jueves, 23 de enero de 2014

O COICE - CRÓNICA / SEMANÁRIO FONTE NOVA



O COICE
Está a terminar Outubro, o primeiro que me lembre sem comemorações da República. Quem diria? Com o dinheiral e ilusões gastos nos festejos dos 100 anos, há tão pouco tempo, com trabalhos feitos pelos meninos da escola, livros editados para a ocasião, pompa. Talvez por isso os Espanhóis chamem pompa a uma bola de sabão, eles que, monárquicos cada vez com menos Rei, sempre que o tentaram nas suas duas bolas de sabão sem folego, pensavam que era feriado o 5 de Outubro, por ser o dia de Portugal na Feira de Zafra. Talvez mesmo pensando, que era festivo, para que os portugueses fossem ver os toiros, ovelhas e cavalos.
Palavra como cerejas, nas escolas, comemorou-se não a 5, mas a 4 de Outubro, o dia do animal.
Com novas modas, sempre tão criativas como saloias, num calendário onde faltam dias para os dias de: … mulheres, pai, mãe, avós, criança, namorados, bruxas, turista, alimentação, normalização, cancro… competindo com o santuário onde são já os dias de mais do que um santo, e um dia de todos juntos para os que não tenham dia nenhum, aí foi a minha escola para mais uma comemoração.
Falou a Manuela, educadora de infância e ativista infantil, com a mãe de um antigo aluno, hoje com pelos na cara que vive numa quinta ali perto. Aí foi a escola, em peso, ver os toiros, as ovelhas e os cavalos, mas também os gatos, os cães, as galinhas e os patos.
Dividimos os gaiatos por grupos, equipas com tarefas a realizar na quinta. Diferenciar mamíferos, aves e peixes, colocar cada animal na sua família, com recolhas de imagens, descrições escritas e fichas de verdadeiro e falso com tem pelo não tem pelo, bebe leite não bebe leite, essas coisinhas que é melhor descobrir-se do que ouvir-se apenas, até porque perguntas a dúvidas como se todos os mamíferos andavam 9 meses de balão, iam anotadas em estado puro, para a entrevista à dona da propriedade.
Para quem diz que os pais estão arredados da escola, que são alheios ao que se passa e pouco ou nada interferem de um lado para o outro da vedação, fechada a sete chaves, aberta apenas quatro vezes por dia e por onde nos intervalos espreitam como para jaula gigante, introduzindo bananas e bolicaos pelas grades como no zoológico, não sei se por questões ditas de segurança para os meninos e meninas ou para os corpos docentes de senhores professores e minhas senhoras, sotores e sotoras alguns, cada vez mais, apesar de ganharem cada vez menos, o mês de outubro foi para mim referente desse engano.
Claro que os encarregados de educação não estão alheios, e interferem, e fazem parte do universo escolar, apesar das grades e das melhores fechaduras.
Os grupos, com os trabalhos já feitos, conquistadores de pontos por cada tarefa cumprida em equipa, foram premiados em cerimónia de fim de dia. Foram feitas umas medalhas de cartão do fim dos blocos dos cadernos, com a referência ao dia, e que atribuía primeiro, segundo e terceiro lugar às equipas de investigação que pesquisaram na quinta. Tinham as medalhas uma fita de papel de embrulho, vermelha e reluzente que foi colocada no pescoço dos elementos das equipas que melhor trabalharam. No outro dia, logo pela manhã, apresentou-se uma mãe, com a medalha de cartão do filho na mão, a outra na cintura. Na medalha estava escrito o nome da escola, a data da visita, 4 de Outubro, dia do animal e por baixo um 1º, grande e bem desenhado a negro.
- Minha senhora, não sei porque o meu filho levou isto ontem para casa, nem porque acha que é o animal nº1.
Embasbacada, a diretora lá explicou que aquilo significava um primeiro prémio, num concurso e tal e tal …que o professor era assim, sempre com invenções e tal, e tal e tal…
Lá foi a mãe feliz, levando a medalha que trazia escondida, pendurada agora dos dedos à vista de toda a gente.
Alheios ao que se passa na escola? Claro que não!
Também no final da atividade e quando se abordou que houve animais que se não tinham visto, num esforço dos professores, para que chegassem à conclusão de que na quinta não haviam peixes, e reforçando a pergunta de qual o animal que não havia, o Carlos, disse prontamente:
- Os burros!
Quais burros?... outros que respiram por guelras, têm escamas… mas sabendo que o Carlos tinha razão e que burros também não havia, a professora disse-lhe:
- Os burros, também já são poucos mas prometo-vos que quando fizermos a visita de estudo a Lisboa…
- Vamos à Axembleia.
- À Assembleia Carlos? Vamos a uma quinta pedagógica onde há muitos animais domésticos e também burros certamente.
- O pai dixe-me que em Lisboa na Axembleia há muitos burros.
Os pais não interferem na escola? Claro que sim!
Eu fiquei como o Scolari e em vez de exclamar “e depois o burro sou eu”, pensei: os burros somos nós, que aí os juntámos, com o nosso voto, nesta democracia de faz de conta, onde nos levam a assinar cheques em branco para depois nos devolverem as contas completamente carecas.
Evidentemente que os burros somos nós.
Tenho a certeza que é necessário, deixarmos de zurrar nos cafés, nas avenidas e nas pontes e passarmos de vez a escoicear.
Arre!
                                                                                                                  Aragonez Marques

Nota:
Os meus agradecimentos ao António João Rosinha, dono do EX em Campo Maior, lugar onde tenho escrito nos dois últimos meses, o novo livro que tenho, da mente para papel, e as croniquetas para os jornais, com a disponibilidade da sua rede de net, e de onde faço escritório, todos os dias, no fim do trabalho pago.
Ao Rosinha, e à educadora Manuela, inspiradora desta crónica.





No hay comentarios:

Publicar un comentario