jueves, 9 de abril de 2020

A TABERNA DE AVELINO CAMEJO (CAPÍTULO 8 )





CAPÍTULO 8
O casamento da tia Pituca


- Tia Pituca, conta um pouco mais da tua vida.
- Ai filha vês a minha vida como se fosse um conto de fadas, mas as fadas querida afilhada, só existem quando se acredita com muita força. Onde ficámos?

- O tio Zé tinha ido a Évora no descapotável.

- Pois é verdade, foi e nem calculas a surpresa que teve quando chegou à Cidade e o Sr. Dias e  Pereira quis falar com ele.

- Conta!

- Pois bem, disse-lhe que admirava o seu talento, a sua dedicação ao trabalho, que não tinha filhos e estava a ficar velho, que não queria que a firma fechasse, já tinha falado com a mulher e que, lhe dava sociedade na oficina. Pelo que as placas de publicidade passaram a ser Dias e Pereira & José Boavida Lda.

- Passou a ser dono da oficina?

- De metade e quando cheguei para férias transitando para o segundo e último ano da Escola de Magistério em Évora, já todos me tratavam por professora e ao tio, Sr. José.

- E o teu pai?

- Olha filha, neste mundo triste em que vivemos parece que estamos na Índia, divididos em castas.

- Castas?

- Sim, dividido por classes sociais, bem aqui melhor porque se pode mudar de casta e aí não. Pois o tio Zé, mudou de casta, e foi convidado a pedir a minha mão, mas só quando fosse o final do meu curso, em julho do próximo ano.

- Boa!

- Não foi tão fácil, porque a visita do tio Zé a Évora foi o apressar de tudo. Fomos guardar o carro ao armazém, demos as mãos, deu-me um beijo pela primeira vez e outro, e outro, comecei com os calores, aqueles olhos grandes e azuis e depois filha, tem que se ter muito cuidado com os homens...

A menina pensou que os calores eram assim como o cio das gatas, que chegavam a sair de casa, miando para chamar os gatarrões para lhes tirar as quenturas.

- Mariazinha, pela tua cara não estás a perceber, havia amor, ele sabia muito destas coisas e tocou-me meigamente em sítios que a tia nunca tinha sido tocada, nem vista por outras pessoas. Deixei-me ir filha, e quando chegou o Natal, não fui a casa, dizendo que tinha que estudar, mas o meu medo era que me vissem a barriguinha que já se notava um pouco.

- Um bebé?

- Sim, o João Fernando já estava dentro de mim. A tia cuja casa eu ocupava em Évora, talvez pela língua da prima com quem eu dormia, apercebeu-se e telefonou à minha mãe.

- Ai tia! e depois?

- Depois a minha mãe contou ao meu pai.

O pai:
- Sacana, agora que é alguém já julga que pode fazer o que quer.

A tia continuou a contar à sobrinha. A minha mãe andava preocupada, quando dias depois de muitos silêncios, o encontrou no quintal na casa das tintas, pincéis e ferramentas que estava ao pé da laranjeira e viu-o a limpar a caçadeira.

Aflita, gritou-lhe:

- Ai homem que nos vamos desgraçar.

- Nada mulher, vou apenas salvar a honra da nossa filha.

- Meteu-se no carro de grandes faróis como uma coruja e saiu de casa enquanto a minha mãe ficou a rezar o terço pedindo a Nossa Senhora de Fátima que desse luz aos actos do meu pai.

A menina estava a adorar a história, mas não gostava dos silêncios que a tia fazia, eram intervalos largos como se estivesse a rever um passado, uma forma de apelo à memória dolorosa e Mariazinha como mudanças de um carro, meteu a primeira e:

- Vamos, e depois?

- Bem, depois passou com o carro pela oficina com letreiro luminoso que dizia “Dias e Pereira & José Boavida Lda”. Estava já fechada, avançou rumo à pensão e perguntou pelo Sr. José Boavida – quarto 27 – e o meu pai, com o nome tão grande como o meu subiu as escadas, foi quando a senhora se apercebeu que o Sr. Albuquerque de Sousa ia armado. Assustada, telefonou à Guarda que chegou a cavalo quase uma hora depois, com os bichos escorregando na calçada.

À moda dos filmes do Oeste, abriu a porta de espingarda apontada. 

O tio Zé, assustado, levantou os braços como via na televisão do café em situações idênticas. 

O meu pai então disse-lhe:
- Ou casas com a minha filha ou rebento-te os miolos.

- Sr. Albuquerque de Sousa, mas isso foi o que sempre quisemos, eu e ela.

