viernes, 7 de julio de 2017

Excerto / A MULHER DO SARGENTO ESPANHOL


 (...)

António Fagundes Fonseca deitou-se de papo para o ar, colocou os braços por detrás da cabeça e viu como Mariana, robe vestido, andava de um lado para outro. Fazia-o sempre que se sentia insegura. Agora faltava a mala. António sabia que a mulher, acabaria por trazer a mala para o toucador, colocaria um saco plástico no chão, e começaria a rasgar papéis e a desfazer-se da tralha. Era sempre assim, fora sempre assim. Quando estava intranquila, Mariana arrumava desarrumando o saco fundo das surpresas que a acompanhava sempre. Aquele poço sem fim, das coisinhas, dos restos e das necessidades na hora, enchia todos os meses, e na hora que menos se esperava, mas coincidindo sempre com as insónias de Mariana, era esvaziado e separado das inutilidades e exageros. Era como se ao arrumar a mala, se arrumasse a si própria e num ritual, que ele conhecia de muitos anos de cumplicidade, despejava-a e despojava-se, terminando sempre pela carteira que guardava para último, atafulhada de papéis e papelinhos que eram vistos e rasgados, emagrecendo-a e reduzindo-a até ficar apenas com as fotografias dos netos, do marido e dos trocos. A carteira era o coração da mala, e se libertava o corpo, acabava sempre por libertar a alma.
- Já está!
Pensou António Fagundes Fonseca quando a viu colocar o saco de plástico no chão e a mala volumosa, castanha e com alça a tiracolo, sobre o tampo de mármore do toucador.
Apenas se ouviu de início o ruído metálico do correr do fecho, depois multiplicaram-se sons de fundo, arrastados, abafados, embrulhados. – Onde está o leque?- pensou António depois de ter visto sair a escova do cabelo, um espelho redondo, umas chaves, outras chaves, um lenço branco amarrotado, outro lenço maior e colorido, uns óculos de sol, batom, lápis dos olhos, rímel, tudo por separado e espalhado, uma bandolete, uma tesoura, uma fita métrica desenrolada, um pacote encetado com três bolachas Maria esquecidas, uma chupeta da neta, o missal e o véu, a última imagem impressa de Santa Glorieta (que colocou dentro do missal), a caixinha redonda com o terço dentro comprado em Fátima, um corta-unhas, um frasquinho de perfume, falta o leque, falta o leque, António continuava a olhar e o leque passou a ser uma obsessão, umas cuequinhas dobradas preventivas de eventual incontinência, uma lima, duas castanhas piladas, a caixinha das aspirinas, e o leque? Suspirava mentalmente António, dois pensos rápidos e um urgente, um embrulhinho em papel de prata que desembrulhado mostrou o resto de uma banana (acabaram ambos no saco de plástico), um carrinho de linhas com uma agulha enlaçadamente espetada, umas luvas de pele fina, António olhava-a como se olha um mágico tirando mundos da cartola, e o leque?... tirou a carteira do dinheiro e das fotografias, o coração, esvaziou-a, colocou-a sobre a cama, rasga ali, rasga aqui, bolinha, papelinho e mais papelinho, saco plástico…
Agarrou a boca da mala, espreitou lá para dentro como quem espreita um precipício profundo e escuro, virou-a, abanou-a e nada mais, estava limpa, esventrada, vazia, desinflada:
- António, perdi o leque!
- Eu sei.
Mariana sentiu-se também melhor, despejada, mais leve e tranquila.
- Anda para a cama, anda.

Mariana soltou o cabelo, despiu o roupão, puxou um pouco a camisa de dormir para poder dobrar os joelhos, beijou o marido e meteu-se na cama, sobre ele. O coração da mala caiu para o chão, aberta no retrato dos netos, e ai ficou até que amanheceu.
(...)

in a Mulher do Sargento Espanhol
(em breve nas livrarias)

lunes, 20 de marzo de 2017

O Que Foste Lá Fazer? - Cap.17 (excerto)


(…)

A língua cinzenta e poeirenta enrola-se no “Subão” acima e abaixo.

Nela misturam-se cores, ócio e trabalho.

“Biscotas” carregadas de tudo e de gente apertam-se, e passam encolhidas nas curvas, centímetros às vezes, sobre falésias que dominam o mar.

Carlos Novais saltava no assento enquanto o motorista, cigarro na mão do volante, repousava a outra que recebia o vento pendurada e solta do braço, fora da janela.

Lá encima, no tejadilho, adolescentes, agarrados uns aos outros, com patos, porcos, panelas, colchões e um frigorífico novo, cerram os olhos e os dentes nos momentos de aperto, que da sua posição privilegiada, como vigias nos mastros das caravelas, podem gritar por antecipação.

Dentro, a música muito alta, mascara o ritmo da viagem em engano de festa e normalidade.

Um grande e invisível manto protetor, há quem o tenha por divino, cobre os viajantes.

Passada a ponte de ferro, que salta a larga ribeira, pégada de outras gentes que tocaram a ilha, a língua segue, agora com casinhas de madeira, tectos de palmeira, crianças nuas em folia, mulheres labutando e homens deitados, pais e irmãos de uma geração parada, porque o que resta da anterior, corre já pelas veredas da localidade, sobre os anos o peso do pau, onde em cada ponta, peixe, verduras ou frutas baloiçam esmolando centavos, e a posterior, fardas multicolores, rapazes e raparigas na tradição do toque protector, dão as mãos, dois a dois, duas a duas, às centenas, caminhando entre a casa e a escola para o futuro que se lhes exige.

