domingo, 12 de agosto de 2018

" O QUE FOSTE LÁ FAZER?" ( Livro em elaboração sobre um cooperante alentejano de Timor-Leste / Reedição de um pequeno excerto do II Capítulo)




(…)

Se os dragões existissem, diria que um, enorme, gigante mesmo, boca e narinas dilatadas, vivia sobre o monte Ramelau, e que àquela hora, sempre a mesma em que chegava um avião, tentava mandar para trás quem se atrevia a invadir a sua ilha, com enormes baforadas de hálito quente.
Esta foi a primeira sensação que Carlos Novais teve quando baixou as escadas íngremes encostadas ao avião acabado de chegar.
Juntou-se ao grupo de colegas que embarcaram nesta aventura e se iam reunindo na pista.
Olharam uns para os outros e tardou que alguém mais afoito, rompesse o silêncio húmido e abafado e dissesse: - Uma foto companheiros, ânimo, chegámos a Timor.
Saíram sorrisos como abraços em grupo para a câmara.
Tinham deixado Portugal dia 19 e chegado a Timor-Leste às 13.45 (hora local) do dia 23 de Maio.
Engoliram horas.
Noites e dias estavam às avessas como estavam os corpos e os pensamentos.
Saíram juntos do aeroporto.
Lá fora aguardavam-nos outros colegas que já viviam essa experiência há mais tempo.
Para além dos amigos que alguns lá tinham, Novais tinha o abraço da Maria e do Alberto, esperavam-nos também as coordenadoras gerais do projeto, a Coordenadora Portuguesa e a Timorense e com elas, os treze coordenadores das treze escolas, uma por distrito, nesta teia organizada para reiniciar o acesso à Língua Portuguesa e que, funcionava como os tentáculos de um polvo, cuja cabeça bicéfala estava em Dili.
Cada escola tinha uma carrinha com motorista e os professores foram distribuídos por elas e levados para alojamentos provisórios na capital.
Carlos Novais, um dos quatro homens que chegaram, foi levado para um hotel, de onde se via o mar, esse seu mar que tanto lhe seria companheiro durante a sua estadia na Ilha.
As colegas, ficaram em casas, uma zona fechada chamada Vila Verde e que Carlos Novais não recorda bem.
Recorda-se, isso sim do seu hotel.
Novo Horizonte, porque os horizontes podem ser novos, entre o centro de Dili e a praia da Areia Branca.
Até chegar ali, tinha feito uma curva nas condições que subiam e baixavam consoante as escalas.
Partira do seu distrito às seis horas da manhã de dia dezanove, e a partir daí, tinha tocado movimentos em Lisboa, Madrid, Doha e Bali.
Em Doha sentiu o primeiro rugir da diferença, com mulheres apenas com olhos e homens todos de branco.
Em Bali, respirou a Ásia.
Ficou num hotel majestoso e sentiu o poder do dólar.
Pagou com eles as refeições, onde as rupias, apesar de muitas para valerem mais, continuam a ser pobres envergonhadas de pouco valor.
Uma refeição no hotel andava pelos quatro dólares.
Carlos Novais comparou mentalmente com o euro... mas isto seriam, ora bem, o quê? Só? Três euros e vinte, menos de um maço de cigarros? Um hotel de luxo destes?... Não conseguiu deixar de pensar que a Europa não ia por bom caminho.
Timor, tem a Austrália como guia e a Austrália, tem como rainha, a mais antiga monarquia europeia, consciente disso, tenta manter laços com os países vizinhos, mesmo com a sua velha inimiga Indonésia e agarra-se à CPLP para manter a sua identidade histórica.
Mas regressemos à primeira noite com oito horas de diferença de Lisboa, agora, ou nove, quando Lisboa anda ao sabor da mudança dos ponteiros, um passo para o lado, outro para o outro, numa valsa dançada pela luz.
Carlos Novais, chega ao hotel Novo Horizonte, dão-lhe um quarto, uma chave e um código de internet.
Coloca as duas malas e o saco de mão no chão, tira o portátil, liga-o e começa a chamar a família.
Tinham-se passado tantas coisas novas em tão pouco tempo que lhe parecia ter saído de casa há uma eternidade.
Como sempre, o melhor tinha deixado lá e não se referia só à família e aos amigos, trouxe o seu telefone velhinho, o computador sem autonomia de bateria, roupa q.b. como o sal, nem a viola, nada, o que cozinhasse na sua vida a partir desse momento, seria com os seus recursos e com os ingredientes de lá.
Não se preocupou por isso com os vinte e sete quilos de limite de bagagem, a dor de cabeça das companheiras.
Ele e só ele estavam ali, nessa primeira noite, e o computador sem câmara, só podia escrever, não podia ver ninguém:
- Sou eu !!
-Papá, Papá!
- Então como estão?
- Vimos a tua viagem pela Net, seguimos a rota do avião.
Modernices destes tempos, uma das que Carlos Novais sabia ter como deficiência.
- Quem está aí?
- Todas!!
