lunes, 8 de mayo de 2023

UMA EXPOSIÇÃO PARA O PÚBLICO E PARA AS ESCOLAS DE PORTALEGRE




Está patente na Biblioteca Municipal uma Exposição, inaugurada no dia 6, na homenagem ao Professor Cabé, numa organização da Câmara Municipal de Portalegre, com a colaboração de Filigrana Editora.
Esta Exposição ficará aberta ao público e destina-se às Escolas de Portalegre, pelo que aqui fica o convite para que professores e alunos possam beneficiar da proximidade de outras formas de vida e cultura.
(Fotos gentilmente cedidas por Flávia Silva, estagiária na Biblioteca Municipal de Portalegre)




 A Exma. Presidente da Câmara de Portalegre, Engª. Fermelinda Carvalho, deixando o convite e saudando os presentes.

FOTOS SOLTAS



 












Tudo o resto encontrará no Convento de Santa Clara, Biblioteca Municipal.
Prepare a sua turma e não falte.
Esperamos por vós.

miércoles, 24 de agosto de 2022

PROGRAMA DE DIA 8 DE OUTUBRO CAMPO MAIOR SERÁ A CAPITAL EUROPEIA DE TIMOR-LESTE

 



Tudo começou com o livro de Amelia Bravo Vadillo, prefaciado pela Dr.ª Lurdes Bessa, Embaixadora de Timor-Leste na Suíça, Embaixadora Extraordinária e Plenipotenciária da República Democrática de Timor-Leste para o Principado do Mónaco e Representante Permanente para os escritórios das Nações Unidas e outras Organizações Internacionais em Genebra. 



Como acompanhantes virãa Dr.ª Isabel Amaral  Guterres, Embaixadora de Timor-Leste em Portugal e a Dr.ª Marina Ribeiro AlKatiri, Embaixadora Permanente de Timor-Leste junto da CPLP.


Quando começam a surgir mais pessoas como o Padre Vítor Milícias (nomeado, em 1999, Comissário Nacional para o Apoio à Transição em Timor-Leste), Dr. Rui Silva (Coordenador Geral da Missão Humanitária Portuguesa em Timor-Leste, no mesmo período), Eng. Abrantes (Responsável pela reconstrução da eletricidade no novo país, representando a EDP), Tenente Coronel Luís Candeias (Campomaiorense que durante vários anos foi assessor do Governo Timorense), Dr. Loro Horta ( ex- Embaixador de Timor-Leste em Cuba e filho do Presidente da República de Timor-Leste e Prémio Nobel da Paz, Dr. Ramos-Horta), assim como a sua tia Licínia Ramos-Horta ( irmã do Presidente da República de Timor-Leste e Nobel da Paz Dr. Ramos-Horta, atualmente na Polícia Judiciária em Portugal), Dr. Daniel Braga ( Presidente da Associação Amparar Timor- TANE TIMOR do Porto), Arquiteto João Tolentino (Autor de maquetes de casas de Timor e de Fotografias das casas expostas no livro de Ruy Cinatti), Dr. Jorge Santos ( Autor de uma exposição "Timor a Ilha Feiticeira), Dra. Ana Golaio (Coordenadora do Centro Escolar Rui Nabeiro que faz parte do Agrupamento) e Dr. Jaime Carmona (Diretor do Agrupamento de Escolas de Campo Maior), Presidentes de Elvas, Arronches, Portalegre (Terra do Cabé a quem é também dedicado este livro e que irá aí logo que possível), Presidente da Câmara de Ponte de Sor (Onde vive a Lígia e que logo que me queixei do projeto me disse de imediato que teria que ser feita uma apresentação e com as exposições abertas ao seu agrupamento), Rui Marques ( Organizador do Lusitânia Expresso), Rui Cardoso Martins (Escritor, que como jornalista nessa altura, fez parte da aventura do Lusitânia Expresso), Francisco Manso (Realizador de uma série a ser apresentada na RTP "Os abandonados" sobre Timor-Leste, Gabriela Carrascalão (pintora, ligada às artes, casada com José Cid, que não colocou os seus quadros por estarem expostos nesta data, na Casa de Cabo Verde, mas que prometeu a presença dos mesmos em novos eventos), a nossa Teresa Nora que vem à sua terra propositadamente de Moçambique... e todos os dias vai aparecendo mais gente, especialmente professores e professoras, vindas de todo o país para estarem presentes neste evento, assim como militares que serviram Timor.

Viu-se a Amelia assim obrigada, ela que é uma aventureira boa aproveitadora de recursos, a transformar este dia num dia que fosse uma homenagem a um País que quem esteve, não esquece.

Planificar um dia assim, necessitava de ajuda, encontrada na Câmara Municipal, no Agrupamento de Escolas e a quem estamos muito agradecidos, o Sr. Comendador Rui Nabeiro, que nos cedeu todos os espaços.

