lunes, 8 de mayo de 2023
UMA EXPOSIÇÃO PARA O PÚBLICO E PARA AS ESCOLAS DE PORTALEGRE
miércoles, 24 de agosto de 2022
PROGRAMA DE DIA 8 DE OUTUBRO CAMPO MAIOR SERÁ A CAPITAL EUROPEIA DE TIMOR-LESTE
lunes, 16 de mayo de 2022
CONTINUO A ESCREVER PARA O LUSITANO DE ZURIQUE (REVISTA DE MAIO)
Um livro que passou para livro de contos e que continua a ser escrito, ponto por ponto, conto por conto e que às vezes publico partes, como este mês na Revista Lusitano.
A Revista dos emigrantes de Zurique.
Para quem quiser ler, aqui fica.
Do nosso Cantinho para
o vosso Cantão
Este mês ofereço uma história das minhas aventuras pelo
Oriente que faz parte do livro de contos “O Que Foste lá Fazer?” sobre
Timor-Leste.
As Freiras
As cadeiras de bambu
têm sobre elas, almofadas compradas perto. Vendem-se na plantação de casitas de
artesanato ao lado das gigantes bananeiras de fruto pequeno e doce que
aproveitam os passantes, ou passeantes que param, frente à fortaleza
portuguesa, canhões enferrujados virados para o vasto e ritmado azul. O mar,
esse mar incomensurável, arrastava-se até às ilhas indonésias que se avistavam
e mudava de cor, azul petróleo, álcool ou céu, às vezes verde, tons escuros,
raiados pelo branco das ondas baixas mas fortes, como os homens, embrulhando-se
cadenciadamente nas pedras soltas da praia de areia negra mas suave, como os
cabelos das crianças, mexendo-se na insegurança dos corais cortantes, cores
vivas e abrigo de peixes pintados de arco-íris, como os “tais” coloridos das
mulheres da ilha.
Do lado de cá do
baile do mar com a praia, antes das casitas, atravessa-se a estrada, passa-se a
fortaleza, a montanha sobe sem alcatrão e visita o café, a canela e o ananás,
que o Avô Serra metia na mesa, servido de histórias e de palavras de tempo, que
confundem o homem velho e sábio, com a história de Timor, o homem (hoje já
falecido) com raiz portuguesa que chegou há muito e ficou, como o crocodilo da
lenda.
Carlos Novais tinha
ido de Liquiçá a Maubara, numa “microlete” que mandou parar e que não gritava
“Díli, Díli, Díli” mas “Bara, Bara, Bara”, pequenina, peluches cobrindo o tablier tapando o vidro da frente, já só
meio, pelo autocolante do Barcelona que cobria a metade superior e rivalizava
com um Cristiano Ronaldo pintado nos laterais exteriores. Porta aberta com dois
rapagões de bronze, cabelos atados e chinelos, meio dentro meio fora,
pendurados, porque dentro iam senhoras tímidas, peles sofridas pelo sol e
trabalho, dentes vermelhos da última masca, “tais” sujos de pó, mas pés com
asseio, unhas cortadas e bicos de galinhas que espreitavam por baixo dos
assentos.