E estavam, mulher e filhas, as pequenas e as maiores que foram apoiar este momento que também para elas não deveria estar a ser fácil.
- Não morri, caramba. Só saí de casa por uns tempos.
Carlos Novais tentava inventar coisas para lhes dizer, a cabeça estava branca como as vestes dos homens de Doha.
- Tu estás bem?
- Na maior!!
Nessa altura e enquanto escrevia, chorava, e ainda bem que o não viam para evitar o gozo das filhas, “andas muito chorão” e andava.
Antes de ir, chorava por tudo e por nada, não era berraria, não pensem, era assim, comovia-se e pronto.
Comovia-se com tudo, com as palavras que ouvia, com os livros que lia, sobretudo se falassem de crianças ou de velhos, mas reconhecia que ultimamente a coisa se tinha complicado e já torcia o beiço, com um filme, com a televisão e até com as telenovelas que dizia não ver, mas que espreitava.
- Andas aí?
- Sim, estou.
- Então já viste algum crocodilo?
A mulher de Carlos, culpada com a amiga Lurdes com quem aprendia receitas novas, do seu elevado peso que o fez não ter cinto suficiente no último voo entre Bali e Timor escreveu:
- Que comeste?
- Coisas do avião.
Carlos, ao olhar para os seus cento e trinta e oito quilos e lembrando-se do pormenor de no voo que o deixou em Dili não ter tido cinto suficiente para o apertar e proteger, acrescentou:
- Olha amor, estou entregue a mim mesmo. Estou em Timor-Leste, a dezassete mil quilómetros de casa onde aterrei sem cinto de segurança.
Mal sabia Carlos Novais que muitas outras vezes iria sentir a falta desse cinto.
-Então? Então? Carlos estás aí?
Não tinha ficado sem Net, conforme lhes foi dito durante as conversas preliminares com o ministério, foi sem luz e só três horas depois conseguiu ligar de novo o computador onde uma fileira de preocupações estava escrita em monólogo:
- Carlos estás bem?
- Carlos porque não escreves?
- Passa-se alguma coisa?
Carlos respondeu de imediato:
- Está tudo bem, fiquei sem luz.
Em desabafo em tom depreciativo, a mulher escreveu:
- Pronto, já estás em Timor…
Carlos esperou um pouco e respondeu:
- O problema não é de Timor, é ainda de Portugal, onde com os roubos nos ordenados, os congelamentos de salários e tudo aquilo que sabes na pele, não dá hipóteses a que um professor possa ter um computador em condições, que não tenha que estar ligado à luz, por velho e muito uso ao seu serviço, tenha ainda que sair do país que é seu… e, caramba!!!
Judite, esposa:
- Não te metas em política Carlos, dá-me tanto medo que sejas assim.
Para Carlos Novais, a conversa estava terminada, não sabia era como o fazer.
Irritava-o a passividade dos portugueses, os medos, as permissões, a última greve de professores em que em todo o agrupamento de escolas a que pertencia, só ele como um tonto perdeu o dia de trabalho, surpreendido por todos os colegas que se manifestavam contra a política desgraçada do governo se terem perfilado religiosamente na escola, como cordeiros silenciosos.
A diretora pela manhã telefonou-lhe:
- Olha, as auxiliares fazem greve, não vai haver aulas, anda que não perdes o dia.
Não queria acreditar no que ouvia, montarem-se sobre as pobres auxiliares educativas que ganhavam quinhentos euros por mês.
Tinha mesmo que sair, para longe, nada fazia sentido, o país estava falso, vivendo de expedientes.
Lembra-se de ter chegado à escola no outro dia e dizer às colegas:
- A partir de hoje falem comigo de novelas, do festival da canção, da Bárbara Guimarães e das nódoas negras, mas não se atrevam a dizer mal da escola, do ministro ou do governo, que eu não discuto mais esse tema convosco.
Decidiu nesse dia colocar mar e terra sobre ele e o país.
- Olha estão a chamar-nos para jantar.
Não estavam.
- Está bem, quando voltas a falar?
- Não sei, quando puder.
- E como sei quando podes?
- Dou-te um toque de telemóvel. Não atendas que deve ser caro e vai para o computador.
- Adeus amor.
- Adeus Papá.
- Papá beijinho para ti.
- Papá compra-me coisinhas.
- PAI, PAI.
- Papá, foi a pequenina que escreveu PAI, eu ajudo a cuidar das minhas irmãs.
Carlos Novais contou as despedidas:
- Eh! Falta uma.
- Sim, a Nevita, ela também te manda um beijo. Só vem amanhã.
Carlos Novais desligou o computador, abriu as malas, tirou uns calções, uma camisola e roupa interior.
Completamente suado, sentiu a água fria do chuveiro como bênção. 
Limpou-se.
Sentiu-se húmido, incómodo, e deu-se conta que estava suado outra vez.
Entrou novamente no chuveiro.
Saiu e meteu-se debaixo do ar condicionado.
Foi assim que Carlos Novais apanhou a primeira constipação na Ásia.
(...)