Segue assim o:
 PROGRAMA


O almoço teve que ser organizado, com as respetivas surpresas num local pertencente ao Grupo Nabeiro, onde se organizam casamentos e grandes eventos, pois o limite dos restaurantes era de 100 pessoas.
 Ficamos em mesas de 6 ou 8 pessoas e poderão servir-se de tudo o que vos apetecer, as vezes que entenderem.
É o melhor momento para nos encontrarmos

Menu 



Dentro em breve mais informações serão divulgadas no site de Filigrana Editora.
                                   www.filigrana-editora.pt

Qualquer dúvida ou informação utilize o telefone:   964 149 081

lunes, 16 de mayo de 2022

CONTINUO A ESCREVER PARA O LUSITANO DE ZURIQUE (REVISTA DE MAIO)


 Este mês, acabei por publicar um extrato de "O Que Foste Lá Fazer?

Um livro que passou para livro de contos e que continua a ser escrito, ponto por ponto, conto por conto e que às vezes publico partes, como este mês na Revista Lusitano. 

A Revista dos emigrantes de Zurique.




Para quem quiser ler, aqui fica.

Do nosso Cantinho para o vosso Cantão

Este mês ofereço uma história das minhas aventuras pelo Oriente que faz parte do livro de contos “O Que Foste lá Fazer?” sobre Timor-Leste.

As Freiras

As cadeiras de bambu têm sobre elas, almofadas compradas perto. Vendem-se na plantação de casitas de artesanato ao lado das gigantes bananeiras de fruto pequeno e doce que aproveitam os passantes, ou passeantes que param, frente à fortaleza portuguesa, canhões enferrujados virados para o vasto e ritmado azul. O mar, esse mar incomensurável, arrastava-se até às ilhas indonésias que se avistavam e mudava de cor, azul petróleo, álcool ou céu, às vezes verde, tons escuros, raiados pelo branco das ondas baixas mas fortes, como os homens, embrulhando-se cadenciadamente nas pedras soltas da praia de areia negra mas suave, como os cabelos das crianças, mexendo-se na insegurança dos corais cortantes, cores vivas e abrigo de peixes pintados de arco-íris, como os “tais” coloridos das mulheres da ilha.

Do lado de cá do baile do mar com a praia, antes das casitas, atravessa-se a estrada, passa-se a fortaleza, a montanha sobe sem alcatrão e visita o café, a canela e o ananás, que o Avô Serra metia na mesa, servido de histórias e de palavras de tempo, que confundem o homem velho e sábio, com a história de Timor, o homem (hoje já falecido) com raiz portuguesa que chegou há muito e ficou, como o crocodilo da lenda.

Carlos Novais tinha ido de Liquiçá a Maubara, numa “microlete” que mandou parar e que não gritava “Díli, Díli, Díli” mas “Bara, Bara, Bara”, pequenina, peluches cobrindo o tablier tapando o vidro da frente, já só meio, pelo autocolante do Barcelona que cobria a metade superior e rivalizava com um Cristiano Ronaldo pintado nos laterais exteriores. Porta aberta com dois rapagões de bronze, cabelos atados e chinelos, meio dentro meio fora, pendurados, porque dentro iam senhoras tímidas, peles sofridas pelo sol e trabalho, dentes vermelhos da última masca, “tais” sujos de pó, mas pés com asseio, unhas cortadas e bicos de galinhas que espreitavam por baixo dos assentos.

“Bara, Bara, Bara” e parou como um regaço fresco na estrada quente. Carlos entrou e com ele o colega com quem tinha combinado visitar Maubara, romper a clausura da ilha em que sentia a sua escola e respirar, outro ar, longe das obras poeirentas que atravessavam a localidade onde estava, desde que o avião o deixou naquela aventura, e só regressaria para o levar, com os reis magos, pelo natal, para poder estar a horas no presépio da sua casa. Tinha Maumeta, o suco onde morava, praia também, baleias à vista algumas vezes, golfinhos quase sempre, crocodilos não se pensava nisso, mas estava muito próximo da escola onde estava há pouco mais de um mês, a gosto quando o trabalho era a gosto, forçado quando lhe começaram a forçar o gosto. Mesmo o amor passa a desamor quando obrigado sem obrigado, e não precisava que lhe agradecessem, bastava que o deixassem fazer o que sabia, aliás, julgo que a única coisa que julgava saber fazer, ser professor, dar e receber todos os dias. Despistar nortes, emprestar rumos e receber outros saberes, emprestar uma bússola, falar da estrela polar, e receber, nem que fosse um sinal de fumo ou de bandeiras, compensada com a visão do cruzeiro do sul. Afecto só sentia o de alunos, pais e funcionários, porque os nortes que eram dados por quem levava o leme, afastava a nau da terra, no convencimento de que os instrumentos de orientação de bordo, porque importados, eram seguros, infalíveis mesmo, e o pior, inquestionáveis, e se falhavam as velas pelo óbvio, tudo a remar, transformando a nau em galé. Ambos estavam a precisar de sentir a parte de fora, aquela outra vida que não parava, diferente, desconhecida para eles, misteriosa, feiticeira, como alguém lhe chamara. Saíram assim para a parte de fora da galé, sem tambores, e soube-lhes bem o ar, o mar e as gentes que falavam de outras coisas que nunca tinham ouvido, de outra forma, línguas que nunca tinham escutado, de outras maneiras de sentir, formulários que tinham necessidade de preencher sem ser os outros, aqueles que faziam cumprindo, e a que nem sequer, se atreviam a perguntar para que serviam?