Segue a língua lambendo os arrozais, afastando cabras, galinhas, agora sedenta de paragem como a dos búfalos estáticos que a olham, interrompendo a festa da lama.

Vai até ao mar, que deixa de ser o companheiro presente, sempre à esquerda, e aparece, na frente, enorme e manso, quadro vivo salpicado de barcos finos, muitos, pescadores em equilíbrio, pequeninos, acompanhando o traço amarelado, contorno da mancha creme que se vai alastrando no azul porque choveu em Aileu, dizem, e a montanha deposita a sua dádiva pincelando a calmaria, lentamente, muito lentamente.

Em breve, questão de uma, duas horas, o mar muda de cor, fica opaco e o peixe sobe, precisa de luz, e os pescadores aguardam-no, precisam de peixe.

O mar de Manatuto é um gigantesco camaleão.

Que se esqueçam os depressivos de o utilizar de cura, como no Guincho.

Não há Boca do Inferno por estas bandas, a boca é tranquila, de céu, e perante este enorme lago a que os locais chamam “tasi feto” (mar de mulher), mais pela influência dos marinheiros portugueses que chamam ao mar chão, mar de senhoras, do que ao carácter da mulher timorense agitado pela força dos anos da resistência, os depressivos podem morrer da cura e ser atirados para o suicídio pacífico, tal a calma sonolenta das águas que conseguem adormecer a rotina.

É um mar que junta ao seu silêncio e quietude, a observação.

Tanto que viu durante séculos, ali, sempre ali, tentando até avançar sobre a ilha, a razão dada para a colocação de pés de galo em cimento, inestéticos, em tudo o que é margem.

Um muro à volta do mar.

O povo não sabe o porquê, apenas que os barcos deixaram de poder dormir na areia negra da praia.

_ É para evitar ataque “lafaek” (crocodilo).

- Não! É para proteger tsunami!

_ Não! É para parar o mar que comeu terra desde o tempo dos portugueses.

Povo heróico, de guerras de David e Golias, atraído pelo gigantismo do inimigo, ora frente à Indonésia, ora exigindo o seu mar de Timor frente à Austrália, ou contra o mar, pois então, esse mar que come Timor desde o tempo dos portugueses que aliás, tiveram um, chamado Dinis, que temendo o mesmo diminuir do território português, plantou pinheiros, nas areias, frente às ondas.

E tentam barrá-lo, sustê-lo, pés de galo, centenas, num muro gigante com quilómetros de extensão.

Este mar já viu tudo, o timorense também e se pacifico como o mar, não quer esquecer.

Assim o provam as ruínas frente ao largo, queimadas, um “POLISI” azul, ainda na parede já desbotado, mas indicando que não há muito tempo esta paz que se respira, custou muito, como custa hoje recordar os que não estão porque teimaram em ser um País.

Sempre gostou Carlos Novais de países originais para o seu tempo, por isso, também começava a estar enfeitiçado (chamam feiticeira à ilha) por aquela terra, julgo única no mundo, com governos de coligação entre Bispos e Che Guevaras que faziam sentido.

Tudo isto lhe passava pela cabeça, salto atrás de salto, ladeio atrás de ladeio.

Em breve estaria na escola e matutava no que já fizera nos últimos anos.

Estava preocupado, pensando na teoria de Peter, em que os homens vão sendo promovidos até atingirem a incompetência, onde param, parando os sistemas.

Tinha vindo como professor do primeiro ciclo e sem mais, começou a leccionar no segundo.

Pediam-lhe agora que desse uma disciplina de 7° ano, Educação Cívica e Direitos Humanos.

Coragem a deste povo de ter metido assim, toma e já está, esta disciplina nos currículos de Timor, mostrando que não teme a liberdade frente ao futuro.

Há muito que defendia em Portugal, esta disciplina na escola portuguesa e tinha feito um CESE (Curso de Estudos Superiores Especializados) essa trampa de complementos de formação com que enganaram os professores do primeiro ciclo, por forma a escancararem as portas das escolas primárias a todos os formados de outras áreas em troca de poderem meter um Dr. nos livros de cheques e nas publicações que recebem da Deco.

Vinte anos depois, Carlos Novais teve uma oportunidade de dar oportunidade ao bolor desses três anos e aceitou.

Bateu com a moeda no vidro da janela da Biscota, o sol tinha ido para outras paragens e a noite cobria já Manatuto.

Estava a crescer de dia para dia, ele e o Município.

Reparou com gosto que nestes dias, tinha aberto o supermercado dos chineses, o restaurante tinha sido pintado, os pés de galo avançavam margem fora e já iam a caminho da igreja.

Encontrou o segurança da escola nova, em construção há três anos, mas com uma das partes já pintada de cor-de-rosa, a outra, andando.

- Então colega (amigo)? Quando temos escola nova?

- Quase professor, quase, já vai ter vidro na janela. Chegaram, tão aí, e também veio mais tinta para pintar.

