lunes, 18 de mayo de 2020

A MULHER DO SARGENTO ESPANHOL / CAPÍTULO 3 (Cheirinho)





3. A Chegada do Professor Primário

Chegou  à  aldeia  com  uma  mala,  em  1970.  Pousou-a  no  chão  do  café  da  Josefa quando ainda estavam vivos e faziam parte do pulso da aldeia, o marido de um lado e o Esteves do outro da estrada. 

Nesse ano, era o Costa um rapaz que caçava ninhos, a filha da Josefa ajudava  no  café  quando  saía  da  escola,  a  Mariana  nem  sonhava  vir  a  casar-se  com  o Fagundes Fonseca e a Glorieta ainda fazia os petiscos da taberna.

Tal como o leite que começa a ferver, nada estava mudado, mas tudo estava em mudança.

África continuava a ter províncias portuguesas. A guerra estava assumida como quem tem que  vestir  um  casaco  quando  faz  frio.  

As  previsões  eram  meteorológicas,  e  as  gentes, acostumadas  aos  enganos  dos  boletins  da  televisão,  sabiam  que  se dissessem  que  iria fazer sol,  poderia chover, ou se dissessem que as trovoadas ameaçariam, poderia sair um dia de céu azul e limpo. 

Pelo sim pelo não, saía-se sempre com o guarda-chuva, pois os 
barcos iam e vinham e os homens iam sem saber se voltavam. 

O Eusébio aterrorizava o Sporting, mas não o suficiente para que o Benfica não perdesse o campeonato nesse ano. 

Lembram-se do Dinis? Foi ele quem marcou o golo que derrotou o 
Benfica. 

Ana Maria Lucas ganhou o concurso de Misse Portugal, Joaquim Agostinho a Volta e tudo era mexido, e dado a dedo, a quem via a RTP 1 com menos de 12 horas por dia de emissão e pela RTP 2 que não chegava às 3 horas diárias, com a grande antena de ferro no 
início e a bandeira mais hino no final.

Começava,  no  entanto  a  sentir-se  a  fervura,  pois  a  licença  de  isqueiro  acabou  em  maio, Simone de Oliveira apesar de insultada, continuava a cantar “a desfolhada”, fazendo filhos por gosto na exaltação do vermelho milho rei, e Salazar, depois de dois dias no Mosteiro dos  Jerónimos  em  câmara-ardente,  partiu  para  Santa  Comba  Dão  em  retiro  perpétuo, depois de grande passeio numa carrinha, dessas dos hippies, Volkswagen, cortada a partir da cabina para a urna ser visível e despedir-se do país em caixa aberta.

A  mala  do  viajante  chegado  ao  café  da  Josefa  tinha  os  cantos  cobertos  com  metal, cantoneiras que  reforçavam  a  proteção  do cartão.  Era  castanha  escura,  e  os  dois fechos 
dourados com buraquinho para a chave fazia adivinhar o grande diário que em si mesma continha.

Colocou o chapéu de feltro no balcão como quem coloca uma pedra de damas em tabuleiro de mármore. Agarrado por cima, com cuidado e precisão. O homem procurava uma pensão. 

Depressa correu pela aldeia que o novo professor tinha chegado.

Fernando António Figueiredo Mata, seu nome completo, Fernando Mata, o que utilizava, só Fernando para amigos íntimos e família, e o Batalha, como era conhecido na tropa, não por ter participado em alguma de referência, mas porque tinha nascido no local, perto de Leiria, onde D. João I mandou construir o Mosteiro que embora tenha o nome de Santa Maria da Vitória é conhecido apenas por Mosteiro da Batalha, esse sim em homenagem à sessão de 
pancadaria entre Portugal e Castela e que como um foguete de lágrimas deixou pinceladas de  cor  nas  lendas  de  um  povo  que  queria  ser  país:  a  Padeira  de  Aljubarrota,  a  Ala  dos 
Namorados,  a  grande  ideia  da  colocação  das  tropas  em  quadrado,  com  os  cavalinhos espetados nas lanças das valas e a castelhanada, com as pesadas e lustrosas armaduras, no chão, sem se levantarem do peso e com as gargantas, os sovacos e as partes baixas ao alcance das lendárias espadas Alfagemanas de Santarém, e por aí fora, porque país sem história é apenas povo, e esse é sempre anónimo, herói sem nome, acabando sempre num só símbolo de soldado desconhecido, em campa rasa.