“Bara, Bara, Bara” e parou como um regaço fresco na estrada
quente. Carlos entrou e com ele o colega com quem tinha combinado visitar
Maubara, romper a clausura da ilha em que sentia a sua escola e respirar, outro
ar, longe das obras poeirentas que atravessavam a localidade onde estava, desde
que o avião o deixou naquela aventura, e só regressaria para o levar, com os
reis magos, pelo natal, para poder estar a horas no presépio da sua casa. Tinha
Maumeta, o suco onde morava, praia também, baleias à vista algumas vezes,
golfinhos quase sempre, crocodilos não se pensava nisso, mas estava muito
próximo da escola onde estava há pouco mais de um mês, a gosto quando o
trabalho era a gosto, forçado quando lhe começaram a forçar o gosto. Mesmo o
amor passa a desamor quando obrigado sem obrigado, e não precisava que lhe
agradecessem, bastava que o deixassem fazer o que sabia, aliás, julgo que a
única coisa que julgava saber fazer, ser professor, dar e receber todos os
dias. Despistar nortes, emprestar rumos e receber outros saberes, emprestar uma
bússola, falar da estrela polar, e receber, nem que fosse um sinal de fumo ou
de bandeiras, compensada com a visão do cruzeiro do sul. Afecto só sentia o de
alunos, pais e funcionários, porque os nortes que eram dados por quem levava o
leme, afastava a nau da terra, no convencimento de que os instrumentos de
orientação de bordo, porque importados, eram seguros, infalíveis mesmo, e o
pior, inquestionáveis, e se falhavam as velas pelo óbvio, tudo a remar,
transformando a nau em galé. Ambos estavam a precisar de sentir a parte de
fora, aquela outra vida que não parava, diferente, desconhecida para eles,
misteriosa, feiticeira, como alguém lhe chamara. Saíram assim para a parte de
fora da galé, sem tambores, e soube-lhes bem o ar, o mar e as gentes que
falavam de outras coisas que nunca tinham ouvido, de outra forma, línguas que
nunca tinham escutado, de outras maneiras de sentir, formulários que tinham
necessidade de preencher sem ser os outros, aqueles que faziam cumprindo, e a
que nem sequer, se atreviam a perguntar para que serviam?
Talvez agora, não repetissem aqueles coelhinhos de uma
Páscoa, celebrada ali de outra forma, feitos de embalagens vazias de iogurte e
de saberes de rua, importados para uma escola de um país, onde os coelhos são
tão conhecidos como os pinguins em África. Claro que se tinham que misturar, de
conhecer cheiros e risos e descobrirem que a lua ali não é mentirosa, porque
naquela tarde a viram em forma de barco e na anterior de fatia de melão, quais
quartos crescentes e minguantes? Qual quê? E as fichas? A praga das fichas? Com
feiras e carrosséis, meninos loiros e algodão doce nas mãos? E os exames?
Fechados e dignos, desenhados em segredo por adultos “especialistas” para terem
um resultado de espionagem secreta para saber o que os meninos não sabem em vez
de os estimularem pelo que aprenderam? Demasiado fechados, policiados,
ritualistas.
- Estamos a falar de crianças Carlos?
- Pois, o problema é esse, é que estamos a falar de crianças.
Estava decidido, tinham que começar a sair! A estrada de
Liquiçá para Maubara é uma língua recente, salpicada de animais que dão cor ao
alcatrão novo como o novo país, animais que estavam antes das máquinas lhes tirarem
o espaço e agora, que as máquinas partiram, o reocuparam, e usam-no, com tempo,
com todo o tempo do dia e da noite.
- Olha Carlos, a Lagoa.
À esquerda, uma manta líquida, espelho de uma família de
pelicanos que se duplicavam no reflexo da água, limpa hoje, outrora manchada de
vermelho, que a metralha castigava com a vida, um povo que queria ser país.
_ É por isso que se chama Lagoa Vermelha?
O silêncio respondeu que sim, o espelho de água reflectiu a
paz, e o voo dos pelicanos mostrou um país. Maubara apareceu de repente, com as
suas casotas de artesanato, a fortaleza de canhões enferrujados apontando para
o mar, hoje sem medo do que as ondas lhes trazem. A microlete parou, Carlos
perguntou a que horas havia uma de regresso, em português, nada, em inglês,
igual, gestos, dedo indicador apontando o relógio, mão aberta para dizer cinco
horas, arranhou tétum, também não. O timorense pequenino mostrou os dentes
brancos num sorriso de entendimento, sim, disse, Carlos Novais mão aberta e
dedos esticados, cinco horas, ele respondeu sim de novo, e tornou a responder
sim a tudo, sempre com um sorriso de que finalmente entendera. Gustavo, olhar
de observador soltou, parece que percebeu, vem às cinco. Carlos Novais fez-lhe
adeus, o timorense também e a microlete envolta em fumo de escape voltou para
trás. Missionariamente (o adjectivo existe porque o criei na liberdade que a
escrita me dá para inventar) Carlos comentou: Acabamos sempre por nos entender
- e ficou a olhar o mar. A tarde passou, cinco, cinco e meia, seis horas e
Gustavo na estrada suspirou com ironia: Acabamos sempre por nos entender –
Carlos não respondeu, apenas pensava que a noite estava a chegar e tinham que
regressar.