- Não a metas neste assunto, que a conversa é entre nós. Não vais abandoná-la grávida, desonrada e com um filho nos braços, porque nunca o vou permitir.

O tio Zé colocou as mãos na cara:

- Estás a chorar meu velhaco?

Foi aí que o tio se levantou:

- É de alegria Sr. Sousa, eu não sabia, só a queria ter aqui.

Foi nessa altura que Albuquerque de Sousa viu que o rapaz nada sabia, e algo houve nessa atitude do tio, que levou o pai a baixar a arma.

A menina olhou a tia:

- Mas ele não sabia tia Pituca?

A tia baixou os olhos e riu-se:
- Nem eu tinha a certeza. Aquilo só aconteceu uma vez e doeu-me imenso, tanto que...
- Que o quê, tia?
- Nada.
- Vá, diga.
- Foi assim como que a tentar, mas como me ouviu gritar, parou.
- E mais?
- Bem, comecei a ter a falta do período, notava que a barriga estava a crescer e fui a um médico com a minha amiga.
- Falou-me de hímen complacente, de anelares, impreparados e até numa palavra rara chamada “criptomenorréia” – a tia começou a rir, foi o nome que chamámos ao nosso primeiro cãozinho do quintal, mas que como era muito grande passou a ser chamado apenas por “Cripto”.

- Tia e que palavras são essas todas?

- Não importa, lembra-te sempre é que podes ser mamã sem ter contatos completos.

- Sem relações?

- Olha daqui a tia não passa, tu que tens computador vai ver no “goglé”.

- No Google, tia.

- Ou isso!!

- Já não me contas mais nada?

- Sim, conto meu amor, mas a partir da pensão, não tens idade para certas conversas.

- Tia, eu contigo aprendo mais do que na escola.

- Bem, voltemos então à pensão. Acreditas que o tio Zé e o meu pai se abraçaram? Depois ouviram muito ruído na rua, estava cheia de gente, tinha chegado a Guarda a cavalo. Foram espreitar pelo vidro da janela e estava a começar um princípio de escândalo, mas o meu pai era muito inteligente.

- Confio em ti, José. Guarda a arma, vim entregá-la para a arranjares na oficina. Amanhã à noite quero-te na minha casa.

Fechou a porta e desceu as escadas.

O Guarda montado no cavalo perguntou-lhe:
- Algum problema?
- Isso pergunto eu, passa-se alguma coisa?
- Nada, disseram-nos que tinha entrado aqui com uma espingarda e...
- Tontaria, vim entregar a espingarda ao Sr. José Boavida para que me a limpe e arranje a abertura do baixar dos canos.
- Desculpe Sr. Albuquerque de Sousa.

Os Guardas entre eles ainda disseram, isto só a nós, depois esporearam os cavalos e subiram a rua obrigando-os a um trote.

As pessoas regressaram às suas casas.

- Ai tia, que história... e depois?

- Depois nada, na noite seguinte foram buscar-me a Évora, onde me levaram dois dias depois. O tio Zé ia com os meus pais no carro e eu estupidamente dei-lhe um aperto de mão. Jantámos em casa, conversámos num âmbito de grande alegria, família mesmo, e o João Fernando era o responsável de tamanha felicidade entre todos. Depois o meu pai disse:

- Têm que casar no Natal, depois acabas o curso e em julho ficam cá em casa que é grande. Até lá o José fica na pensão, mas pode visitar-te sempre que não seja aqui na terra, por enquanto.

- Voltei para Évora no outro dia, o tio também veio, apesar de lhe dizermos que não era necessário, eles insistiram:
- Até ao casamento, não queremos falatórios!
- E tu, tia Pituca? Como te sentias no meio disso tudo?
- Até ao Natal nunca fui tão feliz.

- E depois?

- Filha, és chatinha. Depois casámos no dia 24 de novembro, que a barriguinha mesmo apertada já queria fazer-se notar. Eu meti um atestado médico, embora o diretor andasse desconfiado, chamou-me:

- Olha, minha amiga. Espero que cases mesmo. Em janeiro traz um comprovativo, aqui não nos importa o talento ou os conhecimentos, mas sim a moral. Sois as educadoras escolhidas e pagas pelo Estado, pelo que tereis a responsabilidade de cumprir os valores principais do vosso país, Pátria, Deus e...

- Autoridade, Sr. Diretor, eu sei.

- E mais do que autoridade, a defesa dos costumes. Pelo teu terceiro período, do último ano do teu curso, quero provas do casamento religioso.

- Ai, tia, que chatos!

- Mas eu ouvia aquele blá, blá, blá, mas só pensava que o tio Zé ia ser o meu marido durante toda a vida e faltava pouco, muito pouco.

