


João sabia finalmente o que fazer. Fechou a porta devagar para que não acordasse Beatriz e evitou, entrar no quarto de Preciosa, que dormia com o seu marido.

Falariam dele sim, mas não pelo real sucedido e o tempo, tudo apagaria.

Foi o primeiro a entrar na taberna de Avelino Camejo:

- Bom dia!

- Por aqui tão cedo Senhor João? Que lhe ponho?

-Nada Avelino, tenho aqui um garrafão vazio de água do Luso e gostava que mo enchesses de aguardente, daquela tua, da boa, do alambique que escondes no sótão e não podes vender ao balcão.

-É uma chatice ter que servir aguardentes em garrafa para os copos dos clientes, garrafas com marcas, mas cujo líquido é como os melões. 

Coisas da lei e a puta das multas vão até ao encerramento da casa.

- Mas podes vender-me cinco litros? É para oferecer a uma amiga que vou visitar.

- Amiga? E amiga de bom gosto, porque não há como a minha aguardente. Porque pensa que sai tanto sol e sombra aqui na casa?

Avelino não fez perguntas e com um funil, encheu-lhe a garrafa, deixando-lhe a parte de cima cheia de pequenas pérolas que lhe garantiam a qualidade e referiu-o:

- Pérolas para uma amiga vejam que rico colar... – e apontou com o dedo o cimo transparente do garrafão de plástico, enquanto lhe enroscou a tampa.

- Um colar de pérolas.

- Tenha cuidado Senhor João que amigas na sua idade são um problema.

- Não a vejo há muitos anos conheci-a em África, ainda novo, no tempo da guerra, nunca mais pensei ter contato com ela, até porque é feia – riu-se- encontrei necessidade da ver depois destes anos todos e quis o destino que a encontrasse, por acaso.

Um dia disse que me encontraria e parece que o adivinhou. Bem, para lhe dizer a verdade, fui eu que lhe marquei o encontro.

- De África...é branca ou preta?

- Preta, como a noite, mas amiga e fiel, daquelas que não nos esquecem nunca e são capazes de nos dar conforto até à eternidade. Vivi com ela dezoito meses em Angola, noite e dia, na caserna e no mato.

Pagou e despediu-se.

- Até logo Avelino que lá mais pela tarde nos veremos.

Deixou o garrafão no jipe e foi a pé até à loja dos chineses.

-Bom dia, precisava de fazer um estendal para a roupa, uma amiga que me pediu, tem cordas e molas da roupa?

- Sim e "ter" estendal já feito, grande e pequeno, desmancha e arruma, quer ver?

- Não, quero ser eu a fazer.

- Tem rolo de três, cinco e dez metros.

- Quero um de dez metros que o quintal é grande.

- Cor?

- Pode ser azul, que é a cor do céu, e molas?

- Ter sacos com doze mas cores de mistura, não pode “escoler”. Pode ser “amalelo”, “vermelo”, Azul, misturado, sacos de doze.

- São também dois sacos com molas...

- Eu não sair do balcão, há na segunda fileira.

Foi assim que João foi buscar a corda plástica e as molas, já meio aborrecido com o chinês que nada fazia sem ser indicar os caminhos, mas sem largar a caixa registadora que guardava o dinheiro e poucas faturas fazia. Olhava os espelhos redondos como o dos cruzamentos das ruas que tinha colocado nos cantos superiores da loja, tecnicamente e de onde, vigiava todas as prateleiras.

João colocou a corda plástica e as molas no balcão e pediu para pagar.

- Prego não quer?

- Não, tenho em casa.

- Quer saco?

- Sim.

- Tem que pagar saco à parte.

- Não, guarde a merda do saco, levo na mão!
Raio de Chinês!

-Não precisa falta educação, não quer não quer - e praguejou em chinês.

Levou as compras, meteu-se no jipe e foi até à courela, arrendada a Avelino e onde havia bastantes coisas já feitas e muitas trazidas, entre elas, os porcos com pocilgas feitas e o trator verde com garagem das alfaias acabada. Vigas de madeira e folhas de zinco.

Tirou o cadeado do portão, abriu-o e meteu dentro também o jipe, junto da palha e dos utensílios agrícolas.

Fechou depois ambas as portas e meteu a tranca de pinho no interior  encaixada nas albardas aparafusadas às vigas onde as portas estavam depositadas.

Ali, só poderia entrar quem ele autorizasse.