Talvez agora, não repetissem aqueles coelhinhos de uma Páscoa, celebrada ali de outra forma, feitos de embalagens vazias de iogurte e de saberes de rua, importados para uma escola de um país, onde os coelhos são tão conhecidos como os pinguins em África. Claro que se tinham que misturar, de conhecer cheiros e risos e descobrirem que a lua ali não é mentirosa, porque naquela tarde a viram em forma de barco e na anterior de fatia de melão, quais quartos crescentes e minguantes? Qual quê? E as fichas? A praga das fichas? Com feiras e carrosséis, meninos loiros e algodão doce nas mãos? E os exames? Fechados e dignos, desenhados em segredo por adultos “especialistas” para terem um resultado de espionagem secreta para saber o que os meninos não sabem em vez de os estimularem pelo que aprenderam? Demasiado fechados, policiados, ritualistas.

- Estamos a falar de crianças Carlos?

- Pois, o problema é esse, é que estamos a falar de crianças.

Estava decidido, tinham que começar a sair! A estrada de Liquiçá para Maubara é uma língua recente, salpicada de animais que dão cor ao alcatrão novo como o novo país, animais que estavam antes das máquinas lhes tirarem o espaço e agora, que as máquinas partiram, o reocuparam, e usam-no, com tempo, com todo o tempo do dia e da noite.

- Olha Carlos, a Lagoa.

À esquerda, uma manta líquida, espelho de uma família de pelicanos que se duplicavam no reflexo da água, limpa hoje, outrora manchada de vermelho, que a metralha castigava com a vida, um povo que queria ser país.

_ É por isso que se chama Lagoa Vermelha?

O silêncio respondeu que sim, o espelho de água reflectiu a paz, e o voo dos pelicanos mostrou um país. Maubara apareceu de repente, com as suas casotas de artesanato, a fortaleza de canhões enferrujados apontando para o mar, hoje sem medo do que as ondas lhes trazem. A microlete parou, Carlos perguntou a que horas havia uma de regresso, em português, nada, em inglês, igual, gestos, dedo indicador apontando o relógio, mão aberta para dizer cinco horas, arranhou tétum, também não. O timorense pequenino mostrou os dentes brancos num sorriso de entendimento, sim, disse, Carlos Novais mão aberta e dedos esticados, cinco horas, ele respondeu sim de novo, e tornou a responder sim a tudo, sempre com um sorriso de que finalmente entendera. Gustavo, olhar de observador soltou, parece que percebeu, vem às cinco. Carlos Novais fez-lhe adeus, o timorense também e a microlete envolta em fumo de escape voltou para trás. Missionariamente (o adjectivo existe porque o criei na liberdade que a escrita me dá para inventar) Carlos comentou: Acabamos sempre por nos entender - e ficou a olhar o mar. A tarde passou, cinco, cinco e meia, seis horas e Gustavo na estrada suspirou com ironia: Acabamos sempre por nos entender – Carlos não respondeu, apenas pensava que a noite estava a chegar e tinham que regressar.

- Vem aí uma Toyota de caixa aberta, nova, aposto que tem ar condicionado.

Nasceu a esperança e fizeram sinal para que parasse, ao longe, bem antes de estar junto deles.

- Eh pá, espera, não a mandes parar, porra, vem carregada de freiras!

Era tarde por um lado, mas por outro parecia que estava a abrandar. E abrandou. E parou, não por eles, mas porque três homens carregados com um enorme cacho de bananas também lhes fez sinal.

- Para as meninas do orfanato.

Começaram a atar o cacho pendurado na traseira.

Carlos Novais contou sete freiras na parte cabinada e cinco, bem mais novas, juvenis até, na parte aberta da carrinha.

- Vamos lá?

- Não temos nada a perder.