A gaiatagem depressa se dedicou a espiar o novo professor que dentro de dias iria partilhar o mesmo espaço na escola, mais os rapazes do que as raparigas, pois as meninas eram todas alunas da Dona Antónia Tavares, que fazia já parte da aldeia como o coreto, o mesmo que seria responsável, anos mais tarde, pelos falsos gases da filha da Josefa.

Da  primeira  à  quarta  classe.  Duas  salas.  Rapazes  e  raparigas,  um  professor  a  quem chamavam Senhor Professor e uma professora a quem chamavam Minha Senhora. 

-Já  avisámos  a  Alzira,  Senhor  Professor,  o  melhor  quarto  da  Pensão  Luz  está  a  ser preparado para si.

Fernando Mata sorveu o café.

- A escola não tem casa?

- Ter tem Senhor Professor, a Dona Antónia ainda aí morou, mas já lá vão muitos anos, está a ver, o filho mais velho dela está agora na tropa e era pequenino quando vieram para a aldeia...

Novo sorvo.

- Está suja?

-  Suja?  A  cair  de  podre  Senhor  Professor  e  cheia  de pombos,  autorizados  pela  Junta  à Sociedade Columbófila da terra.

Último sorvo. Chávena solta no pires, chapéu na cabeça e mala na mão.

-  Bem, vamos lá então conhecer a Alzira, casa de pombos, casa de tombos  –  e riu-se, pelo que todos se sentiram na obrigação de rir também.

Uma  lambreta cinzenta  parou  na rua.  Duas  referências  brancas,  os  dentes  e  o  colarinho, estenderam a mão num cumprimento de cumplicidade. 

A igreja e a escola encontraram-se na rua principal. 

-Sou o padre Cabral, dou-lhe as boas-vindas.  

O professor tirou o chapéu e soltou o nome Fernando. Trazia o convite para o chá em casa da Dona Antónia, às dezassete horas, estaria também o farmacêutico. Chá ou vinho enrolou com
palmadinha nas costas o padre Cabral.

A Pensão Luz era uma casa de família, com quintal e cão na frente. 

Uma escada com grade de ferro pintada de branco levava à porta principal. 

Duas  laranjeiras de laranjas no Natal e um  limoeiro  de  limões  todo  o  ano  eram  vistas  de  cima  na  porta  de  casa.  

Alzira  alugava quartos, e tinha hóspedes certos como o Chefe dos Correios, o Gerente do Banco Nacional Ultramarino  e  agora  o  professor.  O  quarto  era  limpo,  sem  luxos,  pequena  mesa  com 
candeeiro de bicha metalizado e com uma janela como um olho gigante sobre a planície.

Alzira era filha de Dona Francisca, a fundadora da pensão, e de Luís Pinheiro, hoje já na casa  dos  que  Deus  tem.  Foram  os  pais  que  depois  de  anos  emigrados  em  França, trouxeram  as  poupanças  e  construíram  a  casa.  

Deixaram  de  fazer  camas  lá,  para  as fazerem cá, de jardinarem lá, para jardinarem cá, de cozinharem lá, para cozinharem cá, no 
que era deles. 

Os sacrifícios que passaram muitas vezes com as estrelas a
servirem-lhes de teto, levaram-nos a chamar Luz à pensão.

A sua estrela arrancada aos céus franceses, a sua luz colocada na sua aldeia. 

Hoje era Alzira que fazia as camas, lavava as toalhas, fazia as comidas e regava o jardim, onde  duas  santinhas  de  pedra  estavam  colocadas  lado  a  lado,  a  Virgem  de  Lourdes  e  a 
Virgem  de  Fátima.  Quando  o  pai  era  vivo,  chegaram  a  ter  sempre  duas  bandeiras desfraldando  com  o  vento  ou  adormecendo-se  nele,  a  tricolor  francesa  e  a  bicolor 
portuguesa com a sua esfera armilar, cujos caminhos também tinham ensaiado. 

Alzira tinha um irmão, mas esse, como todos os irmãos da mesma idade, estava para África, forçando a que a bandeira das quinas se mantivesse noutro mar, mesmo com mortes no capim. 