- Vem aí uma Toyota de caixa aberta, nova, aposto que tem ar
condicionado.
Nasceu a esperança e fizeram sinal para que parasse, ao
longe, bem antes de estar junto deles.
- Eh pá, espera, não a mandes parar, porra, vem carregada de
freiras!
Era tarde por um lado, mas por outro parecia que estava a
abrandar. E abrandou. E parou, não por eles, mas porque três homens carregados
com um enorme cacho de bananas também lhes fez sinal.
- Para as meninas do orfanato.
Começaram a atar o cacho pendurado na traseira.
Carlos Novais contou sete freiras na parte cabinada e cinco,
bem mais novas, juvenis até, na parte aberta da carrinha.
- Vamos lá?
- Não temos nada a perder.
Aproximaram-se da madre e perguntaram se podiam ir com elas
para Liquiçá. Desconfiadas, dois homens, um corpulento, o outro barbudo, a
sorte parecia perdida quando uma delas com sotaque espanhol disse:
_ Está cheio!
Carlos Novais puxou dos galões de homem sério, casado, pai de
filhos, professor, honesto, incapaz de uma má palavra, muito menos de um mau
gesto.
_ A irmã é espanhola? A minha esposa também. Vem a Timor em
Agosto…
Milagre.
A sua ordem também era, iam receber a visita de uma sua
superiora, que bom era mulher do Carlos ser espanhola… Aproveitando a embalagem
Gustavo disse “espanhola e professora, até podia ensinar castelhano enquanto
aqui estiver, de forma voluntária, às meninas do orfanato, ou às irmãs que
quiserem”. Carlos olhou para ele, que nem tão pouco a conhecia, mas com a noite
a cair, confirmou, que sim, poderia fazê-lo e também chinês e grego e latim,
por favor, que os tirassem dali.
_ Têm é que ir atrás, com os mantimentos.
_ Não faz mal, muito obrigado (lembrou-se que eram freiras)
Deus vos pague.
Gustavo, ágil, saltou para a caixa, já Carlos Novais teve que
ser puxado, julga mesmo que também empurrado, pelos três homens que tinham
acabado de atar as bananas. Deu-se conta que estava dentro quando caiu redondo
e com estrondo no meio dos sacos de batatas, hortaliças, duas galinhas, um
cabrito de patas atadas com arame e ele ali, agora sentado, cabelos ao vento,
com as noviças rindo do espectáculo que se lhes oferecia. A Toyota avançou, as
freiras mais velhas na cabina, atrás na caixa Carlos, Gustavo, e as freiras
novinhas que riam, com as mãos na boca, e falavam tétum entre elas, entremeado
com gargalhadas, que tudo indicava, seriam de gozo perante aqueles “malaes”,
que se tinham junto aos mantimentos. Carlos Novais tentou colocar ordem na
viagem e perguntou:
_ Vamos cantar?
_ Sim, Sim…
Puxou então das suas memórias religiosas, de quando se vestia
de acólito, aos Domingos, na sua paróquia de S. Lourenço em Portalegre, as
namoradas que não sabiam que eram, apenas desconfiavam, lindas e vestidas de
novo, as gentes perfumadas esperando a saída para o encontro na porta da
igreja, naquela missa do meio-dia que marcava a Cidade como um ritual. O padre
como rei, ele como pajem branco, levando-lhe as armas para aquele enorme campo
de prisioneiros arrependidos, de joelhos, mãos postas, mas perdoados quarenta
minutos depois para brilharem no alto da escadaria da igreja, naquele ritual de
cores, de sorrisos de festa culminante de uma semana, passada no cinzentismo de
sete dias iguais, onde nada acontecia. Em segundos percebeu que nenhuma canção
desse tempo, com cheiro a incenso, medo e bafio, era apropriado perante
religiosas tão novas e lembrando-se de anos mais tarde, pensou em canções mais
modernas, de quando um concílio lhe mudou os Domingos, arrumando os véus
negros, o órgão queixoso que nem parecia instrumento de música e trazendo as
guitarras (nada tenho contra os órgãos, o Toy Eustáquio que me perdoe, embora
tenha optado pelas cordas nos últimos tempos), as palmas, os abraços e a festa,
para dentro da mesma casa, com as velhas beatas a resmungar, mas cantando,
tentando acompanhar as ordens do tempo, embora continuassem a cheirar a velas e
a azeite e a imprimir lentidão nas melodias.