Aproximaram-se da madre e perguntaram se podiam ir com elas para Liquiçá. Desconfiadas, dois homens, um corpulento, o outro barbudo, a sorte parecia perdida quando uma delas com sotaque espanhol disse:

_ Está cheio!

Carlos Novais puxou dos galões de homem sério, casado, pai de filhos, professor, honesto, incapaz de uma má palavra, muito menos de um mau gesto.

_ A irmã é espanhola? A minha esposa também. Vem a Timor em Agosto…

Milagre.

A sua ordem também era, iam receber a visita de uma sua superiora, que bom era mulher do Carlos ser espanhola… Aproveitando a embalagem Gustavo disse “espanhola e professora, até podia ensinar castelhano enquanto aqui estiver, de forma voluntária, às meninas do orfanato, ou às irmãs que quiserem”. Carlos olhou para ele, que nem tão pouco a conhecia, mas com a noite a cair, confirmou, que sim, poderia fazê-lo e também chinês e grego e latim, por favor, que os tirassem dali.

_ Têm é que ir atrás, com os mantimentos.

_ Não faz mal, muito obrigado (lembrou-se que eram freiras) Deus vos pague.

Gustavo, ágil, saltou para a caixa, já Carlos Novais teve que ser puxado, julga mesmo que também empurrado, pelos três homens que tinham acabado de atar as bananas. Deu-se conta que estava dentro quando caiu redondo e com estrondo no meio dos sacos de batatas, hortaliças, duas galinhas, um cabrito de patas atadas com arame e ele ali, agora sentado, cabelos ao vento, com as noviças rindo do espectáculo que se lhes oferecia. A Toyota avançou, as freiras mais velhas na cabina, atrás na caixa Carlos, Gustavo, e as freiras novinhas que riam, com as mãos na boca, e falavam tétum entre elas, entremeado com gargalhadas, que tudo indicava, seriam de gozo perante aqueles “malaes”, que se tinham junto aos mantimentos. Carlos Novais tentou colocar ordem na viagem e perguntou:

_ Vamos cantar?

_ Sim, Sim…

Puxou então das suas memórias religiosas, de quando se vestia de acólito, aos Domingos, na sua paróquia de S. Lourenço em Portalegre, as namoradas que não sabiam que eram, apenas desconfiavam, lindas e vestidas de novo, as gentes perfumadas esperando a saída para o encontro na porta da igreja, naquela missa do meio-dia que marcava a Cidade como um ritual. O padre como rei, ele como pajem branco, levando-lhe as armas para aquele enorme campo de prisioneiros arrependidos, de joelhos, mãos postas, mas perdoados quarenta minutos depois para brilharem no alto da escadaria da igreja, naquele ritual de cores, de sorrisos de festa culminante de uma semana, passada no cinzentismo de sete dias iguais, onde nada acontecia. Em segundos percebeu que nenhuma canção desse tempo, com cheiro a incenso, medo e bafio, era apropriado perante religiosas tão novas e lembrando-se de anos mais tarde, pensou em canções mais modernas, de quando um concílio lhe mudou os Domingos, arrumando os véus negros, o órgão queixoso que nem parecia instrumento de música e trazendo as guitarras (nada tenho contra os órgãos, o Toy Eustáquio que me perdoe, embora tenha optado pelas cordas nos últimos tempos), as palmas, os abraços e a festa, para dentro da mesma casa, com as velhas beatas a resmungar, mas cantando, tentando acompanhar as ordens do tempo, embora continuassem a cheirar a velas e a azeite e a imprimir lentidão nas melodias.

Foi então que Carlos Novais ganhou coragem e começou cheio de esperança, voz bem colocada, festivo, com palmas a acompanhar:

_ Tenho um Amigo que me ama, que me ama, que me ama…

Correu bem, todas cantaram, mas sem muita alegria.

Carlos começou logo outra:

_ Sou Pescador, do mar da Galileia, deixa o teu barco …

_ Não, Não, Não…

Ó diabo, se calhar a letra não era aquela, as freirinhas não gostavam e, só entendeu o motivo, quando uma disse alto:

_ Júlio Iglésias, Júlio Iglésias… - e as outras em coro e alvoroço:

_ Sim, Sim, Sim…

                                                                                                                                                                                  Aragonez Marques


martes, 11 de enero de 2022

ESTE MÊS A MINHA CRÓNICA NO LUSITANO DE ZURIQUE FOI SOBRE "AS FESTAS DO POVO", PATRIMÓNIO CULTURAL E IMATERIAL DA HUMANIDADE.



Não tenho deixado as minhas crónicas da 
Revista Lusitano de Zurique
 para onde escrevo, mensalmente, uma crónica chamada:

 "DO NOSSO CANTINHO PARA O VOSSO CANTÃO"

... desde que fui surpreendido para representar como escritor Portugal no 10 de Junho, no mesmo ano em que as celebrações foram em Portalegre. 