Pelas  dezassete  horas,  o  professor  Fernando  Mata,  estava  a  ser  recebido  em  casa  da colega  Antónia,  onde  já  estava  o  padre  Cabral  e  o  farmacêutico  Luís  de  Sousa.  Uma serviçal com avental branco trazia a bandeja de prata com o bule a fumegar. Falou-se do tempo no início e em  política no final, sem discussões, todos os presentes eram defensores do  hino,  da  bandeira  e  do  patriotismo.  

-Como  veio  para  professor?  Por  vocação. - E  você Padre? Por vocação. - E você Doutor? - O farmacêutico sem mexer um músculo, mas também sem modificar uma letra ou entoação, disse também:- Por vocação. 

Mentiam todos.

A  única  acariciada  pela  vocação  era  a  Dona  Antónia,  que  desde  pequena,  brincava  às escolas e aos puxões de orelhas. 

O Padre Cabral, nascera em Alcaria, uma aldeia da margem do Zêzere já crescidinho pelos degelos da Serra da Estrela, mas onde a pobreza era escura como a broa e onde o chão, rochoso, era inimigo da fartura. 

Na escola, o menino Cabral filho do coveiro da aldeia era esperto  para  as  letras  e  quando  chegou  a  altura  de  decidir  sobre  emigrar  ou  seminário, optou pelo seminário e acomodado por lá ficou. 

O  farmacêutico,  bem  que  gostaria  mais  de  se  ter  dedicado  às  letras,  especialmente  à poesia, mas a farmácia acompanhava a família desde os avós e era um destino. Foi para Lisboa a mando do pai onde foi um aluno medíocre na Faculdade de Farmácia e acabou o curso  a  pago  de  perus  no  Natal,  borregos  na  Páscoa  e  fruta  fresca  todo  o  ano, acompanhado de imensos pedidos e recomendações de um primo da mãe que era ministro. 

Fernando Mata acabou professor por amor. Com quinze anos, viveu o seu primeiro romance de borboletas e água das pedras com a filha de um funcionário público. Com dois anos de mãos dadas escondidos nos jardins públicos, ou descendo e subindo as ruas lado a lado, confessaram  um  ao  outro  futuro  eterno.  Quando  a  escola  do  Magistério  Primário  se estendeu da capital de província para a capital do distrito, o sonho de ser professor mostrou-se  fácil  à  carteira  do  pai  que  assim  pôde  mandar  estudar  os  filhos  sem  necessidade  de deslocá-los.  

Maria  Catarina  passou  assim  a  usar  bata  branca  e  a  juntar-se  às  cinquenta meninas  que  iriam  dois  anos  depois  ser espalhadas  pelas  escolas  públicas  do  regime. 

Bastava-lhes  naquele  tempo  ter  um  sentido  rigoroso  da  moral,  acreditar  na  trilogia  Deus, Pátria e Família, usar meias de vidro e saias dois dedos abaixo dos joelhos. 

Calças nunca. 

O diretor tinha até o chefe dos contínuos autorizado, a que ao subir as escadas que levavam às  salas  de  aula,  pudesse  beliscar  as  pernas  das  futuras  senhoras  professoras,  com  o objetivo  de  ver  se  tinham  ou  não  meias  e  de  imediato,  caso  tocasse  as  pernas  nuas  e firmes,  comunicar  à  Direção,  que  neste  caso  era  ele,  o  Diretor,  nomeado  por  Diário  do Governo em cargo perpétuo.

As meninas com namorado tinham-nos todos em fila, de casaco, gravata e lenço no bolso, esperando a saída da escola a trezentos metros daí, numa linha de meta imaginária, frente à  tasca  do  Capote  na  rua  que  baixava  para  o  Café  Alentejano,  a  sala  de  espera.  

As namoradas  chegavam,  e  eles  ali,  sem  dar  um  passo,  que  encurtasse  a  distância  fixada. 