A nova escola era esperada por todos, até lá, usavam umas instalações emprestadas que com muita imaginação e trabalho, faziam realçar cores e vida, bons sintomas de alegria.

Pneus pintados, materiais feitos artesanalmente, programas desdobrados em invenções diárias que substituíssem os manuais escolares que existem mas não chegaram e por isso se usavam os telemóveis, os computadores particulares e cada professor dava o máximo de si próprio.

Carlos Novais, tinha comprado um projector e com ele pensava nessa nova disciplina que iria começar a leccionar.

Comprara-o em Bali, atraiçoando a filha pequenina que queria um computador no natal e viu passar a promessa para o aniversário.

Levantou-se às seis e meia como habitualmente, com o sol, comprou o pão, fez café, "matou o bicho", só depois tomou banho e se vestiu.

A carrinha chegou às sete horas e trinta, cinzenta.

Se fosse ele a mandar, há muito que seriam vermelhas, verdes, azuis, cinzento? Cor mais feia para quem inicia uma semana de trabalho que se quer de festa, porque ensinar e aprender, se não for uma festa, é uma chatice.

Os primeiros noventa minutos, correram bem, os nomes, os sonhos, aquelas coisas das apresentações.

Não eram meninos, eram rapazes e raparigas, confusos como todos os adolescentes, descobrindo respostas para depois procurar caminhos.

Da janela da escola via-se o mar.

A pedra bateu na jante de carro suspensa (o sino) e saíram para o recreio.

Carlos ficou sentado no gosto do silêncio.

Nada é gostoso durante muito tempo.

De repente, ouviu-se um estrondo rompendo a calma, a seguir, mil ruídos de mil estilhaços e por fim, outra calmaria, mas de destroços.

Uma bola, como uma bala, tinha rompido a janela da sala e os vidros estavam espalhados por tudo o que era sítio.

Carlos Novais saiu e fez a pergunta rotineira:

- Quem foi?

Obviamente que não tinha sido ninguém.

Lembrou-se da sua nova disciplina.

É o medo que impede muitas vezes o assumir das responsabilidades.

_ Não importa, eu também parti muitos vidros a jogar à bola, temos é que assumir as responsabilidades, parti, pronto, está partido, fui eu, já está.

_ Um rapagão repetiu:

_Fui eu, já está.

Carlos Novais, preparou-se para o brilho.

_ Tu tinhas uma equipa, não jogavas sozinho, quem era a tua equipa?

Nada, o rapaz estava isolado, nem acusava, nem ninguém vinha em seu auxílio.

Carlos explicou o que era ser uma equipa, a necessidade uns dos outros, a camaradagem, um daqueles discursos pedagógicos que marcam ou tentam marcar.

- Não há nenhum problema, a não ser que temos que colocar outro vidro e limpar isto. Julgo que se uma equipa é tudo o que vos expliquei, será melhor assumirem a responsabilidade. Tiro os nomes, aponto a equipa, reponho o vidro e cada um paga uns centavos, quantos mais, melhor, não vai este pobre que se enganou na baliza, pagar o vidro sozinho e limpar a sala, além disso, esta escola não é nossa, foi-nos emprestada.

Vendo que o terreno estava macio, os rapazes da equipa de futebol, acusaram-se, deram os nomes e para surpresa de Carlos Novais, um perguntou:

_ E os da outra equipa também podem entrar no pagamento?

_ Se querem podem, mais barato fica a cada um.

Todos os rapazes do sétimo ano se prontificaram a pagar o vidro que o professor iria comprar.

Carlos Novais estava satisfeito e mais satisfeito ficou, quando depois do almoço, os rapazes lhe trouxeram um vidro para a janela, resolvendo eles mesmo o problema.

Rejubilou.

Fez-lhes um elogio sentido, o valor do espírito de grupo.

Registou nas suas memórias para contar aos seus netos.

A sua auto-estima profissional disparou, subiu aos céus, acima das nuvens.

Ah grande Piaget das montanhas, Freinet do suco, Kohlberg de Manatuto e arredores, inchado, como só poderiam inchar os perus com êxito antes do natal.

Tudo terminou quando o segurança das obras da escola nova apareceu:

_ Professor Carlos, os meninos desta escola, ao almoço, roubaram um vidro e fugiram para aqui.

(…)

in O Que Foste Lá Fazer?
( em elaboração )