In O Que Foste lá Fazer?
... em construção...

viernes, 10 de agosto de 2018

" O QUE FOSTE LÁ FAZER?" ( Livro em elaboração sobre um cooperante alentejano de Timor-Leste / Reedição de um pequeno excerto do V Capítulo)



(…)

Como as mangas, as papaias, os cocos e as jacas, Lino Alves era fruto da ilha.

Falava português, como quem fala uma língua perdida, aos solavancos, verbos sem conjugação, vocábulos soltos, sem plural ou singular mas com o sentido da representação e o significado da imagem: _ Eu exército de Portugal. – Fazia-o com orgulho, pequenino, embrulhado numa lipa, pés escuros como o corpo, visíveis numas sandálias finas, sola invisível e leve, entaladas em dois dedos magros e limpos. 

Apontou a fotografia na parede, camuflado, outra idade, retida numa moldura que lhe avantajava o tronco, boina ao lado, bigode negro e com desenho em arco abaixo da boca – Eu exército português - Sorriu, num convite – Bebe cerveja comigo professor.

António Salvador acenou com a cabeça, segurou a lata Bintang, limpou-a bem, fez estalar a argola e Lino Alves meteu o dedo na sua. - Granada, professor - e arrancou o selo como quem despoleta uma arma, levou-a aos lábios, bebeu metade de um sôfrego, limpou os bigodes que mantinham a linha mas modificaram a cor e rematou – esta não mata - soltando depois uma gargalhada de quem estava feliz.

(…)





in O Que Foste Lá Fazer?
... em construção...

miércoles, 8 de agosto de 2018

" O QUE FOSTE LÁ FAZER?" ( Livro em elaboração sobre um cooperante de Timor-Leste / Reedição de excerto do VII Capítulo)





(...)
Um muro à volta do mar.

O povo não sabe o porquê, apenas que os barcos deixaram de poder dormir na areia negra da praia.

_ É para evitar ataque “lafaek” (crocodilo).

- Não! É para proteger tsunami!

_ Não! É para parar o mar que comeu terra desde o tempo dos portugueses.

Povo heróico, de guerras de David e Golias, atraído pelo gigantismo do inimigo, ora frente à Indonésia, ora exigindo o seu mar de Timor frente à Austrália, ou contra o mar, pois então, esse mar que come Timor desde o tempo dos portugueses que aliás, tiveram um, chamado Dinis, que temendo o mesmo diminuir do território português, plantou pinheiros, nas areias, frente às ondas.

E tentam barrá-lo, sustê-lo, pés de galo, centenas, num muro gigante com quilómetros de extensão.

Este mar já viu tudo, o timorense também e se pacifico como o mar, não quer esquecer.

Assim o provam as ruínas frente ao largo, queimadas, um “POLISI” azul, ainda na parede já desbotado, mas indicando que não há muito tempo esta paz que se respira, custou muito, como custa hoje recordar os que não estão porque teimaram em ser um País.

Sempre gostou Carlos Novais de países originais para o seu tempo, por isso, também começava a estar enfeitiçado (chamam feiticeira à ilha) por aquela terra, julgo única no mundo, com governos de coligação entre Bispos e Che Guevaras que faziam sentido.

Tudo isto lhe passava pela cabeça, salto atrás de salto, ladeio atrás de ladeio.

Em breve estaria na escola e matutava no que já fizera nos últimos anos.

Tinha vindo como professor do primeiro ciclo e sem mais, começou a leccionar no segundo.

Pediam-lhe agora que desse uma disciplina de 7° ano, Educação Cívica e Direitos Humanos.

Coragem a deste povo de ter metido assim, toma e já está, esta disciplina nos currículos de Timor, mostrando que não teme a liberdade frente ao futuro.

Há muito que defendia em Portugal, esta disciplina na escola portuguesa e tinha feito um CESE (Curso de Estudos Superiores Especializados) essa trampa de complementos de formação com que enganaram os professores do primeiro ciclo, por forma a escancararem as portas das escolas primárias a todos os formados de outras áreas em troca de poderem meter um Dr. nos livros de cheques e nas publicações que recebem da Deco.

Vinte anos depois, Carlos Novais teve uma oportunidade de dar oportunidade ao bolor desses três anos e aceitou.

Bateu com a moeda no vidro da janela da "Biscota", o sol tinha ido para outras paragens e a noite cobria já Manatuto.

Estava a crescer de dia para dia, ele e o Município.

Reparou com gosto que nestes dias, tinha aberto o supermercado dos chineses, o restaurante tinha sido pintado, os pés de galo avançavam margem fora e já iam a caminho da igreja.

Encontrou o segurança da escola nova, em construção há três anos, mas com uma das partes já pintada de cor-de-rosa, a outra, andando.

- Então Kolega (amigo)? Quando temos escola nova?

- Quase professor, quase, já vai ter vidro na janela. Chegaram, tão aí, e também veio mais tinta para pintar.

A nova escola era esperada por todos, até lá, usavam umas instalações emprestadas que com muita imaginação e trabalho, faziam realçar cores e vida, bons sintomas de alegria.

Pneus pintados, materiais feitos artesanalmente, programas desdobrados em invenções diárias que substituíssem os manuais escolares que existem mas não chegaram e por isso se usavam os telemóveis, os computadores particulares e cada professor dava o máximo de si próprio.

Carlos Novais, tinha comprado um projector e com ele pensava nessa nova disciplina que iria começar a leccionar.

Comprara-o em Bali, atraiçoando a filha pequenina que queria um computador no natal e viu passar a promessa para o aniversário.