Foi então que Carlos Novais ganhou coragem e começou cheio de
esperança, voz bem colocada, festivo, com palmas a acompanhar:
_ Tenho um Amigo que me ama, que me ama, que me ama…
Correu bem, todas cantaram, mas sem muita alegria.
Carlos começou logo outra:
_ Sou Pescador, do mar da Galileia, deixa o teu barco …
_ Não, Não, Não…
Ó diabo, se calhar a letra não era aquela, as freirinhas não
gostavam e, só entendeu o motivo, quando uma disse alto:
_ Júlio Iglésias, Júlio Iglésias… - e as outras em coro e
alvoroço:
_ Sim, Sim, Sim…
Aragonez Marques
martes, 11 de enero de 2022
ESTE MÊS A MINHA CRÓNICA NO LUSITANO DE ZURIQUE FOI SOBRE "AS FESTAS DO POVO", PATRIMÓNIO CULTURAL E IMATERIAL DA HUMANIDADE.
"DO NOSSO CANTINHO PARA O VOSSO CANTÃO"
... desde que fui surpreendido para representar como escritor Portugal no 10 de Junho, no mesmo ano em que as celebrações foram em Portalegre.
Mas esta é uma ocasião especial.
Campo Maior em Festa!
Este dia em que escrevo, 15 de Dezembro de 2021, ficará para
sempre na história cultural do nosso cantinho, especialmente na Vila de Campo
Maior. Durante toda a semana esteve reunido em Paris o 16º Comité da UNESCO
onde a candidatura das Festas do Povo (a festa das flores de papel) que, quando
o povo decide, transforma toda a localidade num enorme jardim de ruas
engalanadas, figurava com uma Candidatura a Património Cultural e Imaterial da
Humanidade.
Hoje, dia 15, a Candidatura foi classificada ao início da
tarde.
Não é só o Fado, o Cante Alentejano, a Loiça de Bisalhães, os
Chocalhos de Alcáçovas, os Bonecos em barro de Estremoz e os Caretos de
Podence, agora temos também as Festas do Povo de Campo Maior.
Pela primeira vez a crónica que tinha escrito para este
número desta revista, foi para a gaveta esperando nova oportunidade.
Esta é a notícia, não poderia passar sobre ela e, neste
primeiro número de Janeiro de 2022, ela aqui está para o vosso Cantão.
Com orgulho desde que se soube, o povo saiu à rua e foi-se
juntando espontaneamente com as suas pandeiretas e com o cantar das suas
“saias” no Jardim Municipal. O reconhecimento pela UNESCO destas suas festas
deixou cheios de vaidade os Campomaiorenses.
No próximo número apresentarei uma entrevista com o Exmº.
Senhor Presidente da Câmara Municipal de Campo Maior. Ele nos contará mais
sobre estas festas que se perdem no tempo e a sensação que teve quando viu as
mesmas classificadas como Património Cultural e Imaterial da Humanidade pela
Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO).
De imediato o contactei para agendar a entrevista a que, obviamente, pelo
carinho que tem à sua terra e a todos os imigrantes dela ou fora dela, acedeu.
Portugal ficou mais rico em divulgação e o povo, cujas mãos
bordam com as suas mãos, filigrana em papel, sentiu premiada a magia de um
trabalho secular.
Parabéns por este 2022 histórico que nos apareceu, com
trabalho à porta. Começamos o ano de forma surpreendente.
O novo ano chegou como prenda de Natal 16 dias antes.
No próximo número ficaremos a saber mais, a história das
festas, o processo de candidatura, quando se realizarão as próximas e o
entranhado destas flores de papel, coração das suas gentes, pela voz do nosso
Presidente da Câmara.