- E o casamento?

- Do outro mundo, querida afilhada. Casamos na Cidade, na Igreja de São Lourenço e fomos transportados depois para a Cervejaria “O Melhor do Mundo”, que o tio, bem, o meu pai que resolveu pagar tudo, mandou fechar só para a nossa festa, e o tio meteu o carro do nosso segredo e que ele tanto gostava no transporte dos noivos. Como só tinha dois lugares, ia de tejadilho aberto e o tio conduzia, cumprimentando as pessoas, enquanto segurava o volante.

- E a lua de mel?

- Muito pequena, num hotel – a tia aqui começou a rir como não o fazia há muito tempo – num hotel, quer dizer, na estrada, que o tio tinha bebido uns copitos e dançou com toda a gente, até cantou o fado e encostou na berma só um pouco para dormir um pedacinho. Assim que parou o carro, encostou-se a mim e começou a roncar. Só três horas depois acordou quando um camião apitou sempre seguido, por ver que estava uma noiva no carro. O tio disse estremunhado – caramba, já é de dia. Fomos para o hotel e só saímos no fim do aluguer, baixávamos apenas uma ou duas vezes para não comermos sempre no quarto.

- E onde era o hotel?

- Na Serra da Estrela e agora, acabou.

- Ó tiazinha, madrinha do meu coração, “porfa”, por favor só mais um bocadinho.
Mariazinha tinha um talento especial para fazer da tia o que queria, desde que ela não dissesse “não é não!” e não tinha dito.

- Bem, vá lá mais um bocadinho. O que queres?

- Quando vieram da Serra da Estrela foram para onde?

- Para casa, já tínhamos um quarto preparado no rés do chão e o resto das divisões estavam pintadas e desalojadas de tudo o que tinham. Nós que comprássemos as mobílias que queríamos. O meu pai abriu uma porta para a rua e fechou a parede que dava acesso ao segundo andar, enquanto fez uma cozinha e uma casa de banho no rés do chão, bem, essas inacabadas para que fossemos nós a escolher os azulejos, agora bastava o quarto e que escolhêssemos as mobílias até ao Natal. 

Quando acabasse o curso, teríamos a casa em ordem, individual e com portão de vidro para o quintal. Perguntei ao meu pai porque não ficava o tio já na casa, escusando o ter de pagar a pensão, disse-me de imediato que não, quando acabasse o curso e viesse em julho, logo começaríamos a vida. Ainda me disse o meu pai que o meu marido tinha mais dinheiro do que ele, pois negou-se a aceitar o seu dinheiro para pagar as mobílias, os azulejos e as obras que ele tinha começado.

- E quando chegaste do curso?

- Tive que interromper em fevereiro, pois nasceu o meu João Fernando. Estávamos já na parte de fazer o trabalho final, por nossa conta e risco, mas fui bastante ajudada pelas colegas do grupo. O que não esperavam é que a tua tia Pituca, quinze dias depois do bebé ter nascido, estava na escola com ele e foi a primeira vez que uma mãe amamentava numa Escola de Magistério, com quarenta colegas/tias que ajudavam. 

O Diretor nem abria o bico, pois Deus o livrasse de uma rebelião de alunas. Dizia-me era que lhe desse a mama no seu gabinete, que ele obviamente sairia, mas tinha melhores condições.

- Ó tia, que giro... e depois?

- Depois acabei o curso, voltei a casa que mobilei com o tio, o João Fernando cresceu e tive o primeiro desgosto, pois o tio Zé não me deixou trabalhar fora de casa. 

Deram-nos um cãozinho ao que chamamos Cripto e que cresceu com o teu primo. Eram dias aborrecidos, a avó tinha três quartos alugados a alunos que vinham fazer o Ensino Secundário à Cidade e eu ajudava-a. 

O tio desenvolveu a oficina, meteu umas bombas de gasolina da Sacor, ficou como representante da Fiat e começou a fazer crescer a empresa e a passar menos tempo em casa. 

Eu estava já farta e como tínhamos tantos quartos livres no primeiro e no segundo andar, aproveitámos a abertura, da Escola de Magistério na Cidade e logo no primeiro ano, fizemos uma pequena pensão onde não dava aulas, mas andava entretida com as futuras professoras. 

Todos os meses, o valor de um hóspede era metido no banco numa poupança que garantisse um curso superior ao João Fernando. 

Chegámos a ter doze raparigas em casa, três no secundário, no Liceu, e nove alunas da nova Escola do Magistério. Tinham quarto e alimentação, pelo que na cozinha tínhamos a Rosália, que ajudava nas tarefas todas, mas que levava o tempo muito ocupado com as panelas. 