martes, 7 de febrero de 2017

" A MULHER DO SARGENTO ESPANHOL" / EXCERTO DO 5º CAPÍTULO



5.
 A morte de Glorieta Esteves



Glorieta
 Esteves começou a sentir um frio paralisante nos dedos dos pés. Depois esse gelo mole e etéreo começou a subir-lhe pelos tornozelos até aos joelhos. 
Às seis horas e quarenta e cinco, já lhe tinha chegado ao ventre e lentamente, continuava a subir arrefecendo-lhe os dedos das mãos, numa paralisia fria que a impediu de carregar no botão da pêra com a campainha, para chamar alguém. Antes das oito horas, estava gelada e tesa até ao pescoço e apenas podia mover a boca e os olhos. Exatamente às oito horas e doze minutos, estava completamente paralisada, sem qualquer sensação de dor e nem as pálpebras conseguia fechar, pelo que começou a dar-se conta de que deveria estar morta.
Sentiu a freira entrar na camarata e chamá-la, Senhora Glorieta, Dona Glorieta, Glorieta. Não foi capaz de responder. Sentiu que lhe tocavam no pulso e que lhe encostaram a cabeça ao peito e que lhe puseram dois dedos na garganta, mas não conseguiu dizer nada, mesmo quando as companheiras da camarata a olhavam entristecidas, o Padre lhe fez uma cruz na testa e a Madre Superiora suspirou, paz à sua alma, enquanto com o polegar e o indicador lhe fechou as pálpebras.
A partir daí deixou de ver e apenas ouvia.
Antes do meio-dia chegaram as filhas.
Mariana, Clara e Branca.
Beijaram-na, afagaram-na e pentearam-na. O genro também estava, sentiu-lhe os lábios quentes na testa fria e o afago na cara. Vou para fora fumar, disse Carlos Fagundes Fonseca enquanto a mulher e as irmãs a despiram, a lavaram e a vestiram de novo com roupas que tinham trazido. Sentiu, ou pelo menos assim lhe pareceu, que poderia mover o dedo gordo do pé e que tal seria um sinal para que as filhas soubessem que não estava assim tão morta, mas perdeu todas as esperanças quando lhe calçaram uns sapatos novos, a que tiraram o preço, acabados de comprar na sapataria do Cunha. Cortaram-lhe as unhas e sentiu o cheiro do verniz quando as pintaram, juntaram-lhe as mãos e ataram-nas para que se mantivessem naquela posição de prece, até à eternidade, com um terço enrolado nos dedos e Clara e Branca, puseram-lhe pó de arroz no rosto, uma ligeira sombra nos olhos e um pouco de pintura carmim nos lábios.
Deixaram-na preparada para a sua última viagem, tão bonita como quando esteve presente no casamento de Mariana.
Antes do almoço chegou o Nogueira da funerária e passaram-na para uma urna almofadada. Glorieta sentiu-se bem e aliviada, pois não fora preciso abrir com picareta nenhuma porta e muito menos ser baixa, como a irmã, com cordas da varanda e apenas sabia estar morta porque não necessitava de respirar.
Ouviu perfeitamente o ruído dos gonzos a fechar a tampa e o enrolar de uma chave na fechadura. Sentiu que a levavam pelo ar e a depositaram num sítio plano, ouviu um motor a diesel e soube estar a caminho. Ergueram-na de novo, pousaram-na, e sentiu novamente a chave, os gonzos e a tampa que se abria.
Estava na igreja da sua terra.
O cheiro a cera de velas assim o indicava.
Colocaram-lhe um pano sobre o rosto e sabia haverem flores porque o perfume a envolvia.
Começou a chegar gente.
Sentia os passos no ranger do soalho e no eco da abóbada. Tiraram-lhe o lenço do rosto e uns afagavam-lho, outros colavam os lábios húmidos na sua cara fria, outros limitavam-se a tirar o lenço, olhar como para confirmar se era ela e colocavam-lho outra vez sobre a face.
Depois de jantar, foi quando veio mais gente. Sentia-o pelo murmurar cada vez mais alto dos presentes e às vezes detetava alguns risos de adolescentes.
Com o passar das horas apenas foram ficando os mais próximos e o silêncio passou a ser maior, tirando o ressonar de Carlos Fagundes Fonseca, que cabeceava por falta de hábito a noitadas desde que casara.
Amanheceu igual, como sempre, como se a natureza valorizasse pouco o desaparecimento de uma vida.
Às dez horas, ouviu-se o velho Padre Cabral falar da amiga que os deixava, do conforto que encontraria junto do Senhor e dos seus Anjos e depois de dar a comunhão, pediu um Pai Nosso pela alma da irmã Glorieta.
Daí saíram, depois do eterno adeus e da chave que rodou ter sido entregue a Mariana como filha mais velha.
Baixou à terra com duas cordas e oito braços que a fizeram balançar e sentiu o ruído da terra sobre a tampa da urna.
Assim morreu Glorieta Esteves sem saber ao certo se estava morta.

                                                     (…)

In a Mulher do Sargento Espanhol
... em publicação...

miércoles, 28 de septiembre de 2016

O QUE FOSTE LA FAZER? - Cap. 8



Capítulo 8
(…)
As cadeiras de bambu têm sobre elas almofadas compradas perto. 

Vendem-se na plantação de casitas de artesanato ao lado das gigantes bananeiras de fruto pequeno e doce que aproveitam os passantes, ou passeantes que param, frente à fortaleza portuguesa, canhões enferrujados virados para o vasto e ritmado azul.

O mar, esse mar imenso, arrastava-se até às ilhas indonésias que se avistavam e mudava de cor, azul petróleo, álcool ou céu, às vezes verde, tons escuros, raiados pelo branco das ondas baixas mas fortes, como os homens, embrulhando-se cadenciadamente nas pedras soltas da praia de areia negra mas suave, como os cabelos das crianças, mexendo-se na insegurança dos corais cortantes, cores vivas e abrigo de peixes pintados de arco-íris, como os “tais” coloridos das mulheres da ilha.

Do lado de cá do baile do mar com a praia, antes das casitas, atravessa-se a estrada, passa-se a fortaleza, a montanha sobe sem alcatrão e visita o café, a canela e o ananás, que o Avô Serra mete na mesa, servido de histórias e de palavras de tempo, que confundem o homem velho e sábio, com a história de Timor, o homem com raiz portuguesa que chegou há muito e ficou, como o crocodilo da lenda.