Levantou-se às seis e meia como habitualmente, com o sol, comprou o pão, fez café, "matou o bicho", só depois tomou banho e se vestiu.

A carrinha chegou às sete horas e trinta, cinzenta.

Se fosse ele a mandar, há muito que seriam vermelhas, verdes, azuis, cinzento? Cor mais feia para quem inicia uma semana de trabalho que se quer de festa, porque ensinar e aprender, se não for uma festa, é um aborrecimento sem sentido.

Os primeiros noventa minutos, correram bem, os nomes, os sonhos, aquelas coisas das apresentações.

Não eram meninos, eram rapazes e raparigas, confusos como todos os adolescentes, descobrindo respostas para depois procurar caminhos.

Da janela da escola via-se o mar.

A pedra bateu na jante de carro suspensa (o sino) e saíram para o recreio.

Carlos ficou sentado no gosto do silêncio.

Nada é gostoso durante muito tempo.

De repente, ouviu-se um estrondo rompendo a calma, a seguir, mil ruídos de mil estilhaços e por fim, outra calmaria, mas de destroços.

Uma bola, como uma bala, tinha rompido a janela da sala e os vidros estavam espalhados por tudo o que era sítio.

Carlos Novais saiu e fez a pergunta rotineira:

- Quem foi?

Obviamente que não tinha sido ninguém.

Lembrou-se da sua nova disciplina.

É o medo que impede muitas vezes o assumir das responsabilidades.

_ Não importa, eu também parti muitos vidros a jogar à bola, temos é que assumir as responsabilidades, parti, pronto, está partido, fui eu, já está.

_ Um rapagão repetiu:

_Fui eu, já está.

Carlos Novais, preparou-se para o brilho.

_ Tu tinhas uma equipa, não jogavas sozinho, quem era a tua equipa?

Nada, o rapaz estava isolado, nem acusava, nem ninguém vinha em seu auxílio.

Carlos explicou o que era ser uma equipa, a necessidade uns dos outros, a camaradagem, um daqueles discursos pedagógicos que marcam ou tentam marcar.

- Não há nenhum problema, a não ser que temos que colocar outro vidro e limpar isto. Julgo que se uma equipa é tudo o que vos expliquei, será melhor assumirem a responsabilidade. Tiro os nomes, aponto a equipa, reponho o vidro e cada um paga uns centavos, quantos mais, melhor, não vai este pobre que se enganou na baliza, pagar o vidro sozinho e limpar a sala, além disso, esta escola não é nossa, foi-nos emprestada.

Vendo que o terreno estava macio, os rapazes da equipa de futebol, acusaram-se, deram os nomes e para surpresa de Carlos Novais, um perguntou:

_ E os da outra equipa também podem entrar no pagamento?

_ Se querem podem, mais barato fica a cada um.

Todos os rapazes do sétimo ano se prontificaram a pagar o vidro que o professor iria comprar.

Carlos Novais estava satisfeito e mais satisfeito ficou, quando depois do almoço, os rapazes lhe trouxeram um vidro para a janela, resolvendo eles mesmo o problema.

Rejubilou.

Fez-lhes um elogio sentido, o valor do espírito de grupo.

Registou nas suas memórias para contar aos seus netos.

A sua auto-estima profissional disparou, subiu aos céus, acima das nuvens.

Ah grande Piaget das montanhas, Freinet do Suco, Kohlberg de Manatuto e arredores, inchado, como só poderiam inchar os perus com êxito antes do natal.

Tudo terminou quando o segurança das obras da escola nova apareceu:

_ Professor Carlos, os meninos desta escola, ao almoço, roubaram um vidro e fugiram para aqui.

(…)

in O Que Foste Lá Fazer?
( em elaboração )

miércoles, 1 de agosto de 2018

A MULHER DO SARGENTO ESPANHOL / 3. A Chegada do Professor Primário (O terceiro capítulo de cheirinho)