Sentou-se num fardo de palha, deitou num copo de plástico a aguardente do Avelino, bebeu um e dois e três e ficou e ficou e foi ficando à espera da amiga, talvez para ganhar força para esse encontro que sabia ter que se realizar.

Repassou-lhe a vida dos últimos anos enquanto os sentidos lhe iam turvando os pensamentos e as memórias.

Deixou no jipe as molas da roupa quando foi buscar a corda azul cor de céu.

Subiu à roda traseira do trator verde e passou-a por cima da trave onde foram assentes as folhas de zinco.

Puxou ambas as partes, fez uma argola numa delas por onde passou a outra ponta. Cortou-a com um isqueiro aceso, depois de lhe tirar as medidas necessárias. Baixou do trator. Esticou-a e atou-a ao gancho do reboque. Subiu à roda grande novamente, primeiro pelo degrau de subida, passou o corpo pelo lado das mudanças e colocou os dois pés sobre o banco onde tantas vezes Preciosa esteve sentada.

Do banco um primeiro pé sobre o grande guarda lama verde, depois o outro. Alargou a argola grande e meteu-a na cabeça. Olhou a trave, depois acompanhou com a vista a ligação ao reboque e meteu o dedo no pescoço experimentando com a outra mão o fechar e abrir do colar.

Meteu a mão no bolso da camisa, tirou um cigarro, acendeu-o e começou a fumar.

Sabia que a amiga negra chegaria quando o cigarro acabasse.

Assim foi, atirou a pirisca e deu um passo em frente, dois ou três movimentos, até que a amiga morte chegou.

Silêncio.

Deixou de baloiçar e ali ficou em linha reta, os olhos curiosamente abertos, os pés a trinta centímetros do chão.

Para ele, tudo tinha terminado.

Já não ouviu o cão, alentejano de cabeça enorme, que começou a ladrar sem parar, da parte de fora do portão fechado.

in A TABERNA DE AVELINO CAMEJO
...a ser escrito...


jueves, 16 de abril de 2020

CAPITULO 59 . O AEROPORTO ( A MULHER DO SARGENTO ESPANHOL )