Carlos Novais tinha ido de Liquiçá a Maubara, numa microlete que mandou parar e que não gritava “Dili, Dili, Dili” mas “Bara, Bara, Bara”, pequenina, peluches cobrindo o tablier tapando o vidro da frente, já só meio, pelo autocolante do Barcelona que cobria a metade superior e rivalizava com um Cristiano Ronaldo pintado nos laterais exteriores.

Porta aberta com dois rapagões de bronze, cabelos atados e chinelos, meio dentro meio fora, pendurados, porque dentro iam senhoras tímidas, peles sofridas pelo sol e trabalho, dentes vermelhos da última masca, “tais” sujos de pó, mas pés com asseio, unhas cortadas e bicos de galinhas que espreitavam por baixo dos assentos.

“Bara, Bara, Bara” e parou como um regaço fresco na estrada quente.

Carlos entrou e com ele o colega com quem tinha combinado sair, romper a clausura da ilha em que sentia a sua escola e respirar, outro ar, longe das obras poeirentas que atravessavam a localidade onde estava, desde que o avião o deixou naquela aventura, e só regressaria para o levar, com os reis magos, pelo natal, para poder estar a horas no presépio da sua casa.

Tinha Maumeta, o suco onde morava, praia também, baleias à vista algumas vezes, golfinhos quase sempre, crocodilos não se pensava nisso, mas estava muito próximo da escola onde estava há pouco mais de um mês, a gosto quando o trabalho era a gosto, forçado quando lhe começaram a forçar o gosto.

Mesmo o amor passa a desamor quando obrigado sem obrigado, e não precisava que lhe agradecessem, bastava que o deixassem fazer o que sabia, aliás, julgo que a única coisa que julgava saber fazer, ser professor, dar e receber todos os dias.

Despistar nortes, emprestar rumos e receber outros saberes, emprestar uma bússola, falar da estrela polar e receber, nem que fosse um sinal de fumo ou de bandeiras, compensada com a visão do cruzeiro do sul.

Afecto só sentia o de alunos, pais e funcionários, porque os nortes que eram dados por quem levava o leme, afastava a nau da terra, no convencimento de que os instrumentos de orientação de bordo, porque importados, eram seguros, infalíveis mesmo, e o pior, inquestionáveis, e se falhavam as velas pelo óbvio, tudo a remar, transformando a nau em galé.

Ambos estavam a precisar de sentir a parte de fora, aquela outra vida que não parava, diferente, desconhecida para eles, misteriosa, feiticeira, como alguém lhe chamara.

Saíram assim para a parte de fora da galé, sem tambores, e soube-lhes bem o ar, o mar e as gentes que falavam de outras coisas que nunca tinham ouvido, de outra forma, línguas que nunca tinham escutado, de outras maneiras de sentir, formulários que tinham necessidade de preencher sem ser os outros, aqueles que faziam cumprindo, e a que nem sequer, se atreviam a perguntar para que serviam?

Talvez agora, não repetissem aqueles coelhinhos de uma Páscoa, celebrada ali de outra forma, feitos de embalagens vazias de iogurte e de saberes de rua, importados para uma escola de um país, onde os coelhos são tão conhecidos como os pinguins em África. 

Claro que se tinham que misturar, de conhecer cheiros e risos e descobrirem que a lua ali não é mentirosa, porque naquela tarde a viram em forma de barco e na anterior de fatia de melão, quais quartos crescentes e minguantes? Qual quê?

E as fichas? A praga das fichas? Com feiras e carrosséis, meninos loiros e algodão doce nas mãos? E os exames? Fechados e dignos, desenhados em segredo por adultos especialistas para terem um resultado de espionagem secreta para saber o que os meninos não sabem em vez de os estimularem pelo que aprenderam? Demasiado fechados, policiados, ritualistas.

- Estamos a falar de crianças Carlos?

- Pois, o problema é esse, é que estamos a falar de crianças.

Estava decidido, tinham que começar a sair!

A estrada de Liquiçá para Maubara é uma língua recente, salpicada de animais que dão cor ao alcatrão novo como o novo país, animais que estavam antes das máquinas lhes tirarem o espaço e agora, que as máquinas partiram, o reocuparam, e usam-no, com tempo, com todo o tempo do dia e da noite.

- Olha Carlos, a Lagoa.

Ά esquerda, uma manta líquida, espelho de uma família de pelicanos que se duplicavam no reflexo da água, limpa hoje, outrora manchada de vermelho, que a metralha castigava com a vida, um povo que queria ser país.

_ É por isso que se chama Lagoa Vermelha?

O silêncio respondeu que sim, o espelho de água reflectiu a paz, e o voo dos pelicanos mostrou um país.

Maubara apareceu de repente, com as suas casotas de artesanato, a fortaleza de canhões enferrujados apontando para o mar, hoje sem medo do que as ondas lhes trazem.

A microlete parou, Carlos perguntou a que horas havia uma de regresso, em português, nada, em inglês, igual, gestos, dedo indicador apontando o relógio, mão aberta para dizer cinco horas, arranhou tétum, também não.