3.  A Chegada do Professor Primário

Chegou à aldeia com uma mala, em 1970. Pousou-a no chão do café da Josefa quando ainda estavam vivos e faziam parte do pulso da aldeia, o marido de um lado e o Esteves do outro da estrada. Nesse ano, era o Costa um rapaz que caçava ninhos, a filha da Josefa ajudava no café quando saía da escola, a Mariana nem sonhava vir a casar-se com o Fagundes Fonseca e a Glorieta ainda fazia os petiscos da taberna.
Tal como o leite que começa a ferver, nada estava mudado, mas tudo estava em mudança.
África continuava a ter províncias portuguesas. A guerra estava assumida como quem tem que vestir um casaco quando faz frio. As previsões eram meteorológicas, e as gentes, acostumadas aos enganos dos boletins da televisão, sabiam que se dissessem que iria fazer sol, poderia chover, ou se dissessem que as trovoadas ameaçariam, poderia sair um dia de céu azul e limpo. Pelo sim pelo não, saía-se sempre com o guarda-chuva, pois os barcos iam e vinham e os homens iam sem saber se voltavam.  
O Eusébio aterrorizava o Sporting, mas não o suficiente para que o Benfica não perdesse o campeonato nesse ano. Lembram-se do Dinis? Foi ele quem marcou o golo que derrotou o Benfica. Ana Maria Lucas ganhou o concurso de Misse Portugal, Joaquim Agostinho a Volta e tudo era mexido, e dado a dedo, a quem via a RTP 1 com menos de 12 horas por dia de emissão e pela RTP 2 que não chegava às 3 horas diárias, com a grande antena de ferro no início e a bandeira mais hino no final.
Começava, no entanto a sentir-se a fervura, pois a licença de isqueiro acabou em maio, Simone de Oliveira apesar de insultada, continuava a cantar “a desfolhada”, fazendo filhos por gosto na exaltação do vermelho milho rei, e Salazar, depois de dois dias no Mosteiro dos Jerónimos em câmara-ardente, partiu para Santa Comba Dão em retiro perpétuo, depois de grande passeio numa carrinha, dessas dos hippies, Volkswagen, cortada a partir da cabina para a urna ser visível e despedir-se do país em caixa aberta.
A mala do viajante chegado ao café da Josefa tinha os cantos cobertos com metal, cantoneiras que reforçavam a proteção do cartão. Era castanha escura, e os dois fechos dourados com buraquinho para a chave faziam adivinhar o grande diário que em si mesma continha.
Colocou o chapéu de feltro no balcão como quem coloca uma pedra de damas em tabuleiro de mármore. Agarrado por cima, com cuidado e precisão. O homem procurava uma pensão. Depressa correu pela aldeia que o novo professor tinha chegado.
Fernando António Figueiredo Mata, seu nome completo, Fernando Mata, o que utilizava, só Fernando para amigos íntimos e família, e o Batalha, como era conhecido na tropa, não por ter participado em alguma de referência, mas porque tinha nascido no local, perto de Leiria, onde D. João I mandou construir o Mosteiro que embora tenha o nome de Santa Maria da Vitória é conhecido apenas por Mosteiro da Batalha, esse sim em homenagem à sessão de pancadaria entre Portugal e Castela e que como um foguete de lágrimas deixou pinceladas de cor nas lendas de um povo que queria ser país: a Padeira de Aljubarrota, a Ala dos Namorados, a grande ideia da colocação das tropas em quadrado, com os cavalinhos espetados nas lanças das valas e a castelhanada, com as pesadas e lustrosas armaduras, no chão, sem se levantarem do peso e com as gargantas, os sovacos e as partes baixas ao alcance das lendárias espadas Alfagemanas de Santarém, e por aí fora, porque país sem história é apenas povo, e esse é sempre anónimo, herói sem nome, acabando sempre num só símbolo de soldado desconhecido, em campa rasa.
A gaiatagem depressa se dedicou a espiar o novo professor que dentro de dias iria partilhar o mesmo espaço na escola, mais os rapazes do que as raparigas, pois as meninas eram todas alunas da Dona Antónia Tavares, que fazia já parte da aldeia como o coreto, o mesmo que seria responsável, anos mais tarde, pelos falsos gases da filha da Josefa.
Da primeira à quarta classe. Duas salas. Rapazes e raparigas, um professor a quem chamavam Senhor Professor e uma professora a quem chamavam Minha Senhora.
-Já avisámos a Alzira, Senhor Professor, o melhor quarto da Pensão Luz está a ser preparado para si.
Fernando Mata sorveu o café.
- A escola não tem casa?
- Ter tem Senhor Professor, a Dona Antónia ainda aí morou, mas já lá vão muitos anos, está a ver, o filho mais velho dela está agora na tropa e era pequenino quando vieram para a aldeia...
Novo sorvo.
- Está suja?
- Suja? A cair de podre Senhor Professor e cheia de pombos, autorizados pela Junta à Sociedade Columbófila da terra.
Último sorvo. Chávena solta no pires, chapéu na cabeça e mala na mão.
- Bem, vamos lá então conhecer a Alzira, casa de pombos, casa de tombos – e riu-se, pelo que todos se sentiram na obrigação de rir também.
Uma lambreta cinzenta parou na rua. Duas referências brancas, os dentes e o colarinho, estenderam a mão num cumprimento de cumplicidade. A igreja e a escola encontraram-se na rua principal.
-Sou o padre Cabral, dou-lhe as boas-vindas.
O professor tirou o chapéu e soltou o nome Fernando. Trazia o convite para o chá em casa da Dona Antónia, às dezassete horas, estaria também o farmacêutico. Chá ou vinho enrolou com palmadinha nas costas o padre Cabral.