Uma  ou  duas  com  mais  idade,  já  com  casamento  autorizado  para  os  poucos  meses que faltavam para a queima das fitas e a missa da praxe, podiam ser levantadas na porta como encomendas desde que os destinatários nunca entrassem no  edifício, e sempre depois de uma  autorização  escrita  do  pai  da  menina  entregue  ao  diretor,  em  papel  azul,  de  vinte  e cinco  linhas,  selado  e  começado  sempre  da  mesma  maneira:  Eu…  abaixo  assinado  –  e acabado também formatado, assinatura e data depois do: Pede deferimento.

Aqui começaram os problemas de Fernando Mata. 

O  governo  de  Salazar,  pai  exemplar,  acima  de  cada  pai,  foi  quem  criou  a  lei  sobre  as autorizações  de  casamento  das  senhoras  professoras.  Se  lhes  pagara  a  formação,  e  lhe 
pagava um ordenado sentia-se na obrigação e o pior era que no direito também, de protegê-las, como pastor de ovelhas com dono.

Havia que evitar a todo o custo a figura parasitária do marido da professora, que corrompia a moral e sem trabalho vivia de um ordenado que não era seu. Então, naquela ânsia de tudo ter bem atado, num novelo cuja ponta estava sempre nos seus dedos, o governo da nação proibiu o casamento das senhoras professoras 
com  quem  não  tivesse  um  emprego  digno,  como,  para  eles,  empregado  de  banco, funcionário  público  ou  empresário  com  provas  dadas  e  salários  superiores  e  onde  o casamento  entre  professores,  senhor  professor  e  minha  senhora,  era  o  mais  autorizado, como também o era o de minha senhora e funcionário das finanças.

Viu-se  assim,  Fernando  Mata,  por  amor  a  Maria  Catarina  a  apresentar-se  ao  exame  de admissão da Escola de Magistério, onde os homens tinham privilégios especiais de entrada, vá-se lá saber por que, pelo menos com professores não se colocava a questão de autorizar casamentos.

O melhor tempo do seu amor com Maria Catarina foi o do seu primeiro ano como aluno da escola, aluno único, com namoro autorizado com a menina da bata branca que estava no segundo e quase a sair como professora, quase pronta para escrever nessas almas infantis, como dizia Junqueiro, gravado no parque infantil da Cidade, essas almas virginais onde tudo quanto nelas se grava não se apaga mais, quase preparada para escrever e gravar, nessas 
almas  brancas  como  a  neve,  nessas  pérolas  de  leite,  o  cunho  como  ferrete  de  um  país cinzento que usava as senhoras de bata branca, para unificar o pensamento eternamente.

Maria  Catarina  começou  a  sua  carreira  de  professora  primária  na  escola  de  Monte  Sete, uma herdade com um casarão com oitenta quartos vazios, lareiras apagadas, biblioteca sem ser lida e cabeças de javalis e veados, dentes de javalis, cornos de veado, javalis e veados e  mais  javalis  e  veados  a  forrarem  os  corredores  e  os  salões.  

Fechados  todo  o  ano.  

família proprietária vivia em Lisboa e apenas abriam a casa uma ou duas vezes no outono onde faziam festas após as caçarias com dezenas de carros de marca parados no pátio. A mulher  do  pastor  tinha  a  chave,  a  senhora  Conceição,  e  abria  as  janelas  uma  vez  por semana  para  que  a  humidade  não  embolorasse  a  pele  dos  cadáveres  e  os  tapetes  de Arraiolos. 

Dona Conceição tinha sete filhos e vivia com o marido numa choça de pedra e telhado lusalite todo o ano. A bondade dos senhores era tanta, que construíram uma escola, com  mesas,  cadeiras  e quadro  preto,  onde  o  vento  entrava  pelas  frinchas  e  os  pardais 
defecavam  no  chão.  

Sete  alunos  tinha  a  escola.  

Os  filhos  do  pastor  e  da  senhora Conceição.  

Colaborava  o  Ministério  com  a  bondade  desta  ilustre  família,  motor  de desenvolvimento, empregando logo nas tarefas do campo os alunos a partir dos dez anos, mas ensinando o ofício, tarefa dos pais, bem mais cedo. 

Dar de comer ao gado, ajudar no pastoreio, ordenhar as ovelhas, alimentar as galinhas, cuidar dos cães, soltar as perdizes e bater os javalis nos dias de caçaria. 