59. No aeroporto.

Aquela varanda do aeroporto era uma rampa de lançamento para o horizonte. Os monstros com janelinhas, quando começavam a roncar e a rolar pela pista, levavam com eles os olhos que se tornavam pequeninos e perdidos quando o transporte cheio de mistérios misturados, alegrias ou tristezas, certezas ou dúvidas, diminuía no céu, cada vez mais diminuto, até desaparecer nas nuvens, quietas. Era aí que os olhos que os seguiam, caiam e ficavam sobre as mesas e o perfume da esplanada do aeroporto.
Rita Gil baixou os óculos escuros da cabeça para os olhos, o lenço cor-de-rosa do pescoço caído para trás, esticou as pernas e puxou as saias acima dos joelhos aproveitando o sol, pediu ao empregado um gim com soda e fechou os olhos protegidos ao calor do corpo. Patry, mão adolescente por dentro na mão de Relvas, apontava para as pistas, onde o companheiro depositava a curiosidade enlaçada com os aviões, os autocarros, as escadas móveis, os carrinhos com malas, o movimento de quem via pela primeira vez aquela ponta de um salto enorme.
- Gostas?
- Nunca andei de avião.
- Eu houve um tempo em que tive muito medo, depois…
- Correste o mundo…
- Todo não, mas voar…
Contou-lhe a sua amizade com Bahamonde atirando para o passado o pensamento, solto e feliz, com as palavras atropelando-se nas imagens que revia. Relvas escutava-a tentando adivinhar a vida daquela mulher, que tinha viajado por terra, mar e ar, ele não, nunca tinha saído da aldeia, mas levara toda uma vida a entregar mensagens de todos os lados do mundo, muito mais, quando a emigração passou a espalhar os homens pelos cinco continentes, e os rapazes pelos cantinhos de África, sofrida.
Nunca viajara, mas fora sempre portador das palavras viajeiras. Palavras de amor e ódio, alegrias e tristezas. As suas mãos foram durante anos as mãos que abriam os laços das caixas com letras como surpresas. Muitas vezes o povo esperava mesmo por elas, por essas mãos, há carta para mim? e se havia, um largo sorriso, e se não havia, sentia-se culpado esquecendo que as suas mãos, que davam ou não, eram apenas mensageiras.
Olhando Patry, sentia a sua vida diminuta, escrita num passado de anos igual e rotineiro, e se ela tinha sido sempre uma interventora de uma vida larga, ele tinha como um caracol, escondido no peso da protecção da casa perto, andado lento por ela, como por uma vereda com principio e fim, para a frente e para trás, com muitos passos, horas, dias e anos de passos, mas sempre na mesma vereda, ora para lá, ora para cá. Não tinha conhecido muita gente, mas a que conhecia, andou consigo anos e anos a fio no seu caminho estreito com princípio e fim, volta, princípio e fim. Sempre volta e revolta, mas gente de sempre e o que ele mais prezava, amigos de sempre. Podia não ter feito parte da história, não ser daqueles que da lei da morte se foram libertando, nem por egoísmos e glórias épicas camonianas, nem por fracassos gigantescos, holocaustos dantescos, que influenciaram a humanidade, mas todos fizeram parte dela, com as suas histórias de dia-a-dia, com os seus feitios, feitos menores e taras. 
Gostava deles e não os trocaria por nada, por isso contava a Patry as suas histórias, ria com as suas proezas, comovia-se com os seus desaires e era feliz por tê-los ao seu lado no ir e vir do seu caminho.
O Tonho Zarolho, por exemplo, que dizem que por desconfiado desde pequeno e tanto se ter esforçado por colocar um olho no burro e outro no cigano, ou politicamente mais correto, com um olho no sol da eira e outro na água do nabal, ficou com cada um para o seu lado de forma perpétua. Estrábico, vesgo e Zarolho para o povo. Quando falava para alguém, olhava sempre vinte e cinco centímetros para o lado e se lhe perguntavam em grupo - Estás a falar comigo ou com ele? - ficava irritado e a resposta era sempre igual - Para os dois!!