Mas esta é uma ocasião especial.



Campo Maior em Festa!

Este dia em que escrevo, 15 de Dezembro de 2021, ficará para sempre na história cultural do nosso cantinho, especialmente na Vila de Campo Maior. Durante toda a semana esteve reunido em Paris o 16º Comité da UNESCO onde a candidatura das Festas do Povo (a festa das flores de papel) que, quando o povo decide, transforma toda a localidade num enorme jardim de ruas engalanadas, figurava com uma Candidatura a Património Cultural e Imaterial da Humanidade.

Hoje, dia 15, a Candidatura foi classificada ao início da tarde.

Não é só o Fado, o Cante Alentejano, a Loiça de Bisalhães, os Chocalhos de Alcáçovas, os Bonecos em barro de Estremoz e os Caretos de Podence, agora temos também as Festas do Povo de Campo Maior.

Pela primeira vez a crónica que tinha escrito para este número desta revista, foi para a gaveta esperando nova oportunidade.

Esta é a notícia, não poderia passar sobre ela e, neste primeiro número de Janeiro de 2022, ela aqui está para o vosso Cantão.

Com orgulho desde que se soube, o povo saiu à rua e foi-se juntando espontaneamente com as suas pandeiretas e com o cantar das suas “saias” no Jardim Municipal. O reconhecimento pela UNESCO destas suas festas deixou cheios de vaidade os Campomaiorenses.

No próximo número apresentarei uma entrevista com o Exmº. Senhor Presidente da Câmara Municipal de Campo Maior. Ele nos contará mais sobre estas festas que se perdem no tempo e a sensação que teve quando viu as mesmas classificadas como Património Cultural e Imaterial da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO). De imediato o contactei para agendar a entrevista a que, obviamente, pelo carinho que tem à sua terra e a todos os imigrantes dela ou fora dela, acedeu.

Portugal ficou mais rico em divulgação e o povo, cujas mãos bordam com as suas mãos, filigrana em papel, sentiu premiada a magia de um trabalho secular.

Parabéns por este 2022 histórico que nos apareceu, com trabalho à porta. Começamos o ano de forma surpreendente.

O novo ano chegou como prenda de Natal 16 dias antes.

No próximo número ficaremos a saber mais, a história das festas, o processo de candidatura, quando se realizarão as próximas e o entranhado destas flores de papel, coração das suas gentes, pela voz do nosso Presidente da Câmara.

Onde vou agora? ... É simples, vou juntar-me ao povo que já faz soar os cantares e a festa pela Vila.

Obviamente, levo a pandeireta!

As últimas Festas do Povo (das flores) foram em 2015, quando o Povo Quis, as próximas são para já, porque mais do que nunca o Povo Quer.

Que a pandemia o não impeça...  Poderão ser só em 2023.

Bom ano para todos.

Iremos encontrar-nos em breve nestas ruas floridas desta localidade em festa, que muitos de vós conheceis, mas que hoje foram dadas a conhecer em todo o mundo.

Também os “Tais” de Timor-Leste, tecidos artesanalmente em pequenos teares improvisados, receberam esta semana a mesma distinção, ou parecida infelizmente: Património Cultural da Humanidade em Necessidade de salvaguarda urgente.

Conhecedor deste povo Timorense que tudo vence, apesar das dificuldades, a começar pela sua Independência da Indonésia, sei que os “Tais” não desaparecerão.

Estou duplamente feliz.

                                                                                                    Aragonez Marques  

 

Nota:

Para o próximo mês, onde será publicada uma entrevista ao Senhor Presidente da Câmara de Campo Maior, virei aqui novamente.

Deixo-vos a capa da Revista de Janeiro, de uma foto tirada sobre uma mesa.

Na próxima peço ajuda ao meu amigo fotógrafo Joaquim Candeias.

Bom Ano.


                

jueves, 14 de octubre de 2021

SIM. CONTINUO SEM INTERRUPÇÕES A ESCREVER NO LUSITANO DE ZURIQUE.

 


Perante perguntas que me têm sido feitas sobre se mantenho a minha crónica mensal na Suíça, claro que sim. Filigrana Editora é apenas onde edito os meus livros. Se tem deixado de noticiar regularmente as publicações, é porque lhe não compete fazê-lo. Os seus autores são livres de fazerem o que entendem no mundo editorial. Só isso, que fique claro.
Deixo a crónica deste mês:




Do Nosso Cantinho para o vosso Cantão

 

Novo ano letivo e um Senhor chamado Sampaio

Talvez da idade, quem sabe, cada vez que começa a escola, menos vontade tenho de trabalhar. Quarenta e dois anos de serviço e aí estou, com sessenta e quatro de idade, a fazer mais um, nesta reforma que tarda e vai aumentando, não em benefícios, mas em tempo. Agora, aumentaram mais um mês, grão a grão vão enchendo o papo da galinha, sessenta e seis anos e sete meses.