O timorense pequenino mostrou os dentes brancos num sorriso de entendimento, sim, disse, Carlos Novais mão aberta e dedos esticados, cinco horas, ele respondeu sim de novo, e tornou a responder sim a tudo, sempre com um sorriso de que finalmente entendera.

Gustavo, olhar de observador soltou, parece que percebeu, vem às cinco.

Carlos Novais fez-lhe adeus, o timorense também e a microlete envolta em fumo de escape voltou para trás.

Missionariamente (o adjectivo existe porque o criei na liberdade que a escrita me dá para inventar) Carlos comentou: Acabamos sempre por nos entender - e ficou a olhar o mar.

A tarde passou, cinco, cinco e meia, seis horas e Gustavo na estrada suspirou com ironia: Acabamos sempre por nos entender – Carlos não respondeu, apenas pensava que a noite estava a chegar e tinham que regressar.

- Vem aí uma Toyota de caixa aberta, nova, aposto que tem ar condicionado.

Nasceu a esperança e fizeram sinal para que parasse, ao longe, bem antes de estar junto deles.

- Eh pá, espera, não a mandes parar, porra, vem carregada de freiras!

Era tarde por um lado, mas por outro parecia que estava a abrandar.

E abrandou. 

E parou, não por eles, mas porque três homens carregados com um enorme cacho de bananas também lhes fez sinal.

- Para as meninas do orfanato.

Começaram a atar o cacho pendurado na traseira.

Carlos Novais contou sete freiras na parte cabinada e cinco, bem mais novas, juvenis até, na parte aberta da carrinha.

- Vamos lá? 

- Não temos nada a perder.

Aproximaram-se da madre e perguntaram se podiam ir com elas para Liquiçá.

Desconfiadas, dois homens, um corpulento, o outro barbudo, a sorte parecia perdida quando uma delas com sotaque espanhol disse:

_ Está cheio!

Carlos Novais puxou dos galões de homem sério, casado, pai de filhos, professor, honesto, incapaz de uma má palavra, muito menos de um mau gesto.

_ A irmã é espanhola? A minha esposa também, vem a Timor em Agosto…

Milagre.

A sua ordem também era, iam receber a visita de uma sua superiora, que bom a mulher do Carlos ser espanhola…

Aproveitando a embalagem Gustavo disse “espanhola e professora, até podia ensinar castelhano enquanto aqui estiver, de forma voluntária, às meninas do orfanato, ou às irmãs que quiserem”. 

Carlos olhou para ele, que nem tão pouco a conhecia, mas com a noite a cair, confirmou, que sim, poderia fazê-lo e também chinês e grego e latim, por favor, que os tirassem dali.

_ Têm que ir atrás, com os mantimentos.

_ Não faz mal, muito obrigado (lembrou-se que eram freiras) Deus vos pague.

Gustavo, ágil, saltou para a caixa, já Carlos Novais teve que ser puxado, julga mesmo que também empurrado, pelos três homens que tinham acabado de atar as bananas.

Deu-se conta que estava dentro quando caiu redondo e com estrondo no meio dos sacos de batatas, hortaliças, duas galinhas, um cabrito de patas atadas com arame e ele ali, agora sentado, cabelos ao vento, com as noviças rindo do espectáculo que se lhes oferecia.

A Toyota avançou, as freiras mais velhas na cabina, atrás na caixa, Carlos, Gustavo, e as freiras novinhas que riam, com as mãos na boca, e falavam tétum entre elas entremeado com gargalhadas, que tudo indicava, seriam de gozo perante aqueles malaes, que se tinham junto aos mantimentos.

Carlos Novais tentou colocar ordem na viagem e perguntou:

_ Vamos cantar?

_ Sim, Sim…

Puxou então das suas memórias religiosas, de quando se vestia de acólito, aos Domingos, na sua paróquia de S. Lourenço em Portalegre, as namoradas que não sabiam que eram, apenas desconfiavam, lindas e vestidas de novo, as gentes perfumadas esperando a saída para o encontro na porta da igreja, naquela missa do meio-dia que marcava a Cidade como um ritual.

O padre como rei, ele como pajem branco, levando-lhe as armas para aquele enorme campo de prisioneiros arrependidos, de joelhos, mãos postas, mas perdoados quarenta minutos depois para brilharem no alto da escadaria da igreja, naquele ritual de cores, de sorrisos de festa culminante de uma semana, passada no cinzentismo de sete dias iguais, onde nada acontecia.

Em segundos percebeu que nenhuma canção desse tempo, com cheiro a incenso, medo e bafio, era apropriado perante religiosas tão novas e lembrando-se de anos mais tarde, pensou em canções mais modernas, de quando um concílio lhe mudou os Domingos, arrumando os véus negros, o órgão queixoso que nem parecia instrumento de música e trazendo as guitarras (nada tenho contra os órgãos, o Toy Eustáquio que me perdoe, embora tenha optado pelas cordas nos últimos tempos), as palmas, os abraços e a festa, para dentro da mesma casa, com as velhas beatas a resmungar, mas cantando, tentando acompanhar as ordens do tempo, embora continuassem a cheirar a velas e a azeite e a imprimir lentidão nas melodias.