Um dia, nos tempos em que a Felícia que punha selos nos Correios e na testa do marido com o secretário da Junta, segredo a vozes na aldeia, boca baixinha e murmurante orelha a orelha, achou o Zarolho que era indecente ser o marido da Felícia o único a que a boca nada segredava. Toda a aldeia sabia menos ele, o coitado, não era justo, até porque começava a ser ridículo ouvi-lo, sempre que dizia, a minha Felicinha para cá, a minha Felicinha para lá, o tonto, enganado até ao tutano.
Por isso e por mais, achava o Zarolho que algo teria que ser feito afinal, todos eram cúmplices no gozo do pobre, e o machote do secretário da Junta cada vez mais emproado, cheiroso, arrogante, vaidoso mesmo.
Naquele dia, pela tarde, tinha visto entrar o secretário à socapa, na casa da Felícia, torceu o nariz e por sorte ou azar, logo a seguir encontrou o marido da Felicinha na taberna, feliz, bebendo alegrote com o Zé Ratinho.
Não aguentou e chegando ao pé dos dois homens, cumpriu com honra: - Em vez de estares nos copos, vai já a casa que encontras a mulher a roçar-se com o secretário da Junta – e ainda reforçou – Vai homem, todos aqui sabem, dizem que o corno é sempre o último a saber e é verdade.
Entre a confirmação envergonhada de todos os presentes, os dois homens desataram a correr, cada um para a sua casa. Tiveram todos que sair a correr também, atrás do Zé Ratinho, transformado em Spide Gonzalez ciumento, e foi por pouco que o conseguiram agarrar antes de chegar a casa e cometer alguma barbaridade por culpa do olhar enviesado do estrábico a quem chamavam Zarolho.
Ou o Chico Unhas de Fome, que todos pensavam ser por graça e folia que depois dos petiscos em casa com os amigos, que por sinal levavam os comes, uma lebre um dia, umas patinhas de rã no outro, umas carpas quando alguém pescava e até “leitão da serra”, o nome que enganava por ser proibido o manjar que se fazia às vezes, ouriço, que o cabo da guarda sabia cozinhar como ninguém, mandava a mulher trazer o peru.
- Joaquina traz o peru!
A graça passou a ser praxe e no fim de cada petiscada, eram já os amigos que punhos na mesa e alegria de tinto na alma, gritavam em exigência e coro:
- O peru, o peru… - e lá vinha a mulher do Chico Unhas de Fome, o peru quieto já do hábito, que logo que colocado sobre a mesa impávido e ignorando os risos e as palmas picotava a toalha, limpando os restos migalha a migalha.
Acabou-se a graça numa terça-feira de Carnaval, onde era costume os foliões atirarem milho uns aos outros antes, durante e depois do cortejo. 
A rua ficava carregadinha de bagos de milho e o Chico Unhas de Fome não aguentou ver tanto desperdício.  Em segredo pagou a três gaiatolas que ainda nesse mesmo final de dia e durante toda a quarta e quinta-feira seguintes, até chegar a brigada de limpeza da Junta de Freguesia, lhe passearam para cima e para baixo o galinheiro. Dezoito galinhas, cordel na pata, três pontas de fio em cada uma das mãos dos rapazotes, com galinhas na ponta, encheram o papo. Não fosse pelo galo que andava solto por não dar mão e que ninguém se aproximava por ser conhecido das brigas, orgulho do Chico por ser conhecido pelo Galo do Unhas, e ainda hoje ninguém sabia que o avarento estava por trás do assunto, as galinhas eram suas e o que à primeira vista parecia uma inocente brincadeira de gaiatos, era um plano de avaricia do Unhas-de-fome, que deixou de colocar o peru na mesa por ter perdido a graça, aliás, nesse mesmo Natal, comeu-o.