Onde vou agora? ... É simples, vou juntar-me ao povo que já
faz soar os cantares e a festa pela Vila.
Obviamente, levo a pandeireta!
As últimas Festas do Povo (das flores) foram em 2015, quando
o Povo Quis, as próximas são para já, porque mais do que nunca o Povo Quer.
Que a pandemia o não impeça... Poderão ser só em 2023.
Bom ano para todos.
Iremos encontrar-nos em breve nestas ruas floridas desta
localidade em festa, que muitos de vós conheceis, mas que hoje foram dadas a
conhecer em todo o mundo.
Também os “Tais” de Timor-Leste, tecidos artesanalmente em
pequenos teares improvisados, receberam esta semana a mesma distinção, ou
parecida infelizmente: Património Cultural da Humanidade em Necessidade de
salvaguarda urgente.
Conhecedor deste povo Timorense que tudo vence, apesar das
dificuldades, a começar pela sua Independência da Indonésia, sei que os “Tais”
não desaparecerão.
Estou duplamente feliz.
Aragonez
Marques
Nota:
Para o próximo mês, onde será publicada uma entrevista ao Senhor Presidente da Câmara de Campo Maior, virei aqui novamente.
Deixo-vos a capa da Revista de Janeiro, de uma foto tirada sobre uma mesa.
Na próxima peço ajuda ao meu amigo fotógrafo Joaquim Candeias.
Bom Ano.
jueves, 14 de octubre de 2021
SIM. CONTINUO SEM INTERRUPÇÕES A ESCREVER NO LUSITANO DE ZURIQUE.
Do Nosso Cantinho para o vosso Cantão
Novo ano letivo e um Senhor chamado Sampaio
Talvez da idade, quem sabe, cada vez que começa a escola,
menos vontade tenho de trabalhar. Quarenta e dois anos de serviço e aí estou,
com sessenta e quatro de idade, a fazer mais um, nesta reforma que tarda e vai
aumentando, não em benefícios, mas em tempo. Agora, aumentaram mais um mês,
grão a grão vão enchendo o papo da galinha, sessenta e seis anos e sete meses.
Os meus colegas tratam-me por você, alguns foram alunos meus
e andam com contratos a prazo, correndo o país, numa volta a Portugal, paga do
seu bolso, procurando uma camisola amarela que lhes permita parar, casar, ter
filhos, e alguns, andam nesta volta há 15 anos, contrato a contrato, quilómetro
a quilómetro.
Comecei ontem, depois de com duas doses da vacina, me terem
de novo escarafunchado o nariz. Precavidos, ao mesmo tempo que entregam aos
alunos manuais escolares já escritos e mal apagados, metendo na casa de cada
um, para uso diário, livros que vêm sabe lá de quem, apagados por gente que se
desconhece e cortando aquela alegria que todos nós tivemos dos livros e
materiais novos, que nos faziam começar o ano cheios de curiosidade. Desinfetam
mesas e cadeiras a toda a hora, cada professor recebeu um conjunto de máscaras
e marcadores para escrever nos quadros, individuais, não podem os alunos trocar
materiais o – empresta-me uma borracha? – acabou, é perigoso, mas metem livros
inapropriados, usados na casa de milhões de crianças portuguesas, sem se saber
as suas origens, enquanto as bibliotecas escolares, têm fitas vermelhas e
brancas, a trancar os livros que não podem ser requisitados…pela pandemia que
continua.
Talvez seja da idade, mas ando confuso e tenho preguiça até
de reclamar. Tenho tanta coisa que gostava de fazer ainda, e a escola come-me o
tempo, sem entender que já não corro, não salto à corda, não brinco da mesma
forma com os meus alunos, só sentado na cadeira ou no sofá ou ainda, no chão
com o meu neto.
Sou avô.
A minha escola está cheia de avós e apesar de vários
concursos abertos, não há professores. Não há mais corredores de fundo para
entrarem na corrida da volta a Portugal. Na escola de formação de professores
do meu distrito, este ano, saíram zero professores. Ainda se matricularam três,
mas mudaram de curso a meio.