A Pensão Luz era uma casa de família, com quintal e cão na frente. Uma escada com grade de ferro pintada de branco levava à porta principal. Duas laranjeiras de laranjas no Natal e um limoeiro de limões todo o ano eram vistas de cima na porta de casa. Alzira alugava quartos, e tinha hóspedes certos como o Chefe dos Correios, o Gerente do Banco Nacional Ultramarino e agora o professor. O quarto era limpo, sem luxos, pequena mesa com candeeiro de bicha metalizado e com uma janela como um olho gigante sobre a planície.
Alzira era filha de Dona Francisca, a fundadora da pensão, e de Luís Pinheiro, hoje já na casa dos que Deus tem. Foram os pais que depois de anos emigrados em França, trouxeram as poupanças e construíram a casa. Deixaram de fazer camas lá, para as fazerem cá, de jardinarem lá, para jardinarem cá, de cozinharem lá, para cozinharem cá, no que era deles. Os sacrifícios que passaram muitas vezes com as estrelas a servirem-lhes de teto, levaram-nos a chamar Luz à pensão.
A sua estrela arrancada aos céus franceses, a sua luz colocada na sua aldeia.
Hoje era Alzira que fazia as camas, lavava as toalhas, fazia as comidas e regava o jardim, onde duas santinhas de pedra estavam colocadas lado a lado, a Virgem de Lourdes e a Virgem de Fátima. Quando o pai era vivo, chegaram a ter sempre duas bandeiras desfraldando com o vento ou adormecendo-se nele, a tricolor francesa e a bicolor portuguesa com a sua esfera armilar, cujos caminhos também tinham ensaiado. Alzira tinha um irmão, mas esse, como todos os irmãos da mesma idade, estava para África, forçando a que a bandeira das quinas se mantivesse noutro mar, mesmo com mortes no capim.
Pelas dezassete horas, o professor Fernando Mata, estava a ser recebido em casa da colega Antónia, onde já estava o padre Cabral e o farmacêutico Luís de Sousa. Uma serviçal com avental branco trazia a bandeja de prata com o bule a fumegar. Falou-se do tempo no início e em política no final, sem discussões, todos os presentes eram defensores do hino, da bandeira e do patriotismo. Como veio para professor? Por vocação. E você Padre? Por vocação. E você Doutor? O farmacêutico sem mexer um músculo, mas também sem modificar uma letra ou entoação, disse também, por vocação.
Mentiam todos.
A única acariciada pela vocação era a Dona Antónia, que desde pequena, brincava às escolas e aos puxões de orelhas.
O Padre Cabral, nascera em Alcaria, uma aldeia da margem do Zêzere já crescidinho pelos degelos da Serra da Estrela, mas onde a pobreza era escura como a broa e onde o chão, rochoso, era inimigo da fartura. Na escola, o menino Cabral filho do coveiro da aldeia era esperto para as letras e quando chegou a altura de decidir sobre emigrar ou seminário, optou pelo seminário e acomodado por lá ficou.
O farmacêutico, bem que gostaria mais de se ter dedicado às letras, especialmente à poesia, mas a farmácia acompanhava a família desde os avós e era um destino. Foi para Lisboa a mando do pai onde foi um aluno medíocre na Faculdade de Farmácia e acabou o curso a pago de perus no Natal, borregos na Páscoa e fruta fresca todo o ano, acompanhado de imensos pedidos e recomendações de um primo da mãe que era ministro.
Fernando Mata acabou professor por amor. Com quinze anos, viveu o seu primeiro romance de borboletas e água das pedras com a filha de um funcionário público. Com dois anos de mãos dadas escondidos nos jardins públicos, ou descendo e subindo as ruas lado a lado, confessaram um ao outro futuro eterno. Quando a escola do Magistério Primário se estendeu da capital de província para a capital do distrito, o sonho de ser professor mostrou-se fácil à carteira do pai que assim pôde mandar estudar os filhos sem necessidade de deslocá-los. Maria Catarina passou assim a usar bata branca e a juntar-se às cinquenta meninas que iriam dois anos depois ser espalhadas pelas escolas públicas do regime. Bastava-lhes naquele tempo ter um sentido rigoroso da moral, acreditar na trilogia Deus, Pátria e Família, usar meias de vidro e saias dois dedos abaixo dos joelhos. Calças nunca. O diretor tinha até o chefe dos contínuos autorizado, a que ao subir as escadas que levavam às salas de aula, pudesse beliscar as pernas das futuras senhoras professoras, com o objetivo de ver se tinham ou não meias e de imediato, caso tocasse as pernas nuas e firmes, comunicar à Direção, que neste caso era ele, o Diretor, nomeado por Diário do Governo em cargo perpétuo.
As meninas com namorado tinham-nos todos em fila, de casaco, gravata e lenço no bolso, esperando a saída da escola a trezentos metros daí, numa linha de meta imaginária, frente à tasca do Capote na rua que baixava para o Café Alentejano, a sala de espera. As namoradas chegavam, e eles ali, sem dar um passo, que encurtasse a distância fixada. Uma ou duas com mais idade, já com casamento autorizado para os poucos meses que faltavam para a queima das fitas e a missa da praxe, podiam ser levantadas na porta como encomendas desde que os destinatários nunca entrassem no edifício, e sempre depois de uma autorização escrita do pai da menina entregue ao diretor, em papel azul, de vinte e cinco linhas, selado e começado sempre da mesma maneira: Eu… abaixo assinado – e acabado também formatado, assinatura e data depois do: Pede deferimento.
