martes, 28 de enero de 2014

CRÓNICA DE JANEIRO / PANTEÕES / SEMANÁRIO FONTE NOVA


PANTEÕES
Agora, está na moda o Panteão Nacional.
Podemos estar anos sem ouvir falar dele, e de repente, zás, tudo e todos para o panteão, desenterrados e reencaminhados, com cheirinho a Inês de Castro.
Eusébio, Sophia de Mello Breyner Andresen, Aristides de Sousa Mendes, Irmã Lúcia, Capitão Salgueiro Maia (…) Acho que sim, até porque com tanto português ilustre nascido nas últimas décadas e com o facilitismo com que se pede e pelos vistos concede, a subida ao altar civil, deveria estar ao alcance do comum dos mortais, como aliás, parece ser o que pretende a maioria do povo português, carente como anda de heróis, já mesmo sem esperança em manhãs de nevoeiro, que os candidatos ao heroísmo épico destes últimos tempos, são foleiros e não merecem confiança por pantomineiros.
Foram bem ensinados, como Jotas, ex-JSD, ex-JS, ex-JCP… beneficiaram dos melhores professores, hoje todos bem na vida porque aprenderam o Abracadabra de Ali-Babá.
Somos governados por Jotas, o pior que foi criado pelos partidos.
Vasculhamos assim os mortos recentes, os que a memória ainda recorda, pois os outros, num país com uma partilha cultural deficiente, estão esquecidos e dificilmente se irão da lei da morte libertando.
Passamos assim a recolher nomes, esfomeados de pátria, para os ungirmos com o óleo dos reis.
Seria Portugal o mesmo hoje sem Eusébio da Silva Ferreira? Julgo que sim. Sem Sophia? Parece-me que também. Sem Aristides ou sem Lúcia? Talvez sim, que sei eu? Que sabemos nós? Se não demos tempo ao tempo?
Destes nomes, soprados e circulantes pela net, terei que reconhecer que Portugal, seria melhor ou pior, mas sempre diferente do que fora até aí, se Salgueiro Maia se não tivesse cruzado na história, pelo que concordo com o poeta Alegre de nome e carrancudo de semblante, o poeta da voz de barítono e levar o capitão de Castelo de Vide para a Capital, deitando-o para sempre junto de outros portugueses ilustres, não me espanta, achando-a mesmo uma decisão acertada.
Já sobre Sophia, a quem respeito como um grande nome das letras, a quem admiro pelo legado que nos deixou, causa-me dúvidas pelo precedente que abrirá, na medida em que a considero pertença de um lote de grandes nomes da literatura, como Torga ou Saramago e poderemos causar injustiças de dano a nomes de vulto como Eça, Pessoa, Nemésio, Natália Correia, Florbela, Romeu Correia, tantos e tantas… felizmente, que será bom parar de os nomear para evitar omissões certeiras inevitáveis, pela qualidade do mundo das letras portuguesas, vivos ou mortos.
Não podemos enviar esta malta toda para o jazigo público, pois correremos o risco da banalização.
A ida de Sophia para o panteão, será um precedente, como o foi Amália e abrirá portas até agora impensáveis de abrir.
Foi uma figura notável, sem dúvida, de que a nossa língua se tem que orgulhar, mas quantos portugueses apenas conhecem a poetisa por ser mãe do quase bonito (segundo ela), jornalista e comentador, pioneiro com Sócrates no ataque cerrado aos professores, o primeiro passo para a destruição da escola pública?
São famílias de elite, que ainda por cima sabem escrever, amando ou mordendo com a pena e o tinteiro.
Foi arquivado o seu processo de apalhaçar Cavaco Silva, privilégios, que não tem o cidadão Carlos Costal, 25 anos, de Campo Maior que no dia 10 de Junho, em Elvas, mandou o Presidente trabalhar, chamando-lhe  gatuno e que à data de hoje, continua a ser mordido pela justiça, perseguido por um presidente pequenino e herói que não larga o moço, como osso, sabendo que daí nada tem a temer, o que o leva a manifestar o seu ódiozinho, cobardemente, com quem sabe ser mais fraco e desprotegido.
Tal como Amália abriu as portas a Eusébio, deixando caminho a Ronaldo um dia que bata a bota, também Sophia abrirá portas a todos os gostos, e depois dela, obras de melhoramento e acrescento no panteão, que muitíssimos ilustres lhe baterão à porta. A pedido. Negociatas de parlamento, que o parlamento é o povo. Assim um pouco como as insígnias pátrias, ordens e comendas, nas mãos desta gente. Moeda de troca ou agradecimento pessoal…
A não ser, que tudo isto se trate de uma estratégia para que os portugueses e portuguesas recuperem a auto-estima. Tal como “santos podemos ser todos” parece que nos estão a estimular “panteados poderemos ser todos também”.
Nasce assim uma esperançazinha, de que depois de uma vida de merda, possamos aspirar a um descanso eterno e reconhecido.
Já a igreja nos ensinou durante anos a fazer o mesmo, ser humildes, trabalhadores, bonzinhos, sem refilar, que depois tínhamos o céu.
Por mim, dispenso altares e panteões, prefiro sinceramente que me devolvam os 200 € que me roubaram de novo este mês.
Deixem-me viver tranquilo, que depois de morto, logo se verá.

                                                                     ARAGONEZ MARQUES

1 comentario:

Teresa Galrito dijo...

Estás no auge... "santo" !
Bjnho

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