Os meus colegas tratam-me por você, alguns foram alunos meus e andam com contratos a prazo, correndo o país, numa volta a Portugal, paga do seu bolso, procurando uma camisola amarela que lhes permita parar, casar, ter filhos, e alguns, andam nesta volta há 15 anos, contrato a contrato, quilómetro a quilómetro.

Comecei ontem, depois de com duas doses da vacina, me terem de novo escarafunchado o nariz. Precavidos, ao mesmo tempo que entregam aos alunos manuais escolares já escritos e mal apagados, metendo na casa de cada um, para uso diário, livros que vêm sabe lá de quem, apagados por gente que se desconhece e cortando aquela alegria que todos nós tivemos dos livros e materiais novos, que nos faziam começar o ano cheios de curiosidade. Desinfetam mesas e cadeiras a toda a hora, cada professor recebeu um conjunto de máscaras e marcadores para escrever nos quadros, individuais, não podem os alunos trocar materiais o – empresta-me uma borracha? – acabou, é perigoso, mas metem livros inapropriados, usados na casa de milhões de crianças portuguesas, sem se saber as suas origens, enquanto as bibliotecas escolares, têm fitas vermelhas e brancas, a trancar os livros que não podem ser requisitados…pela pandemia que continua.

Talvez seja da idade, mas ando confuso e tenho preguiça até de reclamar. Tenho tanta coisa que gostava de fazer ainda, e a escola come-me o tempo, sem entender que já não corro, não salto à corda, não brinco da mesma forma com os meus alunos, só sentado na cadeira ou no sofá ou ainda, no chão com o meu neto.

Sou avô.

A minha escola está cheia de avós e apesar de vários concursos abertos, não há professores. Não há mais corredores de fundo para entrarem na corrida da volta a Portugal. Na escola de formação de professores do meu distrito, este ano, saíram zero professores. Ainda se matricularam três, mas mudaram de curso a meio.

Tenho preguiça e ontem, senti vergonha de a ter.

Portugal acordou de luto com o desaparecimento de Jorge Sampaio. Desde as lutas académicas, passando pela Câmara de Lisboa onde erradicou as barracas, pela Presidência da República onde se empenhou na causa de Timor-Leste, onde foi pessoalmente três vezes, muitas noites sem dormir, uma vontade indomável de apoiar uma saída digna para aquele povo, e já velho, mandou parar o carro quando viu os senhores da Troica a tomarem café numa pastelaria. Entrou nela aquele furacão ruivo, como lhe chamou Marcelo Rebelo de Sousa, aproximou-se da mesa, dedo erguido e com o seu inglês perfeito confrontou-os:

- Os senhores não sabem nada deste país!

Foi olhando para a vida deste Homem, que senti vergonha da minha preguiça, da minha desistência.

Vou continuar.

Há pessoas que nos fazem mudar com seu exemplo.

Aragonez Marques

 

 


miércoles, 18 de agosto de 2021

UM CHEIRINHO / Capítulo 48 de "A TABERNA DE AVELINO CAMEJO", muito em breve nas casas de leitores e amigos.


48. Água

Foi para o rio talvez procurando a sua corrente, que tudo leva e tudo lava. As mulheres, que como correntes de água se cruzaram na vida de Alfredo Frazão, estavam catalogadas por ele, armazenadas nos cinco oceanos.

Conheceu mulheres frias, belas como os glaciares, escondidas na enormidade da surpresa, revelando apenas as pontas, icebergues que apenas se revelavam superficialmente, com todo um mistério submerso, medo e armadilha nas profundezas, mais escondido na escuridão do que o que mostravam frente à luz. Não prolongava as relações, eram curtas, duravam o suficiente para saber que tinha que sair daí. Nada era produtivo, as sementes não se fixavam, não originavam novas vidas, novas esperanças. Eram apenas momentos, belos e aventureiros, adrenalina de sobrevivência, lindos e raros em fotografias, não conhecidas pelo mundo, artesanato onde nenhuma peça é igual entre si, mas cansativas pela continuidade do colorido. Inseto preso momentaneamente em teia de aranha invisível. Cruéis, punhais gélidos erguidos ao céu, mas que bastava uma ponta de calor, para lhes inverter a direção. Passava Alfredo rapidamente a alvo das suas lâminas de gelo afiado. Pouco confiáveis, sem conseguirem ser porto de abrigo, temia-as e com o tempo, foi-se afastando delas, fechando portas e janelas, regressando ao calor do berço.

Abandonou-as na prateleira do Ártico e do Antártico.