Patry estava fascinada com as histórias da aldeia, aquelas personagens que faziam parte da vida de Relvas.

O Zeca Bomba… - Patry interrompeu-o – que raio de nomes os da tua aldeia – espera que já vais saber porquê – e continuou: - O Zeca Bomba nada tem a ver com explosões ou guerras, nem festejos com foguetes, tudo tem a ver com uma bomba de gasolina.
Era verdade, fora aquela viagem a Almada, no primeiro carro que o Zeca comprou com o dinheiro da venda do olival do avô, à empresa de mármores que começou a fazer subir o preço das árvores arrancadas, pagando por elas mortas cem vezes mais do que vivas, um “boca de sapo”, que foi buscar directamente a França, novinho em folha, no auge de uma nova riqueza que lhe entrara casa dentro, para beneficio seu e desgraça de netos e bisnetos, deixados no futuro numa terra sem terra.
Mas era o sinal dos tempos, o tempo em que se matavam as galinhas dos ovos de ouro pela lentidão da postura.
O Zeca era de família burguesa pelo trabalho, nem ricos nem pobres, que conseguiram mandar estudar os filhos ao ponto do Zeca ser o primeiro engenheiro da família e o segundo da aldeia, depois de ter tirado na “mitra” em Évora, um curso de Regente Agrícola, que lhe permitiu o tratamento de engenheiro durante as negociações da venda das oliveiras do avô.
Gigante de vaidade dentro daquele Citroen, agressivo e meigo, parou para atestar no Fogueteiro, já de regresso para casa no fim de um dia de estreia, que a rodagem estava feita de França para Portugal. Já com a noite em princípio, esperou junto da bomba que viesse algum empregado para lhe encher o depósito. Mas nada, absolutamente ninguém, apesar das luzes de uma estação de serviço das mais modernas que já vira indicar que não estava fechada. Foi então que uma voz saída da bomba lhe disse:
- Gasóleo ou gasolina?
Perante o insólito, olhou para os lados e não vendo ninguém falou a medo para a bomba:
- Gasolina Súper.
A voz fez-se de novo ouvir:
- Pegue na mangueira e introduza-a, por favor.
Lembrou-se então daquele programa da televisão que dava uma vez por semana do Joaquim Letria, o “Tal e Qual”, braço do semanário de poucas folhas e muita língua e que na televisão paralisava o país com os primeiros “Apanhados” que Portugal via.
Meteu a cabeça na janela do carro e disse para a mulher:
- Isto é para os “Apanhados”, a mim não me enganam, vais ver a música que lhes dou.
Admirada por aquela bomba falante, também a mulher se convenceu, coisa muito difícil nela, filha única do Zé do Lagar e de Ermelinda, que a estragaram com mimos, desde que nasceu e a cuidaram como coisa sua, dando-lhe o nome de Zelinda, o Zé do pai mais o linda da mãe, assim chamada por todos. Tinha um feitiozinho dos diabos, caprichosa, fora ela que tivera a ideia do “boca de sapo”, azul, aproveitando os escudos frescos do olival esburacado, entranhas abertas, blocos de mármore como tripas ao sol, do avô do marido. Acompanhou-o na viagem a Paris e num riquismo desabituai por novo, passara a não dizer “sim” mas “oui”, logo seguido por “perdão, é que cheguei há pouco de França”. Se ela estava convencida, o marido tinha carta-branca para brilhar e quando se ouviu repetir de novo: - Pegue na mangueira e introduza-a por favor! – Olhou para a bomba, enrolou o bigode com ar de engate, autorizado por Zelinda, e respondeu-lhe:
- Introduzo onde, cherry?
A voz vinda da bomba falou de novo:
- Meta o combustível.
Confiado na filmagem e nos minutos de glória que teria na TV respondeu com ar de macho latino:
- Onde queres que te meta o combustível, guapa?
A voz ouviu-se de novo:
- Tira a mangueira…
- “Madmoiselle”, como quer que tire a mangueira com a minha mulher no carro?
A voz irritada:
- Olhe para aqui, olhe aqui para cima, à direita, pacóvio, olhe para aqui!
O Zeca olhou para o primeiro andar do edifício iluminado, onde uma rapariga, microfone na boca lhe gritava:
- Meta o combustível homem de Deus, é auto-serviço.
Reconhecendo a figura de tonto acabada de fazer, meteu-se no carro e arrancou envergonhado. Parou na primeira pensão que encontrou e só no outro dia regressou à terra, depois de ter enchido o “boca de sapo” noutra estação de serviço que procurou.
Aquela tinha sido a primeira vez que vira uma bomba de gasolina moderna, sem empregados, que de pronto se reproduziriam no país como tortulhos num dia de sol depois de dois dias de chuva.
Quando na aldeia se conheceu a história, solta no cabeleireiro pela Zelinda, Bomba agarrou-se ao Zé para sempre. Até no carro, onde um Z, não de zorro, mas de Zé e Zelinda, em autocolante mandado  fazer de propósito em serigrafia, e colado no capô, foi acrescentado, com um B de papel de jornal colado maldosamente com cola Pica-Pau.
Aquele casal de regentes, ele agrícola e ela escolar, mantiveram quase sempre uma quase boa vida, quase engenheiro, quase professora, quase ricos. Essa vida de quase, foi sempre também um quase desafogo. Tiveram dois filhos quase bonitos, quase excelentes alunos, e que quase foram chamados pelos seus nomes, pois à medida que cresciam passaram a ser conhecidos por Bombinhas primeiro, depois por filhos do Zeca Bomba e hoje por Zico Bomba e Zulmira Bomba. O Z e o B continuaram a ser a marca da família.