Aqui começaram os problemas de Fernando Mata.
O governo de Salazar, pai exemplar, acima de cada pai, foi quem criou a lei sobre as autorizações de casamento das senhoras professoras. Se lhes pagara a formação, e lhe pagava um ordenado sentia-se na obrigação e o pior era que no direito também, de protegê-las, como pastor de ovelhas com dono. Havia que evitar a todo o custo a figura parasitária do marido da professora, que corrompia a moral e sem trabalho vivia de um ordenado que não era seu. Então, naquela ânsia de tudo ter bem atado, num novelo cuja ponta estava sempre nos seus dedos, o governo da nação proibiu o casamento das senhoras professoras com quem não tivesse um emprego digno, como, para eles, empregado de banco, funcionário público ou empresário com provas dadas e salários superiores e onde o casamento entre professores, senhor professor e minha senhora, era o mais autorizado, como também o era o de minha senhora e funcionário das finanças.
Viu-se assim, Fernando Mata, por amor a Maria Catarina a apresentar-se ao exame de admissão da Escola de Magistério, onde os homens tinham privilégios especiais de entrada, vá-se lá saber o porquê, pelo menos com professores não se colocava a questão de autorizar casamentos.
O melhor tempo do seu amor com Maria Catarina foi o do seu primeiro ano como aluno da escola, aluno único, com namoro autorizado com a menina da bata branca que estava no segundo e quase a sair como professora, quase pronta para escrever nessas almas infantis, como dizia Junqueiro, gravado no parque infantil da Cidade, essas almas virginais onde tudo quanto nelas se grava não se apaga mais, quase preparada para escrever e gravar, nessas almas brancas como a neve, nessas pérolas de leite, o cunho como ferrete de um país cinzento que usava as senhoras de bata branca, para unificar o pensamento eternamente.
Maria Catarina começou a sua carreira de professora primária na escola de Monte Sete, uma herdade com um casarão com oitenta quartos vazios, lareiras apagadas, biblioteca sem ser lida e cabeças de javalis e veados, dentes de javalis, cornos de veado, javalis e veados e mais javalis e veados a forrarem os corredores e os salões. Fechados todo o ano. A família proprietária vivia em Lisboa e apenas abriam a casa uma ou duas vezes no outono onde faziam festas após as caçarias com dezenas de carros de marca parados no pátio. A mulher do pastor tinha a chave, a senhora Conceição, e abria as janelas uma vez por semana para que a humidade não embolorasse a pele dos cadáveres e os tapetes de Arraiolos. Dona Conceição tinha sete filhos e vivia com o marido numa choça de pedra e telhado lusalite todo o ano. A bondade dos senhores era tanta, que construíram uma escola, com mesas, cadeiras e quadro preto, onde o vento entrava pelas frinchas e os pardais defecavam no chão. Sete alunos tinha a escola. Os filhos do pastor e da senhora Conceição. Colaborava o Ministério com a bondade desta ilustre família, motor de desenvolvimento, empregando logo nas tarefas do campo os alunos a partir dos dez anos, mas ensinando o ofício, tarefa dos pais, bem mais cedo. Dar de comer ao gado, ajudar no pastoreio, ordenhar as ovelhas, alimentar as galinhas, cuidar dos cães, soltar as perdizes e bater os javalis nos dias de caçaria. Por isso mesmo o Ministério de Educação agradecia o esforço colocando anualmente um professor presente de outubro a julho, todos os dias, desde que a ribeira não enchesse e impossibilitasse o acesso. Quando as professoras eram insuficientes, colocavam o que designavam como Regentes Escolares, que sabiam ler, escrever e contar, eram normalmente solteironas e algumas vezes, antes ou depois, acabavam como amantes escondidas, dos donos das herdades, não todas, obviamente, algumas havia que colocavam um gosto nas tabuadas, nos mapas, nas réguas de medir e de esfolar, e beatas quase todas, levantavam o dedo aos patrões e ameaçavam-nos com o Bispo.
Nesta escola começou Maria Catarina a trabalhar, alojada num quarto da aldeia mais próxima, indo a casa nas sextas-feiras à tarde onde lavava as roupas da cama e enchia as marmitas que levava com comida feita aos domingos, para aquecer em banho-maria durante o resto da semana, enquanto falava de barcos a quem nunca tinha visto o mar, de estações de caminhos-de-ferro a quem nunca tinha visto um comboio, de aviões que sabiam ser pequeninos lá no ar, viam-nos às vezes quando passavam nos dias sem nuvens, embora as abetardas fossem muito maiores e nunca voassem isoladas, e de rios, grandes, dizia a Senhora, e compridos, de norte a sul do mapa de Portugal, maiores, muito maiores do que a ribeira da aldeia no inverno, embora fossem pequenas linhas azuis que a Senhora dizia serem grandes e se a Senhora dizia era porque sabia... e de um outro mapa com pretinhos nus que cantavam o hino nacional com as bandeirinhas de Portugal nas mãos.
Foi difícil o primeiro ano de trabalho de Maria Catarina e o último de Fernando Mata na Escola de Magistério. Viam-se pouco. Ele, assediado por quarenta e nove batas brancas, ela rejeitando os presentes que o filho do patrão, o Senhorito, como lhe chamava a senhora Conceição, insistia em trazer-lhe de Lisboa, nas visitas que aumentaram da sua parte à herdade nesse ano.