Conheceu também mulheres azuis-escuras e profundas. Enormes, vastas até ao infinito. Céu coberto de milhões de estrelas. Mulheres que se deixavam tocar nos seus limites por outras águas, outros caminhos. Calmas e embaladoras em linhas sem horizontes nem fronteiras. Gigantescas e tranquilas na pose, no seu território com caráter. Albergadoras de ilhas, milhares, como filhos amados. Braços e dedos abertos na vastidão, mas…há sempre um mas…com limites, que uma vez ultrapassados as tornavam ciclónicas, iradas, devastadoras, ondas de cinquenta metros, rodopiando em todos os sentidos e ventos despertos e cansados de tanta calmia, transformados em remoinhos sem controlo, devoradores de barcos e passaporte para as terras que as comprimiam, levando gentes engolidas na raiva da espuma. Sabia-se que depois dessa fúria, regressava sempre a bonança, como em qualquer temporal e também sabia Alfredo, que essas fúrias eram passageiras. Conheceu bastantes, temperamentais, mas meigas, bofetada e carícia. Às vezes procurava na prateleira, Pacífico, a memória de uma ou outra que gostava de recordar.

Também conheceu mulheres de canela, mais odores que cheiros, mais sabores do que gostos. Mulheres curiosas, ou espelhos da sua curiosidade? Diferentes, mistérios a descobrir debaixo das sedas coloridas, das danças teatrais com cheiros a incenso ou dos pés descalços debaixo do tecido grotesco, mas simples, bordado pelas suas mãos nos seus teares artesanais, que faziam nascer as cores. Nunca soube distinguir uma chamuça de um cabelo comprido, um pescoço altivo de um cheiro a sândalo. Mesmo quando os rostos lhe estavam vedados por telas que lhe impediam de sentir o respirar, descobria nos olhos, batiam como um coração e levavam-no, a adivinhar o que escondiam e a aumentar o prazer, depois da queda do pano, neste caso da abertura, como num teatro, recheado de mistério e aguçado pela descoberta. Nunca se atreveu a trazer nenhuma, a não ser uma vez uma macaense, uma mistura diasporiana, que rapidamente se deu conta que estava matando dia a dia, como papoila arrancada da terra no Alentejo. Deixou-a ir, soltou-a. Tudo menos vê-la a definhar-se-lhe nos braços. As mulheres que conheceu nessas paragens, só podiam ser saboreadas lá, nunca trazidas para mundos desconhecidos. Guardava-as todas numa prateleira a que chamava, Indico.

Restavam as Atlânticas, as que mais e melhor conheceu. Deram-lhe filhos continuadores de vidas. Caravelas. Caminhos. Saltos de Oceano em Oceano. Mestiçagem.

A mulher que guardava na prateleira Atlântico era um caldo de destinos, história e culturas. E não me venham falar desenquadradamente da escravatura. Sim, fora de contexto, de ignorância temporal. Escravos aqueles que trabalham hoje por pouco ou nenhum benefício. As que continuam a ser vítimas de violência de género e todos os que apesar do conhecimento dos dias de hoje, fecham os olhos às desigualdades, neste mundo hoje globalizado onde tudo se sabe, mas nada se faz. Mas as nossas origens, a nossa história é a das descobertas, a dos passos em frente, a da curiosidade, mesmo que forçada, no atrevimento de conhecer, de experimentar, de destapar, de perceber o que estava no outro lado da cortina do conhecimento, num mapa plano que acabava no Cabo Finisterra, na Galiza. Era nacionalista Alfredo Frazão e orgulhoso da sua terra. O Atlântico, como as mulheres que guardava aí, nessa prateleira de catálogo, era caminho e mudavam de cor e ritmos, entre a Europa, a África ou o Brasil. Caminho e mistura de abraços de outros oceanos, outras gentes.

Mas caramba, Fernanda não podia ser catalogada. Tinha o pior de cada oceano. Amanhã, quando falasse com Avelino, era forçoso tomar decisões. Iria contar-lhe tudo e pedir-lhe ajuda, que mais não fosse, um ombro.

Vinham-lhe à cabeça as piores imagens da sua vida e amaldiçoava a hora em que dissera a Sebastião que a filha podia ficar na sua casa. Deveria ter empregado um “poderia”, condicional a que tivesse acrescentado um “se”. Agora era tarde, não passava de um pobre velho nas mãos de uma vivente de experiências para ele desconhecidas.

(...) 

In "A Taberna de Avelino Camejo"

No prelo.

lunes, 28 de junio de 2021

CONTINUO A COLABORAR COM A REVISTA LUSITANO DE ZURIQUE

 Esta é a minha colaboração de junho. A Amelia (felizmente) está agora assoberbada de trabalho. Será obviamente colocada no site de Filigrana Editora, mas para já, decidi colocá-la ao serviço dos meus leitores, ela apresentará toda a revista a seu tempo.