Patry era uma enamorada das histórias delirantes de João Maria, através delas, ia-se apaixonando cada vez mais pela aldeia, e o carteiro, continuava a ser um mensageiro de palavras, só que desta vez, suas.
- Fala mais dos teus amigos, João.

O Engoletudo era o tonto da aldeia, chamava-se na realidade Pio Paulo Mendes Rabaça, Pio e Paulo impostos pela avó beata, que a mãe, Rosa Mendes, casou e pariu tardia, tão tardia como primeiriça, o que a levou a não resistir ao parto. 
Pio Paulo, foi arrancado a ferros para uma vida com menos sentidos ainda, do que aqueles que dominava a custo. Porque na sorte como no infortúnio nunca há duas sem três, com a morte de Rosa Mendes, tudo se complicou Paulo Pio, a leite de vaca cortado com água dado pela avó numa mamadeira improvisada, enquanto o Rabaça mamava copos e copos de tinto no Café Costa, para lhe afagar a tristeza e esquecer que vivia, naquele acordar sem Rosa, sem filho musculado e inteligente que imaginara, sem esperança, sem sentido. Acobardou-se e foi perdendo tudo, do trabalho à dignidade. Em poucos anos, o álcool competia com o sangue, numa mistura que lhe circulava pelas veias e lhe percorria todo o corpo, dos pés à cabeça. Como uma bomba de bicicleta, começou a soprar-lhe o fígado e a inchá-lo como um balão, até se notar já por fora o dilatar sólido de uma barriga isolada, como bandeira visível, em barco fraco e abandonado no oceano. Perdeu a casa, os móveis, os amigos e a fé, enquanto o filho era criado pelas ruas, comendo à porta dos vizinhos.
- Queres comer?
- Sim.
- Queres mais?
Abanava a cabeça com a boca cheia e, quero mais, as pessoas já lhe davam a comida por gozo, anda que engoles tudo, e engolia, mesmo as misturas estúpidas que os graciosos lhe davam, toma bebe, toma come, e Pio Paulo bebia tudo, comia tudo, engolia tudo.
A maior parte das vezes fazia-o não por fome, mas por amor.
Riam-se dele, mas ele precisava sentir o toque das pessoas e não tinha a noção da maldade:
- Toma Engoletudo, foi feito de propósito para ti. Uma rica sopa fria.
Era aveia de cavalo, misturada com água e ração de vitelo.
- Bebe para acompanhar.
Era um líquido de urina e bagaço com açúcar.
Os adolescentes podem ser cruéis.
Estes eram.
Pio Paulo bebeu e comeu, entre risos e palmas, depois, vomitou, mas mesmo com a boca suja, babado de vómito, sorria feliz.
O pai sentia que Santa Glorieta o apadrinhava.
Passava quando sóbrio de mente e teso de carteira, horas no cemitério, arrumando os carros e guiando os passageiros dos autocarros. As moedas que recebia entregava-as logo que suficientes, no Café Costa. Tantos carros arrumou, tantos passageiros de autocarro guiou, à casa onde viveu a Santinha, à velha tasca do Esteves, que Deus tem, e até à escola onde Glorieta nunca andou, que foram muitas as moedas que levou ao Costa do Café. Tantas que um dia, pela noite, a mistura que lhe circulava nas veias e lhe soprava o fígado como um balão, soprou de tal forma, que rebentou.
- Pobre homem!
O povo sentia sempre a partida de um dos seus, como um toque a reunir na igreja, dos casamentos, dos baptizos, das promessas dos escuteiros, das comunhões e crismas, mas sempre, sempre aberta a todos, nos funerais.
O desgraçado do Rabaça ali estava mãos postas com um terço, quando certamente preferia levar em suas mãos, para o desconhecido, uma garrafa de tinto.
Pela noite a aldeia foi ao velório e as vizinhas da rua da avó de Pio pagaram entre elas o enterro. O Costa do Café deu-lhes um fato usado dos seus, para que o vestissem para a viagem. Também uma camisa e uma gravata e o mesmo fez, mas por empréstimo, para que as vizinhas vestissem o Pio Paulo e este pudesse apresentar-se dignamente no funeral do pai. Mandou isso sim, que lhe comprassem na Loja do Povo, uma camisa nova, preta, que essa era oferta dele para o cachopo. As velhas da rua aproveitaram, despiram o Engoletudo, meteram-no na banheira e lavaram-no em banho de escalda micróbios. Fizeram-lhe a barba, com espuma e lâminas Nacer, a dos crocodilos, chega-te para lá velhote, com anúncio na televisão e irritabilidade dos barbeiros de navalha.
A Junta de Freguesia achou-se na obrigação de ajudar as vizinhas a pagar o caixão e à falta de familiares de proximidade, mandou fazer uma coroa de flores com a inscrição “Descanse em paz”, o pároco, não cobrou pela missa e pelo seu acompanhamento fardado até à cova, e também o sacristão foi à borla, fardado também com um bibe de renda branco, levando a cruz ao lado do chefe.
Foi uma cerimónia muito bonita, mas o que mais impressionou o povo foi o comportamento do filho do Rabaça e da Rosa Mendes, agora órfão de pai e mãe. 
Impecavelmente vestido e para quem julgava que o moço tinha como os sentidos os sentimentos atrofiados, foi uma surpresa os urros que dava enquanto metia o dedo no colarinho da camisa, esfregando os olhos com a outra mão:
- Hum… Hum…
As pessoas comovidas pelo sofrimento do rapaz comentavam entre si:
- Pobrezinho, e o pai que não lhe ligava nenhuma.
- Coitadinho como sofre pelo pai, é parvinho, mas sofre como um filho está a dar-se conta de tudo.
Como se ouvisse os murmúrios que lhe acentuavam a dor, o pobre Pio continuava a interromper o silêncio do velório:
- Ai… Ai…
Dava pena, e até havia quem chorasse mais pelo filho vivo do que pelo pai morto.
O pobre aguentou estoicamente, gemendo, dedo no colarinho e só com o raiar do dia, poucas horas antes da missa e do último passeio, é que viram, e lhe tiraram o cartão duro e teso do interior da gola da camisa nova, abotoada até ao cimo, com dois alfinetes esquecidos ainda a sujeitá-lo.

Patry no conseguia reprimir o riso:
- Ai João Maria, vocês são um espetáculo.
Também ria o carteiro reformado, e gargalhadas a meias, é sempre cimento de relação.

O voo de França tinha chegado, com ele, António Gil Salvador. Notaram um movimento raro no aeroporto. Havia gente que corria e invadia os balcões.
1977.
Um avião dos Transportes Aéreos Portugueses tinha acabado de se despedaçar na Ilha da Madeira.
                                    (...)



In A MULHER DO SARGENTO ESPANHOL
Editado por Filigrana Editora
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