Foi então que Carlos Novais ganhou coragem e começou cheio de esperança, voz bem colocada, festivo, com palmas a acompanhar:

_ Tenho um Amigo que me ama, que me ama, que me ama…

Correu bem, todos cantaram, mas sem muita alegria.

Carlos começou logo outra:

_ Sou Pescador, do mar da Galileia, deixa o teu barco …

_ Não, Não, Não…

Ó diabo, se calhar a letra não era aquela, as freirinhas não gostavam e só entendeu porquê quando uma disse alto:

_ Júlio Iglésias, Júlio Iglésias… _ e as outras em coro e alvoroço:

_ Sim, Sim, Sim…

(…)

in O Que Foste lá Fazer? 
( em elaboração )

sábado, 11 de junio de 2016

O QUE FOSTE LÁ FAZER? - Excerto da chegada...


(…)
Se os dragões existissem, diria que um, enorme, gigante mesmo, boca e narinas dilatadas, vivia sobre o monte Ramelau, e que àquela hora, sempre a mesma em que chegava um avião, tentava mandar para trás quem se atrevia a invadir a sua ilha, com enormes baforadas de hálito quente.
Esta foi a primeira sensação que Carlos Novais teve quando baixou as escadas íngremes encostadas ao avião acabado de chegar.
Juntou-se ao grupo de colegas que embarcaram nesta aventura e se iam reunindo na pista.
Olharam uns para os outros e tardou que alguém mais afoito, rompesse o silêncio húmido e abafado e dissesse: - Uma foto companheiros, ânimo, chegámos a Timor.
Saíram sorrisos como abraços em grupo para a câmara.
Tinham deixado Portugal dia 19 e chegado a Timor-Leste às 13.45 (hora local) do dia 23 de Maio.
Engoliram horas.
Noites e dias estavam às avessas como estavam os corpos e os pensamentos.
Saíram juntos do aeroporto.
Lá fora aguardavam-nos outros colegas que já viviam essa experiência há mais tempo.
Para além dos amigos que alguns lá tinham, Novais tinha o abraço da Maria e do Alberto, esperavam-nos também as coordenadoras gerais do projecto, a Coordenadora Portuguesa e a Timorense e com elas, os treze coordenadores das treze escolas, uma por distrito, nesta teia organizada para reiniciar o acesso à Língua Portuguesa e que, funcionava como os tentáculos de um polvo, cuja cabeça bicéfala estava em Dili.
Cada escola tinha uma carrinha com motorista e os professores foram distribuídos por elas e levados para alojamentos provisórios na capital.
Carlos Novais, um dos quatro homens que chegaram, foi levado para um hotel, de onde se via o mar, esse seu mar que tanto lhe seria companheiro durante a sua estadia na Ilha.
As colegas, ficaram em casas, uma zona fechada chamada Vila Verde e que Carlos Novais não recorda bem.
Recorda-se, isso sim do seu hotel.
Novo Horizonte, porque os horizontes podem ser novos, entre o centro de Dili e a praia da Areia Branca.
Até chegar ali, tinha feito uma curva nas condições que subiam e baixavam consoante as escalas.
Partira do seu distrito às seis horas da manhã de dia dezanove, e a partir daí, tinha tocado movimentos em Lisboa, Madrid, Doha e Bali.
Em Doha sentiu o primeiro rugir da diferença, com mulheres apenas com olhos e homens todos de branco.
Em Bali, respirou a Ásia.
Ficou num hotel majestoso e sentiu o poder do dólar.
Pagou com eles as refeições, onde as rupias, apesar de muitas para valerem mais, continuam a ser pobres envergonhadas de pouco valor.
Uma refeição no hotel andava pelos quatro dólares.
Carlos Novais comparou mentalmente com o euro... mas isto seriam, ora bem, o quê? Só? Três euros e vinte, menos de um maço de cigarros? Um hotel de luxo destes?... Não conseguiu deixar de pensar que a Europa não ia por bom caminho.
Timor, tem a Austrália como guia e a Austrália, tem como rainha, a mais antiga monarquia europeia, consciente disso, tenta manter laços com os países vizinhos, mesmo com a sua velha inimiga Indonésia e agarra-se à CPLP para manter a sua identidade histórica.
Mas regressemos à primeira noite com oito horas de diferença de Lisboa, agora, ou nove, quando Lisboa anda ao sabor da mudança dos ponteiros, um passo para o lado, outro para o outro, numa valsa dançada pela luz.
Carlos Novais, chega ao hotel Novo Horizonte, dão-lhe um quarto, uma chave e um código de internet.
Coloca as duas malas e o saco de mão no chão, tira o portátil, liga-o e começa a chamar a família.
Tinham-se passado tantas coisas novas em tão pouco tempo que lhe parecia ter saído de casa há uma eternidade.
Como sempre, o melhor tinha deixado lá e não se referia só à família e aos amigos, trouxe o seu telefone velhinho, o computador sem autonomia de bateria, roupa q.b. como o sal, nem a viola, nada, o que cozinhasse na sua vida a partir desse momento, seria com os seus recursos e com os ingredientes de lá.
Não se preocupou por isso com os vinte e sete quilos de limite de bagagem, a dor de cabeça das companheiras.
Ele e só ele estavam ali, nessa primeira noite, e o computador sem câmara, só podia escrever, não podia ver ninguém:
- Sou eu !!