No site da Filigrana Editora sairá a notícia completa.

Estou vivo, mas ainda não reformado da escola.

Cá vai.


VOLTEI E PERCEBI O AVISO

Era um dia normal. Acordei e sentei-me na cama, esforçando-me por despertar completamente como o fazia há muito tempo e com tempo. Por alguma razão, com a escola ao lado de casa, me levantava às seis e trinta da manhã para começar a trabalhar às oito e quinze. Tempo suficiente para ir ao “careca”, depois do duche rápido, comer a bifana com mostarda que se tornara num ritual. Depois, às sete e trinta, acordava as gaiatas e as brigas pois só tenho uma casa de banho.

Mas dizia eu que estava sentado na cama, aqueles sagrados minutos que me ajudavam a despertar. Estive a olhar para baixo, ganhando coragem, analisando as unhas dos pés naqueles movimentos de dedos a quem mentalmente dizia:

- Está na hora.

Também como rotina, deixar-me dormir com a televisão do quarto acesa, era normal. Apagava sozinha programada para desligar duas horas depois de ligada. O comando acabava sempre enrolado nos lençóis, mas naquele dia, sentado na cama e movimentando os pés, vi que estava no chão, metade escondido debaixo da cama. Dobrei-me e estiquei o braço direito para o apanhar e colocar na banquinha. Fui incapaz de agarrá-lo e naquele momento, pensei que tinha dormido sobre ele e estivesse adormecido. Embora não sentisse qualquer “formigueiro”, decidi abaná-lo e foi só nesse momento que me apercebi que estava paralisado, do ombro até à ponta dos dedos, inerte, morto, sensação de impotência. Nesse instante, começou a invadir-me o medo e acordei a minha mulher:

- Tenho o braço e a mão paralisados.

Acordou e sentou-se num repente, corpo em ângulo de noventa graus:

- Meu Deus, tens a boca torta.

Foi o sinal para sairmos rápido de casa a caminho do Centro de Saúde de Campo Maior. Pouco tempo aí estive, apenas o suficiente para a chegada de uma ambulância amarela, me estenderem numa maca, de ter passado a estar atado e a olhar apena para cima, ouvindo ainda dizer:

- A Senhora não pode ir, apenas o doente.

- E para onde o levam?

- Não sabemos, receberemos ordens pelo caminho, irá para o primeiro sítio onde tiver lugar para ser atendido de urgência.

Vivíamos uma situação de Covid extrema e os hospitais, inchavam como vacas prenhas.

Desde que de barriga para o ar deixei de ver o céu azul e apenas o tecto branco da ambulância com o reflexo das luzes pelas janelas opacas e o som da sirene que gritava a todos “fujam da frente”, toda a minha vida passou como uma curta metragem onde me vi pequenino, os meus pais, os meus avós, os amigos da escola primária, as namoradas, as minhas filhas, o correr apressado de uma vida que naquele momento descobri pobre, inútil, desperdiçada.

Ouvi o motorista dizer ao companheiro:

- Para Elvas já não vamos, está cheio, mandaram-nos para Portalegre.

O companheiro disse-lhe:

- Se não chegarmos aí e nos mandarem para Évora...

Eu ali, longe da família, olhar no tecto da ambulância, impotente, entregue a duas pessoas que nunca tinha visto e que devido às máscaras, apenas tinham olhos.

- Ficamos aqui, Portalegre, estão já à nossa espera.

Estavam, baixaram-me a maca e começaram a correr com ela corredores dentro, lembro-me de muitas vozes e do tecto passar sobre mim à velocidade das árvores quando andamos de comboio. Meteram-me em várias salas onde me faziam exames, acho que todos, e de uma correria para outras salas e outros todos.

Se vos escrevo é porque o susto passou e eu, mais do que um defensor do Serviço Nacional de Saúde, tornei-me seu admirador.

Agora que apenas estou pendente de alguma fisioterapia, sinto-me na obrigação de vos contar que depois deste tempo já sem risco e em família, levei duas vacinas, a da Astrazeneca e a da noção de que os nossos “grandes” problemas, são gotinhas não de chuva, mas de neblina.

A vida há que vivê-la sem estar numa panela de pressão onde a ambição, a inveja, o medo e tantos outros vírus, são para quem alimenta a panela, a mais perigosa das pandemias, e o curioso é que estes vírus também matam.

A primeira coisa que fiz quando saí do hospital, foi as pazes com o meu vizinho, que parava sempre o carro em frente à minha porta.

Assim continuo, agradecendo o aviso que recebi.

Sejam felizes!

                                                                              Aragonez Marques