As mulheres que trabalham hoje fora de casa, julgam que são mais independentes. É um engano, filha. Eu vivia bem. Ia ao mercado com a Rosália, escolhia, pagava e ela trazia os sacos para casa. Só orientava e tinha tempo para o João Fernando e até para o Cripto, enquanto ouvia as radio-novelas. 

Hoje, as pobres, trabalham tanto como os homens e depois de chegar a casa, ainda têm de cuidar dos filhos, das comidas, do aspirador... trabalham muito mais porque os homens não fazem nada. Mas não ligues, isto são conversas de velhos.

Naquele tempo vivia-se muito mal. Havia gente rica, muito rica, pobre e muito pobre. Nós éramos assim uns remediados mais para o rico, mas com muito trabalho. Nada nos faltava, mas era graças ao trabalho. A tia às vezes até cosia, tinha revistas de moda e quando calhava ainda fazia uns vestidos para mim, umas camisas para o João Fernando, e até para fora, que havia sempre amigas que gostavam do que eu fazia, até fiz vestidos para casamentos e chapéus. 
Não me dava para estar quieta.

Havia as guias de racionamento por causa da guerra, mas tudo nos aparecia em casa, sem faltas, o tio conseguia açúcar, manteiga... tudo o que era racionado (Pituca riu-se). 

Um dia mandei o meu João Fernando, tinha ele por aí nove ou dez anos, levar um vestido a casa da mulher do juiz da Cidade.

- Queres lanchar, meu menino? O meu filho está a comer uma torrada, queres uma? – João Fernando que sempre foi de boas comilonas, abanou a cabeça dizendo que sim. Comeu e por lá ficou a brincar com o novo amigo, obrigando a que eu acabasse já preocupada por ir buscá-lo.

- Entre, Dona Pilar, o menino está bem, tem brincado com o meu filho e até lanchou.

Depois, virando-se para o meu João Fernando disse-lhe:

- Gostaste da manteiga no pão? - o garoto olhou-me e com as respostas sempre na ponta da língua... respondeu à senhora:

- Sim, mas a minha mãe lá em casa mete sempre a manteiga dos dois lados da torrada.

A tia Pituca riu, gargalhou mesmo.

- Mas olha, filhota, vivia-se mesmo muito mal. Um dia, apareceu uma senhora a bater-me à porta com uma menina que ela dizia ter dezasseis anos, mas a quem eu daria treze ou catorze, do delgada que era, pequenina, mas com uma cara de sonho. Linda, muito linda, olhos de um verde escuro e límpido, numa pele escura de calor e campo, chaminé e campo, sempre campo, onde se arrancava a pulso o pão naqueles tempos sem supermercados.

- Sei quem é a senhora, dizem-me, que é boa pessoa e gostava que a minha filha fosse criada por si. Sabe fazer tudo em casa, é a mais pequena das oito irmãs. Os rapazes ficam comigo e com o pai, mas mesmo assim o chão não nos dá o suficiente para tanta boca. Trabalhará só pela comida e por aprender a ser uma pessoa de bem. Fique com ela, minha senhora e se lhe der por mês algumas moedas pode estar certa que ela entregará à família, sabe que tem gente que depende deste seu trabalho, desta sua nova casa, da segurança da barriga cheia e quem sabe, se a senhora Dona Pilar não a ensinará a ler. Faça, por favor, dela uma mulher.

- Quem lhe falou de mim?

- Foi a senhora do Sr. Doutor Juiz. A irmã ficou lá e falou-me da senhora que tem uma casa basta onde a fome e a miséria não passam da porta de entrada.

- E que fez a tia Pituca?

- Querias que fizesse o quê, meu amor? Ficou lá, comprei-lhe roupa nova de trabalho, mas também para sair, ajudava a Rosália, aprendeu a fazer camas, a trabalhar com a enceradora, mas muitos dias, deixava-a brincar no quintal com o João Fernando, pouco mais velho do que ela e com Cripto, que estava um canzarrão brincalhão e gostava dos dois companheiros de brincadeira. Nunca mais me esqueço das últimas palavras da mãe:

- Faça dela uma mulher, minha senhora.

- Por isso nos fins de semana, comecei a ensiná-la a ler, comprei cadernos de duas linhas, lápis, borracha, uma pedra e um caneto e um livro da primeira classe que curiosamente abriu e cheirou antes de ver os bonecos e as letras que em breve conheceria.

- Muito obrigada, minha senhora – quis beijar-me as mãos.

- Como se chamava a menina?

- Beatriz.


in A TABERNA DE AVELINO CAMEJO
(...a ser escrito...)

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