Tenho preguiça e ontem, senti vergonha de a ter.
Portugal acordou de luto com o desaparecimento de Jorge
Sampaio. Desde as lutas académicas, passando pela Câmara de Lisboa onde
erradicou as barracas, pela Presidência da República onde se empenhou na causa
de Timor-Leste, onde foi pessoalmente três vezes, muitas noites sem dormir, uma
vontade indomável de apoiar uma saída digna para aquele povo, e já velho,
mandou parar o carro quando viu os senhores da Troica a tomarem café numa
pastelaria. Entrou nela aquele furacão ruivo, como lhe chamou Marcelo Rebelo de
Sousa, aproximou-se da mesa, dedo erguido e com o seu inglês perfeito
confrontou-os:
- Os senhores não sabem nada deste país!
Foi olhando para a vida deste Homem, que senti vergonha da
minha preguiça, da minha desistência.
Vou continuar.
Há pessoas que nos fazem mudar com seu exemplo.
Aragonez Marques
miércoles, 18 de agosto de 2021
UM CHEIRINHO / Capítulo 48 de "A TABERNA DE AVELINO CAMEJO", muito em breve nas casas de leitores e amigos.
Foi para o rio talvez
procurando a sua corrente, que tudo leva e tudo lava. As mulheres, que como
correntes de água se cruzaram na vida de Alfredo Frazão, estavam catalogadas
por ele, armazenadas nos cinco oceanos.
Conheceu mulheres frias, belas
como os glaciares, escondidas na enormidade da surpresa, revelando apenas as
pontas, icebergues que apenas se revelavam superficialmente, com todo um
mistério submerso, medo e armadilha nas profundezas, mais escondido na escuridão
do que o que mostravam frente à luz. Não prolongava as relações, eram curtas,
duravam o suficiente para saber que tinha que sair daí. Nada era produtivo, as
sementes não se fixavam, não originavam novas vidas, novas esperanças. Eram
apenas momentos, belos e aventureiros, adrenalina de sobrevivência, lindos e
raros em fotografias, não conhecidas pelo mundo, artesanato onde nenhuma peça é
igual entre si, mas cansativas pela continuidade do colorido. Inseto preso
momentaneamente em teia de aranha invisível. Cruéis, punhais gélidos erguidos
ao céu, mas que bastava uma ponta de calor, para lhes inverter a direção.
Passava Alfredo rapidamente a alvo das suas lâminas de gelo afiado. Pouco
confiáveis, sem conseguirem ser porto de abrigo, temia-as e com o tempo, foi-se
afastando delas, fechando portas e janelas, regressando ao calor do berço.
Abandonou-as na prateleira do
Ártico e do Antártico.
Conheceu também mulheres azuis-escuras
e profundas. Enormes, vastas até ao infinito. Céu coberto de milhões de
estrelas. Mulheres que se deixavam tocar nos seus limites por outras águas,
outros caminhos. Calmas e embaladoras em linhas sem horizontes nem fronteiras.
Gigantescas e tranquilas na pose, no seu território com caráter. Albergadoras
de ilhas, milhares, como filhos amados. Braços e dedos abertos na vastidão,
mas…há sempre um mas…com limites, que uma vez ultrapassados as tornavam
ciclónicas, iradas, devastadoras, ondas de cinquenta metros, rodopiando em
todos os sentidos e ventos despertos e cansados de tanta calmia, transformados
em remoinhos sem controlo, devoradores de barcos e passaporte para as terras
que as comprimiam, levando gentes engolidas na raiva da espuma. Sabia-se que
depois dessa fúria, regressava sempre a bonança, como em qualquer temporal e
também sabia Alfredo, que essas fúrias eram passageiras. Conheceu bastantes,
temperamentais, mas meigas, bofetada e carícia. Às vezes procurava na
prateleira, Pacífico, a memória de uma ou outra que gostava de recordar.