Por isso mesmo o Ministério de Educação  agradecia o esforço  colocando  anualmente  um  professor  presente  de  outubro  a  julho,  todos  os  dias, desde que a ribeira não enchesse e
impossibilitasse o acesso. 

Quando as professoras eram insuficientes,  colocavam  o  que  designavam  como  Regentes  Escolares,  que  sabiam  ler, escrever  e  contar,  eram  normalmente  solteironas  e  algumas  vezes, antes  ou  depois, acabavam  como  amantes  escondidas,  dos  donos  das  herdades,  não  todas,  obviamente, algumas havia que colocavam um gosto nas tabuadas, nos mapas, nas réguas de medir e de esfolar, e beatas quase todas, levantavam o dedo aos patrões e ameaçavam-nos com o Bispo.

Nesta  escola  começou  Maria  Catarina  a  trabalhar,  alojada  num  quarto  da  aldeia  mais próxima, indo a casa nas sextas-feiras à tarde onde lavava as roupas da cama e enchia as marmitas  que  levava  com  comida  feita  aos  domingos,  para  aquecer  em  banho-maria durante o resto da semana, enquanto falava de barcos a quem nunca tinha visto o mar, de estações de caminhos-de-ferro a quem nunca tinha visto um comboio, de aviões que sabiam 
ser  pequeninos  lá  no  ar,  viam-nos  às  vezes  quando  passavam  nos  dias  sem  nuvens, embora as abetardas fossem muito maiores e nunca voassem isoladas, e de rios, grandes, dizia a Senhora, e compridos, de norte a sul do mapa de Portugal, maiores,  muito maiores do que a ribeira da aldeia no inverno, embora fossem pequenas linhas azuis que a Senhora dizia  serem  grandes  e  se  a  Senhora  dizia  era  porque  sabia...  e  de  um  outro  mapa  com 
pretinhos nus que cantavam o hino nacional com as bandeirinhas de Portugal nas mãos.

Foi  difícil  o  primeiro  ano  de  trabalho  de  Maria  Catarina  e  o  último  de  Fernando  Mata  na Escola de Magistério. Viam-se pouco. Ele, assediado por quarenta e nove batas brancas, ela rejeitando os presentes que o filho do patrão, o Senhorito, como lhe chamava a senhora Conceição,  insistia  em  trazer-lhe  de  Lisboa,  nas  visitas  que  aumentaram  da  sua  parte  à herdade nesse ano.

Estiveram no verão, já professores os dois, com os pais dela, numa residencial em Setúbal, na Avenida LuísaTody. Da janela do quarto dele viam o Sado e o movimento dos barcos de pesca fronteirando com Tróia. 

Aí passaram horas com planos e beijos, pois à noite, Catarina 
voltava  ao  outro quarto onde  dormia  com  os  pais,  não fosse  o  diabo tecê-las, que  nessa altura o biltre, ao contrário dos dias de hoje, era adverso do prazer.

Foi a última vez que estiveram juntos. 

Fernando Mata  recebeu a guia de marcha para se apresentar no Centro de Recrutamento Militar  de  Leiria,  daí  para  Santa  Margarida  e  de  Santa  Margarida  para  Santarém,  último 
quartel antes de desembarcar em Moçambique.

- Tens que mudar de escola, Maria, não te quero aí sozinha.

Partiu como furriel e juras de se casar por procuração. Fotografia de um e do outro, nos dois lados do mar, frente a frente, só um coração de cada lado, ela com o pai como padrinho, ele 
com alguém de confiança que poderia vir a conhecer e em último caso, um oficial do seu batalhão  que  convidaria  se  necessário,  com  dois  notários  a  perguntarem  se  sim,  se  para toda a vida. 

Os  aerogramas  começaram  a  voar  entre  oceanos,  primeiro  muitos,  depois  menos,  até  se estabilizarem  num  por  mês,  às  vezes  dois,  até  passarem  a  um  de  dois  em  dois,  o  que 
significava  por  ano,  seis  para  lá,  seis  para  cá,  se  o  tempo  se  prolongasse  para  além  da estação das chuvas e do regresso definitivo. 

O furriel Batalha tinha para além de participar nas colunas militares mato dentro, que ensinar a  ler  os  companheiros,  muitos,  que  o  não  sabiam  fazer,  pois  trocaram  cedo  o  giz  pela enxada, pelo cajado, e estes pelas G3 que os acompanhavam a diário e com quem dormiam como  esposas.  