-Papá, Papá!
- Então como estão?
- Vimos a tua viagem pela Net, seguimos a rota do avião.
Modernices destes tempos, uma das que Carlos Novais sabia ter como deficiência.
- Quem está aí?
- Todas!!
E estavam, mulher e filhas, as pequenas e as maiores que foram apoiar este momento que também para elas não deveria estar a ser fácil.
- Não morri, caramba. Só saí de casa por uns tempos.
Carlos Novais tentava inventar coisas para lhes dizer, a cabeça estava branca como as vestes dos homens de Doha.
- Tu estás bem?
- Na maior!!
Nessa altura e enquanto escrevia, chorava, e ainda bem que o não viam para evitar o gozo das filhas, “andas muito chorão” e andava.
Antes de ir, chorava por tudo e por nada, não era berraria, não pensem, era assim, comovia-se e pronto.
Comovia-se com tudo, com as palavras que ouvia, com os livros que lia, sobretudo se falassem de crianças ou de velhos, mas reconhecia que ultimamente a coisa se tinha complicado e já torcia o beiço, com um filme, com a televisão e até com as telenovelas que dizia não ver, mas que espreitava.
- Andas aí?
- Sim, estou.
- Então já viste algum crocodilo?
A mulher de Carlos, culpada com a amiga Lurdes com quem aprendia receitas novas, do seu elevado peso que o fez não ter cinto suficiente no último voo entre Bali e Timor escreveu:
- Que comeste?
- Coisas do avião.
Carlos, ao olhar para os seus cento e trinta e oito quilos e lembrando-se do pormenor de no voo que o deixou em Dili não ter tido cinto suficiente para o apertar e proteger, acrescentou:
- Olha amor, estou entregue a mim mesmo. Estou em Timor-Leste, a dezassete mil quilómetros de casa onde aterrei sem cinto de segurança.
Mal sabia Carlos Novais que muitas outras vezes iria sentir a falta desse cinto.
-Então? Então? Carlos estás aí?
Não tinha ficado sem Net, conforme lhes foi dito durante as conversas preliminares com o ministério, foi sem luz e só três horas depois conseguiu ligar de novo o computador onde uma fileira de preocupações estava escrita em monólogo:
- Carlos estás bem?
- Carlos porque não escreves?
- Passa-se alguma coisa?
Carlos respondeu de imediato:
- Está tudo bem, fiquei sem luz.
Em desabafo em tom depreciativo, a mulher escreveu:
- Pronto, já estás em Timor…
Carlos esperou um pouco e respondeu:
- O problema não é de Timor, é ainda de Portugal, onde com os roubos nos ordenados, os congelamentos de salários e tudo aquilo que sabes na pele, não dá hipóteses a que um professor possa ter um computador em condições, que não tenha que estar ligado à luz, por velho e muito uso ao seu serviço, tenha ainda que sair do país que é seu… e, caramba!!!
Judite, esposa:
- Não te metas em política Carlos, dá-me tanto medo que sejas assim.
Para Carlos Novais, a conversa estava terminada, não sabia era como o fazer.
Irritava-o a passividade dos portugueses, os medos, as permissões, a última greve de professores em que em todo o agrupamento de escolas a que pertencia, só ele como um tonto perdeu o dia de trabalho, surpreendido por todos os colegas que se manifestavam contra a política desgraçada do governo se terem perfilado religiosamente na escola, como cordeiros silenciosos.
A directora pela manhã telefonou-lhe:
- Olha, as auxiliares fazem greve, não vai haver aulas, anda que não perdes o dia.
Não queria acreditar no que ouvia, montarem-se sobre as pobres auxiliares educativas que ganhavam quinhentos euros por mês.
Tinha mesmo que sair, para longe, nada fazia sentido, o país estava falso, vivendo de expedientes.
Lembra-se de ter chegado à escola no outro dia e dizer às colegas:
- A partir de hoje falem comigo de novelas, do festival da canção, da Bárbara Guimarães e das nódoas negras, mas não se atrevam a dizer mal da escola, do ministro ou do governo, que eu não discuto mais esse tema convosco.
Decidiu nesse dia colocar mar e terra sobre ele e o país.
- Olha estão a chamar-nos para jantar.
Não estavam.
- Está bem, quando voltas a falar?
- Não sei, quando puder.
- E como sei quando podes?
- Dou-te um toque de telemóvel. Não atendas que deve ser caro e vai para o computador.
- Adeus amor.
- Adeus Papá.
- Papá beijinho para ti.
- Papá compra-me coisinhas.
- PAI, PAI.
- Papá, foi a pequenina que escreveu PAI, eu ajudo a cuidar das minhas irmãs.
Carlos Novais contou as despedidas:
- Eh! Falta uma.
- Sim, a Nevita, ela também te manda um beijo. Só vem amanhã.
Carlos Novais desligou o computador, abriu as malas, tirou uns calções, uma camisola e roupa interior.
Completamente suado, sentiu a água fria do chuveiro como bênção. 
Limpou-se.
Sentiu-se húmido, incómodo, e deu-se conta que estava suado outra vez.
Entrou novamente no chuveiro.
Saiu e meteu-se debaixo do ar condicionado.
Foi assim que Carlos Novais apanhou a primeira constipação na Ásia.
(...)


In O Que Foste lá Fazer?
... em construção...