Também conheceu mulheres de
canela, mais odores que cheiros, mais sabores do que gostos. Mulheres curiosas,
ou espelhos da sua curiosidade? Diferentes, mistérios a descobrir debaixo das
sedas coloridas, das danças teatrais com cheiros a incenso ou dos pés descalços
debaixo do tecido grotesco, mas simples, bordado pelas suas mãos nos seus
teares artesanais, que faziam nascer as cores. Nunca soube distinguir uma
chamuça de um cabelo comprido, um pescoço altivo de um cheiro a sândalo. Mesmo
quando os rostos lhe estavam vedados por telas que lhe impediam de sentir o
respirar, descobria nos olhos, batiam como um coração e levavam-no, a adivinhar
o que escondiam e a aumentar o prazer, depois da queda do pano, neste caso da
abertura, como num teatro, recheado de mistério e aguçado pela descoberta.
Nunca se atreveu a trazer nenhuma, a não ser uma vez uma macaense, uma mistura
diasporiana, que rapidamente se deu conta que estava matando dia a dia, como
papoila arrancada da terra no Alentejo. Deixou-a ir, soltou-a. Tudo menos vê-la
a definhar-se-lhe nos braços. As mulheres que conheceu nessas paragens, só
podiam ser saboreadas lá, nunca trazidas para mundos desconhecidos. Guardava-as
todas numa prateleira a que chamava, Indico.
Restavam as Atlânticas, as que mais e melhor conheceu. Deram-lhe filhos continuadores de vidas. Caravelas. Caminhos. Saltos de Oceano em Oceano. Mestiçagem.
A mulher que guardava na
prateleira Atlântico era um caldo de destinos, história e culturas. E não me
venham falar desenquadradamente da escravatura. Sim, fora de contexto, de
ignorância temporal. Escravos aqueles que trabalham hoje por pouco ou nenhum benefício.
As que continuam a ser vítimas de violência de género e todos os que apesar do
conhecimento dos dias de hoje, fecham os olhos às desigualdades, neste mundo
hoje globalizado onde tudo se sabe, mas nada se faz. Mas as nossas origens, a
nossa história é a das descobertas, a dos passos em frente, a da curiosidade,
mesmo que forçada, no atrevimento de conhecer, de experimentar, de destapar, de
perceber o que estava no outro lado da cortina do conhecimento, num mapa plano
que acabava no Cabo Finisterra, na Galiza. Era nacionalista Alfredo Frazão e
orgulhoso da sua terra. O Atlântico, como as mulheres que guardava aí, nessa
prateleira de catálogo, era caminho e mudavam de cor e ritmos, entre a Europa,
a África ou o Brasil. Caminho e mistura de abraços de outros oceanos, outras
gentes.
Mas caramba, Fernanda não podia ser catalogada. Tinha o pior de cada oceano. Amanhã, quando falasse com Avelino, era forçoso tomar decisões. Iria contar-lhe tudo e pedir-lhe ajuda, que mais não fosse, um ombro.
Vinham-lhe à cabeça as piores imagens da sua vida e amaldiçoava a hora em que dissera a Sebastião que a filha podia ficar na sua casa. Deveria ter empregado um “poderia”, condicional a que tivesse acrescentado um “se”. Agora era tarde, não passava de um pobre velho nas mãos de uma vivente de experiências para ele desconhecidas.
(...)
In "A Taberna de Avelino Camejo"
No prelo.
lunes, 28 de junio de 2021
CONTINUO A COLABORAR COM A REVISTA LUSITANO DE ZURIQUE
Esta é a minha colaboração de junho. A Amelia (felizmente) está agora assoberbada de trabalho. Será obviamente colocada no site de Filigrana Editora, mas para já, decidi colocá-la ao serviço dos meus leitores, ela apresentará toda a revista a seu tempo.
No site da Filigrana Editora sairá a notícia completa.
Estou vivo, mas ainda não reformado da escola.
Cá vai.
VOLTEI E PERCEBI O AVISO
Era um dia normal. Acordei e sentei-me na cama, esforçando-me por despertar completamente como o fazia há muito tempo e com tempo. Por alguma razão, com a escola ao lado de casa, me levantava às seis e trinta da manhã para começar a trabalhar às oito e quinze. Tempo suficiente para ir ao “careca”, depois do duche rápido, comer a bifana com mostarda que se tornara num ritual. Depois, às sete e trinta, acordava as gaiatas e as brigas pois só tenho uma casa de banho.
