martes, 12 de septiembre de 2017

A MULHER DO SARGENTO ESPANHOL - Mais um cheirinho mensal. Nas bancas antes do natal.



 XLI. Patry e Bahamonde

A avioneta passou sobre El Pueblo.
As mulheres e as crianças meteram-se em casa enquanto os velhos se encaixavam na taberna.
A Guarda Civil saiu para a praça.
Todos olhavam o céu enquanto sobrevoava a aldeia, cada vez mais baixa procurando nitidamente um sitio para aterrar.
Correram os militares de tricórnio para a estrada poeirenta que ligava a aldeia ao montado, “dehesa”, doada ao povo por uma herança de uma condessa sem descendência, e que antes da guerra, era lugar de romaria, especialmente em maio, dia quinze, quando todas as famílias aí se reuniam com música, cantares e sol, num enorme festim, celebrando o padroeiro de El Pueblo, Santo Isidro, patrono dos lavradores.
Quando o pequeno avião aterrou, os guardas correram para ele, mãos sobre os olhos e sobre a boca, vultos com espingarda no meio do pó. Cercaram a aeronave e apontaram as armas enquanto a hélice ia morrendo com a nuvem amarelada de partículas infinitas, que baixavam caindo lentamente, nos tricórnios e nas baionetas levantadas.
Perfilaram-se, direitíssimos, coronha na terra e saudação de continência, quando se levantou o piloto, baixou para a asa e saltou para o chão, com a sua farda de graduado da Força Aérea.
- Onde está o oficial de mando?
- Siga-me meu tenente.
O piloto aviador seguiu o guarda civil, montou-se no jipe e ordenou:
- Quero dois homens sempre ao pé do avião.
Não corria perigo de atentado a avioneta, pois o único atentado de que foi vitima, foi o da curiosidade de velhos, mulheres e crianças que meia hora mais tarde a circundavam, nessa oportunidade única de verem aquele pássaro grande, ali, no chão, inofensivo como uma varejeira em descanso.
Pediu o tenente no posto, que fossem buscar Patry a casa.
E foram.
Assustados, os pais de Salustiano seguiram-nos de longe. Ascensión também. Apenas descansaram quando as duas mulheres saltaram para os braços do tenente Bahamonde.
- Venho buscar-te Patry. Não posso levar-te a Portugal, não consegui autorização de voo, mas deixo-te em Talavera la Real, na Escola de Reatores e daí, alguém te levará à fronteira. Salustiano espera-te em Portugal. Tardará meia dúzia de dias a chegar...
- E vamos de avião?
- Sim, de avião, é o mais seguro, depois tenho um amigo que te levará para Portugal, confia em mim. É o máximo que posso fazer por vós.
Apresentou as cortesias ao “alcalde” de El Pueblo, merendou com os pais de Salu, com Patry e com a pequena Ascensíon, ternurenta, enrolada no seu braço.
Exatamente às dezasseis horas e trinta e cinco minutos, a enorme hélice começou a girar acompanhando um roncar enorme vindo das entranhas do aparelho. Bahamonde gostava de aproveitar a luz do sol e sentia certo prazer por ser reconhecido como herói. No fundo tinha razão para se sentir orgulhoso, tinha sido o primeiro homem a fazer a travessia do Atlântico Sul, no seu, hoje no Museu Militar, Plus Ultra, um hidroavião de passageiro único.
- Que levo?
- Nada, rigorosamente nada. Não temos tempo nem espaço.
O avião começou a percorrer a pista, asa de um lado e do outro ganhando ponto de equilíbrio, o focinho a tentar erguer-se em esforço, uma, duas, três vezes como locomotora de todo o corpo que rodava a metros do chão, e mais metros, e uns quantos mais, deixando atrás uma nuvem de poeira e a gritaria de cem meninos descalços correndo com os braços abertos.
As pontas do cachecol de Bahamonde, quase tocavam o rosto de Patry, sentada atrás, e estranhamente, começou a perder o medo.
- Gostas?
 Gritou-lhe Bahamonde...
- Estou beemmm...
No lugar detrás, havia duplos instrumentos de voo:
- Pega nos comandos e leva-o tu.
Patry agarrou, puxou para si por instinto, o focinho empinou e nesta posição de mando, virou um pouco à direita, depois à esquerda... Bahamonde levantou ambos os braços:
- Estás a voar Patry.
Como o não sentira há muito tempo, um travo agudo de adrenalina, percorreu-lhe o corpo. Adrenalina ou liberdade. Não sabia, porque as lágrimas lhe molharam a parte interior dos grandes óculos de vidro encaixados em borracha negra. Apenas sabia que naquele instante poderia desaparecer que não se importava, poderia morrer porque nada lhe pesava e era, entre as nuvens e o pôr do sol que se começava a ver, imensamente feliz.
Bahamonde, apenas mantinha o rumo e só pegou nos comandos, quando começou a descer.
- Onde estamos?
- Vigo!
Saltaram e espreguiçaram pernas e braços.
- Quero que te vistas de perfume. Tenho saudades da Patry de Madrid. Esta parte está controlada por nós, a Madrid não poderemos ir nem para comprar as roupas que gostaria para ti. Quero que leves tudo do melhor para Portugal mereces e quero ter de ti a imagem que deixei na “Plaza del Sol”, na Castelhana, na Ópera...
- Mas falaste-me em Talavera la Real...
- Iremos amanhã. Deixa-me entregar-te como uma princesa.
Nessa noite passearam de mãos dadas, numa Galiza onde o vestígio da guerra lhes serviu de cenário, mas onde as estrelas não acusavam qualquer alteração desta discórdia entre os homens.
Não me perguntem se dormiram juntos, se se amaram, se se perderam ou encontraram, sei apenas que se despediram, num encontro que sentiram ser o último.
Na guerra, só importa o dia.
Aterraram em Talavera, onde o conhecido de Bahamonde os esperava.
- Cuida dela, Romão.
Entraram num carro negro, cujas portas lhes foram abertas por um cigano português forte e fiel.
- Ainda esta noite, estará a salvo na minha propriedade.
Gostaria Patry, de lhe ter perguntado por que mudara de bando.
Anos mais tarde, com a guerra terminada, a Grande Enciclopédia Universal, quando a república já era história e passado, referia:

FRANCO BAHAMONDE, RAMÓN Aviador militar español (El Ferrol, 1896- costa de Mallorca, 1938). Hermano de Francisco Franco, realizó la travesía del Atlántico Sur, a bordo del hidroavión Plus Ultra, del 22 de enero al 10 de febrero de 1926. Aunque conspiró contra la monarquía y fue elegido diputado por Ezquerra Republicana en 1931, secundó el alzamiento militar de 1936.

Era o irmão do Generalíssimo.
(...)
in A Mulher do Sargento Espanhol
...no prelo...