Maria  Catarina  mudou  para  nova  escola,  desta  vez  para  o  Gavião,  onde conheceu a Alierta, uma açoriana desinibida que a convenceu a concorrer para os Açores no ano seguinte. E  acabou por ir, TAP primeiro e SATA depois até às ilhas, onde se sentia 
útil  cuidando  meninos  ranhosos  e  com  a  cabeça  compartindo  os  piolhos  com  o  sonho,  o sonho de embarcar, acenando com lenço branco na proa de qualquer barco que os levasse dali. 

Enquanto  o  furriel  Batalha  pensava  diariamente  sobreviver,  Maria  Catarina  pensava  em viver. Foi assim, que pisou os telhados do vulcão dos Capelinhos, que se molhou nas águas 
quentes das praias de São Miguel, com os pés enterrados na areia preta que fazia com que os corpos em calções parecessem andar todos de peúgas, comeu o cozido à portuguesa feito  nos  buracos  das  furnas  com  o  calor  da  terra,  comeu  figos  no  Pico  das  figueiras rastejantes que saltavam os muros, bebeu vinho de cheiro, comeu ananás e polvo cozido, cavacos  e  lapas,  fotografaram  as  lagoas,  provou  a  aguardente  amarela  de  São  Jorge, respirou as hortênsias que dividiam as propriedades nas Flores, assistiu à captura solidária das últimas baleias, provou o gin tónico do Peter na Horta e até um dia, no Cais, embarcou num navio de carga, o  Ponta Delgada,  e visitou o Corvo, onde o barco ficava fora por falta de  porto  e  os  passageiros  desembarcavam  na  praia  a  remos  como  no  cinema.  Cem habitantes tinha a ilha e moravam na mesma rua em casas sem chaves nem fechaduras e onde existia apenas um veículo motorizado, concretamente um trator que puxava uma zorra e onde os aventureiros turistas pagavam trezentos escudos, para de pé e agarrados uns aos outros, subirem até à cratera do vulcão. 

O furriel Batalha, exatamente onze meses depois de ter sido engolido por África e quando lhe faltavam sete para terminar a comissão de serviço, pediu ao alferes Faial, com ordem de 
marcha  para  férias  merecidas,  que  mandasse  saudades  para  a  sua  terra  e  deu-lhe  a morada de Maria Catarina para que lhe entregasse em mão uma carta, com fotografias suas barbudas e de camuflado, ora encostado a um tanque, ora na asa de um avião parado com focinho de tigre pintado, ora com um pretinho ao colo com a mãe ao lado, de  boas carnes e mamas de fora, ora afagando uma macaquinha com correia ao pescoço, que acabou por 
trazer do Continente Africano e já na aldeia, anos mais tarde e já crescidita, foi levada para a quinta do Papafina, onde muitas vezes os meninos da escola iam  ver África, o nome que tinha a macaca e que era conhecida por todos. 

Tudo  lhe foi  devolvido  quando  o  alferes  Faial  regressou  dos  Açores  para  se  incorporar  à guerra.

- Temos que falar.

Sentaram-se  debaixo  de  um  embondeiro,  duas  grades  vazias  de  cerveja,  de  madeira húmida, como bancos, uma garrafa de VAT 69 a beber sem copo.

- Não a vi. Já lá não está. Não cheguei a dar-lhe nada. Toma. 

Tirou o envelope dobrado do bolso chapado das calças.

- E não sabes nada?

-  Sim pá, é melhor que bebas e esqueças  -  e estendeu a garrafa depois de lhe limpar o gargalo.

Maria Catarina tinha partido para os Estados Unidos, grávida de três meses, deixando os alunos sonhando com barcos, e
acompanhada pelo açoriano que conhecera na Horta e com 
quem combinou passar o resto da vida.

Fernando Mata nunca mais soube nada dela.

Começou a esquecê-la naquela primeira garrafa e apenas ficou com a profissão, da qual passou a viver quando foi desmobilizado e que o levara até a casa da Dona Antónia, para tomar chá com o farmacêutico e com o Padre Cabral.

In A Mulher do Sargento Espanhol
Filigrana Editora

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