Estiveram no verão, já professores os dois, com os pais dela, numa residencial em Setúbal, na Avenida LuísaTody. Da janela do quarto dele viam o Sado e o movimento dos barcos de pesca fronteirando com Tróia. Aí passaram horas com planos e beijos, pois à noite, Catarina voltava ao outro quarto onde dormia com os pais, não fosse o diabo tecê-las, que nessa altura o biltre, ao contrário dos dias de hoje, era adverso do prazer.
Foi a última vez que estiveram juntos.
Fernando Mata recebeu a guia de marcha para se apresentar no Centro de Recrutamento Militar de Leiria, daí para Santa Margarida e de Santa Margarida para Santarém, último quartel antes de desembarcar em Moçambique.
- Tens que mudar de escola, Maria, não te quero aí sozinha.
Partiu como furriel e juras de se casar por procuração. Fotografia de um e do outro, nos dois lados do mar, frente a frente, só um coração de cada lado, ela com o pai como padrinho, ele com alguém de confiança que poderia vir a conhecer e em último caso, um oficial do seu batalhão que convidaria se necessário, com dois notários a perguntarem se sim, se para toda a vida.
Os aerogramas começaram a voar entre oceanos, primeiro muitos, depois menos, até se estabilizarem num por mês, às vezes dois, até passarem a um de dois em dois, o que significava por ano, seis para lá, seis para cá, se o tempo se prolongasse para além da estação das chuvas e do regresso definitivo.
O furriel Batalha tinha para além de participar nas colunas militares mato dentro, que ensinar a ler os companheiros, muitos, que o não sabiam fazer, pois trocaram cedo o giz pela enxada, pelo cajado, e estes pelas G3 que os acompanhavam a diário e com quem dormiam como esposas. Maria Catarina mudou para nova escola, desta vez para o Gavião, onde conheceu a Alierta, uma açoriana desinibida que a convenceu a concorrer para os Açores no ano seguinte. E acabou por ir, TAP primeiro e SATA depois até às ilhas, onde se sentia útil cuidando meninos ranhosos e com a cabeça compartindo os piolhos com o sonho, o sonho de embarcar, acenando com lenço branco na proa de qualquer barco que os levasse dali.
Enquanto o furriel Batalha pensava diariamente sobreviver, Maria Catarina pensava em viver. Foi assim, que pisou os telhados do vulcão dos Capelinhos, que se molhou nas águas quentes das praias de São Miguel, com os pés enterrados na areia preta que fazia com que os corpos em calções parecessem andar todos de peúgas, comeu o cozido à portuguesa feito nos buracos das furnas com o calor da terra, comeu figos no Pico das figueiras rastejantes que saltavam os muros, bebeu vinho de cheiro, comeu ananás e polvo cozido, cavacos e lapas, fotografaram as lagoas, provou a aguardente amarela de São Jorge, respirou as hortênsias que dividiam as propriedades nas Flores, assistiu à captura solidária das últimas baleias, provou o gin tónico do Peter na Horta e até um dia, no Cais, embarcou num navio de carga, o Ponta Delgada, e visitou o Corvo, onde o barco ficava fora por falta de porto e os passageiros desembarcavam na praia a remos como no cinema. Cem habitantes tinha a ilha e moravam na mesma rua em casas sem chaves nem fechaduras e onde existia apenas um veículo motorizado, concretamente um trator que puxava uma zorra e onde os aventureiros turistas pagavam trezentos escudos, para de pé e agarrados uns aos outros, subirem até à cratera do vulcão.
O furriel Batalha, exatamente onze meses depois de ter sido engolido por África e quando lhe faltavam sete para terminar a comissão de serviço, pediu ao alferes Faial, com ordem de marcha para férias merecidas, que mandasse saudades para a sua terra e deu-lhe a morada de Maria Catarina para que lhe entregasse em mão uma carta, com fotografias suas barbudas e de camuflado, ora encostado a um tanque, ora na asa de um avião parado com focinho de tigre pintado, ora com um pretinho ao colo com a mãe ao lado, de boas carnes e mamas de fora, ora afagando uma macaquinha com correia ao pescoço, que acabou por trazer do Continente Africano e já na aldeia, anos mais tarde e já crescidita, foi levada para a quinta do Papafina, onde muitas vezes os meninos da escola iam ver África, o nome que tinha a macaca e que era conhecido por todos.
Tudo lhe foi devolvido quando o alferes Faial regressou dos Açores para se incorporar à guerra.
- Temos que falar.
Sentaram-se debaixo de um embondeiro, duas grades vazias de cerveja, de madeira húmida, como bancos, uma garrafa de VAT 69 a beber sem copo.
- Não a vi. Já lá não está. Não cheguei a dar-lhe nada. Toma.
Tirou o envelope dobrado do bolso chapado das calças.
- E não sabes nada?
- Sim pá, é melhor que bebas e esqueças - e estendeu a garrafa depois de lhe limpar o gargalo.
Maria Catarina tinha partido para os Estados Unidos, grávida de três meses, deixando os alunos sonhando com barcos, e acompanhada pelo açoriano que conhecera na Horta e com quem combinou passar o resto da vida.
Fernando Mata nunca mais soube nada dela.
Começou a esquecê-la naquela primeira garrafa e apenas ficou com a profissão, da qual passou a viver quando foi desmobilizado e que o levara até a casa da Dona Antónia, para tomar chá com o farmacêutico e com o Padre Cabral.

In A MULHER DO SARGENTO ESPANHOL
A sair em Dezembro.