Mas dizia eu que estava sentado na cama, aqueles sagrados minutos que me ajudavam a despertar. Estive a olhar para baixo, ganhando coragem, analisando as unhas dos pés naqueles movimentos de dedos a quem mentalmente dizia:
- Está na hora.
Também como rotina, deixar-me dormir com a televisão do quarto acesa, era normal. Apagava sozinha programada para desligar duas horas depois de ligada. O comando acabava sempre enrolado nos lençóis, mas naquele dia, sentado na cama e movimentando os pés, vi que estava no chão, metade escondido debaixo da cama. Dobrei-me e estiquei o braço direito para o apanhar e colocar na banquinha. Fui incapaz de agarrá-lo e naquele momento, pensei que tinha dormido sobre ele e estivesse adormecido. Embora não sentisse qualquer “formigueiro”, decidi abaná-lo e foi só nesse momento que me apercebi que estava paralisado, do ombro até à ponta dos dedos, inerte, morto, sensação de impotência. Nesse instante, começou a invadir-me o medo e acordei a minha mulher:
- Tenho o braço e a mão paralisados.
Acordou e sentou-se num repente, corpo em ângulo de noventa graus:
- Meu Deus, tens a boca torta.
Foi o sinal para sairmos rápido de casa a caminho do Centro de Saúde de Campo Maior. Pouco tempo aí estive, apenas o suficiente para a chegada de uma ambulância amarela, me estenderem numa maca, de ter passado a estar atado e a olhar apena para cima, ouvindo ainda dizer:
- A Senhora não pode ir, apenas o doente.
- E para onde o levam?
- Não sabemos, receberemos ordens pelo caminho, irá para o primeiro sítio onde tiver lugar para ser atendido de urgência.
Vivíamos uma situação de Covid extrema e os hospitais, inchavam como vacas prenhas.
Desde que de barriga para o ar deixei de ver o céu azul e apenas o tecto branco da ambulância com o reflexo das luzes pelas janelas opacas e o som da sirene que gritava a todos “fujam da frente”, toda a minha vida passou como uma curta metragem onde me vi pequenino, os meus pais, os meus avós, os amigos da escola primária, as namoradas, as minhas filhas, o correr apressado de uma vida que naquele momento descobri pobre, inútil, desperdiçada.
Ouvi o motorista dizer ao companheiro:
- Para Elvas já não vamos, está cheio, mandaram-nos para Portalegre.
O companheiro disse-lhe:
- Se não chegarmos aí e nos mandarem para Évora...
Eu ali, longe da família, olhar no tecto da ambulância, impotente, entregue a duas pessoas que nunca tinha visto e que devido às máscaras, apenas tinham olhos.
- Ficamos aqui, Portalegre, estão já à nossa espera.
Estavam, baixaram-me a maca e começaram a correr com ela corredores dentro, lembro-me de muitas vozes e do tecto passar sobre mim à velocidade das árvores quando andamos de comboio. Meteram-me em várias salas onde me faziam exames, acho que todos, e de uma correria para outras salas e outros todos.
Se vos escrevo é porque o susto passou e eu, mais do que um defensor do Serviço Nacional de Saúde, tornei-me seu admirador.
Agora que apenas estou pendente de alguma fisioterapia, sinto-me na obrigação de vos contar que depois deste tempo já sem risco e em família, levei duas vacinas, a da Astrazeneca e a da noção de que os nossos “grandes” problemas, são gotinhas não de chuva, mas de neblina.
A vida há que vivê-la sem estar numa panela de pressão onde a ambição, a inveja, o medo e tantos outros vírus, são para quem alimenta a panela, a mais perigosa das pandemias, e o curioso é que estes vírus também matam.
A primeira coisa que fiz quando saí do hospital, foi as pazes com o meu vizinho, que parava sempre o carro em frente à minha porta.
Assim continuo, agradecendo o aviso que recebi.
Sejam felizes!
Aragonez Marques
















